Notas de leitura

foto blog paula

Maria Gabriela Llansol sobreimpressa nas páginas do Grande Sertão Veredas. Tal encontro se dá pelas mãos de Paula Stroezemberg ao inscrever estas frases, de Llansol, sob as letras de Rosa: “que nome dar a uma travessia, ao mesmo tempo, revelação? Decisão, creio”. Nossas mãos com as deles (Rosa, Llansol e Paula) ainda anotam: “quando nos perguntarem o que levamos, responderemos que transportamos a passagem” (Llansol. “Os cantores de leitura”, p. 42). Em meio à travessia, à decisão e à passagem, continuamos.

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Notas de leitura

Notas de leitura de Maria Antunes — Foto de Lucia Castello Branco

“Como refiro algures, O livro das comunidades nasceu ‘da tentativa inabalável de reconduzir à fala e à convivência de grupo uma criança espanhola aparentemente autista que fora levada à escola onde eu ensinava’.”

Este fragmento de Maria Gabriela Llansol, introduzindo os “Apontamentos sobre a Escola da Rua de Namur”, texto que se integrou à segunda edição de  O livro das comunidades (Lisboa: Relógio D’Água, 1999), conduzem-nos aqui, na leitura das notas enviadas por Maria Antunes Tavares, do Rio de Janeiro.

Tendo sido aluna, durante sete anos, dessa escola fundada por seus pais, ao lado de Maria Gabriela, Augusto Joaquim e outros, Maria teria “só depois” reencontrado, no filme Redemoinho-Poema e no livro Cadernos de AmorÍmpar 2: Maria Gabriela Llansol, estas memórias de infância: o cavalo Pégaso, a Escola da Rua de Namur, a sua Gabi.

Mas bastou que esse “encontro inesperado do diverso” se desse para que um passo além do retorno pudesse também se dar: aquele que assinala que, no “só depois” do encontro da psicanálise com a literatura, uma escrita  poderá, enfim, ser inaugurada.

No futuro autobiográfico dessa escrita, vemos uma menina que encontra, nas formas do pão, um rosto. E esse rosto se desenha, afinal, do encontro das notas de leitura de Maria Antunes com as de Maria Gabriela Llansol, em seus “apontamentos”: os da Escola da Rua de Namur e os do extremo ocidental do Brabante.

Leia, aqui, o fragmento de Llansol que faz referência à menina Maria:

“O grupo das crianças mais velhas entra, indiferente ao ambiente ou às pessoas que vigiam os fornos. Cada uma escreve o relato que quis fazer do dia. Penso que estão unidas e separadas, como uma matilha, ou um bando na floresta. Maria vem mostrar-me um pão retangular onde foi desenhado, com fitas de massa, um rosto. É sobre esse rosto que Albert escreve. Depois, mostra-me outro pão, redondo, que, na côdea, tem representado um golfinho ou um automóvel.” (LLANSOL, “Apontamentos sobre a Escola da Rua de Namur”, em O livro das comunidades p. 90).

Leia, aqui, as notas de Maria, onde se entrecruzam a escola da infância, o autismo, o gozo feminino e o “feminino de ninguém”, num encontro da psicanálise com a literatura:

Fotos de Lucia Castello Branco

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O começo é precioso

Aula-performance de Jonas Samudio, na inauguração do espaço a’mais : “Like a prayer” (foto de Camila Morais)

Like a prayer, dizia o título da palestra, também título da canção de Madonna. Like a dream, disse Josefina, a cantora, no dia seguinte à celabração daquele dia, o do “sonho de que temos a linguagem”.

Desde antes, sabíamos: “temos um território, mas não temos casa”(Llansol). “Temos um território do corpo que nos foi dado, e que conquistamos; uma casa, a que nos falta, e que construímos, na língua, aquela que assume que não o pode, e avança, escrevendo um caminho, escrevendo os caminhos entre os territórios” (Samudio).

Foi assim que se abriu, na nossa vila de casas-existentes-não-reais, mais um território: o “espaço a’ mais”, coordenado por Camila Morais e Maraíza Labanca, duas amigas da Cas’a’screver.

Reunindo literatura, arquitetura, psicanálise, arte e santidade, este espaço nasce de um “a” (o mesmo do corp’a’screver llansoliano, mas em outro corpo; o mesmo do objeto a lacaniano, mas em outros objetos), mas também de um “mais”: mais além, mais ainda. 

