A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Foto de Fernanda Teles.

 

Quadragésimo dia

 

Foi por uma janela que a vista vazou. E pela delicadeza que o poeta visionário perdeu sua vida.

E por essa perda nos rendeu o poema.

 

– Suas cartas. Primeiro a dele… depois…

– Nela escreveu três palavras: adolescência, leitura, feminino de ninguém, as que lhe restaram…

– E a sequência?

– Assim: o início, o meio, os fins.

 

Foto de Fernanda Teles.

 

– A adolescência de um poeta, sua forma de pensar o poema, a vida, o direito à literatura.

– E o das mulheres à escrita, como ela disse, sob um teto todo seu, com bolsos vazios.

– De pedras, não de poemas…

– A escrita de um único rebelde… o que se perde…

– E o que se perde?

– Repito: o poema!

– O único que, contra as ondas, navega, ébrio… de visão. O poema! – repetiu contundente.

– Eu já estou perdida – acrescentou ela – e escrevo.

 

Foto de Fernanda Teles.

 

– Cuja forma nos inunda de visão…

– Ainda se grades cortam o caminho da luz. E a carta?

– Esta, a dele: querido rimbaud

– Quer em páginas brancas, quer em amarelas, decantadas, a visão, a luz, as mãos propostas.

– E sua sentença…

 

Foto de Cláudia Itaborahy.

 

– Esta: “O poeta tem a febre de seu tempo. E quer, acima de tudo, abraçá-lo em suas vísceras”.

– Terrível sentença, a primeira…

– Paisagem que ele carrega…

– Uma carta, a que ela enviou: Querido João

 

Foto de Cláudia Itaborahy.

 

– Querida leitura, teu nome é combate… também encontro… em que a voz recorda os silêncios. A outra sentença…

 

“Paisagem que nos carrega: o desconhecido, talvez de ninguém, que nos encara de frente”.

 

… em 11 de outubro de 2019,

por Jonas Samudio.

 

Foto de Fernanda Teles.

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A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Foto de Gustavo Assis

 

Trigésimo nono dia

 

“Leva-nos em teus braços, pássaro liberdade” – ela, Clarice Lispector, poderia ter dito. Mas, como seu lírio está cravado no peito, não o disse. 

“Escrevo para não escrever, quisera escrever em branco, ou pintar para não pintar, pintar em branco”. Suas palavras ecoaram nas paredes da sala branca e de uma entrada. A partir da entrada, ecoaram.

Nem barata, nem sua hora.

Da entrada, um sopro. E duas irmãs que não se conheceram.

Tão femininas, tão desiguais.

 

Foto de Gustavo de Assis.

 

A liberdade de ninguém, elas leram, entre sorrisos, para ele, confidenciando:

 

– Eu te dou minha liberdade, disse a do lírio. 

 

Lírio cravado no peito em seu nome.

 

– Eu te dou o meu ninguém, continuou a do sol.

 

Sol em seu nome.

 

– E a pulsão: veia no pulso, o título que, cedo, perdera no “a”. E o retivera em suas mãos.

 

Foto de Gustavo Assis.

 

– Explique-se nesta perda…

– A veia no pulso: lido rápido, daria uma imagem cereal. 

– E o que almejou?

– Almejei alcançar o ser real. O it, da água viva, da paixão segunda.

– Ou terceira, do fora…

– Fora da sala branca?

– Sitiada sala em branco. E nas paredes?

– Desenhei um cavalo que trota livre… e acrescentei, com uma frase: “quisera livre correr fogoso”.

 

Foto de Gustavo Assis.

 

– Fogoso… Palavra de liberdade… O que não se reflete de uma escrita…

– O fogo que queima além de sua mão. 

– Um lírio cravado no peito, no peito do corpo.

– Via crucis?

– Talvez, se, nela, enxergar menos a cruz e mais a via…

– … Travessia…

 

Foto de Gustavo Assis.

 

– … Travessia, um certo fracasso… o que não se lê, multiplicado em ilegível soma, subtração…

– Ou fragmentos? Um fólio, um sopro… Anotações…

– No meu peito, o lírio cravado de fora… Quisera manter o fluxo que aqui não cabe…

– E como o pintaria?

– Assim: Clarice Lispector e a liberdade de ninguém

– Sustentando, na ponta dos dedos, estas imagens…

– … Imagens manuscritas…

– Pois ela as pintou quase estrelas, entremeadas de clara luz. 

 

Foto de Gustavo Assis.

