A luta cotidiana pelo fulgor: passar poesia

Foto de Lucia Castello Branco

Na última sexta, 23 de julho, iniciou o 53º Festival de Inverno da UFMG. E, através dessa noite, passou a poesia, sob os nomes e as letras de Maria Gabriela Llansol, Lucia Castello Branco e Arnaldo Antunes – quem, a convite de Lucia, escreveu a orelha da edição brasileira de Um falcão punho, lançado pela editora Autêntica, em 2011. A alegria, tão jovem e tão antiga, é o vestígio desse encontro ante o passado, ante o futuro, ante o mundo, e suas paisagens.

Há três coisas a serem ditas.

A primeira: ouça, como acompanhamento deste texto, Itapuana, de Arnaldo Antunes:

A segunda: foram as vogais, o início da aprendizagem das letras, os cinco passos desse trajeto. Foi a poesia, o trajeto da passagem, a palavra em ponto de coisa.

Coisa solta, coisa aberta, coisa que grita no interior das mãos. Caligrafia de um nome quase perdido. Coisa que cada mão, de ter recebido, reinventa. São pequenas sementes, algo antigas, que a memória encontra, o gesto colhe, a noite abraça.

O mar alenta. E a vida, a restante, reza:

A minha obra será uma obra de esperança, uma luz sobre o destino humano no
percurso de fazer o homem. Inscrever-me-ei na linhagem de Ptolomeu, de
Spinoza, de Comuns, de Dante. Será um canto realista e sublime, grave e alegre,
enraizado e aéreo;

O meu trabalho será a face prática e científica dessa esperança; o homem é; o
homem há-de-ser.
Mas antes preciso de cumprir um rito.
(…)
Quando estiverem de pés nus, dir-lhes ei:
(…)
Figuras do meu destino, figuras do seu destino, sede compacientes conosco.
Dai-nos a ver, ao fim da nossa viagem, o rosto claro e radioso da alegria
” (Maria Gabriela Llansol, Contos do mal errante).

Foto de Carlos Batista

A terceira coisa: há mar.

Foto de Alone Gomes

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A luta cotidiana pelo fulgor: o texto ardente

tarkovski, sacrifício e fogo – foto de C.Rafael Pinto

22h de sexta, 16 de julho de 2021. Festa do Monte Carmelo, montanha de profetas e de eremitas, de brisas suaves, do carro ígneo. E um pequeno grupo, tendo recebido o convite para a partilha de algumas palavras de fogo, se reuniu para aquiescer, para acender a chama que aquecesse esse pequeno eremitério de letras.

A chama no interior do anel, o texto ardente que inflama, de paixão sem sacrifício, os ardorosos. A matéria que os constitui.

Como aquela de que nos fala Maria Gabriela Llansol, no texto com que a noite de fogo brando e vontade ardente se iniciou:

Pensassem o que pensassem, fosse qual fosse o mal-estar ou a fé que tivessem, o que era velar um corpo,

manipular um caderno,

limpar o pó de uma caixa de costura,

guardar preciosamente um lápis,

fosse o que fosse,

algo seria que as coisas,

aquelas coisas,

eram as únicas a conhecer

eram matéria

(Ardente Texto Joshua, p.134)

Nessa vibração, o pequeno grupo, durante duas horas, dedicou-se a um pensamento de fogo, que fizesse alargar as labaredas de uma afirmação simples: “se minha casa pegasse fogo, eu salvaria o fogo” (Leloup); ou, ainda mais, pois acender o texto ardente com a matéria da leitura é aguardar o seu enigma que vem, uma sorte de coisa, um aquilo, com a disposição de um coração sincero: “aquilo que vinha era o coração móvel de uma imensa sutileza” (Chardin).

E a luta cotidiana pelo fulgor, o alcance sutil dessa esperança.

a imagem o aberto – foto de C.Rafael Pinto

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A luta cotidiana pelo fulgor: sutilezas

A primeira matéria do poema – foto de Fernanda Leal

_________ Estou a vê-los de perfil, estão a beijar-se_________

Como actuam os beijos?

São artistas, pintores, simplesmente pobres e intensos, actores, clínicos, ensinadores ou roturas profundas?

São cantores. Já os ouvi cantar incomparavelmente. Cada um canta sozinho, esquecido do mútuo vagamundo que lhes percorre os corpos.

Receba, aqui, na voz de Cristina Fernandes, como Um beijo dado mais tarde, a partícula 36 de Os cantores de leitura:

Ela voltou – foto de Fernanda Leal

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A luta cotidiana pelo fulgor: comemorações

A pausa, hoje, na leitura de Os Cantores de Leitura, é para celebrar também o aniversário da Carta ao Legente, que abriu há dez anos este blog, mas que foi enviada a “Lucia Castello Branco e seus alunos”, por Maria Gabriela Llansol, em 4 de julho de 1998. Passados 23 anos do envio dessa carta, continuam sendo os alunos das universidades públicas brasileiras que recebem esse texto e que o espalham pelo Brasil e pelo mundo.

