A luta cotidiana pelo fulgor: intervenções bárbaras

 

Quinquagésimo primeiro dia

Imagem1- SergioFrase de manifesto usada na performance Tipoema: movimento 3.

Procurando por uma nova barbárie que não tenha vergonha de seu nome, encontramos, adiante, a poesia. Esta, que constrói o mundo bárbaro mais além da barbárie, na sutileza, na delicadeza, ou mesmo na dureza da “dura verdade das coisas postas”, é também aquela marcada pela materialidade da letra, pelos “estilhaços inúteis” em que se constituem os grafismos, pela arte de talhar o poema como pedra, como cantaria. Eis a arte da tipografia, onde Sérgio Antônio Silva vai localizar a poesia de três mineiros: Afonso Ávila, Guilherme Mansur, Sebastião Nunes.

A estes, para quem um pingo é letra, Maria Gabriela Llansol,  que sempre atribuiu especial valor aos elementos gráficos em seu texto, teria dito: 

“Para quê ser brusco com a imagem? Por
que a tomas, em vez de sugerir um pedido de
cavalheiro?

Sim, intervém Dickinson. Por quem tomas a imagem?

Há um poeta que falta aqui, diz, desculpando-se.
Joshua, onde se meteu ele? E, pela primeira vez, a
imagem falou: Sejam meigos com minhas formas.”

(Onde vais, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio D’Água, 2000. P. 29).

É possível sustentarmos o mundo bárbaro sendo meigos com as formas da imagem? Talvez, se é da poesia que se trata. Certamente, se o mundo bárbaro se situa além da barbárie, ou se o mundo bárbaro funda uma barbárie que não tenha mais vergonha de seu nome.

É o que leremos neste texto em luta pelo fulgor, de Sérgio Antônio Silva: Três poetas e uma proeza para um mundo bárbaro. Um texto para ser também escutado com o fundo musical da cantaria que se escreve nas letras azuis.

Imagem2 - SergioImpresso da performance Tipoema: movimento 3.

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A luta cotidiana pelo fulgor: intervenções bárbaras

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Exposição  Nkaringana – Museu Afrobrasileiro, Salvador, Bahia.
Trabalhos de Lia Krucken.

Quinquagésimo dia

No primeiro dia do ano de 2020, recebemos, das mãos de Lia Krucken, o livro A escola dos contra-grupos: uma nova geografia pedagógica e social, recentemente publicado pelo Espaço Llansol, através da editora Mariposa Azual, de Lisboa. Ali se reúnem textos, cartas e documentos da Escola da Rua de Namur e da Ferme Jacobs, escolas dirigidas por um coletivo do qual Maria Gabriela Llansol e Augusto Joaquim fizeram parte, nos anos 70, na Bélgica.

Vários aspectos nos aproximam desse livro. Seja porque somos todos contra grupos, seja porque, não sendo um grupo, fomos no entanto re-conhecidos, certa vez, no filme Redemoinho-Poema, por alguns dos membros fundadores brasileiros e belgas dessa escola. E assim pudemos saber, de muito perto, sobre aquela experiência que se aproxima do que temos tentado implantar, há tantos anos, na universidade brasileira, através das práticas da letra.

Mas a surpresa maior foi mesmo encontrar, nas palavras de Augusto Joaquim, aquelas que poderiam ter construído a epígrafe da jornada que recentemente realizamos, na UFBA, e que terminou por dar título ao projeto que dali nasceu e a esta série que aqui tem reunido os textos apresentados na jornada: “intervenções bárbaras”.

Evocamos, então, como uma epígrafe a posteriori, as palavras de Augusto:

Estamos à procura, porque para trás não há caminho. Procura duma nova barbárie que não tenha vergonha do seu nome“.

E assim abrimos a leitura aos apontamentos de Lia Krucken, que deram suporte a sua intervenção na jornada “4 inutilezas para um mundo bárbaro”. Era um recadé,  desses que vêm de longe e que nunca acabam de chegar.

Leia, aqui, o texto Nkaringana wa nkaringana

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Oficina Nkaringana wa nkaringana, na Casa do Benin, Salvador, Bahia, 2019.
Foto: Lucas Feres.

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Demorar

Foto de Leonardo Beltrão

Demorar. Nesta palavra, o nosso desejo profundo para o ano de 2020. Demorar na palavra, demorar na imagem, demorar na leitura de um livro, demorar no verso de um poema. Demorar em torno do nome de Maria Gabriela Llansol, pelo sol de seu nome,  nossa luz preferida. Como na  história que chega, tempos depois, anunciando um começo:

                                                                     A demora do mar

Que possamos demorar, neste fio de água do texto, em novo ano por vir.

Foto Lucia Castello Branco

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Estético convívio

Foto de C.Rafael Pinto.

 

Quase no fim. 

Durante este ano, muitos acontecimentos. Ano de muitas chamas: as da destruição, de um lado, as do chamado, de outro. 

 

E a chama no interior do anel, como diria Llansol, anel ao redor do qual nos assentamos para a partilha do dom, o poético, e da liberdade, a da consciência.

 

Quase no fim.

Neste momento, tornamos a olhar para os caminhos que nos trazem aqui. Caminhos de cortes, de costuras, de perdas, de escrita, de livros, de vestidos, de acabamentos, de lançamentos.

 

Quase no fim, novos nascimentos.  

Que aqui nomeamos:

 

Foto de divulgação.