 

– E você, como a transcreveu?

 

Nas paredes da sala, um certo secreto silêncio de ninguém.

 

04 de outubro de 2019

por Jonas Samudio.

 

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A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Foto de Fernanda Teles.

 

Trigésimo oitavo dia

 

“Estou a acrescentar-lhe um ramo florido”, escreveu Llansol, na Carta ao legente; e, com isso, escreve também o ramo lilás: que o dom vem acrescer àquilo que, testemunhado pelo corpo, falta.

 

Há o masculino, há o feminino, ela disse, e acrescentou: há o seu além. Escrito nas páginas desse encontro, as que nos veem do alto.

 

Foto de Fernanda Teles.

 

E em suas penas.

“Há um feminino de ninguém”: sob essas palavras, o fulgor de uma tarde de sexta, um tanto fria, um tanto quente, logo após a chuva benfazeja. E vertiginosa, como as palavras que insistem em dizer: não existe; mas ex-siste.

Antígona, Lilith e Llansol testemunham: “é escrita por:_____”.

 

Foto de Fernanda Teles.

 

– Um passo a mais em direção ao que, do real, talvez, nalgum momento, se escreva.

– Então, se escreve?

– Há um que se escreve. Como?

– Assim, há sim: Há um, Há do Um, H(aí)do Um, Há aí algo do Um, para início de conversa – acrescentou.

E era um ramo.

 

Foto de Fernanda Telles.

 

– E do Um, do primeiro esse, aos que o seguem, até o que está todo só.

– Absoluto? Palavra perigosa.

– Talvez. Mas, já que escrever não é sem perigo, posso dizer: ab-solutus, pode ser entendido como perfeito e acabado, mas também solto, desligado, para fora, na sua vizinhança.

– Como ela o escreveria!?

– Há um feminino de ninguém absolutamente só.

– Não existe, mas há, e é escrita por ____.

 

Foto de Fernanda Tels.

 

E nos voltamos para ela, a mulher que escreveu.

E para elas, figuras que ela escreveu: o “há”, “deus”, desdobrados em “a-deus”, em “há deus”: uma tese defendida neste 26 de setembro, por Jonas Samudio, acompanhada por Lucia Castello Branco, Vania Baeta, Maria Esther Maciel, Jacyntho Lins Brandão, Erick Gontijo, e por amigos, e pelo texto.

E o amor.

E, aqui, o texto de apresentação a se escrever: para o há deus, Jonas Samudio.

O vigor e a doçura, no testemunho de algumas imagens.

E o que restou escrito, desse dia: não existe, mas é excrita por ____.

 

… por Jonas Samudio.

 

 

 

Fotos de C.Rafael Pinto.

 

 

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A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Foto de Claudia Itaborahy.

 

Trigésimo sétimo dia

 

“É uma carta”, ela disse, e estava escrita desde antes. Desde o tempo em que as cartas eram as únicas coisas que ela escrevia. As que conseguia, disse ainda, as que ainda não terminaram de chegar.

“Estão sempre chegando”, foi a frase que ela nos deu, “talvez, não cheguem a terminar de chegar”, completou, “isso, o que eu li”. 

Diante do mar, ela abria a carta, noutra forma.

 

Foto de Lucia Castello Branco

 

– Aqui, diante do mar, o som do mar me impede de ouvir tudo… então, ouço…

– Tudo?

– … não tudo, a carta. 

– Ela há de nos chegar, a carta?

– Sim, ao final, num livro de três mulheres.

– Seus nomes, Lucia…

– … Janaina…

– … Vania… a que lê.

 

Foto de Fernanda Telles.

 

E assim  teremos a carta que ela nos leu, ao lado de outros textos, sob um nome: Feminino de ninguém: breves ensaios de psicanálise literária. Um livro, destinado ao mundo, marcado por um selo: Cas’a edições.

“Um selo”, ela ainda leu, “um sê-lo”, ela escreveu sobre o branco. “Que esses grafos não nos assustem… depois do S, o um, vem o dois, e, entre eles, o que… mais uma tautologia…”

 

Foto de Fernanda Telles.

 

– E a metáfora?

– É possível tomar esse caminho, assim como é possível tomar outros. O texto dela…

– Ele pede, como que exige…

– Sim, ele pede outro caminho…

– Aquele…

– … em que uma mão é apenas uma mão…

 

Foto de Cláudia Itaborahy.

 

– Assim como, por vez, um corpo é só um corpo.

