Notas de viagem – continuação 

pipocaDiário de árvore: Foto de André Feitosa

 

Para compor o Diário de árvore é preciso escrever em clorofila, no rastro do poema.

No rastro do poema, ler em estado de árvore.

“É preciso vegetalizar o texto”​, diria Llansol.

Vegetalizar: nas palavras de Manoel de Barros, nas fotos de Lia Krucken e André Feitosa, na conversa de Vania Baeta com Maria Gabriela Llansol. Transmutar: em intensidade que atravessa a cena, em silêncio de “folha-luz”, conter uma letra.

“Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto às três horas da tarde, no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato sair na voz.
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.”

​(Manoel de Barros)

​”​Anos e luz a atravessaram. Esse risco, essa letra, essa carta: fidelis in minimo. Era uma vez uma árvore-luz, que transmutou: folha-luz, que transmutou: papiro, que transmutou. Desde a pedra sulcada, porque os papéis resvalando, são eles que contêm a letra, são eles que contêm as árvores sacrificadas, são eles que contêm as pulsões escritas, são eles que contêm os livros que atravessaram os tempos que permitiram aproximar os humanos.”
​ 

Maria Gabriela Llansol, À beira do rio da escrita, com Vania Baeta, Luz preferida: a pulsão da escrita em Maria Gabriela Llansol e Thérèse de Lisieux.

Leia, aqui, ​em vegetalização, ​o Diário de árvore ​por Lia Krucken.

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Notas de viagem

Diário de Árvore — Trabalho de Andre Feitosa e Lia Krucken

Crescer em direção à árvore. Talvez tenha sido esta uma das lições mais contundentes da textualidade Llansol, que tem na clorofila a primeira matéria do poema. E, como na clorofila não há metáforas, o Diário de Árvore de André Feitosa e Lia Krucken, enviado de Coimbra, onde André realiza um doutorado sobre ancestralidade e Lia desenvolve o projeto CoimbraBerlim, inspirado nas sobreimpressões de Llansol e à maneira de uma condensação de paisagens, como em Lisboaleipzig, é também “nota de viagem”. E, assim, é escrita em direção árvore, corpo, memória de paisagem.

“Descobri que se, em vez de me concentrar na sombra do corredor, me deitasse de costas a olhar a sombra rutilante, o meu olhar poderia realizar o caminho inverso da luz e pousar no ramo mais alto da árvore e aprender com esta a produzir clorofila — a primeira matéria do poema”.

(Onde vais, Drama-Poesia, p. 12).

Diário de Árvore — Trabalho de André Feitosa e Lia Krucken
a partir de ritual de sacudimento da árvore, por André Feitosa

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Sobreimpressões

Foto de Maria Inês de Almeida

Talvez não seja necessário evocar a figura de Holderlin, o de “nome de carvalho”, para pensarmos sobre o que evoca esta imagem, enviada por Maria Inês de Almeida, de sua varanda em Boa Vista:  “a vida não para nunca”.

Mas talvez seja preciso ir ainda mais longe no texto de Llansol, em sua dimensão do “vivo”, para entendermos que “um eu é pouco para o que está em causa” e que “é preferível ter um tronco e sustentá-lo a ter uma memória”.

Porque, afinal, parece ser como memória de um tronco, e não exatamente como memória de um eu, que as esculturas em madeira se constroem. Tanto quanto a escrita, que se extrai de um lápis, que se escreve sobre uma folha de papel — todos derivados da árvore –, essas esculturas se dão a ver pelo que se extrai de uma viga, de um toco, de um tronco.

Talvez seja isto “a vista vida pela vida”, como escreveu Clarice Lispector. Talvez seja este “o novo conceito de manejo florestal”, como escreve Maria Inês de Almeida, neste belo texto, em que a figura de Llansol e a figura dos ameríndios se aproximam, fazendo valer uma ética da paisagem, em sutil sobreimpressão: esculturas de madeira.

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Sobreimpressões

O redemoinho de outono, enviado por Maria José Vargas Boaventura, em momento tão sombrio no Brasil, anuncia, nas palavras da artista, que “os tempos apontam suas agulhas, seus gravetos para redemoer as omissões e ações”.

Lembremos, com ele, das palavras de Llansol, em carta a Eduardo Prado Coelho:

“O que mais me impressionou no caso de Timor foi o fato de não haver texto para onde (e por onde) pudesse caminhar toda a revolta emotiva que se ergueu.”

E tracemos, como tentativa de metamorfose e fulgor, esta sobreimpressão com o “redemoinho-poema”, figura ofertada a Holderlin, por Llansol, ao fazer com ele, para não fazer como ele, que um dia perdeu-se no outro perdido: 

“A água não tinha expressão: descrevê-la era um trabalho infindável que se perdia na floresta. Melhor seria dizer um redemoínho-poema.”

Continuemos, pois, a afirmar, no outono sombrio, o  silencioso e delicado trabalho de um redemoinho-poema, ainda que ele se sustente por um fio: o fio de água do texto.

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Sobreimpressões

Foto de Janaína de Paula

 

Em sobreimpressão do rio com o mar, chegam-nos estas imagens de Janaína de Paula, num cair de tarde em Santo André. Em sobreimpressão de paisagens, o mar, em silêncio, talvez nos ensine a  cultivar   a ausência:

O mar — confidencia–me — não tem esposa conhecida. Aprendo com ele a arte de cultivar a ausência.”

Assim recebemos a dádiva de um movimento incessante que instaura, num arco singular, a escrita e a leitura. E uma outra forma de corpo, em cor’p’screver:

“a primeira coisa que vê é a ideia de um Corpo existente em acto (…) e sabe que entregar-se à travessia é acompanhar-se a si própria                                        lentamente”

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Cadernos do exílio

Foto e trabalho de Lia Krucken, da série CoimbraBerlim

Em ressonância aos Cadernos do exílio, de Maria Gabriela Llansol, e em consonância com a CABRA — Casas Brasileiras de Refúgio, fundada no Brasil há um ano, com a assinatura do convênio entre a UFMG e o ICORN e a vinda, para o Brasil, do primeiro escritor exilado, abrimos hoje uma nova série em nosso fio de água do texto. Nela abrigaremos, em futuro autobiográfico, o movimento da  textualidade llansoliana (desde O livro das comunidades, em 1977) e outros movimentos de migração de textualidades, que testemunham, com Llansol, a “vocação do exílio” na escrita:

“Para mim, o exílio faz parte da escrita, e não quero perdê-los; dá-me o afastamento de pressões, a distância para poder ver sem entraves e imaginar…”

Assim, iniciamos a série com o convite para um evento, a realizar-se em futuro breve, no Rio de Janeiro. Ali se cruzam o exílio, as migrações, os laços culturais — a literatura, a psicanálise, a tradução, o cinema, o design,  as artes — numa experiência de sobreimpressões e encontros inesperados do diverso. Ali se encontrarão pessoas que vêm de lugares longínquos e gente do lugar, gente de outros mundos e os muitos mundos do mundo:

“Quem parte daqui? Quem regressa?” 

cartaz final migracoes com nomes

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Estético convívio

Foto de Lucia Castello Branco

Ainda em memória do mar, e celebrando o estético convívio, leia aqui a carta de Lucia Castello Branco a Cinara de Araújo e seus alunos, em evocação a Carta ao Legente, de Maria Gabriela Llansol, escrita há vinte anos, “para Lúcia Castelo-Branco e seus alunos” :  Cartaaomar.

Foto de Lucia Castello Branco

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