Sobreimpressões

rosas para Theresa — foto de Lucia Castello Branco

Ali, são as janelas iluminadas da cena.

Podemos dar juntas um passeio ao abrir do dia, atravessando as zonas de silêncio que lhe metem medo e lhe transmitem o desejo de fugir, galopando, apaixonada, para dentro dos afectos.

Ver oralmente é a obsessão do meu lápis de cor. Enquanto ando, e Témia vai adiante,                                                                                                                                            sei                                                                                                                                                        que o meu amor por ela, assim como o amor dela por mim,                                       não teve causa exterior,                                                                                                             apagou o sobre de viver,                                                                                                          e revestiu, com lealdade, a única forma bela.”                                                           

(O jogo da liberdade da alma, p. 70.)

Luz preferida — foto de Lucia Castello Branco

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Notas de leitura

A menina Gabriela — Fotos de acervo pessoal de Lucia Castello Branco

Para onde é que o fulgor se foi? Esta pergunta de Llansol é ainda a mesma que tristemente nos assalta, a cada vez que abrimos um novo Livro de Horas, editado pelo Espaço Llansol, depois da morte da autora. O desejo de seus editores, nitidamente expresso em seus “critérios de organização e edição”, é o de “estabelecer  um elo de continuidade entre os livros publicados e os materiais inéditos, como sabemos que a própria autora o iria fazer, de modo a oferecer  a seus ‘legentes’ edições de leituras afins dos Diários já editados” (LLANSOL, Maria Gabriela. Herbais foi de silêncio. Livro de Horas VI. Lisboa: Assírio & Alvim, 2018. P. 17: As Horas de Llansol (VI)). 

Entretanto, estes livros que não se pretendem, nem constituir uma edição crítica, “nem uma transcrição integral dos cadernos”, acabam por promover um estranho rapto do fulgor que habita os textos de Maria Gabriela Llansol. Para onde é que o fulgor se foi? A resposta para essa questão talvez permaneça “sempre também enigmática”, como observa a escritora, em sua tentativa de decifrar as palavras do oráculo, no que se refere às edições de seu texto.

Ou, talvez, para estar em ressonância com o desejo llansoliano de se “tornar editora de meus livros e dos do Augusto“, seja preciso de fato “criar um lugar livre para o trabalho simultâneo das mãos e do pensamento“. Porque um livro, como o definem Janaína de Paula e Maraíza Labanca, no Novo Dicionário de Migalhas da Psicanálise Literária, é sempre um vivo:

“Espécie delicada de folhagem, Sustentáculo e desassossego do corpo que lê. Entre achados e perdidos — e grampos de cabelo –, restos do poema estrelado, crisálidas de luz lapidada, que encerram seu princípio ativo. Pouso e voo de todos os estilhaços. Às vezes resta fechado, mas poroso, por dentro. Aberto: mar, mulher; escreve-se, se por fora, mais além do livro. Fechado: abrigo de um acontecimento chamado escrita. Figura de suas letras; feito, sendo. Abre-se em páginas, diria de pernas, de cujo centro — furo — o silêncio olha, para, areia constelada, escorrer entre os dedos, desfeito. No sonho do poeta, tudo no mundo existe para culminar num livro. No sonho do livro, tudo existe para chegar ao mundo.”

Continuando, pois, a desejar alguém que a ame com bondade e saiba ler, prestemos atenção  nestas palavras de Llansol, em seu livro aberto. E sonhemos com o livro-pedra a dura ao luar, como um dia ela o sonhou:

Notas de leitura de Lucia Castello Branco

Pois que, para ela, esta seria a grande dádiva: fazer silêncio à volta do texto. Se tudo um dia existiu para culminar em livro, que agora o livro realize seu desejo de, enfim, chegar ao mundo. E que possamos recebê-lo de novo em texto ardente: como um fogo, uma droga, uma desorganização enigmática.

Foto de Lucia Castello Branco

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Sobreimpressões

O vento em Havana — Foto de Lucia Castello Branco

Creio que dei a mão ao vento e que é ele que acabará, finalmente, por arrancar-me de todo o lugar humano.” 

