A luta cotidiana pelo fulgor

fulgor 1 – foto de Maraíza Labanca

 

A luta cotidiana pelo fulgor se dá, também, pelos endereçamentos.

Como neste, de Maraíza Labanca: uma carta a uma amiga, o lá do sim, o décimo dia.

 

Décimo dia

 

O lá do sim  (Carta a uma amiga)

para Alice Bedê

 

O , aonde não chegava a alegria, como antigamente a certas casas não chegava a linha, a telefônica, ou a TV; , onde o longe parece ser se deitado, como uma montanha sobre uma planície, irremovível e inexorável; , veja, escute, lembre: ainda há os vulcões, ainda há, na sua língua, a borbulhar por baixo, no ventre, o sim vulcânico de um começo.

 

Lembra como o Juliano nos ensinou a emprestar a ferida pro outro? Eu, agora, empresto-lhe a minha alegria, que – segure-a nas suas mãos, não a largue sobre a mesa – não deixa de, com isso, ser minha.

 

Sim, o mundo parece se distanciar violenta e apressadamente agora, mas a língua nos coloca de novo nele, dentro dele; e a língua do amor (-fulgor), e a língua do poema nos coloca em lugar ainda melhor: nas bordas dele, para que não sejamos panacas. E veja, escute, minha amiga, esse lugar é a sua superfície; é o alto do monte, sem deixar de ser o mais baixo, o mais reles, para que não nos esqueçamos de sujar os pés de terra – pois de terra é a nossa língua também.

 

Daremos o nome de delicadeza: é como a forma da compaixão: o pé tem asas, toca ao de leve. Sim, nós somos nossos próprios demônios, mas também a fonte da ternura, de todas as voluptuosidades da terra: o milagre está dado. É preciso colhê-lo, ainda que ele murche: por que razão durar é melhor do que arder?

 

Faço discretamente coisas loucas; sou a única testemunha da minha loucura. E se o sim, como um triz, é a palavra mais feminina que há, recomecemos pelo pequeno ponto, na ponta do nariz, inexprimível. E cantemos em vez de pedir, e cantemos a prece do perdido ardente. Porque, olhe, era só uma nota musical, querida, ao fim: o .

 

… em fevereiro de 2019, por Maraíza Labanca.

 

fulgor 3 – foto de Maraíza Labanca.

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A luta cotidiana pelo fulgor

em viagem – Foto de Jonas Samudio

 

Dando continuidade à luta diária pelo fulgor, passamos agora ao Nono Dia em texto de Jonas Samudio.

 

Nono Dia

 

Eles dizem a respeito delas. Eles dizem o que não e o como.
Eles ficam aturdidos. Eles não sabem. Eles param.

Elas seguem. Elas escrevem.

Ela escreveu e traduzo, letra a letra:

“Não aborrecestes, Senhor de minha alma, quando andastes no mundo, as mulheres; antes,  sempre favorecestes com muita piedade e encontrastes muito amor e mais fé nelas do que nos homens […] Não basta, Senhor, que o mundo nos encurrale… que não possamos fazer nada por vós em público e que ousemos falar algumas verdades que choramos em segredo […]; não o creio, Senhor de bondade e justiça, pois sois juiz justo e não como os juízes do mundo, para os quais –  como filhos de Adão e, enfim, todos homens – não há virtude de mulher que não tenham por suspeita” (1)

Um outro ele escreveu e leio, deslizando as pupilas sobre o papel:

“Quando viajo, levo um livro sempre comigo, que folheio a cada noite, buscando o sono. O livro é uma cama idiomática sobre a qual dormir. Jabés e Semprún diziam que a linguagem era sua única pátria. Eu também me sinto um estrangeiro com um pequeno livro debaixo do braço. […] Foi assim que, na minha viagem, a obra de Virgínia Woolf tornou-se meu quarto de papel. […] Leio o diário que Virgínia Woolf escreveu enquanto redigia Orlando. Compreender como ela fazia a construção narrativa de Orlando me ajuda a pensar na fabricação de Paul. O que acontece na narrativa de uma vida quando é possível modificar o sexo da personagem principal? Virgínia qualifica o efeito que essa escrita produz de extas. Não escondo que às vezes sinto uma emoção parecida. Virgínia ousa chamar seu Orlando de biografia. Uma biografia inumana e pré-pessoal, fragmentada no espaço e no tempo: uma viagem” (2)

Ela escreveu e eu copio:

