A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Foto de Lucia Castello Branco

Trigésimo Terceiro Dia

Em sua luta cotidiana pelo fulgor, ela esteve lá, no segundo dia de um curso de silêncio, a trazer de novo, entre o centro e a ausência, o feminino de ninguém e a figura de Maria Gabriela Llansol. Falou do feminino em Lacan, falou do falo, desenhou no quadro as tábuas da sexuação, abriu e fechou as portas para os espíritos da Amazônia que insistiam em entrar.

Mas bastou que um cavalo branco  atravessasse o poema para que o direito à morte, evocado por Blanchot, ali imperasse não só como uma dádiva da literatura, mas como a própria força da mulher, aquela que não existe, a flor ausente de todos os buquês.

Assim estivemos todos naquele segundo dia de um curso, na aula ministrada por Vania Baeta: no espanto que hoje marca nosso trigésimo terceiro dia de luta cotidiana pelo fulgor. E ele esteve ali, entre o centro e a ausência, nas páginas quase vazias de um caderno, mas ao lado dela, essa mulher.

Leia, aqui, as notas da aula “O feminino em Lacan”, de Vania Baeta:

Aula feminino em Lacan [2] Vigia a noite (poema Dolores Orange)

Fotos de Lucia Castello Branco

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A luta cotidiana pelo fulgor

Fotograma de Poetas (in)comuns

 

Trigésimo segundo dia

 

Houve um dia, em novembro do ano passado, em que estivemos às vésperas de.  E foi esse o dia em que Cinara de Araújo esteve na UFMG, num curso sobre “O corpo dos escritores”,  reunindo, num só golpe da poesia expandida, “El Poema”, de Mohsen Emadi, e “Isto não é um poema”, de Arnaldo Antunes.

 

Hoje, só depois, quando tudo nos parece um pouco desolador, é preciso sustentar, em nossa luta cotidiana, o ato desses “poetas (in)comuns”, aliando-o à pergunta de Maria Gabriela Llansol: “Onde vais, Drama-Poesia?”

 

Fotograma de Poetas (in)comuns

 

É o que podemos ver, nestas imagens em sobreimpressão de um vídeo realizado por Cinara de Araújo, Iza Soares e Vitória Barreto, em que o fulgor, sempre móvel, nos permite vislumbrar a poesia, na espessura dos dias simples.

 

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A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Foto de Claudia Itaborahy

 

Trigésimo primeiro dia

 

Inaugurando uma seção da série “A luta cotidiana pelo fulgor”, iniciamos hoje as postagens sobre o “Feminino de Ninguém”, constituídas de fragmentos, textos, vídeos, fotos, momentos singulares da nova disciplina do POSLIT, coordenada por Lucia Castello Branco e ministrada pela professora e alguns professores convidados.

Como sabemos, o “feminino de ninguém” é uma figura da obra de Maria Gabriela Llansol que é construída, por alguns dos convidados da disciplina, como um operador teórico em seus trabalhos de tese. Assim, partindo de uma figura llansoliana, pretendemos chegar, com ajuda da Literatura e da Psicanálise, a um conceito. Ou, melhor dizendo, em nossa luta cotidiana pelo fulgor, procuramos elaborar, pelo viés de uma psicanálise literária, um conceito-fulgor: o feminino de ninguém. 

Da primeira aula, ministrada por Lucia Castello Branco, de tão longe, e  por Janaina de Paula, de tão perto, seguem alguns recortes, em texto de Lucia Castello Branco, vídeo de Jonas Samudio e fotos de Claudia Itaborahy e Janaina de Paula.

 

 

 

 

 

 

Fotos de Cláudia Itaborahy.

 

 

Fotos de Janaina de Paula.

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A luta cotidiana pelo fulgor

Foto de C.Rafael Pinto.

 

A luta pelo fulgor. Cotidiano labor de mãos, ouvidos e olhos.

De corpo, para que a passagem dos dias nos atinja com delicadeza. Para que sua viagem seja a poesia.

Como neste texto de C.Rafael Pinto, nosso trigésimo dia.

 

Trigésimo dia

 

Cânticos, preces e súplicas mariais de Bethânia. O coração inquieto pela proximidade. Tantas e tantas horas de viagem: as estrelas nos acompanham… a lua ao lado.

