A luta cotidiana pelo fulgor: intervenções bárbaras

Obra do artista indígena Carlos Sanchez (do Equador).

 

Quadragésimo sétimo dia

 

Iniciamos, hoje, com as “Intervenções Bárbaras”,  mais um desdobramento da série “A luta cotidiana pelo fulgor”. 

 

Os textos que compõem esta série foram apresentados na jornada “4 inutilezas para um mundo bárbaro”, realizada na UFBA, em 22 de novembro. 

 

Muitos deles têm uma articulação direta com o texto de Maria Gabriela Llansol e, mesmo aqueles que não apresentam uma referência explícita a Llansol, acabam por ter a textualidade como método, ou a luta cotidiana pelo fulgor como princípio. 

 

Lua na floresta. Foto de arquivo de Maria Inês de Almeida.

 

Como este texto, de Maria Inês de Almeida, que tem a floresta  como paisagem, mas sempre atravessada pela luz de um clarão que só se dá a ver no coração das trevas: SALVADOR novembro de 2019

 

Oficina do livro vivo. Fotos de arquivo de Maria Inês de Almeida.

 

Viagem no Humaitá. Foto de arquivo de Maria Inês de Almeida.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

A luta cotidiana pelo fulgor

Foto de Lucia Castello Branco.

 

Quadragésimo sexto dia, o aniversário dela

 

Em 24 de novembro de 1931, nasceu Maria Gabriela Llansol. Hoje, 24 de novembro alguns anos mais tarde, escrevemos, com o mar de seu nome. Continuamos a escrever, nestes 88 anos, e continuaremos, por certo.

 

Pois escrever é um modo de continuar. De endereçarmos, à potência dos dias que virão, as cartas que saem de nossas mãos. 

Mãos de Gabriela que flutuam sobre as nossas. 

As mãos do texto. 

 

E esta carta, escrita por Lucia Castello Branco, em 03 de março de 2008. Outro dia, em que ela, desaparecendo, tornou em outro aparecimento: o do texto que nos alcança.

 

Foto de Raimunda Cristina Brito.

 

Querida Gabriela,

 

Em resposta à tua carta de 5 de janeiro de 2008, que só há poucos dias me chegou às mãos, em resposta à tua carta ditada, e escrita na letra de Cynthia, mas que traz abaixo a tua assinatura em letra trêmula e difícil, começo por te dizer que aqui, do outro lado do Atlântico, não são de nevoeiro os dias, mas de fortes chuvas e calor.

Mas em seguida me lembro de como era azul o céu na Serra de Sintra, naquela manhã em que estivemos em tua casa a filmar as imagens destas mãos — as tuas e as de Vina — no trabalho concentrado de revisão de Os Cantores de Leitura.

Olho para estas mãos agora — as tuas e as de Vina — e reparo no anel e na gema do anel e na chama de amor no interior de um anel. Olho para estas mãos que marcam, com firme delicadeza, o texto. E penso no teu legado mais forte: a responsabilidade da forma.

Penso que agora, neste momento em que começas a atravessar o nevoeiro, um pouco do nosso mundo do lado de cá parece ruir. Mas logo me lembro do teu texto, Gabriela, e, como Cantora de Leitura pelo texto convocada, devo assim fazer a minha prece: Não há qualquer nervosismo em tua mão, que se molda à própria forma com grande destreza. Os teus ouvidos ouvem ____________ e respiram profundamente incitando o teclado, seja o do piano, seja o do papel, a segurar a estrela que vai cair.

E então olho de novo para as tuas mãos, Gabriela, ao lado das mãos de Vina, e sobre elas pouso as minhas mãos, as mãos de Vania, as de Inês e as de Cynthia. Assim: Não há qualquer nervosismo em nossas mãos, que se moldam à própria forma com grande destreza. Os nossos ouvidos ouvem __________ e respiram profundamente incitando o teclado, seja o do piano, seja o do papel, a segurar a estrela que vai cair.

Sim, Gabriela, atravessaremos juntas a paisagem de nevoeiro e chuva e quase neve. Porque um dia atravessamos juntas o sol de teu nome, escrito hoje na curvatura da abóboda celeste. Tudo, aqui ou lá, continua a vibrar. E, em nome da cena fulgor que nos acompanha,
aqui ou ali, o teu nome vive, nela.

 

Lucia
Belo Horizonte, 3 de março de 2008.