“da transparência: virar texto alado da frase que reescreve,
os genitais em outras palavras transformados,
transformam-se
o sexo e a abertura
na escrita,
e o quid da coisa suspira, entrevemos por seus dentes
[…]
e eufêmea pensa, passando a unha docemente sobre a chaga,
deixa-me sentir o cheiro do teu dom, suplica, pensando no corpo no cheiro no interstício do movimento,
na escrita se faz o sexo que na carne desaparece,
dá-me carne no corpo do sexo,
pergunta desfigurando a fonte frontal do homem, e mais,
quando tudo entra, apraz-me ver a pele que não entrou” (3)

Ela escreveu e eu recebo:

“Continuo a ler que lê, numa música acelerada – cascata rápida de intuições e fulgores. Saí para o meu pátio, noutro lugar diferente deste a pujança acumula-se e borda novo texto de que tenho absoluta necessidade. Quero partilhá-lo lê-lo. Começais a vir, dando-me companhia que eu por nada trocaria.
É o cume do jardim que o pensamento permite, conforme escrevi um dia.
Talvez ainda haja outro livro a surgir por detrás da toalha com que limpo o rosto esta manhã. Esqueci-me certamente de algum por ele só encetar, neste momento, o caminho do desconhecido.
Um dos legentes disse:
– Conhecemos profundamente o descanso do texto.
Estou mais próxima da morte, e        sei que vou partir.
Finalmente, eu passei apenas pela escrita. Palavra feminina como eu.
Estou a acrescentar-lhe um ramo enquanto cresce a árvore florida ______” (4)

… em 08 de março de 2019, por Jonas Samudio.

 

(1) Santa Teresa d’Ávila. Caminho de perfeição, 3,7. Tradução nossa (parágrafo redigido na primeira versão do texto, retirado da versão definitiva,  por ordem de um padre censor).
(2) Paul Beatriz Preciado. Transfeminismo. São Paulo: n-1 edições, 2018, p.23-25.
(3) Jonas Samudio. A mais aberta. Belo Horizonte: Cas’a edições, 2017. s/p.
(4) Maria Gabriela Llansol. Carta ao legente. Belo Horizonte: Breve Colóquio Intenso da Psicanálise com o texto de Maria Gabriela Llansol, 2011a (Edição Limitada), p.6-7. Os itálicos correspondem aos trechos manuscritos, no original.

fotograma de Proposição 24, filme de Lucia Castello Branco e Gabriel Sanna.

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A luta cotidiana pelo fulgor

Córrego do Feijão – Foto de Canção Nova.

 

Dando continuidade à luta diária pelo fulgor, passamos agora ao Oitavo Dia em texto de João Rocha.

 

Oitavo Dia

 

“Nenhuma lama se transformara em pássaro”

 

Essa frase ecoa e erra solitária pelo silêncio da cidade soterrada.

 

“Nenhuma lama se transformara em pássaro”

 

Hoje, faz 37 dias que a barragem B1, da mina Córrego do Feijão, da Mineradora Vale, se rompeu e matou 186 pessoas, e ainda 122 continuam desaparecidas.

 

“Nenhuma lama se transformara em pássaro”

 

Centenas de pessoas, bichos, plantas, pequenos riachos e o rio Paraopeba estão sem ar, imóveis, inertes sob o lixo que mantém o mundo em funcionamento: o resto imundo do minério.

 

“Nenhuma lama se transformara em pássaro”

 

Nem mesmo a beleza – essa construção humana para que suportemos o horror do Real – encontra lugar naquele espaço em que antes se encontrava um vale, uma floresta, uma pequena comunidade de produtores rurais, uma pousada para os viajantes desejantes de um pouco de ar fresco e de um pouco de paz… Agora, aquela paisagem, com seus diversos tons de verde, tornou-se o depósito da nossa vergonha.

 

“Nenhuma lama se transformara em pássaro”

 

O que se vê, até onde a vista alcança, é a devastação.

