A luta cotidiana pelo fulgor: sutilezas

Foto de Lucia Castello Branco

O estético: o rosto de todos os dias. O sol renasce por entre o nevoeiro que nos cobriu hoje. O  rosto do sol no prato é a iguaria da mesa. Por agora.

A luz é uma coluna de luz antiga que subiu à alta velocidade. Subindo, levou meus olhos para cima. Será que é um gato na manhã um erro, uma troca de uma coisa por outra que faz nascer a tarde noutro lugar? Quem pensa gato o que insinua nesta planície sem animais?

Anos antes, perguntando pela direção do Drama-Poesia, Maria Gabriela Llansol teria escrito:

um dos animais que dependem de mim entrou pela porta entreaberta

e ergueu seus olhos fendidos de felídeo para os meus.

Eram verdes, subitamente,

fizeram sublinhar a noite escura

onde mal se distinguia quem viera na espessa noite, na espessa esperança

(…)

um olhar trocado com alguém que viera, como eu,

da áspera matéria do enigma

e o mundo começou,

legente,                   o mundo está prometido ao Drama-Poesia.”

(Llansol, Onde vais, Drama-Poesia?, p. 10).

Escute, aqui, a Partícula 26 de Os cantores de leitura, na voz de Cristina Fernandes:

Foto de Lucia Castello Branco

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A luta cotidiana pelo fulgor: sutilezas

A outra noite – foto de Mara Vanessa Dutra

Não há pendurado em qualquer prego da casa uma única máscara pendente. Também nós ajustamos as máscaras de esperar.  Onde o invisível no visível nos mostrou essas máscaras? Por que motivo levamos tanto tempo a partir, se sabemos que o gosto estético não tem máscara?

A boneca preta, colocada no alto da estante, com o relógio na barriga, continua a cronometrar o tempo, no galope dos segundos. Mas a substância invisível dos milagres atravessa nossa excessiva e segunda natureza, fazendo-nos indagar se o dia seguinte, aquele que os relógios no galope já anunciam, seria mesmo o dia da ressurreição.

Na noite anterior, havíamos lido, com a condução precisa de Jonas Samudio,  “A Noite Escura” de São João da Cruz. E, poucos dias antes, havíamos assistido à brutalidade de uma biografia sem vida e sem escrita de Maria Gabriela Llansol. Era uma biografia sem futuro, porque sem nenhum atravessamento da noite.

“Dar a vida, não chega”, a árvore parecia querer nos dizer, depois da noite obscura em que um legente verdadeiro arriscava-se a nos ensinar a ler a mística.  “Ressuscitar, sim, é o acorde perfeito”.  Quem éramos nós, afinal? Talvez o tronco da árvore que suporta os tempos, talvez o fruto.

Escute, aqui, na voz de Cristina Fernandes, a partícula 25 de Os cantores de leitura:

Ao pé da árvore – foto de Julia Branco

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A luta cotidiana pelo fulgor: sutilezas

Juliano Pessanha – Foto de Ayanne Sobral.

Depende do olhar. Havendo um plano intermédio entre o que é saudado e o que saúda, tivemos ontem, numa aula aberta da UFBA, o abraço universalmente verdadeiro de Juliano Pessanha. Não sabendo se os animais estão vindo para nós, ou se nós estamos indo para eles, vi que ele tinha agora um cão que o acompanhava, enquanto eu tinha a meu lado uma gatinha bebê, que me mordiscava o calcanhar.

Creio que não chegamos ali a dizer-lhe o quanto aquele abraço nos acalmava, mas pude ler para ele estas palavras de Llansol:

“Há uma história silenciosa dos intensos que, porque necessitados de misericórdia, não impuseram aos seus congêneres as cadeias da explicação, nem miragens para o desejo. Gostaria que sobrevivesse a afirmação que nós somos epifanias do mistério, e mistério que nos nossos balbuciamentos se desenrola.”

Não era um contexto habitual para as anotações no meu caderno. Era um breve encontro intenso: Gabriela, Juliano e nós. Foi este o mais sutil triângulo que vi na minha vida.

Escute, aqui, a partícula 24 de Os cantores de leitura, na voz de Cristina Fernandes:

Abraço universalmente verdadeiro – Foto do acervo particular de Maria Inês de Almeida.

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A luta cotidiana pelo fulgor: sombras

Carta de outono – foto de Maria José Vargas Boaventura.

Sentar à porta da Casa da Saudação, em face deste mistério: coisa de pensamento é uma pérola. Nada a contar, a não ser o volume e o peso da pérola.

Como uma carta de outono, a folha aparece e desaparece no jardim que o pensamento permite. E a chama da vela, aquela que ilumina a noite das terças e das sextas, no sombreado da página do caderno que abriga os poetas e os vagabundos, continua a arder por ela.