 

A chama interior do amor. Foto de C.Rafael Pinto.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

A luta cotidiana pelo fulgor

 

Quadragésimo quinto dia

 

Dando continuidade à luta cotidiana pelo fulgor, no âmbito da universidade pública brasileira, anunciamos uma série de trabalhos por vir que se reúnem em torno de 4 inutilezas: poesia, arte, filosofia, psicanálise.

Inspirados por uma palavra colhida da obra de Manoel de Barros, mas também e sempre pela luta cotidiana pelo fulgor, em Maria Gabriela Llansol, teremos uma jornada e duas oficinas, nas próximas semanas, na UFBA, com convidados de dentro e de fora, na tentativa de reunir os professores visitantes, os professores da casa, os professores de outras instituições federais, em torno dessas 4 inutilezas. Assim, abrimo-nos também para uma quinta inutileza, que afinal nos faz habitar a universidade: o ensino. Trata-se, portanto, de um ensino atravessado pelo fulgor e pela luta — a poética e a política.

 

 

Há o que já aconteceu e ainda o que vai acontecer, evocando a pergunta de Maria Gabriela Llansol: “O que é que se passou aqui? O que é que aqui, no que se passou, continua a passar?” Tomemos como resposta as palavras de Augusto Joaquim: “Por aqui passou o real”. E a advertência de Llansol: “O poema passa rápido”. “Passa é seu fato fundamental”.

Eis uma direção para o que já se passou — a “Mensagem”, de André Luiz Oliveira, inspirada no poema homônimo de Fernando Pessoa — e para o que ainda vai se passar —  a Jornada, a Paisagem e a Travessia.

Que possamos, então, passar como o poema, na evocação de Pessoa: “passa, ave, passa, e ensina-me a passar”.  E com a  inutileza de Manoel de Barros:

 

o poema é antes de tudo um inutensílio.

 

Hora de iniciar algum

convém se vestir de roupa de trapo.

 

Há quem se jogue debaixo de carro

nos primeiros instantes.

 

Faz bem uma janela aberta.

Uma veia aberta.

 

Para mim é coisa que serve de nada o poema

Enquanto vida houver.

 

Ninguém é pai de um poema sem morrer.

 

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Foto de Fernanda Teles.

 

Quadragésimo quarto dia

 

E encerramos, nosso curso em curso, com a resistência nas mãos. Partícula de real que nos cabe.

O poema, ramo lilás que cria.

E que recebemos, em nossa aula de encerramento, com Ana Alvarenga e a apresentação de parte de sua pesquisa de posdoc sobre Marina Tsvetaeva. 

Desde a alegria da música, na Farfalha ligeira…

 

Foto de Lucia Castello Branco.

 

… O início da tradução.

Nossa linguagem.

 

 

– Ela escrita com nome de mar…

– … Em russa língua…

– … Maresia… Marina. A que escrevia no interior da França…

– … Poemas. Um diário em cadernos espalhados pelos dias de uma vida…

– … Salva vida, em nome de amar…

– … Suma língua incompreensível… 

 

Foto de Fernanda Teles.

 

– … E um olhar que oferece…

– … A coisa que o filósofo não ousa alcançar: a poesia que avança…

– … Em olhos um pouco inchados, talvez cansados, repletados…

– Numa fotografia antiga, desenhada na ponta…

– … De um lápis cinza… Como o que ela escreveu…

– Frases que possam mudar a vida…

 

Foto de Fernanda Teles.

 

– … As frases, ouça-me, são um pedido às árvores, lugar da primeira matéria…

– … Que a tradução seja a tradução, é isso!

– … Poema em poema, e em filme, e em música… Como a vida…

– … Que resiste aos olhos…

– … e que o poema proclama, entre silêncio e voz ritmados…

 

Foto de Lucia Castello Branco.

 

– A ida ao mundo!

– A poesia! Casa dentro de casa, abrigo dentro do abrigo, mar ao longe. Aconchego!

– … O amor – compreensão – o caderno que carrego – Marina com olhos marejados…

– … Então, o biografema, uma coisa sem testemunha…

– … O vazio que o hífen canta…

– … Como cópula do verbo ser…

– … Como vazio entre as partes, também do corpo, em entoado ritmo… Feminino…

– … De ninguém…

– … Em minhas mãos, como uma oração…

 

 

… em 10 de novembro de 2019,

por Jonas Samudio.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Foto de Lucia Castello Branco.