Assim estivemos  reunidos, mais uma vez, agora em outro território: aquele em que, like a prayer, escutamos as palavras sempre abençoadas de Jonas Samudio. E depois bebemos do vinho e comemos do pão, em prece llansoliana: “é preciso cantar o texto, rezar o texto”. 

[De repente, um fragmento de memória advém: nele vemos Augusto Joaquim, companheiro de Llansol, a nos perguntar, na primeira vez em que nos encontramos: “Diga-me: há muitos sem terra no Brasil?”]

Sim, havia lua e o calor dos trópicos e, do outro lado da rua, em face da nossa vila, ouvíamos, ao fundo, os tambores do maracatu, anunciando o carnaval. A tudo isso chamamos, em nossa língua, o brasileiro, tão simplesmente: festa.

Leia, aqui, fragmentos recolhidos do impressionante texto de Jonas Samudio: texto para like a prayer1 (1)

Fotos de Camila Morais

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O começo é precioso

Iniciamos, hoje, mais uma série em nosso fio de água do texto, com o nome de “O começo é precioso”. Saudando o começo de um novo ano e tudo o que com ele começa, e celebrando O começo de um livro é precioso, de Maria Gabriela Llansol, a série se abre, hoje, com o começo de Lia Krucken, com seu projeto pós-doutoral que se inaugura neste ano de 2018, no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra.

Inspirado nas sobreimpressões llansolianas e no movimento de Lisboaleipzig, o projeto se intitula CoimBraBerlim, tendo, entre as duas cidades da Europa, o Brasil. Por isso, porque o começo é precioso, e porque o Brasil está no centro, comecemos pelos índios, pelas aldeias e pelo desejo de uma comunidade que, com eles, um dia, aqui, começou.

Ashaninka, foto de sebastiao salgado
Calendário fotográfico Ashaninka. Foto por Sebastião Salgado, 2016

Se você foi a Amazônia
Lia Krucken

E, se você foi a Amazônia só “para visitar” e não sabe bem explicar quando perguntam o que veio fazer ali: pode contar a história do calendário. Doze meses, doze imagens dos Ashaninka habitaram a parede amarela da casa em Hamburgo. À cada virada de folha, o pensamento ia para lá, esse lugar que até então não existia, mas que foi se criando no desejo. Das fotos em branco e preto, tiradas por Sebastião Salgado, a vontade de ver o verde real. E, se você comprou o calendário “por acaso”, para ajudar numa vaquinha para um pajé que teve a perna mordida por uma cobra danada, e agora vê ele andar faceiro com uma prótese, você sorri. Abraça, fica feliz e esquece de tirar foto.

Anda pela aldeia. Passa por árvores, casas, pé na lama. E, se você se distancia um pouco dos outros, também do seu marido, que não entende isso, porque aquela viagem é também para dentro de si, acho que deve relaxar. Durma em sua rede azul, feche o mosquiteiro fininho, verde, que funciona como um véu para o mundo.

E, se o antigo xale vermelho agora te parece indígena, combine com os colares de sementes pretas que você comprou na aldeia e sinta-se amiga-ashaninka. Use-o todos os dias. E, se depois de uma semana, você se olhar no espelho pela primeira vez e tiver que olhar de novo, surpresa, tentando entender quem é, talvez possa explicar nessa pergunta a exitação (hesitação/excitação) de um começo em continuar prosseguindo.

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Na aldeia Ashaninka. Foto por LK

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Foto por LKBrasil 2018 - 11
Foto por Peter Moll

 

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Notas de leitura

Inquérito às quatro confidências — Foto  e notas de Jonas Samudio

Nenhum traço se perde. Talvez seja esta a breve notatio que nos salta aos olhos, quando abrimos, com Jonas Samudio, o seu Inquérito às quatro confidências, de Maria Gabriela Llansol. Objeto de suas pesquisas para a dissertação de mestrado, desenvolvida já há alguns anos na Universidade Federal de Uberlândia, sob a orientação de Paulo de Andrade, o seu livro traz as marcas de suas anotações e de seu corpo de jovem pesquisador, que então se iniciava na leitura da textualidade Llansol, em busca do “há” que ali se afirma.