Uma aventura? Um sonho? Irrompe o Magnificat

Espio entre as cortinas, uma floresta enorme. Entre as construções, gente pra lá e pra cá, gente se passa por gente, tropeça em gente. Tanta gente. Um novo dia: a consolação, entre o amanhecer e o entardecer. Sua torre atravessa a terra e toca as franjas dos céus. No silêncio, Consolatrix Afflictorum, ora pro nobis!, a prece no entardecer.

Luiz Gonzaga de um lado, e do outro? O horizonte… infinito horizonte. Degrau por degrau, mesmo nas alturas, perde-se o tamanho da colcha de retalhos das cores, das etnias, e dos sotaques, dos gêneros… Multidão, eis o substantivo apropriado. Escuto o canto dos sinos… De onde vem? Do Pateo do Collegio, pequenino, conserva a grande memória, um dos capítulos.

Em outro extremo, no cantinho das Araucárias, uma fagulha da memória de Antonieta Farani permanece acesa: silêncio do corpo, testemunhos e testemunhas, objetos pessoais, seus inúmeros escritos – “oxigenavam sua vida”, dizem. As estrelas ainda nos acompanham… Outras mãos, na via arterial, traçam sobre os corpos novas linhas, no entardecer e, agora, no anoitecer.

 

E a lua?

Novo rabisco. “Não tardes”, eis a súplica noturna.

 

… em São Paulo, 20 de julho de 2019.

por C.Rafael Pinto.

 

Foto de C.Rafael Pinto.

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A luta cotidiana pelo fulgor

Foto e trabalho de Maria José Vargas Boaventura — Exposição “Eloquente silêncio”

 

Vigésimo nono dia

         Em luta cotidiana pelo fulgor, Maria José Vargas Boaventura abriu, em              27 de julho, no Centro Cultural SESIMINAS Yves Alves, em Tiradentes, a            exposição introspectiva que tem o nome de “Eloqüente silêncio”. O                      trema aí permanece, parece-nos, não só para sublinhar a eloquência,                  mas também para marcar um sutil deslocamento: da luta cotidiana para            a busca cotidiana pelo fulgor, numa exposição composta também de                    textos, pequenos objetos escritos, palavras sozinhas. Como se o silêncio,            em sua materialidade, pudesse assim nos dizer, como certa vez escreveu            Maria Gabriela Llansol: “procuro é a palavra”. Se o silêncio é de ouro, a              palavra resta sozinha, em tempos sombrios, como ouro sobre chumbo.

        A busca cotidiana pelo fulgor (ouro sobre chumbo)

         Leia,  aqui, o texto de apresentação de Maria José Vargas Boaventura:                 EXPOSIÇÃO INTROSPECTIVA

       

 

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A luta cotidiana pelo fulgor

nossas mãos – Foto de Álvaro Santos Pereira.

 

É a luta de todos os dias. Pelo fulgor, por aquilo que, da vida, insiste: a própria vida, cotidiana.

E a poesia. Desejo de um dia novo a cada dia, ainda quando os encontros se deem com as raízes. Os primeiros e mais antigos gestos.

Como neste texto de Jonas Samudio, nosso vigésimo oitavo dia.  

 

Vigésimo oitavo dia

 

Ou “enquanto se olha as flores a espera não cansa” (Yasunari Kawabata, Kyoto).

 

A página.

Um caderno, presente sobre uma toalha de rendas. Um lugar de escrita que se improvisa sobre a carne de tua partida. A espera que.

 

As flores. A janela de casa que continua aberta sob o olhar do santo.

 

Mas há remédios. Um dente de alho macerado em três colheres de mel. Para a tosse, disse a tia-avó, mas sei que, também, para o que, só em gotas, pouco a pouco, cotidianas, há de escorrer pela garganta e encontrar lugar no corpo. Uma amarga dose de nove raízes.

 

Por vezes, amaro é o remédio. A metade de um limão partido.

 

Nossas mãos, ainda o que por elas escapa: “São grandes os ossos dos nossos dedos, tia”; “Sim, são de família”. A pele, as veias, essas raízes, as receitas.