 

Quadragésimo terceiro dia

 

Tudo continuou pela linhagem das lavandas. Dos rododendros.

E pelos ramos.

Mulheres vindas dos lugares do rio, das areias, do interior do outono, vestidas de algodão. De várias línguas, de traduções ímpares.

Do encanto de uma palavra. De algumas.

 

Foto de Lucia Castello Branco.

 

– São as cascas, são as folhas… É perfume…

– … É a casa. Uma casa. O feminino…

– … O livro… As ondas…

– Uma onda de rosas? Ou a chuva que interrompe a leitura?

– Era uma carta, ela a lia. Clarice, Virgínia, Emily, Llansol…

– … De ninguém…

– Lembre-se da linhagem e das fotografias…

 

Foto de Cláudia Itaborahy.

 

– Nas dobraduras do ar, e ela, trazendo, em suas mãos, um maço de folhas…

– Talvez de flores… os algodoais suspensos no meio do corredor… 

– … Dourada pequena cidade fazendo uma pergunta: “meu poema respira?”

– … Uma outra carta…

– … Roubada ou avoada? …

– Há o tempo de receber o nome, há o de perdê-lo, há o de o voltar a encontrar…

– Há o tempo de voar… E o corpo de quem voa só conhece o percurso do rapto…

– … Entre o céu e a terra, entre a areia e as espumas das águas, entre o seio e o livro… Uma mulher e seu amante…

– … E o sexo entre eles… Pequena fenda do sem sentido, a chamaria assim?

– … Rubra fúcsia…

 

Oficina “Biografema do mundo”: Herbário. Foto de Janaína de Paula.

 

– Uma janela, a luz que entra por ela. As rosinhas que cobrem a cama descobrem o livro…

– … O desejo de uma menina… ou o desenho de um menino…

– … A voz que, feminina e de ninguém, pode dizer: eu transporto o outro…

– … Numa palavra qualquer… fall que o poema ensina…

– … No chão, ao lado das cores das folhas, o branco da folha branca…

– … Aquela que carrego?

– E que a mão cobre… “luzes fátuas”, “luz translúcida”, flor e ser que flutuam…

– … Todos os poemas perdidos, ou seja, guardados, ou seja, caídos, ou seja…

 

– … Pareço ter perdido o fio deste diálogo…

– … Sim… É que as vozes ouvem a cantiga das ondas…

– Escrevem biografemas do mundo…

– … E são esses seus testemunhos…

 

Oficina “Biografema do mundo” (Arraial d’Ajuda/BA): Herbário. Foto de Iza Soares.

 

– Pareço ter pedido o fio de nosso diálogo…

– … Sim, o pedido, o que cai…

 – … O nome que batiza um poema de flor, ainda quando a áspera flor do poema seja seu tom, seu som…

– … Girassol ao fim do dia, a sombra que o dobra, o poema que me conta…

 

Foto de Cláudia Itaborahy.

 

– A leitura que me pede o fio do diálogo… Uma voz, um corpo envolto no bálsamo das rosas de Castella…

 

Foto de Lucia Castello Branco.

 

– … e verbena e limão… os nomes das escritas…

– … Ainda as lavandas…

 

em 01 de novembro de 2019, dia de todos os santos,

por Jonas Samudio.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Foto de Lucia Castello Branco.

 

Quadragésimo segundo dia

 

Eram seis cadeiras vazias, em nossa sala de paredes abertas. Era a espera.

 

Como um acontecimento em que nada acontece, a não ser o espaço aberto, pelo acontecer, à sua possibilidade. Ou impossibilidade. 

Uma aproximação. Foi neste ponto em que nos encontramos. De um lado, a cura, de outro, o curso.

– E as seis palavras, ele disse.

 

Foto de Amílio Torres.

 

– Ele disse, repeti, acrescentando, no feminino de ninguém, o ver.

– E como ficou?

– “Feminino de ninguém a ver”, em resumo…

– De ninguém a ver, o feminino. De ninguém…

– E as palavras: são seis, já o disse, ainda que…

– … Ninguém…

– … As possa ler…

– Elas são seis…

 

Foto de Lucia Castello Branco.

 

– … Folhas douradas…

– Quase vermelho, um múltiplo tom de terracota… Caindo…

– Com essas seis palavras quase escreveria o mundo, se possível fosse…

– O silêncio, que não é a mudez; as figuras, que não são personagens…

 

Foto de Amílio Torres.

