Estético convívio

                                      ” Escutar a escuta” — Foto de Camila Morais

Na última terça-feira à noite, dia 18, a Cas’a’screver, em mais um Encontro de Leitura, abriu às portas àqueles que se entregaram à experiência de escuta da leitura proposta por Janaína de Paula e Maraíza Labanca para o texto À escuta, de Jean-Luc Nancy. Ali estivemos, durante mais de três horas, “à beira do sentido”, ou “num sentido de borda e de extremidade”, a ouvir a ressonância.

Restam, da noite, as franjas do sentido, nas palavras de Marguerite Duras, escritas no quadro negro e iluminadas pela lua: “A gente se habitua a ouvir a ressonância. É isso”. E estas que se seguem, de Maraíza Labanca, a fazerem ressoar as palavras de Jean-Luc Nancy, de Janaína de Paula, de Juliano Pessanha, de Maria Gabriela Llansol:  Texto de Maraíza Labanca

                              “A ouvir a ressonância” — foto de Camila Morais

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Sobreimpressões

       Foto do quarto de Bruno Borges, extraída de matéria publicada pelo G1 (internet)

A profusão amarga de sinais

Talvez fosse preciso pensar na escrita como uma glândula que produz secreções que, expulsas do corpo, guardam com ele estranhas relações de intimidade e de extimidade. Talvez fosse preciso pensar na escrita assim, como Maria Gabriela Llansol a vislumbrou:

Era uma vez um animal chamado escrita, que devíamos, obrigatoriamente, encontrar no caminho; dir-se-ia, em primeiro, a matriz de todos os animais; em segundo, a matriz das plantas e, em terceiro, a matriz de todos os seres existentes. Constituído por sinais fugazes, tinha milhares de paisagens, e uma só face, nem viva, nem imortal. Não obstante, o seu encontro com o tempo apaziguara a velocidade aterradora do tempo, esvaindo a arenosa substância da sua imagem.

E talvez fosse preciso ir ainda mais longe, pensando nesse corpo animal da escrita, corpo de uma só face e de milhares de paisagens, como o que guarda a eternidade cifrada nas letras. E esse corpo secretado — espécie de lágrima rara, milagre da pérola na banalidade da ostra –, é também um corpo segregado, separado daquilo que o produziu. Por isso, é possível dizer que o segredo da escrita é ainda menos secreto que as vias de acesso a esse segredo.

Esse mistério nos impacta, ainda hoje, quando nos encontramos com essa “matriz de todos os seres existentes” nas paredes de um quarto, dispensando a presença e mesmo a assinatura do escritor, envolvendo e de alguma forma protegendo sua desaparição. É o que nos ocorre pensar, diante do gesto psicopoético do jovem Bruno Borges, de 24 anos, cuja performance, no limite do corpo, faz coincidir o nascimento de uma criptografia, inscrita nas paredes de seu quarto e em 14 livros cuidadosamente compostos, com seu próprio desaparecimento.

Ao ver a instalação de Bruno como cenário de sua retirada, cuja única presença humana é aquela encarnada pela estátua de Giordano Bruno, a testemunhar o milagre da escrita e o devir de seu nome — a desaparição –, não há como não evocar Llansol e sua “profusão amarga de sinais”:

Sonho com o dia em que a presença que de nós ficará nos textos não será a do nosso nome próprio. Em que os signos de nossa travessia serão destroços de combate, toques de leveza     o que eu esperava ficou, ficou a chave, ficou a porta, ficou a pedra dura ao luar (…)

os homens saem da sua identidade. E o texto arrasta-nos para os lugares da linguagem onde seremos seres de fulgor, indeléveis e diáfanos, última parede iluminada de uma casa que se apagou, numa das avenidas da cidade serrana, onde reina ainda uma profusão amarga de sinais

Aos dois, aqui sobreimpressos, direi: “sou aturdida pela presença de vossa escrita, que me acompanha pelas vertentes e pelas ruas”. E as imagens permanecerão hermeticamente fechadas, até que alguém que as ame com bondade possa, um dia, enfim, abri-las à leitura.

                                                                                                             Lucia Castello Branco

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Companheiros improváveis

   O livro branco de Daisy Turrer — foto de Lucia Castello Branco — Belo Horizonte,  2017

Dos companheiros improváveis de Maria Gabriela Llansol já presentes nesta série, talvez Mallarmé, ao lado de Pessoa, seja o mais improvável. Mas não no mesmo sentido. Pessoa, sabemos, metamorfoseado em Aossê, foi mesmo objeto de um dos Livros de Horas, o de número V, O Azul Imperfeito, publicado pela Assírio & Alvim, em 2015. E já aí podemos vislumbrar, pálida e resistentemente, o Azul de Mallarmé.