Três punhados do barro virgem de onde viemos, um copo da água do cipó mil-homens.

Para dar lugar às dores.

 

À ponta da mesa, as últimas laranjas sanguíneas que trouxeste.

A folha em branco que encontro entre teus papéis.

As manchas que nela participo: poeira, umidade, restos de pintura para os lábios.

 

As flores.

Tua espera que não cansa.

 

em 19 de julho de 2019,

por Jonas Samudio.

sobre as rendas – Foto de Jonas Samudio.

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A luta cotidiana pelo fulgor

Leitura de “El poema”, por Cinara de Araújo, foto de Camila Morais.

 

Na luta cotidiana pelo fulgor, apresentamos a travessia de “El Poema”: de Kharavan ao Brasil e, do Brasil, novamente a Khavaran, tendo passado antes por uma casa amarela, em Arraial da Ajuda, BA, onde ele foi traduzido por Cinara de Araújo, depois por Salvador, na UFBA, onde ele foi lido, ainda em processo de tradução, por Alba Caldeira, e registrado e editado por Lia Krucken, mais tarde em Belo Horizonte, no jardim interno das casas contíguas, onde ele foi lido coletivamente, em voz alta, e silenciosamente, por alguns, para então chegar de volta a Khavaran, em foto e mensagem de Mohsen Emadi, que assistiu à leitura na Cidade do México, por uma emissão em vídeo de celular, em tempo real, da qual ele captou alguns frames e fotografou. Eis a poesia expandida em sua materialidade real de travessia dos corpos, das cidades e das paisagens, relida agora por Maraíza Labanca e por Camila de Moraes, ouriços de um coletivo em expansão.

 

 

Vigésimo sétimo dia

 

 

No último dia 6, lançamos ao mundo, em voz alta, o livreto bilíngue El poema/ Poesia é o único rebelde, de Mohsen Emadi/ Cinara de Araújo, de distribuição gratuita. Durante a leitura coletiva, em voz alta, no jardim da vila da Cas’a’screver e do Espaço a’mais, em Belo Horizonte, a voz dos silenciados parecia nos subir à garganta, corpo adentro, boca afora: era o coro dos ressuscitados.

 

Os responsáveis pela edição do livreto guardam no nome a força e o paradoxo do que se reúne em comunidade (ColeTivo) e do que sabe que sem solidão não há o calor do encontro (OurIsso).

 

“Poesia é o único verdadeiro refúgio”, escreveu o poeta após o ato de leitura. Isso porque a poesia é um lugar que se move, uma raiz no mar, a atravessar uma espécie de continental lonjura. Quando os lábios a pronunciam, uma língua outra (uma dor outra) se encosta à nossa. Todas as línguas, por um átimo, se encostam. As fronteiras fremem, o entendimento se faz pelo tremular das margens e a tradução parece tanto imperiosa quanto natural. As línguas se irmanam, num canto de língua nenhuma, mas comum aos perdidos, aos que leem como quem reza em torno de uma inconsolável perda. Mas é assim que uma língua, longínqua e primeva, violentada, mas ainda rebelde, resiste.

 

Como no amor, sim, eu te dou a minha palavra.

 

Maraíza Labanca.

(texto do post de Mohsen Emadi, escrito originalmente e farsi e traduzido para o inglês)

 

Algumas vezes você está na noite escura da sua vida, cansado de ser, de estar longe,  junto às pessoas que o tiraram dos braços de sua mãe. Você deseja não ser. Você sabe que refúgio não se encontra em qualquer lugar, ou em qualquer pessoa. Poesia é o único verdadeiro refúgio. O poema é o que te mantém vivo. Nessas noites mais escuras, você  de repente pode ouvir o sussurro daqueles que não conhecem os outros. O poema atravessou suas vidas. Tudo isso é parte da leitura de “El poema” de Khavaran, no Brasil. Ah, os exilados medievais… os perdidos… os marginais… em respeito à poesia que carrego nos braços…

                                                                                               Tradução de Camila Morais.  

 

Video-poema de Lia Krucken, a partir de registros de aula de Lucia Castello Branco, na UFBA, e de leitura de Alba Caldeira de “El Poema”, de Mohsen Emadi, na tradução de Cinara de Araújo.

 

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