– E isso não é uma coisa simples. Veja, compulsão…

– … expulsão…

– … impulsão…

– … tudo sai de pulso, o que se conta, o sol, desde as altas folhas até a raiz da mão…

– … até se de leque estamos falando…

 

Foto de Fernanda Telles.

 

A leitura segue seu curso, até às margens dos mais de cem nomes do poeta. “De um lado, a proliferação; de outro, a subtração, e a pessoa que ganha um corpo, um sexo… vira poema”.

– Poema com ninguém dentro?

– Com o ninguém, no feminino, ouso…

– E depois da pessoa, do p…

– Vem o onto…

 

Foto de Lucia Castello Branco.

 

– Ponto.

Azul sobre o mar, safira em safira espelhada.

 

Continua.

 

por Jonas Samudio.

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A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Cognitio – Foto de Fernanda Telles

 

Num quadro em branco, numa sala não toda vazia, três palavras borradas: cognitio dei experimentalis – a afirmação, a negação, o erotismo, deus, o feminino, a paixão de um não todo pensamento que se padece no corpo.

Algumas palavras sobre a mística. 

 

Trigésimo sexto dia

 

O fio de água em curso – Foto de Fernanda Telles

 

Como se todas as palavras delas, as místicas, pudessem vir a cair ali – da água da fonte à concha de suas mãos -, ele começou aquela aula de uma sexta-feira 13 de setembro de 2019.

 

Mas, de alguma maneira, outras palavras delas já lhe haviam sido trazidas por uma outra mulher, que ali estava para oferecer, num gesto de partilha, este novo ambo: Georges Bataille e Marguerite Duras. E assim se iniciava mais um dia em luta cotidiana pelo fulgor de um feminino de ninguém: com as letras que rolavam, uma a uma, da palavra ‘sexo’.

 

O sexo de ler – Foto de Fernanda Telles

 

Talvez Maria Gabriela Llansol tivesse preferido dizer ‘luar libidinal’. Ou, por algumas letras, tenha proposto o deslizamento de ‘sexo’ para ‘texto’. Mas o fato é que aquele rapaz raro não se furtava a ver o sexo onde elas haviam escrito tantas vezes a palavra Deus. E os dois, acompanhados por jovens perplexos, mas também por Santa Teresa de Ávila, São João da Cruz, Mestre Eckhart, Freud, Lacan, Bataille, Duras  e Llansol, atravessaram aquela tarde quente de setembro.

 

Jovens perplexos – Foto de Fernanda Telles

 

Foi assim que pude escutar, do lado de cá, em surpreendente sobreimpressão, a aula de Jonas Samudio, introduzida por Maria Helena Libório, em nosso curso de silêncio sobre o feminino de ninguém. E, porque aqui havia a brisa do mar, pude respirar com algum alívio, quando percebia que o fôlego desses dois era de tirar o ar.

 

Amigo e amiga – Foto de Fernanda Telles

 

Do lado de cá, no exercício da notatio, o caderno registrou a força de existir dessa aula em que restou, para todos nós, a afirmação de um ‘mais além’. E o ‘nãotodo’, sutilmente, se construiu como método, ali onde tudo poderia acabar no todo.

 

A última palavra de Freud – Foto de Lucia Castello Branco

 

Leiam, com silêncio à volta, o texto de Jonas Samudio que ali se reescreveu: deus, palavra

Ao fundo, ressoam as palavras de Maria Gabriela Llansol: “Não voltaria ao tempo das bruxas, como jamais regressaria ao gênero feminino. Nem seduzir, nem envenenar, nem alucinar”(LLANSOL, MGab. O senhor de Herbais, p. 29).

O dia em que psicografei Jonas Samudio

 

em 15 de setembro de 2019,

por Lucia Castello Branco.

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A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Foto de Cláudia Itaborahy

 

Trigésimo quinto dia

 

Foi com Clarice, clarão sitiado, e com Sérgio Antônio Silva que passeamos, em busca de um feminino de ninguém, pelas paisagens de gráficas e editoriais. E pelas imagens que emergem de capas e que se projetam, no fio da navalha, entre o mercado e a experiência literária.

Entre tantos nomes, persiste ela, a escrita, filha da navalha: de Ramos e algodoais em Madalenas de olhares ao longe, de mestre Matias e seus tipos perdidos e encontrados, da hora de Clarice em sua estrela, talvez a letra do pequeno cão.

E os livros re-ditados, um a um, de Maria Inês, de Ruth, de Carolina, de ninguém. 

 

Foto de Cláudia Itaborahy

 

Foto de Cláudia Itaborahy

 

Há um recurso, Madalena

 

Não pude assistir, nem por skype, à aula do meu querido Sérgio Antônio Silva. Nesse mesmo horário, havia a mesa-redonda com Eneida Maria de Souza, no Instituto de Letras da UFBA, intitulada “Onde é que os brancos se encaixam?”. Esse título faz referência direta ao pronunciamento de 1959, “Where do Whites fit in?, da escritora sul africana Nadine Gordimer. Já aí, no gesto tradutório do professor e tradutor Anderson Bastos Martins, que dividia a mesa com Eneida, havia um pequeno passo de sentido, por ele desenvolvido em sua palestra, quando explicou porque preferiu ao verbo “caber” o verbo “encaixar”, referindo-se às caixas que, talvez por “mal de arquivo”,  servem de modelo aos nossos métodos de pesquisa.

 

Não pude ver a aula de Sérgio, que foi dos meus alunos mais brilhantes, desde os seus 19 anos, na graduação, depois no mestrado e ainda no doutorado. E que depois enveredou pela área do design, num trabalho firme e dedicado à questão das edições de livros, que ele tem desenvolvido na UEMG, como professor. Disse a ele que precisava escutar, naquela tarde, minha querida professora, Eneida, assim como ele tinha atendido ao convite de sua professora para estar ali. Assim se constroem, na universidade, as comunidades de pensamento e a linhagem que se define por vários gestos descontínuos, mas por uma certa continuidade de problemáticas. E por isso pudemos felizmente estar juntos, no litoral de um encontro Minas-Bahia, mesmo que irremediavelmente separados pelo mar.

 

Soube que a aula de Sérgio também enfatizou, dentre os aspectos literários do texto de Clarice e do percurso que propusemos da escrita feminina ao feminino de ninguém, um certo caminho editorial dos livros de Clarice no Brasil. E as belas fotos de Claudia Itaborahy, que generosamente tem feito o registro dessas aulas, bem o demonstram. Ali estão os olhos de Clarice, na foto de capa da edição comemorativa dos 40 anos de A hora da estrela (Rocco, 2017), a ver tudo o que se passa aqui embaixo, em sobreimpressão.

 

De onde está, Clarice talvez tenha sofrido bastante com a violência de um de seus biógrafos, Benjamin Moser, que, se ajudou a levar seus textos mais longe, pelo alcance que a língua inglesa tem no mundo, ajudou também a atrasar, em alguns bons anos, a leitura de sua obra. A violência da interpretação, nessa biografia, me fez interromper a leitura, no momento em que Moser quis explicar alguns fatos literários, na obra de Clarice, a partir do suposto estupro que sua mãe haveria sofrido. Não há biografismo que justifique tal gesto, assim como não há psicanálise (mesmo a mais selvagem) que justifique tal interpretação.

 

Assim interrompi a leitura e perdi o livro, sem nunca mais ter conseguido folheá-lo, quando ele surgia, como uma aparição, em alguma estante de livraria por onde meus olhos pousavam, distraídos. Nunca mais tive que conviver com a escrita do biógrafo, até o momento em que o Espaço Llansol entregou a esse senhor o prefácio da primeira trilogia da autora traduzida para o inglês. Mesmo a contragosto, mas ao mesmo tempo contente por saber que Llansol finalmente teria parte de sua obra em maior circulação no mundo, fui ler o prefácio. E nunca mais me esqueci que ele mais ou menos assim se iniciava: “Todos nestes livros estão mortos”. Imediatamente deduzi que aquele sujeito nunca havia lido a obra de Llansol, nunca havia lido que uma de suas figuras centrais era justamente “o vivo” e nunca havia refletido sobre uma de suas perguntas fundamentais: “Como fazer de nós vivos no meio do vivo?”

 

Senti vergonha por ela, por seus legentes, e fiquei aguardando do EL alguma retratação. A essas alturas, o nome do biógrafo já andava bastante desacreditado no Brasil e não era possível que os dirigentes do EL não o soubessem. Mas parece que isso não vinha ao caso. Tratava-se de um outro caminho o que eles estavam buscando, aquele mesmo que Maurice Blanchot critica no conhecido ensaio intitulado “O poder e a glória”. E foi assim que saudaram com entusiasmo o prefácio, em post repetidos e repetitivos do blog do Espaço Llansol. Pergunto-me se Clarice, com seus enormes olhos verdes, assistiu a mais esta cena patética.