 

Uma nova coleção: Litorânea, com ensaios que margeiam os ilimites de literatura e psicanálise. Coleção lançada já com dois livros: Feminino de ninguém: breves ensaios de psicanálise literária, de Lucia Castello Branco, Vania Baeta e Janaina de Paula; e Os ínvios caminhos: escrever, ler, psicanalisar, de Lucia Castello Branco.

 

Quase no fim, um lançamento celebrado ao redor da voz, das imagens, um lançamento virtual: não a não-presença, mas a presença em seus outros modos de acontecimento. Talvez, assim:

 

 

Também, o lançamento de Demasiado alinho sobre T T E R E S A, de Jonas Samudio, em 17/12, livro que apresenta, poeticamente, as quatro iluminações que tangem as vestes da grife, os poemas que podem ser vestidos. 

 

Foto de C.Rafael Pinto.

 

Igualmente, lançamento de outra coleção, uma coleção-cápsula: Calendas de dezembro, com peças feitas exclusivamente para o encontro com o livro.

 

Foto de Kleriston Kolive.

 

Quase no fim, dizemos, ainda uma vez: lançar, relançar, eis o desejo, esse “quase” precioso.

 

E a prece:

Voltando-me para o centro do quarto, hei-de rezar:
“Figuras do meu destino, figuras do seu destino, sede compacientes conosco.
Dai-nos a ver, ao fim da nossa viagem, o rosto claro e radioso da alegria” (Maria Gabriela Llansol, Contos do mal errante, p.255).

 

por Jonas Samudio.

 

Foto de Jonas Samudio.

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A luta cotidiana pelo fulgor: Mulheres em trânsito

“A geografia imaterial por vir” — Foto de Lia Krucken

A escola dos contra-grupos — Imagens do livro — Foto de Lia Krucken

Quadragésimo nono dia

Anunciamos, hoje (ainda não iniciamos), um novo desdobramento da série “A luta cotidiana pelo fulgor”, que acompanhará, de perto, a disciplina-oficina, a ser ministrada por Lia Krucken e Lucia Castello Branco, na UFBA, a partir de março de 2020.

O curso, que segue o leito dos rios Mondego e Vermelho,  tem por nome “Mulheres em trânsito” e busca mover-se em direção a um “feminino de ninguém”, apontado por Maria Gabriela Llansol, em sua textualidade. Por isso, e porque a palavra que dirige a tarefa é justamente o “trânsito”, aqui a anunciamos sob um nome de fulgor: movência.

É, portanto, em co-movência, que chegamos hoje à casa de Coimbra, como se esta fosse a casa do Campo de Ourique, onde repousam os objetos do texto, imantados por Llansol. E, como a imantação é sem limites, anunciamos, com a chegada de um livro novo, a geografia imaterial por vir, com a casa de uma rua numa pequena cidade da Bélgica, onde Maria Gabriela Llansol um dia professou a escuta do silêncio por meio do silêncio: a École de la rue de Namur, por nós conhecida como L’École La Maison. Sem vírgula. 

Com a movência de uma legente que atravessou a dura paisagem de Berlim até chegar à casa de Gabi, co-movemo -nos, aqui, em nossa Cas’a’screver:

Leia, aqui, o Texto Lia Krucken

Página do livro A escola dos contra-grupos — Foto de Lia Krucken


“Forças prontas a extrair dessa situação” — Página do livro A escola dos contra-grupos

Foto de Lia Krucken

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A luta cotidiana pelo fulgor: intervenções bárbaras

As árvores do pátio de Emily Dickinson — foto de Lucia Castello Branco

 

Quadragésimo oitavo dia

Distante como a palma da mão: a pequena cidade de Amherst, Massachussets, onde viveu Emily Dickinson. A mesa de 60 centímetros, diante da janela, onde ela escreveu mais de mil cartas, mais de mil poemas. O vestido branco de algodão, no meio do corredor. E as árvores do outono, ensinando a produzir clorofila — a primeira matéria do poema — e anunciando o fall  da poesia em feminino de ninguém

Leia, aqui, o texto de Lucia Castello Branco sobre  A responsabilidade do poema  

Emily Dickinson, aos 17 anos, antes do branco

“Não posso deixar de percorrer o caminho que andei” —  foto de Lucia Castello Branco

 

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A luta cotidiana pelo fulgor: intervenções bárbaras

Obra do artista indígena Carlos Sanchez (do Equador).

 

Quadragésimo sétimo dia

 

Iniciamos, hoje, com as “Intervenções Bárbaras”,  mais um desdobramento da série “A luta cotidiana pelo fulgor”. 

 

Os textos que compõem esta série foram apresentados na jornada “4 inutilezas para um mundo bárbaro”, realizada na UFBA, em 22 de novembro. 

 

Muitos deles têm uma articulação direta com o texto de Maria Gabriela Llansol e, mesmo aqueles que não apresentam uma referência explícita a Llansol, acabam por ter a textualidade como método, ou a luta cotidiana pelo fulgor como princípio. 

 

Lua na floresta. Foto de arquivo de Maria Inês de Almeida.

 

Como este texto, de Maria Inês de Almeida, que tem a floresta  como paisagem, mas sempre atravessada pela luz de um clarão que só se dá a ver no coração das trevas: SALVADOR novembro de 2019

 

Oficina do livro vivo. Fotos de arquivo de Maria Inês de Almeida.

 

Viagem no Humaitá. Foto de arquivo de Maria Inês de Almeida.

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