A luta cotidiana pelo fulgor: sob a luz do luar libidinal

Foto de Janaina de Paula

Quinquagésimo sétimo dia

Para o fio de água, uma corrente. Ela, a da qualidade das águas, sabe que transpor é também uma forma de perseverar em seu ser, entregar-se à travessia. Por isso, banhar-se no luar libidinal pode ser oferecer-se, no dia seguinte, à luz da manhã e à corredeira das fontes. Como nestes fragmentos que se seguem, enviados por Janaína de Paula, filha das águas doces:

Mas sabemos que passar a vida que nos resta a tentar não morrer não basta. O luar libidinal nos pede um pouco mais: é preciso sonhar o traçado de uma biografia em que seja possível celebrar o milagre dos momentos de fulgor. Como este, em que a clorofila — primeira matéria do poema — realiza a transposição do verde extremo das folhas no prenúncio de uma flor:

Foto de Janaina de Paula

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A luta cotidiana pelo fulgor: sob a luz do luar libidinal

Foto André Luiz Oliveira

 

Quinquagésimo sexto dia

O bando veio acompanhando André Luiz Oliveira, cineasta baiano que teve a mostra de alguns de seus filmes no 14 VAC — Verão Arte Contemporânea, de 5 a 10 de fevereiro, em Belo Horizonte. Eram almas alegres, que chegavam para re-conhecer a cidade e assistir à estreia, em BH, de  “O outro lado da memória”, dentre outras atrações desse festival.

Estavam, assim,  em festa. E viviam, como crianças, a experiência de ter voltado no tempo. Vinham do mar e do outro lado da memória, trazendo com eles uma espécie de branda luz libidinal. Talvez ainda não conhecessem o sol de Llansol, nem o devir de seu nome, mas sabiam, por experiência própria, o que é respirar florescentemente.

Pode-se dizer que fizeram, nesta cidade, uma experiência das casas e suas fachadas. E assim pernoitaram, em pares, nas habitações sem residentes onde sentiam vontade de ficar. Nelas encontraram, em estantes abarrotadas, os livros de Llansol, criteriosamente enfileirados. E, em casas que já os esperavam com suas cortinas transparentes, descobriram o sutil dom de sombrear. Assim:

Fragmento enviado por Jonas Samudio

Sobre a passagem do bando, leia  A qualidade líquida nas vértebras, de Lucia C Branco

Fotos de Tina Campos

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A luta cotidiana pelo fulgor: sob a luz do luar libidinal

Soberano é o corpo nas suas transparências – Foto de Lucia Castello Branco.

 

 

Quinquagésimo quinto dia

 

 

Quando a noite desce, ele se adensa.

 

Um corpo, corpo de afetos, diriam Llansol e Spinoza, corpos de letras, a literatura, ainda o pensamento, um ponto intermédio entre a leitura e a libido; a escrita, talvez!?, o somático, o psíquico.

 

O acontecimento de um contorno. Suas confidências, a carne do poema que demanda pelo nome de corpo.

 

Ainda as transparências, ainda os lugares.

 

Como nestes fragmentos de textos de Maria Gabriela Llansol, recolhidos e enviados por Tatiane Costa.

 

 

 

 

Há lugares que já alcançamos – Foto de Tatiana Costa.

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A luta cotidiana pelo fulgor: sob a luz do luar libidinal

Acervo de Aymés Beatriz Buys (foto de Luís Fernando Balby)

 

Quinquagésimo quarto dia

 

No dia da rainha das águas, aquela que estrada com o sol.

Entre a nudez e o erotismo, a escrita. Sem dualismos.

Entre a força de continuar e o desespero de ser iniciado nos mistérios do libidinal, e ainda sem dualidade, o texto diz-nos: escrever, não se estilhaçar, ser corpo vivo em solidão, vestir-se de ar:

 

“Escrevo estas linhas para respirar, sair da janela esquemática desta casa, de que sou o jardim, mas onde aquele rapaz esquerdino deixou o cheiro, a sensação visível da rotação para o seu lado protegido e que, a mim, me põe a descoberto

aguentar-me na solidão de um corpo vivo humano _________ com o xaile da mente sobre o pensamento, em vez de pétalas nos olhos

escrever sem ver
não me estilhaçar

escrever diretamente à máquina, em vez de me comprazer a escrever à mão ouvi-lo pedir que morra
e ter a certeza de que lho negarei
porque

eu perdi o medo das palavras, vivo com elas, e constituo o meu corpo vivo e significante através delas; peguei no livro de Bataille (“Vou cindir-te”, disse-lhe, “rapaz esquerdino”)

(Maria Gabriela Llansol. O sonho de que temos a linguagem).