Mas sabemos que um dos livros que Llansol deixou praticamente pronto, desejando ardentemente sua publicação, foi o livro de poemas de Mallarmé, em cuja tradução e organização trabalhou infatigavelmente, nos últimos anos de sua vida. Depois de sua morte, soubemos também que sua publicação “não vale a pena”. Perguntamos: de quem é a pena? E é em Llansol que encontramos, enviesadamente, uma resposta. No prefácio a sua tradução dos Últimos poemas de amor, de Paul Éluard, lemos, em forma de pergunta, este desabafo: “O poema não soube, então, responder à única pergunta da poesia: será possível olhar sem cindir?”

Propomos que o “olhar sem cindir” seja a tarefa não só do poeta e daquele que traduz a poesia, mas também daqueles que a editam. É esta, afinal, uma das questões centrais do Livro de Mallarmé, que sua pena tentou circunscrever, ao longo de sua vida. É esta uma das questões cernidas pelo belo texto de Janaína de Paula, “A experiência de Mallarmé: o ato só de escrever”, que aqui damos a ler numa espécie de olhar sem cindir, celebrando, secretamente, a improvável amizade de Llansol e Mallarmé. E assim respondemos, na voz de Pessoa metamorfoseado em falcão: “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.

Leia aqui, em pena de falcão e na íntegra, o TextodeJanaínadePaula.

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Esta é minha carta ao mundo

Desta breve mensagem de 14 de maio de 1999, destacamos as palavras de Gabriela:             ” depois de mais nada saber sobre o que se julga saber”, “o aquém das nossas limitações”.

“Curso de silêncio, em memória de Gabriela ” —  foto de Lucia Castello Branco

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Companheiros improváveis

“Troncos” — Foto de Lucia Castello Branco

Bastaria que lêssemos a frase de Kafka — “a partir de certo ponto não há mais retorno” — para termos a suspeita de que Maria Gabriela Llansol e Herberto Helder em algum ponto terminariam por se encontrar. Mas é justamente no “corpo de poema” que eles  se tocam, como companheiros (im) prováveis. Pois, se um corpo é mais que  vísceras e humores, como assinala Llansol, é também de vísceras e humores que ele se constrói. Onde ela escreveria ruah, ele talvez escrevesse ” um nó de ar no coração”. Onde ela desenharia  um corp’a’screver, ele talvez projetasse “um nó de sangue na garganta”. E, no entanto, para ambos a meta é outra: a da metamorfose, não a da metáfora. Assim como é outra a paisagem: a da substância lenhosa da árvore da carne, a carne da língua. Ouçamos , pois, o silêncio de MGL à volta do poema de HH, no belo texto de Erick Gontijo:  Texto Erick Gontijo

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Companheiros improváveis

Manuscrito de Fernando Pessoa

Quando lemos em Pessoa “não sou ninguém”, somos rapidamente reenviados ao devir de seu nome: Pessoa, personne, a persona de ninguém. Mas é Maria Gabriela Llansol quem, ao perseguir esse devir em direção à escrita do desassossego e ao desassossego da escrita, termina por metamorfoseá-lo em falcão, aliviando-o de seu maior obstáculo — a pessoa — e fazendo com que escutemos, no nome dado a essa metamorfose — Aossê –, não só um anagrama imperfeito de Pessoa, mas o próprio desassossego.

É, pois, como companheiro improvável de Llansol que Pessoa merece ser revisitado, na obra da escritora. Pois ali, não mais reduzido a seu próprio obstáculo, ele voa para além do devir-eu, já que “um eu é pouco para o que está em causa.” Sem eu e sem rosto, Aossê, companheiro improvável de Llansol, abrirá seu texto ao devir-ninguém, indo ao encontro de seu feminino assimétrico e impessoal: o feminino de ninguém. É o que lemos no texto a seguir, de Tatiane Souza Costa, em que Pessoa e Llansol se encontram na passagem do eu ao ele sem rosto: O devir-eu de Fernando Pessoa – o poeta, os outros, a poesia.

Assim se encontram esses companheiros improváveis, distantes como a palma da mão, unidos numa mesma pergunta, aquela que encerra o desassossego da escrita:

Manuscrito de Maria Gabriela LLansol

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Sobreimpressões

Foto Lucia Castello Branco

Em conversa com Maria Inês de Almeida, sobre seu livro Desocidentada, em que se verifica a forte inspiração de Maria Gabriela Llansol e Jacques Lacan na leitura da experiência indígena com a escrita, uma frase de Llansol, em entrevista concedida a Lucia Castello Branco em 1992, ali ressoou: “A língua é a portuguesa, mas o pensamento está a alargar-se”. Aqui a fazemos ecoar, em sobreimpressão com a máxima de Oswald de Andrade: “Tupi or not Tupi”, lembrando, que “há muitos mundos no mundo” e que a tarefa do poeta é sempre ir mais além.

“Desocidentadas” (edição de David Castello, Belo Horizonte, 8 de março de 2017).

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