 

Há quase um mês, o ensaio que se segue, de Magdalena Edwards, me chegou às mãos. Eu estava no avião, prestes a viajar de Salvador para BH, quando li, em inglês, os três primeiros parágrafos. E meu coração disparou. Interrompi a leitura, com medo de que o avião caísse. Fui terminar de lê-lo em Belo Horizonte (em terra firme?), temendo ainda que a lama barrenta fizesse o mundo ruir.

 

Aqui está, em duas versões (a original e a versão em português, na excelente tradução de Leandro Salgueirinho), o importante ensaio de Magdalena Edwards, a quem o destino me uniu, há pouco menos de um mês, por laços de letra que marcam a continuidade de uma problemática. Leiam com seus próprios olhos, mas leiam também com os enormes olhos verdes de Clarice. Nesse ensaio, para além da lama que rola no chamado mercado editorial da tradução, há sutilezas que só uma legente amorosa poderia perceber. Uma delas está contida, como uma “semente semântica de mostarda”, na expressão e na ideia de  “comunidades de tradução”. A elas acrescentemos, à maneira de Llansol, o “nicho frágil de escrita comum”, em que reúnem-se também as comunidades escrita e de leitura.

 

Na celebração desse encontro, e em sobreimpressão com a aula de Sérgio Antônio Silva, seguem-se as duas versões do ensaio.  E as palavras de Gilberto Gil, numa singela canção, que assim se escreveu: “Entra em beco, sai em beco, há um recurso, Madalena”. O recurso, neste caso, reside na textualidade que Llansol nos legou, em O livro das comunidades, e na figura que o ensaio de Magdalena Edwards nos oferece, com firme delicadeza: “comunidades de tradução”.

 

Para a tradutora violentada, resta-me dizer, com Llansol, que “não devemos lamentar que os encontros não se deem”. Mas digo também, com alegria, que devemos celebrar quando os encontros se dão. Porque eles são raros e vão durar.

 

Lucia Castello Branco.

 

Magdalena Edwards:

Benjamin Moser and the Smallest Woman in the World: https://lareviewofbooks.org/article/benjamin-moser-and-the-smallest-woman-in-the-world/

Benjamin Moser e a menor mulher do mundo (trad. de Leandro Salgueirinho): http://rascunho.com.br/benjamin-moser-e-a-menor-mulher-do-mundo/

 

Foto de Fernanda Teles

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A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Foto de Cláudia Itaborahy

 

Trigésimo quarto dia

 

Com a luz de Escher entre as mãos: pássaros, peixes, répteis, seres e cores em mescla profunda. Na superfície do verbo.

Um curso, um percurso com o feminino. De ninguém.

 

Foto de Cláudia Itaborahy

 

Com uma mulher, vestido branco a entoar, feminina. Talvez, no começo, tenha sido lalangue; depois, a loucura e a coisa, com a mulher escrita e a que fez um homem atravessar oceanos.

E o de ninguém lá, candente.

 

Foto de Cláudia Itaborahy

 

Um homem que falava de deus e do gozo d’Ⱥ mulher, vestido de cores exóticas e de laços de excesso.

No livro debruçado sobre a mesa, as paixões do senhor de Viena e as tentativas de dizer o que ele não disse – com frases pré-fáceis de pouca luz; por vezes, nos vãos, aqui, se fazendo noite.

 

Foto de Cláudia Itaborahy

 

Mais escuro que claro. Um livro sem objeto, revoando ao redor de Lillian, Virginia, Simone, Maura, Lou, Anaïs, Florbela. Diários, tão cotidianos, fulgores. E não.

Num raio rubro sobre o lápis, “eu sou mulher”, cantou a cantora dos quatro quadros brancos.

 

Foto de Cláudia Itaborahy

 

Enquanto a outra, a que canta poemas, dizia: “foi num jardim, a primeira vez que encontrei o feminino de ninguém; então, esse nome ela não tinha, tampouco eu, e ela achava-o perigoso; e pensei: ‘se essa loucura, eu não’…”.

 

Foto de Fernanda Teles

 

Depois, quase um mês, numa praia.

E, há 27 anos, continua.

Feminino: não, nunca, não-todo. Janela semicerrada.

 

Foto de Cláudia Itaborahy

 

Entre as mãos, os rostos, as cartas, os papeis. Uma autografia.

A escrita: palavra feminina como eu, MGab, ninguém.

Das paisagens do mar duradouro. 

 

por Jonas Samudio, em 01 set. 2019.

 

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