 

“Nenhuma lama se transformara em pássaro”

 

Porém, os poetas ainda nos lembram que:

  1. Um lírio pode nascer de um monturo. (Manoel de Barros)
  2. Uma flor pode não só furar o asfalto, mas o tédio, o horror e o ódio. (Carlos Drummond de Andrade)
  3. Os dias esquecidos inventam a memória. (Herberto Helder)
  4. Até Deus pode ser destruído pelo extremo exercício da beleza. (Herberto Helder)
  5. É preciso um texto para suportar a revolta emotiva de uma tragédia. (Maria Gabriela Llansol)

 

“Nenhuma lama se transformara em pássaro”

 

Devemos lutar pelo fulgor da memória. O Córrego do Feijão e os corpos que lá jazem serão o testemunho do mundo que corrompemos. Daqui a uma centena de anos, esses corpos, como aqueles soterrados em Pompeia, pelas cinzas do Vesúvio, surgirão, como um levante silencioso, a cobrar, ao que ainda restará do humano, as memórias desse crime.

 

“Nenhuma lama se transformara em pássaro”

 

O que do corpo resta é o seu fulgor, aquilo que os gregos chamaram de alma, que Maria Gabriela Llansol chamou de liberdade dos afetos no jogo sem fim que nos coloca face ao outro, e que eu aproximo à memória, trazendo essas palavras de Didier Vincent:

“a alma é o órgão mais resistente do animal humano, resistente ao excesso de ódio e ao excesso de amor. E se ela não é imortal, ao menos sobrevive algum tempo na memória dos outros”.

 

“Nenhuma lama se transformara em pássaro”

 

É preciso, cotidianamente, lutar pelo fulgor desses corpos que comporão para sempre aquela paisagem aniquilada pela lama tóxica da Vale. Nenhuma lama se transforma em pássaro para preservar a memória das histórias de amor e de ódio soterradas pela lama; dos futuros que ali se extinguiram; dos sorrisos e das lágrimas petrificados; dos gestos, dos toques, das juras de amor que nunca mais poderão ser oferecidos a ninguém.

 

“Nenhuma lama se transformara em pássaro”

 

Hoje faz 4015 dias que Maria Gabriela Llansol se transformou em coisa que voa e partiu. Pelo fulgor do seu corpo – sua memória que ainda pousa onde encontra abrigo – dedico a ela este texto e minha luta cotidiana pelo fulgor.

 

… em 03 de março de 2019, por João Rocha.

 

 

Maria Gabriela Llansol – Foto disponível em: http://www.fronterad.com/index.php?q=taxonomy/term/57&page=2&gt. Acesso em 03 mar. 2019.

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A luta cotidiana pelo fulgor

as cortinas e a parede – foto de C.Rafael Pinto.

 

Dando continuidade à luta diária pelo fulgor, passamos agora ao Sétimo Dia em texto de C.Rafael.

 

Sétimo Dia

 

Passam-se as horas: o que escrever? Muitas ideias me invadem. Sobre o papel, escrevo algumas palavras, versos soltos e óbvios. Elas se desvanecem, enquanto a vizinha fuma devotamente seu cigarro. Muitas pessoas atravessam as ruas: algumas entram nos ônibus, nos carros, outras seguem a pé. Permanece, agora, aberta, apenas uma drogaria e nada mais faz companhia ao silêncio da rua.

 

Desperto, não sei as horas; tudo continua escuro e em silêncio. Entre a borda da cortina e a parede, meus olhos mergulham no mar. Infinitas constelações, as Três Marias. E, na memória, acordam outras: a infância no interior de Minas, as procissões do Encontro e do Senhor Morto, a festa de São Pedro e São Paulo, a neblina. Uma cortina de água que cobria quase tudo.

 

Dentre todas as estrelas, me seduz uma pequenina e fulgurante. Arrebatado, nunca vi nada igual. Sua beleza transfigura os olhos, transmove o coração ao infinito, infinito em mim. Por que essa estrela me excita? O que faz um estilo ser diferente de outros? Agora, ainda são versos soltos e óbvios? Passaram algumas horas, não sei bem quantas, entre a estrela e a alvorada. Encontro breve e intenso.

 

Em silêncio e sem pressa, faltam-me palavras.

 

Fachos de luz atravessam o vão entre a cortina e a parede: o crepúsculo da manhã, diz o dicionário. Continuo a lembrança da noite dessa estrela pequenina e formosa, tão fulgurante quanto a “Cantata matinal” de Cecília Meireles:

 

Veio a luz da alvorada
e brilhou nas palmeiras
que eram pura esmeralda.
 

[…]
vede a terra assaltada
e o sol, que desabrocha!

… 24 de fevereiro de 2019, por C.Rafael Pinto.

 

rua – foto de C.Rafael Pinto.

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A luta cotidiana pelo fulgor

Foto de Janaína de Paula

 

Dando continuidade à luta diária pelo fulgor, passamos agora ao Sexto Dia em texto de Janaína de Paula.