 

Escrever algumas linhas, não estilhaçar, mas ajuntar e oferecer: corpo vivo humano sem medo. “Cindir-te”, fragmentar o texto que se recebe; talvez, dos livros de Georges Bataille, o rapaz esquerdino, pedindo-lhe a afirmação da vida! até à morte. Como nesta recolha de seus fragmentos, feita e enviada por Luís Fernando Balby: Recortes Bataille

 

Foto de Luís Fernando Balby.

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A luta cotidiana pelo fulgor: sob a luz do luar libidinal

foto de Cinara de Araújo

Quinquagésimo terceiro dia

“Um voo de pássaro no céu, um instante depois que ele passou, não tem rastro nenhum.” Estas palavras de Aylton Krenak, pronunciadas em entrevista recentemente publicada, nos servem aqui para pensar nas dimensões do efêmero e do eterno que as palavras podem carregar. Pois há o voo do pássaro, mas há também a pássara poesia. E ela, talvez, possa durar um pouco mais que um instante, na tentativa de nos fazer adiar o fim do mundo. Demorar.

É o que podemos ler hoje, nestas palavras de Llansol, que restam nas palavras de Cinara. Porque é possível que uma palavra avance entre os canteiros. E que o sonho — o de adiar o fim do mundo, por exemplo — carregue um som que seja também o de sopro, um sopro de vida. Como um dia a libido, o luar, o erotismo, a sensualidade puderam ganhar outra forma de corpo que deixasse um rastro no céu: a luz do luar libidinal.

Leia, no rastro de um fio de água, as palavras delas, no texto de Cinara de Araújo:

biografema patxohã

fotos de Cinara de Araújo

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A luta cotidiana pelo fulgor: sob a luz do luar libidinal

Sob a luz do luar libidinal I — Foto de Lucia Castello Branco

Quinquagésimo segundo dia

Iniciamos hoje, neste janeiro de 2020, como parte de nossa luta cotidiana pelo fulgor, a postagem de fragmentos llansolianos (ou  que podem ser aproximados à textualidade llansoliana) em sua espessura erótica. Ou, como ela mesma formulou, em sua qualidade de “luar libidinal”.

Porque, ao lado de uma poética, seu texto constrói também uma erótica. Pensá-la à luz da lua, ou sob a luz do luar libidinal, permite-nos não só evocar, aqui, a noção freudiana de libido como uma energia que é da ordem do sexual, mas também evocar a noção llansoliana de paisagem, que é por ela concebida como um terceiro sexo, tão complexo quanto o do homem e o da mulher.

Convidamos os legentes, então, a lerem devagar e a enviarem ao nosso fio de água  algumas passagens desse e de outros textos que jamais desconsideraram que “para o poema, é inconcebível não haver um corpo humano que o não suporte”.  Como esta passagem,  de Onde vais, Drama-Poesia, que se segue:

 

(Fragmento enviado por Lucia Castello Branco)

Sob a luz do luar libidinal II — Foto de Lucia Castello Branco

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A luta cotidiana pelo fulgor: intervenções bárbaras

 

Quinquagésimo primeiro dia

Imagem1- SergioFrase de manifesto usada na performance Tipoema: movimento 3.

Procurando por uma nova barbárie que não tenha vergonha de seu nome, encontramos, adiante, a poesia. Esta, que constrói o mundo bárbaro mais além da barbárie, na sutileza, na delicadeza, ou mesmo na dureza da “dura verdade das coisas postas”, é também aquela marcada pela materialidade da letra, pelos “estilhaços inúteis” em que se constituem os grafismos, pela arte de talhar o poema como pedra, como cantaria. Eis a arte da tipografia, onde Sérgio Antônio Silva vai localizar a poesia de três mineiros: Afonso Ávila, Guilherme Mansur, Sebastião Nunes.

A estes, para quem um pingo é letra, Maria Gabriela Llansol,  que sempre atribuiu especial valor aos elementos gráficos em seu texto, teria dito: 

“Para quê ser brusco com a imagem? Por
que a tomas, em vez de sugerir um pedido de
cavalheiro?

Sim, intervém Dickinson. Por quem tomas a imagem?

Há um poeta que falta aqui, diz, desculpando-se.
Joshua, onde se meteu ele? E, pela primeira vez, a
imagem falou: Sejam meigos com minhas formas.”

(Onde vais, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio D’Água, 2000. P. 29).

É possível sustentarmos o mundo bárbaro sendo meigos com as formas da imagem? Talvez, se é da poesia que se trata. Certamente, se o mundo bárbaro se situa além da barbárie, ou se o mundo bárbaro funda uma barbárie que não tenha mais vergonha de seu nome.

É o que leremos neste texto em luta pelo fulgor, de Sérgio Antônio Silva: Três poetas e uma proeza para um mundo bárbaro. Um texto para ser também escutado com o fundo musical da cantaria que se escreve nas letras azuis.

Imagem2 - SergioImpresso da performance Tipoema: movimento 3.

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