Notas de leitura

foto de Tatiane Souza

Notas sobre o amor. Talvez assim pudéssemos pensar estas notas de leitura, enviadas por Tatiane Souza e extraídas de Holder, de Holderlin, em sobreimpressão com os poemas do próprio autor.

Notas sobre o perdido amor? “Perder-se no outro perdido é a experiência que está a ter”, dizem elas, as notas.  Mas o amor está ali: “distante como a palma da mão”.  Ele, ” que nos faz curvar a todos para que passemos debaixo da sua lei “.

Notas, antes de tudo, “sobre o trabalho infindável de leitura”. Ler, no amor em fracasso. Ler, com as letras que despencam do próprio nome. Ler, no sem apoio que se apoia no sem apoio.

Mas ler, sobretudo, levando em conta o calendário em que “deve impor-se imediatamente a noção de noite”: a página branca sob o negrito das letras, a noite branca sobre a mancha negra na página.

Foto e composição de Tatiane Souza

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Notas de viagem

Notas de viagem,  de Clara Bois

Estas notas, enviadas de Los Angeles por Clara Bois como uma espécie de diário da fotógrafa, permitem-nos evocar Llansol.

Onde Clara lê o invisível, Llansol talvez escrevesse: “o desconhecido que nos acompanha”. E, em ressonância a seu gesto de “capturar o nada” e de inscrever o “vazio branco”,  Llansol talvez acrescentasse: “sabe-se que o Vazio não se apóia sobre o Nada”. 

“Quem há que suporte o Vazio?”– alguém indagaria.  “Talvez ninguém”, responderíamos, o “feminino de ninguém” que, invisível, insinua-se no pensamento destas imagens.



Fotos de Clara Bois

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Notas de leitura

Foto de Jonas Samudio

Como pensar a Páscoa “fora de qualquer contexto religioso ou sagrado”, tal qual o Deus de Maria Gabriela Llansol? Talvez pensando a ressurreição no campo da leitura, da tradução, da sobreimpressão.

É o que vemos aqui, com as notas de leitura enviadas por Jonas Samudio, quando lemos Jean-Luc Nancy, Llansol e Theresa de Lisieux, numa espécie de prece, que assim repetimos: “que minha escrita seja feminina e descalça”. E que ela encontre, no futuro, “alguém que me ame com bondade e saiba ler”.

Fragmento de O jogo da liberdade da alma  — Foto de Jonas Samudio

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Notas de viagem

Foto de Maria Fernanda Machado

              “Tal como sou acompanhada pelos lagos — águas adormecidas naturais e duráveis  –, de igual modo deve fazer parte da sombra,                      que se desloca comigo,                                                                                                                inscrever os dias estendidos por longos períodos de tempo. 

                No seu calendário deve impor-se imediatamente a noção de noite — uma semana, um mês, um ano de noites.”

Estas palavras de Maria Gabriela Llansol são evocadas aqui para abrirmos esta nova série — Notas de viagem –, que se abre também com a noite branca de Brighton, trazida por Maria Fernanda Machado.

Parece-nos que estas notas, inicialmente de leitura, trazem marcadas não só a sua estrangeiridade, ou entranheiridade, mas também a “noção de noite”, que termina por se impor àqueles que, para além do ler, arriscam-se no escrever.

Entre a leitura e a escrita, uma viagem aí se inscreve. E se escreve. “Viajar, ou mesmo viver, sem tomar notas, é uma irresponsabilidade” —  leríamos, nos diários  de Kafka. “O texto, lugar que viaja” — escreveríamos, com Llansol. 

Leia, aqui, as notas de escrita de Fernanda Machado:tem sombra na noite

Fotos de Maria Fernanda Machado

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Notas de leitura

Foto de Cinara de Araújo

“O caderno não é o escrevente do texto, mas o lugar por onde o texto aprende a materialidade do lugar por onde corre.”

Estas palavras de Llansol podem ser evocadas aqui para anunciarmos as “Notas de Fevereiro”, enviadas por Cinara de Araújo, extraídas das oficinas de letras por elas conduzidas na USB — Universidade do Sul da Bahia –, em Porto Seguro, e no 12 Festival de Verão da UFMG, em Belo Horizonte, onde conduziu a oficina “Hoje grafo no espaço”.

Não, o caderno não é o escrevente do texto. Mas é ali, nesse suporte de papel, que o texto aprende a materialidade do lugar. E corre: pelo mar, pela areia, pelo céu, por todos os espaços onde é possível grafar.

A fotografia como método. A biografia como método. E o biografema como a letra mínima que resta de uma vida. Afinal, como observa Roland Barthes, “na atividade de uma vida é preciso sempre reservar uma parte para o efêmero” e esse efêmero também é possível grafá-lo: em uma letra, em notas de leitura.

Fotos de Cinara de Araújo

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Estético convívio

       “Chove torrencialmente no texto” — Foto de Carlos Batista

Iniciamos ontem, na Cas’a’screver, as “lições não-todas entre teologia, psicanálise e literatura”, ministradas por Jonas Samudio. Era um sábado pela manhã e chovia torrencialmente no texto.

Jonas, com sua delicadeza de mestre, com sua irreverência de aprendiz, iluminava, na manhã gris, o texto das místicas, à luz de Lacan.

E a textualidade Llansol, em seu curso de silêncio, atravessou, feminina de ninguém, não toda a paisagem, mas o suficiente para aqueles que, do lado da chuva, recebiam no corpo as águas benfazejas.

Leia, aqui, o belo texto-abertura de Jonas Samudio: Por hoje é o bastante.

Fotos de Kleriston Kolive

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Lembras-te da hora do jardim?

Aquarela sobre papel, Maria José Vargas Boaventura, 2003.

Ajude-me a atravessar a morte.” Esta frase de Vergílio Ferreira, que Llansol sempre entendeu como um pedido, retorna hoje, para nós, neste 3 de março de 2018, quando contamos dez anos da morte da escritora.

Falei, noutro lugar, de um pacto de bondade. Faz parte desse pacto não recusar a um grande criador o pedido “quando eu me for, feche o meu texto” que nos dirige.

Um pacto de bondade também se estabelece, a cada semana, neste fio de água do texto, quando não recuamos diante deste pedido de Llansol: “quando eu me for, feche o meu texto“. Aqui, ao longo de sete anos, o temos fechado, entendendo que fechar o texto dessa escritora significa dar-lhe um corpo de fulgor e de penetração, que não se confunde com o físico, belo ou degradado Um corpo integralmente feito de linguagem.

É assim que hoje, ao rememorarmos a morte de Gabriela, celebramos sua vida e o vivo que habita sua escrita. Por essa razão, aqui, desde sempre, sustentado por um fio tênue, vem se tecendo o trabalho de

vê-la como figura                                                                                                                        projectá-la na travessia,                                                                                                          sustentar-lhe o sexo de ler com que lerá o novo que a habita.

 Ao lado dela — ao lado do legente –, prosseguimos na travessia do jardim que o pensamento permite, realizando sem medo _______ ter aberto este caminho. 

Ave Llansol! Pelo sol de seu nome _________

Maria Gabriela Llansol e o ramo — Fotos de Cynthia Barra, 2004

Santa Theresa de Lisieux — Acervo pessoal de Jonas Samudio

Leia, aqui, o belo texto-homenagem de Jonas Samudio, em que se desenham, em sobreimpressão, as figuras de Maria Gabriela Llansol e Theresa de Lisieux:

a passagem do vivo ao vivo

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