 

Sexto dia

 

“Porque toda manhã creio que atravessei a abóboda da solidão humana.”

 

Poderia escrever um caderno sem páginas e sem palavra nenhuma. E fazer da noite, ela toda, um segredo que se envia, reenvia, de uma mão à outra, e deixar para trás o barulho dos passos indistintos.

 

Poderia subtrair ao tempo o nome em que te chamam para fazer silêncio na letra que dança, insistente, nos meus ouvidos. E atravessar a espera pelo olhar que anuncia a chegada, naquela hora da manhã em que tudo solicita o cuidado das mãos.

 

Poderia cortar da casa a luz que atravessa o silêncio de todas as horas vazias. E deixar correr o ar, como se deixa escorrer as águas.

 

Poderia subtrair da palavra seu traço duro e não desejar perdão nenhum pelo falso entendimento. Coisa a coisa. E compor com a casa que acolhe, sem medo, a morte do cão. Girar, girar, girar, como se fez no sonho, até que o corpo seja lançado para fora do eixo. Corpo-água, vivo, em expansão.

 

Poderia deixar queimar o papel, sua gramática, a equação do universo, o lado escuro da alma. Para que não reste qualquer coisa a mais da soma desses dias: seus estilhaços ficcionais.

 

Poderia desfiar a sobreposição amorosa das nuances, dos contrários, das oscilações. Para deixar agir o tempo e perder o perdido, perder o perdido, perder.

 

Poderia deixar cair o amor como quem deixa cair o outono esquecido na folha. E desaguar numa língua que reclamasse para si a potência das coisas. Seu jardim.

 

Mas confesso: sou como uma harpa eólica tocada pelo vento que produz sons que não tocam nenhuma melodia. Sou uma harpa eólica e hoje todos os ventos tocam em mim.

 

… em 17 de fevereiro de 2019, por Janaína de Paula.

 

Foto de Janaína de Paula

 

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A luta cotidiana pelo fulgor

Foto de Lia Krucken

 

Dando continuidade à luta diária pelo fulgor, passamos agora ao Quinto Dia em texto de Lia Krucken.

 

Quinto dia

 

A viagem começaria um pouco antes. Era início de ano, estava longe. E havia a tristeza pelas notícias que chegavam sobre seu país. Havia a dor dos acontecimentos das últimas semanas, o horror das perdas e do descaso daqueles que deveriam governar. E uma desolação por todo o passado ruim que voltava qual fantasma, rasgando a paisagem com suas garras.

 

Um pouco mais tímida, mas alegre como deve ser, havia a alegria da chegada. Era uma bondade voltar bem naquele dia para aquele lugar. Mas até a chegada chegar, a viagem seria turbulenta.

 

Assim, no silêncio dos dias frios e pálidos do inverno, pensava que logo seria sol. Entre mundos e reais, compunha uma espera, tentando antecipar o que não era possível. Poderia preparar-se para o movimento, para o encontro, para tanta luz. Sabia que seria muito, porque aquela terra sempre fora um lugar de intensidades. Pensava, enquanto dobrava o vestido, que a viagem não era só deslocamento. 

 

De repente, estava ali, totalmente atravessada pela paisagem. No sol sobre sol, sentia calor por todos os lados. Sim, havia vento também. E a mala que não chegara. O vestido tardava a encontrar o corpo. Este, em movimento de troca verdadeira, encontrava outros corpos e as pequenas aberturas do lugar, que iam se somando e, ao longo do dia, alargavam o horizonte em direção ao azul. 

 

Naquela tarde em Salvador, o vestido que não chegara era branco e os sons da praia anunciavam o evento. Seguiria o chamado e iria, descendo a ladeira em direção às baianas a benzer com arruda, amaci e alecrim. Veria os barqueiros a preparar as barcas de flores. Receberia um banho inesperado de lavanda e, invocando os poderes da erva, tentaria se acalmar: não seria possível entender tudo.

 

Assim, haveria de concentrar-se na brisa do mar, no cheiro do dendê, e, com os pés na água, iria compondo uma música com aquele lugar. Era dia de Yemanjá e a festa para a deusa do mar anunciava o desejo mútuo de um destino poético. Sol sobre sol, sentia o fulgor de voltar para casa.

