A luta cotidiana pelo fulgor: cândidos e cruéis animais

Foto de Cinara de Araújo — Cartão editado por Lia Krucken

 

Uma luva de amor branco. Talvez assim possamos contar, com palavras de Llansol em Os cantores de leitura, aquilo que ali se passou, naquela noite de sexta-feira, 25 de setembro, quando as estrelas desideradas começaram a cair sobre o mar: a dor de amor no corte do devir de um nome: Marina Tsvetaeva.

 

Assim, aquela que se declarava em perpétuo vazioexilium encontrou  num corp’a’screver em “nó de três” —  a tradução, a dança, a edição — , que poderíamos chamar verdadeiramente, com Llansol, de sobreimpressão.

 

Restou-nos, então, após a aula de Ana Alvarenga, o efeito de um curso de silêncio, trazido pela pergunta de Gabriela: “O que, aqui, se passou, e ainda hoje continua a se passar?” “Os pensamentos que o corpo me deu”, talvez pudéssemos responder.

 

 

Os tempos sucedem-se aos tempos. O tempo alimenta-se dos tempos. Guardaremos, ali, alguns tempos privados. Depois sonharemos com o texto a viver ainda à norte. Ainda não o escreveremos.

 

Mas, havendo um corp’a’screver, só quem passar por lá saberá o que isso é. E que isso justamente a ninguém interessa. Talvez, em algum dia de consolo que nos caiba, além do ritmo das nossas próprias vozes em cadência, tenhamos, enfim, o tempo: concreto e branco. 

 

Escute, aqui, a leitura da partícula 5, na voz de Cristina Fernandes:

 

 

O tempo branco — foto de Lucia Castell0 Branco

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A luta cotidiana pelo fulgor: cândidos e cruéis animais

Cobra Coral — Foto enviada por Sônia Magalhães

 

E, depois do almoço, voltar para o meio dos animais. Um grande desejo de que voltasse um antigo bem. Precisar que chegue um Grande Textuador desconhecido. Procurar seu livro na água. Nada é preciso fazer, unicamente esperar. O Grande Textuador virá, pela via normal de abrir e fechar a cancela.

 

E ele veio. Foi numa manhã em que um corp’a’ ler encontrou-se com a frase : “Eu sou, aqui, uma preta velha, sentada ao sol.” Andávamos muito depressa, sem esperar. Até que nos encontramos com a esperança, assim descrita por Llansol: “O homem é feliz, enquanto seu desespero for igual à sua esperança”. E ela continuou, com seu axioma transformando-se numa surpreendente equação: “a esperança é tão grande que, se a dor for igual à esperança, a esperança é já maior do que a dor”.

 

Celebremos, assim, a esperança no desespero, sempre maior do que a dor. E ouçamos devagar a partícula 4, celebrando os cândidos e cruéis  animais que um dia foram emendados, em presença do Grande Textuador desconhecido:

 

 

 

Uma esperança — Foto de Mara Vanesssa

 

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A luta cotidiana pelo fulgor: cândidos e crueis animais

O pastor de cabras no Monte Líbano — Foto de Rosi Chraim

 

“Não raras vezes meu animal doméstico toma-me por outro animal”– ela escreve. “Ele me procura e, com um sopro de júbilo, salta para onde me deito.”

 

Iniciamos no dia 11 de setembro, agora na modalidade do semestre suplementar, a disciplina-oficina “Mulheres em trânsito”, na UFBA. Lá estavam eles em bando, elas em bando. Estou entre elas. Sou um deles.

 

“Se vim para acompanhar a voz,

irei procurá-la em qualquer lugar que fale,

montanha,

campo raso,

praça de cidade,

prega do céu _______ conhecer o Drama-Poesia desta arte.”

 

Sigamos com ela, a voz, no canto da Partícula 3:

 

 

As cabras no Monte Líbano — Foto de Rosi Chraim

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A luta cotidiana pelo fulgor: cândidos e cruéis animais

Nina — Foto de Cristina Fernandes

 

“Como lidei com a área depressiva”, ela escreve.  E escuto aqui que ela se refere ao desejo de desenhar uma continuidade para o livro Amigo e Amiga. Mas logo ela compreendeu que não se deixa assim um curso de silêncio.

 

Eis, então, um modo de prosseguir : a introspecção da casa. Foi assim que passamos de uma Cas’a’screver a uma Casa Tombada. E não houve aí um retrocesso, mas uma ondulação.

 

Escute aqui, na partícula 2 e em seu contexto, na ondulação da voz de Cristina Fernandes, o grão. E a nostalgria à sombra de uma árvore de fruto preferido:

 

 

Lete e Ginger — Foto de Jorge Minella, enviada por Mãiara Knïs

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A luta cotidiana pelo fulgor: os cantores de leitura

 

Nuvem — Foto de Paulinho Assunção

Iniciamos, hoje, a série Os Cantores de Leitura, com as partículas, seu duplo e seu contexto, na voz de Cristina Fernandes. Este livro, o último de Maria Gabriela Llansol, publicado pouco antes de sua morte, tem a força de uma anunciação. Ali surgem novas figuras e muitas delas são as de “cândidos e cruéis animais”.

 

Mas sua força maior, como antes já se desenhava na textualidade llansoliana, é ainda a do canto e da legência. Também por isso esse canto, agora na voz de Cristina Fernandes, faz sua intervenção bárbara, neste fio de água do texto, e se junta ao canto de Janaína de Paula, aquela que lê com as plantas.