Assim escreveu Llansol, em um de seus cadernos, em 1 de setembro de 1983. E é esta mesma força do vento que verga as árvores que podemos, em seu texto, equiparar às árvores que compõem sua paisagem de escrita e terminam por legar, a seus legentes, cascas de textualidade, nacos de troncos e de linhagens, em constantes sobreimpressões.

Estas cascas — como aquelas que Didi-Huberman foi colher na desolação de Auschwitz —  Tatiane da Costa Souza vai reencontrá-las no texto de Llansol, como biografemas das árvores que, com seus troncos, folhas e raízes, sustentam esse texto. Afinal, as cascas, como pele das árvores, não são menos verdadeiras que o tronco. 

Leiamos, então, em pensamento de árvore, essa memória das cascas de textualidade, no texto vegetal de Tatiane da Costa Souza:

Cascas da textualidade – o mundo figural em Maria Gabriela Llansol

E lembremos que, para Llansol, “ter um tronco e sustentá-lo é preferível a ter uma memória”.

Memória de Havana — Foto de Lucia Castello Branco

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O encontro inesperado do diverso

Foto de Carlos Rafael Pinto

Qual poderia ser o texto final de uma tese, no campo da Arte e da Educação, que começasse pelo desejo de focalizar a experiência de Maria Gabriela Llansol como educadora, na École de la rue de Namur, e que terminasse por se voltar para a própria experiência daquela que a escreveu, na direção de seus ateliês de escrita?

Um texto, finalmente, escrito fora de todas as convenções de uma tese de doutorado, mas que não foge ao rigor de um pensamento verdadeiro: aquele que sustenta que uma escrita-experiência produz efeitos naqueles que a ela se submetem.

Assim também foi a defesa de doutorado dessa tese: num domingo de inverno, na Casa Tombada, em São Paulo, e num domingo de ramo lilás, no apartamento do Edifício JK, em Belo Horizonte, em que uma das examinadoras, utilizando-se do recurso da internet, valeu-se de seu corpo em voz e, como cantora de leitura, esteve tão longe tão perto do texto de Ângela Castelo Branco Teixeira e daqueles que ali se reuniram em torno desse texto.

À escrita: um outro se arrisca em ti”. Assim se intitula esse texto ardente que se escreveu, rigorosamente, sob a força do encontro com a textualidade llansoliana, mas cujo testemunho maior é mesmo o de abrir-se ao outro que se arrisca em nós, sempre inesperado e diverso.

Passada a tarde em que se reuniram, em Belo Horizonte, a professora Lucia Castello Branco e, mais uma vez, seus alunos — Jonas Samudio, o companheiro filosófico, e Carlos Rafael Pinto, o fotógrafo sutil –, na leitura do texto de Ângela, talvez pudéssemos dizer, em consonância com o novo livro de Llansol ainda fechado sobre a mesa de madeira, que o encontro foi de silêncio à volta do texto.

Leia, aqui, os comentários de Lucia Castello Branco sobre a tese de Ângela Castelo Branco: ArguiçãoAngelaCasteloBrancoTeixeira

E, nas imagens de Carlos Rafael Pinto, vejamos como pode ser “fotografar o silêncio” de uma tarde azul de inverno, num domingo de ramo lilás.

 

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Cadernos do exílio

O ramo lilás com mulher ao fundo, em foto de Matias Machado de Faria

O ramo lilás com joaninha em foco, em foto de Matias Machado de Faria


“Quem precisa que um ramo entre na sua vida?”, em foto de Matias Machado de Faria

Foi preciso que estas fotos, capturadas pela sutileza do olhar de um menino, chegassem de Mayfield, Croydon, hoje, nesta manhã de domingo no Rio de Janeiro, para que trouxessem de volta a frase de Llansol que encerra, com rigor, a experiência do Primeiro Simpósio Internacional sobre Migrações, Refúgios & Laços Culturais: “Quem precisa que um ramo entre na sua vida?