Neste mês de julho, a textualidade segue seu curso com a publicação do livro Acurar-se da escrita, de Erick Gontijo (Cas’a Edições), tese de doutorado sobre Maria Gabriela Llansol, defendida no Programa de Pós-graduação em Letras da UFMG. E, no próximo mês, com o curso de Jonas Samudio, n’A Casa Tombada, que nasce também de sua tese de doutorado sobre Maria Gabriela Llansol, defendida no mesmo Programa de Pós-graduação em Letras da UFMG.

E aqui, no dia de hoje, com este vídeo dos alunos do curso “Coisa literária, coisa de louco”, do Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da UFBA,  a partir das intervenções psicopoéticas de alguns convidados especiais sobre outros escritores e artistas especiais. Desse curso, a textualidade llansoliana não foi o objeto de estudo, mas o próprio método, que nos permitiu pensar nas articulações entre literatura e loucura como um encontro já antigo entre os poetas e os vagabundos:

            E eu pergunto-vos: Haverá alguém que, por sua livre vontade, queira ser vagabundo? Por que se lhes exige o preço – e um preço tão elevado –, pela sua errância? Por que são tão implacáveis com o novo? Por que são tão opacos com o trabalho do poeta? Por que querem submeter a visão à razão?

            Imensa é a generosidade dos poetas. São eles os únicos humanos que veem que a formação da comunidade dos homens passa por processos cíclicos que é necessário abrir e fechar cuidadosamente. Usam uma métrica e um tom elevado por respeito pela dor dos vagabundos.  Combatem com o invisível por misericórdia para com o destino dos homens e da paisagem.

                                                                       (Llansol, Onde vais, Drama-Poesia?)

Escute, aqui, os cantos de leitura dos legentes da UFBA, costurados pelo canto do Menino Literatura Pablo Costa e editados pelo Rapaz Raro Bruno Leal:

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A luta cotidiana pelo fulgor: sutilezas

Variações da luz – foto de Lucia Castello Branco

Qual o poder do corpo de afetos?

Essa pergunta, aqui, nesta partícula a que chegamos neste momento em que celebramos dez anos de nosso fio de água do texto, aponta-nos uma direção:

quando vislumbramos o textuador desta Casa,  e do nosso corpo, a luz salta sempre noutro lugar, na borda das camas, nas mesas onde trabalhamos,

nas toalhas,

mesmo sob a porta, entre o chão e a descida para o jardim. É uma verdade que nos serena,     sabermos que somos variações da luz.

Siga, aqui, O caminho do sol, na leitura da Partícula 35, por Cristina Fernandes:

À contraluz – foto de Lucia Castello Branco

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A lua cotidiana pelo fulgor: sutilezas

Olhando para o poente – foto de Sônia Magalhães

Ainda na celebração dos dez anos de existência e resistência de nosso fio de água do texto, trazemos novamente a Carta ao legente, escrita por Maria Gabriela Llansol, em 4 de julho de 1998, para Lucia Castello Branco e seus alunos.

Neste semestre em que finalizamos em festa mais um curso no Programa de pós-graduação em Literatura e Cultura da UFBA, os alunos da disciplina “Coisa literária, coisa de louco”, em sutil e delicada homenagem, e com a dignidade de cantores de leitura, fizeram a leitura da carta em diferentes vozes, tons, sotaques e ritmos.

Como sabemos, um dos outros ofícios preciosos de Maria Gabriela Llansol, além da escrita, foi a direção de uma escola comunitária na Bélgica, a Escola da Rua de Namur, também conhecida como L’École La Maison. Aqui trazemos algumas das diretrizes dessa escola, que vemos hoje, e cada vez mais, expandidas em ramos que chegaram, em 1992, à Universidade Federal de Minas Gerais, e em 2018, à Universidade Federal da Bahia.

            Eis o que me parecem ser as características de uma nova libertação e disciplina:

            — o saber e a experiência não são árvores a abater, mas antes fios que há que seguir;

            — a verdade não se pode dizer, apenas sentir;

            — de nada serve convencer: os ritmos existem precisamente para se fazerem respeitar;

            — aproximação psíquica em profundidade, com uma distância física prolongada;

            — não acreditar no grande grupo, nas directivas do chefe, mas fazer brotar a acção do encontro nos e entre os pequenos grupos, ou as simples pessoas;

            — não conceber o grupo como uma sinfonia, mas sim como batidas, percussões, pausas e frenesi;

            — a crítica não serve para nada, colocam-se questões e fazem-se propostas, entra-se e sai-se;

            — aceitar e reconhecer os espaços de solidão, acumuladores de energia e lugares de afastamento, capazes de permitir a reflexão, o sonho e a ponderação (ganhar peso);

            –submeter-se com exactidão aos mecanismos de funcionamento, necessariamente essenciais, reduzidos ao mínimo estrito e discutíveis até ao infinito. A falta destes mecanismos provoca a demagogia, o desencorajamento e a agressividade;

            — possuir uma sensibilidade própria, uma atenção sustentada e subtil às coisas e ao mundo que nos rodeia (somos nós o meio ambiente), caminhar no sentido da serenidade, crescer em conhecimento, em bondade e em força;

            — o poder já não existe; os poderes correm por toda a parte e sobre todas as coisas: é preciso aprender os seus jogos e servir-se deles.

            (Maria Gabriela Llansol, em “Se formos ao fundo das coisas…” [1975?])

            Eis, aqui, a Carta ao legente, na voz de cantores de leitura do ano de 2021:

Olhando para a crescente – foto de Lucia Castello Branco

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A luta cotidiana pelo fulgor: sutilezas

Na estrada do mar – Foto de Nilza Queiroz

Põe o sol nas mãos – é dito a cada um, sem faltar nem minguar luz para cada um de nós, tal a incomparável doçura do que nos é dito com maior amplidão que a doçura de qualquer amante com que partimos à descoberta do corpo somente.

Na estrada do mar que se aclimata aos pés da serra, há uma correnteza de lilases semelhante a uma correnteza de figuras. Muitas dessas plantas arbustivas velhas, com flores tão odoríferas, abriam por inteiro seus restos numa lilial escala de boa arquitetura.

Escute aqui, na voz de Cristina Fernandes, a partícula 34, seu contexto e seu duplo de Os cantores de leitura:

Correnteza de lilases – Foto de Nilza Queiroz

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Fio de água do texto: 10 anos

Grãos – Foto de Natália Goulart

Nota de fulgor

Dez anos se passaram desde a abertura, no Brasil, de um blog com postagens semanais dedicadas a leituras ou inspirações que partem do texto de Maria Gabriela Llansol. Antes circunscrito aos legentes de Belo Horizonte, onde então se concentrava a maior parte dos trabalhos sobre a obra de Llansol, as postagens semanais agora atingem legentes de todo o país, que já aguardam, aos domingos, pelo grão de poesia que ali se dá a ler, como oferenda.

É com alegria redobrada que anunciamos que a partir de agosto de 2021 esse grão passa a germinar na Bahia, em Minas Gerais, e no Rio Grande do Sul, a partir de uma leitura síncrona de Maria Gabriela Llansol em três universidades públicas brasileiras – UFBA, UFMG e UFRGS – com o curso “Práticas da letra: Llansol e a psicanálise literária”. Mas os alunos, regulares e clandestinos, já chegam de diversas partes do Brasil, como que a corresponder ao desejo expresso por Llansol em 1998, na Carta ao legente, primeira postagem de nosso fio de água do texto:

                                    “Começais a vir, dando-me companhia, que eu por nada trocaria”.

Serra do Salitre – Foto de Natália Goulart

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A luta cotidiana pelo fulgor: sutilezas

A lua de Sabrina – foto de Sabrina Ximenes

Aqui é de onde devemos partir, mas é onde realmente estamos sempre a chegar. Estamos envoltos pela cor de cal da luz branca que se nos revelou na convergência de seus raios luminosos.

Faltava o nome Angelikos. Mas esta tarde ele entrou diretamente aqui, levando a penumbra da porta e encaminhando-se, decidido, para o lugar em que quis ficar. Repercutiam, no ar, os semitons e as diferenças detectáveis de cor.

Escute, aqui, a Partícula 33 de Os cantores de leitura, na voz de Cristina Fernandes:

O mar de Bruno – foto de Bruno Leal

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A luta cotidiana pelo fulgor: sutilezas

O mar alado com o sol – Foto de Luiz Fernando Campos Magalhães

Quando entramos na Casa da Saudação,  a porta estava aberta. Vimos o quanto era pequena, sem divisórias, chão de tijolos. Havia uma luz trepadeira no seu interior que me fazia lembrar que por fora um maciço de plantas a cobria. E mesmo com as portadas semi-cerradas, a luz que vemos oscila confrontada com o sol de verão que não deixa entrar.

Tal uma jovem embalando o berço de seu filho, o Grande Textuador do Fulgor Desconhecido embala o sol. “Nunca vos escondi nada sobre estas realidades”.  “Quais realidades?”—pensávamos. “As vossas”—ele dizia – “Estou com um pé embalando um berço de madeira onde esta luz criança cresce”. Que nome lhe havemos de dar para o alegrar?

Escute, aqui, a partícula 32 de Os cantores de leitura, na voz de Cristina Fernandes:

Um maciço de plantas – Foto de Lucia Castello Branco

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