 

“e repara que, sobre a página, as palavras estão a andar, acumulam-se como num baralho, sobrepõem-se, deslizam, e tomam banho num mar que ali apareceu

foi muito brusca essa aparição

e que, junto das rochas, embate furioso contra a falésia. A mulher corre perigo. Senta-se no dicionário, que é um banco sólido de papel e, de mim para ela, escorrem duas cenas. Ora a cena do plátano, a que chamo Grande Maior, ora as palavras que se aproximam de mim em fuga, rodando num turbilhão que sucumbe quando pouso a mão sobre o texto.

Este livro é leve e jubiloso, embora tente abrir caminho através de uma conjectura grave. (…) 

A mulher, para se salvar do perigo iminente que corre, diz “O meu dicionário de hoje”, e, se dissesse o meu destino de hoje, teria dito exatamente o mesmo. É uma expressão paralela que me ocorre e peço ao Grande Maior que me deixe subir até ao alto da sua copa, tentar compreender a linguagem das suas folhas. Há palavras afins com determinadas regiões do corpo, há vidas intimamente unidas e para sempre paralelas porque o dicionário lhes distribuiu exatamente as mesmas palavras. (…)” (LLANSOL, Parasceve, 2001, p.9-10).

 

… em 10 de fevereiro de 2019, por Lia Krucken.

 

Foto de Lia Krucken

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A luta cotidiana pelo fulgor

Pequena forma vivente – Foto de Tatiane Costa

 

Dando continuidade à luta diária pelo fulgor, passamos agora ao Quarto Dia em texto de Tatiane Costa.

 

Quarto dia

 

Olho para a paisagem de verão que se abre. Nela, vejo uma flor só. Percebo que essa delicada vida vegetal encontra um lugar difícil para nascer. Ela não é acolhida pela terra ampla e macia e tampouco recebe o frescor da sombra de uma árvore. É a fenda de um muro que a abriga, lugar onde ela enraíza seu movimento de vida. Há uma luta cotidiana para que essa forma vivente resista. Essa cena fulgor que atravessa meu dia me faz pensar que, em nossas mãos, há uma batalha diária para que “a força do livre arbítrio, do pensamento livre e da consciência” também resistam e existam. “Criámos, assim, um espaço para a evolução do possível e, sobretudo, para a emergência do imprevisível. Esse é o ponto de encontro desejado da consciência livre com o dom poético”. (LLANSOL. Lisboaleipzig 1 O encontro inesperado do diverso, p. 99).

  

Prosseguindo por essa linha que o fulgor orienta, em Lisboaleipzig 1 O encontro inesperado do diverso, reencontro um texto que incide sobre meu corpo. Nele, Llansol conta sobre sua peregrinação a Münster e o incômodo que sente ao se deparar com as gaiolas dependuradas nas torres da igreja de São Lamberto, lugares onde havia sido exposto, depois de o seu coração ter sido trespassado por uma lâmina aquecida ao rubro, o corpo de Jan van Leyden. Mas ninguém sabia o que essas gaiolas ainda faziam lá. E ela diz: “Talvez tivessem batido a má porta. Mas digo-vos que bati, na esperança de que talvez se abrisse a memória do ponto de partida. Porque o problema inicial, quinhentos anos depois, está ainda por se resolver” (LLANSOL. Nós estamos de volta. In: ______. Lisboaleipzig 1 O encontro inesperado do diverso, p. 97).

 

Do outro lado do oceano, mais de quinhentos anos depois do nascimento de um país, ao pensar nas pessoas, nos animais e nas casas engolidos pela lama e também nos sonhos e nas vozes silenciadas pelo lamaçal da ganância e do poder, pergunto-me: Para onde é que o fulgor se foi?

 

Abro a minha memória do ponto de partida: daqueles que partiram tão dificilmente. Procuro por uma geografia dos rebeldes em que possa me apoiar. Encontro A restante vida abrindo espaço aos dias de batalha. Lembro-me, então, da pequena flor que cresce no muro. E como um ensinamento para os dias de luta por vir, ressoam estas palavras: “Aprendi a ver em cada corpo uma espessura própria” (LLANSOL. A restante vida, p. 64).

 

Antes que este dia termine, eis o que desejo: que o singular da história de cada um não se apague e que nossos corpos, tocados pela força do fulgor, continuem na tarefa essencial de abrir espaços por onde a vida possa circular.

 

                                                           … em 01 de fevereiro de 2019, por Tatiane Costa.

 

As páginas que nos dão suporte – Foto de Tatiane Costa

 

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