Aqui reproduzimos um trecho das palavras de agradecimento de Aline Bemfica e Lia Krucken, atravessadas, em ramo lilás, pela textualidade Llansol:

“… em clima de despedida do Simpósio, agradecemos a todos pelo ‘encontro inesperado do diverso’, pela potência da fala, pelo silêncio da escuta ativa, pelo acolhimento-refúgio da ‘univercidade’ da ESDI, pela dedicação em forma de oficina, pelo banquete oferecido pelo B de Haiti, pelo movimento de migração presente, pela oportunidade de troca e de mobilidade entre vários, pelo espírito de equipe na organização criativa e difusa, pela alegria de compor, com rigor, um ramo lilás, por mantermos o começo prosseguindo e em vento em popa para novas ações!”

Seguem-se fotos que registram, no olhar de Lia Krucken e Aline Bemfica, a potência da comunidade na univercidade-refúgio da ESDI, no Rio de Janeiro:

rio - 1 (1)trocolli - 1

Mais fotos: https://migracoeserefugios.wordpress.com

 

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Notas de viagem – continuação 

pipocaDiário de árvore: Foto de André Feitosa

 

Para compor o Diário de árvore é preciso escrever em clorofila, no rastro do poema.

No rastro do poema, ler em estado de árvore.

“É preciso vegetalizar o texto”​, diria Llansol.

Vegetalizar: nas palavras de Manoel de Barros, nas fotos de Lia Krucken e André Feitosa, na conversa de Vania Baeta com Maria Gabriela Llansol. Transmutar: em intensidade que atravessa a cena, em silêncio de “folha-luz”, conter uma letra.

“Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto às três horas da tarde, no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato sair na voz.
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.”

​(Manoel de Barros)

​”​Anos e luz a atravessaram. Esse risco, essa letra, essa carta: fidelis in minimo. Era uma vez uma árvore-luz, que transmutou: folha-luz, que transmutou: papiro, que transmutou. Desde a pedra sulcada, porque os papéis resvalando, são eles que contêm a letra, são eles que contêm as árvores sacrificadas, são eles que contêm as pulsões escritas, são eles que contêm os livros que atravessaram os tempos que permitiram aproximar os humanos.”
​ 

Maria Gabriela Llansol, À beira do rio da escrita, com Vania Baeta, Luz preferida: a pulsão da escrita em Maria Gabriela Llansol e Thérèse de Lisieux.

Leia, aqui, ​em vegetalização, ​o Diário de árvore ​por Lia Krucken.

coimbra - diario da arvore - André e Lia - 1 (6)coimbra - diario da arvore - André e Lia - 1 (8)coimbra - diario da arvore - André e Lia - 1 (11)diario da arvore - André Feitosa Lia Krucken - 1 (4)Diário de árvore: Fotos de André Feitosa e Lia Krucken durante os dias de “sacudimento” da árvore
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Notas de viagem

Diário de Árvore — Trabalho de Andre Feitosa e Lia Krucken

Crescer em direção à árvore. Talvez tenha sido esta uma das lições mais contundentes da textualidade Llansol, que tem na clorofila a primeira matéria do poema. E, como na clorofila não há metáforas, o Diário de Árvore de André Feitosa e Lia Krucken, enviado de Coimbra, onde André realiza um doutorado sobre ancestralidade e Lia desenvolve o projeto CoimbraBerlim, inspirado nas sobreimpressões de Llansol e à maneira de uma condensação de paisagens, como em Lisboaleipzig, é também “nota de viagem”. E, assim, é escrita em direção árvore, corpo, memória de paisagem.

“Descobri que se, em vez de me concentrar na sombra do corredor, me deitasse de costas a olhar a sombra rutilante, o meu olhar poderia realizar o caminho inverso da luz e pousar no ramo mais alto da árvore e aprender com esta a produzir clorofila — a primeira matéria do poema”.

(Onde vais, Drama-Poesia, p. 12).

Diário de Árvore — Trabalho de André Feitosa e Lia Krucken
a partir de ritual de sacudimento da árvore, por André Feitosa

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