 

Passamos a ler não só com as plantas, mas também ao lado dos cândidos e cruéis animais, lembrando que foram os olhos verdes de um deles — seus olhos fendidos de felídeo — que, ao cruzarem com os dela,

 

“fizeram sublinhar a noite escura                                                                                onde mal se distinguia quem  viera na espessa noite, na espessa esperança”.

 

Vejamos onde nos levam a escrita e a escuta de Os Cantores de Leitura,  em sua partícula 1 e seu duplo:

 

 

Nuvem — Foto de Paulinho Assunção

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A luta cotidiana pelo fulgor: lendo com as plantas

Raízes sedentas de vida — Foto de Ana Paula Mira

 

“É do fundo do abismo que falo e vejo o fundo do abismo” — escreveu Paul Éluard. “Seria preciso mãos novas, mãos íntegras na sua tarefa”. “Vejo, cada vez melhor, a forma humana, ainda sem rosto”. 

 

Em outro momento, Maria Gabriela Llansol teria escrito: “Eu ainda não nasci. E  é essa a parte mais íntima e mais comovente desta linguagem”.

 

“Somos a frescura vindoura, a primeira noite de repouso que se abrirá sobre um rosto”, ele responderia, enquanto as raízes, sedentas de vida, anunciariam que a flor flora e ainda vai florir.

 

Ouça, nas vozes de Janaína e Sylvie, o apelo “Do fundo do abismo” de Éluard:

https://open.spotify.com/episode/5PayVIj0lafOE8WKJq8uy2

 

A flor antes de se abrir — Foto de Julia Branco

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A luta cotidiana pelo fulgor: lendo com as plantas

Planta da Amizade — Edinage Maria Carneiro

 

“Senti amor por uma página” — ela escreve — ao traduzir Paul Éluard. Porque ele e ela não podiam deixar de manifestar a pujança de seus corpos — a parte intrínseca da vida.

 

Mas a ausência — l’absence — é também capaz de trazer, na força do poema, a presença de um corp’a’screver. E,  no efêmero do canto, sua eternidade. 

 

Como estas plantas de Edinage — a amizade — e de Sônia — a flor branca que falta no ramo lilás. Um ramo — anagrama perfeito de amor — é acrescentado à folhagem. “Quem precisa que um ramo entre na sua vida?”– Llansol indaga. 

 

Escute, aqui, “A ausência”,  “L’Absense”, nas vozes de Janaína e Sylvie :

 

 

 

A flor branca — Sônia Magalhães

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A luta cotidiana pelo fulgor: lendo com as plantas

Foto de Márcio Ramos Junqueira

 

Se uma folha de água cair à própria água, é possível que, por um momento, possamos vislumbrar a fonte de escrita por onde escorre o texto de Llansol. É quando o sexo de ler encontra, no poema, “apenas um pé de libido”.

 

“Vi-o plantar num campo pequenos pés de libido”– ela escreve. Eles cresceriam, mais tarde, ao sabor das circunstâncias. O poema é a própria semente dessa espécie vegetal tão rara.

 

Como aqui, nos rebentos trazidos pelas mãos de Márcio e Cristina, prenhes da primavera. Como agora, nas vozes, de Janaína e Sylvie, que nos fazem correr lágrimas pelas mãos.

 

Foto de Cristina Fernandes

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A luta cotidiana pelo fulgor: lendo com as plantas

Foto de Ana Alvarenga

 

“Nomeio-lhe

a tília, a erva cidreira, a lucialima, o pessegueiro de jardim, o loureiro, sementeira das plantas aromáticas da Provença, o linho, a salsa, os coentros, a arruda, meio da terra transformada por bancos de pedras circulares ________ o alecrim, a sálvia, as chagas, o rosmaninho.

Leio alto para as plantas, avisando-as de que, segundo Hippon, as sementes subtis produzem fêmeas e que, das mais espessas, nascem os machos; há sementes fechadas e abertas”. (Llansol, Amar um cão)

 

Assim, as sementes sutis enviadas por Ana Alvarenga encontram-se com o poema de Pierre Louys, traduzido por Llansol, nas vozes de Janaína de Paula e Sylvie Debs.  São sementes fechadas, que se abrem ao sol de seu nome. 

 

Escute, aqui, mais um episódio de “Intervenções Bárbaras: comunidade de Tradução”:

 

 

Foto de Ana Alvarenga

 

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A luta cotidiana pelo fulgor: lendo com as plantas

O ramo lilás — foto de Maria José Vargas Boaventura

 

Entre o ramo lilás, que chega de Tiradentes, trazendo-nos de volta a abertura da “Carta ao legente”, de Maria Gabriela Llansol, e a rosa do deserto, que vem de Salvador, lembrando-nos que “grandes são os desertos e tudo é deserto”, o sol se abre sobre as folhas, ajudando a produzir clorofila, a primeira matéria do poema. 

 

E o canto de Hölderlin, nas vozes de Janaína de Paula e Cristina Fernandes, ensina, “No adorável azul”, que, se grandes são os desertos, a tarefa do poeta é sempre um pouco mais longa que sua vida, pois trata-se de “ir mais além”.

 

Ouçamos, na voz dessas duas cantoras de leitura, este texto-testemunho que, em seu mais além, propõe: “é poeticamente que o homem habita esta terra”.

 

 

A rosa do deserto — Foto de Márcio Muniz

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