Escute aqui, na voz de Cristina Fernandes, a partícula 23 de Os Cantores de Leitura:

Vela a queimar sobre prato verde – foto de Cristina Fernandes.

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A luta cotidiana pelo fulgor: cândidos e cruéis animais

Dorival – Foto de David Assunção

Para poder receber o livro e forrá-lo com um papel vermelho, ajoelhamo-nos à porta da Casa da Reconstituição. Dobramos o papel, cortamo-lo em dois, por um só lado ser necessário. Contentamo-nos, por enquanto, com a seguinte realidade: dobramos os joelhos em face de uma folha de papel aberta.

O que nos rodeia neste momento é o forro do universo e entramos nesta narrativa que entra em nós. Assim sucessivamente, até termos o poder de nos separar e nos unir de novo. Aí começa a leitura do Livro dos Afetos.

Escute, aqui,  na voz de Cristina Fernandes, a partícula 22 de Os cantores de leitura:

Pina – Foto de Lucia Castello Branco

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A luta cotidiana pelo fulgor: sombras

A lua na serra – foto de Maria Fernanda Machado

Que frase hei de escrever para principiar o cofre dos afetos? Sobra o tempo, a visão e o espaço. Só não sobra o tempo que nos falta.

Só tinham que sentar-se e olhar para o horizonte. Estavam sós no prado. E emudeceram. Foi assim que elas optaram com paixão por serem cantoras de leitura.

E O Texto-Catarina continua:

____________e, como eu olhasse para o céu, percebi que o texto aí penetrava, e tanto mais que crescesse independente e livre; compreendi que um certo texto se desligava de um todo texto, e se reconhecia alguém que se fizera Catarina; andorinhas voavam no horizonte, cruzando-se, a Primavera estava a chegar (…)

Aprofundava o desenho em desenho e eu vi como o texto, respeitando a vida humana e desumana,

se inclinava para a pintura e trazia um certo declive ao meu olhar.

                                               (Maria Gabriela Llansol, O Texto-Catarina, p. 40)

Ouça, aqui, a Partícula 21, de Os cantores de leitura, na voz de Cristina Fernandes:

O mar alado com o sol – foto de Lia Krucken.

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É o texto, Gabriela

O texto-Catarina, 2020 (I) – Foto de Jonas Samudio

Para Maria Gabriela Llansol ________ O Texto,
imagem que não se esquece.

3 de março de 2008
3 de março de 2021

O texto-Catarina, 2020 (II) – Foto de Jonas Samudio.

O texto-Catarina, 2020 (III) – Foto de Jonas Samudio.

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A luta cotidiana pelo fulgor: sombras

Casa da Saudação – Foto de Lucia Castello Branco

Amanhã, no mais tardar – domingo — , a Casa da Saudação vai abrir-se.

Eu te saúdo, Casa que já recebeu, assim que ele vier

o grande textuador desconhecido,                  coisa descrita,

e difícil de ser.

Ouça, aqui, a partícula 20 de Os cantores de leitura, na voz de Cristina Fernandes:

Grande textuador desconhecido – Foto de Sylvie Debs

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A luta cotidiana pelo fulgor: sombras

A metamorfose dorme – foto de Lucia Castello Branco

Mandar limpar o céu. Aqui, a mesma emoção de elevação, de expansão de audição que sentimos da última vez. O sol aproxima-se. É a primeira vez que se aproxima, desde que chegamos aqui. E o pensamento __________

Esta é a emoção que se cruzou com aquela:

Onde está o luar vaginal? Onde está o luar fálico? Onde está o texto em que as águas se cruzam e a metamorfose dorme e acorda? Catarina, docemente, põe a mão sobre o peito e diz – Está aqui (Maria Gabriela Llansol, O texto-Catarina, 2020).

Ouça, aqui, a Partícula 19 de Os cantores de leitura:

A metamorfose acorda – foto de Lucia Castello Branco

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A luta cotidiana pelo fulgor: a poética da paisagem

A reunião com o sol – Foto de Tina Campos

A intensidade da terra das primeiras emoções que tivemos lá, na margem do rio, mas que só reconhecemos agora _______ isto é voltar ao primeiro lugar. Há ali um intento de viagem amorosa.

Sentar-se pela primeira vez no primeiro degrau da Casa da Saudação. Entrar finalmente na sala onde haveremos de nos reunir com o sol. Permanecer no primeiro degrau da porta onde haveremos de nos encontrar com as rosas pequenas, hoje transplantadas.

Escute aqui, na voz de Cristina Fernandes, a partícula 18 de Os Cantores de leitura:

rosas meninas – Foto de Maria dos Anjos Moreira

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