Sabemos que antes, no fora do livro, mas dentro do caderno, Maria Gabriela Llansol já havia anotado o nome de Paulo de Andrade, quando dele recebera, através de Rebeca Cordeiro, num pacote enviado por Lucia Castello Branco, suas notas de leitura sobre o poeta Cesário Verde. E essas notas se reuniram no impactante texto “O sonho de que temos a linguagem”, publicado em janeiro de 1997, na Revista Colóquio-Letras, números 143/144.

Hoje, quando recebemos estas notas de leitura de Jonas Samudio, quando assistimos ao esforço sistemático do Espaço Llansol para que se efetue um “apagamento dos traços” que desenham há vinte e seis anos, do outro lado do Atlântico, a trajetória da textualidade Llansol, é com alegria que relemos: “Nenhum traço se perde, mesmo que tenda a apagar-se”. 

E aqui damos a ler, na íntegra, “O sonho de que temos a linguagem”, sublinhando, da abertura deste impactante texto, as palavras de Llansol: “Falei, noutro lugar, de um pacto de bondade. Faz parte desse pacto não recusar a um grande criador: ‘Quando eu me for, feche o meu texto'”.

E, desse texto, sublinhamos também a questão que Llansol nos traz:        “Digo-vos apenas que são fortes, os deles, abertos ao meu texto. Como não abrir o meu texto ao deles?”

Entre o fechamento e a abertura, a sístole e a diástole, a respiração da textualidade. Porque, para um corp’a’screver, “há o sexo de ler”. E esta, talvez, seja a  nossa quinta confidência, aquela que se escreveu no Brasil, numa cidade serrana, “onde reina ainda uma profusão amarga de sinais”.

Foto e notas de Jonas Samudio

Foto e notas de Jonas Samudio

Leia, aqui, o texto “O sonho de que temos a linguagem”, de Maria Gabriela Llansol: 

http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/issueContentDisplay?n=143&p=5&o=p

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Notas de leitura

O livro e a noite — foto de Lucia Castello Branco

Hilda Hilst — Foto de Lucia Castello Branco

O livro e a noite. Assim talvez pudéssemos reunir, aqui, estas notas de leitura de Lucia Castello Branco, em sua releitura dos poemas de Hilda Hilst, a partir de Maria Gabriela Llansol, para quem “estar no amor, permanecer no amor, não pode deixar de ser fulgor deserto”. 

Assim, reler o amor em Hilda Hilst — a única escritora brasileira de quem Maria Gabriela Llansol aceitou ser aproximada, em 1992 –, é também passar pelo deserto em Duras (outra escritora com quem Llansol admitia ter certa aproximação), e esta verdade: “Moi, je crie vers le déserts, surtout dans la direction des déserts”. 

Entre o deserto de Llansol, o de Hilda e o de Duras, a travessia da noite — ou da metanoite, como Llansol a chamou –, na tentativa de escrever o amor, em sua radicalidade de fulgor deserto. Entre o grito e a escrita, esta passagem.

Notas e foto de Lucia Castello Branco

Duras no livro de Hilda Hilst, em seu Moderato Cantabile

No poema de Hilda, um encontro inesperado com Llansol

“Quem me chama?” — Notas e foto de Lucia Castello Branco

“Da noite, esta passagem” — Nota  foto de Lucia Castello Branco

 

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Cas’a’screver expandida

O quarto ramo — Foto e composição de Maria José  Vargas Boaventura

Para o ano que se inicia, um voto. Este, que Maria Gabriela Llansol um dia proferiu como um voto de leitura, ou de legência: “alguém que me ame com bondade, e saiba ler”. E, para manter o começo prosseguindo,

“alguém que deixe espaços entre as palavras para evitar que a última se agarre a próxima que vou escrever “

Entre os espaços, nos cartões que se seguem, em generosa oferta de Lia Krucken para o fio de água do texto, a memória da Cas’a’screver expandida, a testemunhar, com Llansol, que “não posso deixar de percorrer o caminho que andei”. Este é o presente do nosso fio de água, a celebrar o começo, sempre precioso, de um Ano Novo.

Abra, aqui, os cartões de visita à Cas’a’screver expandida:

cartoes para casa 2017 quadrado soft (1)

 

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