 

– O desastre, que não é a tragédia; a paisagem, que não é a ambiência…

– O corp’a’screver, que não é…

– E o livro que…

– E o prefácio de um livro, o por vir…

 

Foto de Cláudia Itaborahy.

 

– Poderia acrescer, neste ramo…

– O campo mais separado do eu do ente, o corpo…

– Um corpo que cai quando irrompe um terceiro, um outro feminino…

– Poderia  escrevê-lo?

– Num ritmo desastroso, poderia, talvez, dizendo…

– Ou escrevendo?

– Sim, escrevendo: a escrita o testemunha, sem eu, a escrita que recolhe…

– … Os nomes para aquilo que está fora das palavras…

– Seu êxtase…

 

Foto de Lucia Castello Branco.

 

– … Sua vertigem…

 

… em 25 de outubro de 2019,

por Jonas Samudio.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Foto de Lucia Castello Branco.

 

Quadragésimo primeiro dia

 

Continuou assim – um ramo amarelo, uma entrada de tijolos terracota; ela, luz luminosa, revolvendo-se do alto céu à profunda terra, abrindo espaço no interior da árvore: ramo florido, no corredor da vida, rosto voltado ao subsolo. Um pequeno alpendre.

A declaração da sentença:

– Falemos de coisas que não se esclarecem mutuamente…

– … Feminino…

– … E ninguém… E o tom precioso da pergunta: “Ter  coragem  de  ser  você  mesmo?  Ou  ter  de  ser:  você mesmo?”

– Sem resposta estamos… mas a pergunta ele nos deu, de seus amores, de seus estudos, de seu corpo aberto à transformação, à travessia: sua imagem.

 

Foto de Fernanda Teles.

 

– “Um eu é pouco para o que está em causa” (LLANSOL. Onde vais, Drama-Poesia?), ela escreveu, recorda-se?

– Ao que ele, com seu corpo e com sua luta, acrescenta: “desejo […] que percam a fé no que os seus documentos dizem sobre vocês. E uma vez perdida toda a sua coragem, frouxos de alegria, eu desejo que vocês inventem um modo de usar para seus corpos. […] desejo-os fracos e desprezíveis. Pois é pela fragilidade que a revolução opera” (PRECIADO. Transfeminismo, p.21-22).

– Pela fragilidade, pelo dulçor de uma alegria intensa. 

–  Dulçor, como o das abelhas…

– Comunidade feminina em que “os humanos, encarnações mascaradas da floresta, deverão se desmascarar do humano e se mascarar novamente do saber das abelhas”  (PRECIADO. O feminismo não é um humanismo)…

 

Foto de Fernanda Teles.

 

– Está a citar…

– Recito, pois…

– É de um ardente texto que se trata…

– O mesmo que recebo dela e de Teresa.

– “Um dom vem colocar-se ao lado do meu fazer para o proteger…

 

Foto de Amílio Torres.

 

– … do nada” – uma rosa que te dou.

– Ardente texto que responde pelo nome de Joshua…

– A quarta história pela qual ansiamos: esquece-se da biografia, desvia-se da hagiografia, vai além da autobiografia…

– E como a chama? Além das sombras…

 

Foto de Jonas Samudio.

 

– O caminho na luz que ela perfaz…

– Este, o nome? Ainda os tijolos terracota, o chão de rochas…

– Também, e a ela acrescento: o receptível, o texto-graça.

– A tradução de alguns poemas em que se reescreve o silêncio que eles calaram.

– Sim, o corpo de Teresa em transição…

 

Foto de Fernanda Teles.

 

– … Para a escrita: última-primeira luz a desenhar estas palavras.

– E para ele, que recito, continuando esse diálogo: “A mudança necessária é tão profunda que se costuma dizer que ela é impossível. Tão profunda que se costuma dizer que ela é inimaginável. Mas o impossível está por vir. E o inimaginável nos é devido. O que era o mais impossível e inimaginável, a escravidão ou o fim da escravidão? O tempo de animalismo é o do impossível e o do inimaginável. Este é o nosso tempo: o único que nos resta” (PRECIADO. O feminismo não é um animalismo).

 

… por Jonas Samudio,

em 18 de outubro de 2019.

 

E um convite:

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário