A luta cotidiana pelo fulgor

Capão, Bahia — Foto de Sylvie Debs

 

Dando continuidade à luta diária pelo fulgor, passamos agora ao Segundo Dia em texto de Lucia Castello Branco.

 

Segundo dia

 

Este, o segundo dia, também não haveria de ser fácil. Ela havia retornado para sua cidade natal. Ela, que tanto percorria outras cidades e, em especial, as cidades brasileiras, na tentativa de encontrar ali o seu lugar. Tudo porque um dia se apaixonara pelo sertão de Canudos. Tudo porque um dia se apaixonara pela figura de Antônio Conselheiro, na abertura do magnífico livro de Vargas Llosa: A guerra do fim do mundo. Ela, que sofrera junto conosco o impeachment, a injustiça social, a prisão absurda de um líder nacional, a impostura política, o mal-estar.

 

Ela estava ali de volta, porque era preciso voltar. Para encontrar o quê? Talvez o massacre na rua, em meio à inocente decoração de Natal. Talvez aquela cratera que se abrira, para sempre, na calçada. Talvez a morte de dois jovens, mais dois, mais jovens, no anonimato de um dia comum, em Estrasburgo. Ela estava de volta à cidade-carrefour da Europa, a cidade do Parlamento Internacional dos Escritores, a cidade em que um dia tudo começou, ela diria, antes desse massacre.

 

E o mundo, onde estaria ele agora? O mundo seria para sempre o desmundo, o imundo, névoas de nada de um mundo prometido que não alcançaríamos jamais? Com Gabriela, aprendemos que “há muitos mundos no mundo”. Com Mãe Marlene, tivemos a sorte de receber as Águas de Oxalá. E, em Salvador – esta cidade que tem seu devir no som de seu nome –, vivemos juntas momentos de um Brasil profundo. Mas o mundo do fulgor, para onde ele havia partido?

 

Penso em oferecer-lhe um poema. Mas o poema maior já lhe foi ofertado um dia, por um cordelista menor. Então, abro o texto de Gabriela e leio, em voz alta:

 

o poema passa,
a cada instante passa e enriquece a voz,
alteia a minha percepção do mundo,
são tantas as pregas do céu,
as colinas,
os altos dos montes, os sistemas solares;

voltaremos a subir a encosta da manhã,
o mundo está prometido ao Drama-Poesia.
(Onde vais, Drama-Poesia?, p. 16).

 

Que o fulgor se escreva, escreveu ela. Para que assim possamos ler:

 

o que eu estava a pensar e por escrever só teria sentido se alguém
viesse sublinhar a noite escura com seus olhos verdes
(Onde vais, Drama-Poesia?, p. 10).

 

“Sim”, digo a ela, “em luta diária, continuaremos. Sublinharemos a noite com teus olhos verdes. Voltaremos a subir a encosta da manhã”.

 

… em 12 de janeiro de 2019, por Lucia Castello Branco.

 

Estrasburgo, França — Foto de Sylvie Debs

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A luta cotidiana pelo fulgor

Boca de Leão na parede calada — Foto de Vania Baeta

 

Dando continuidade à luta diária pelo fulgor, passamos agora ao Primeiro Dia em texto de Vania Baeta.

 

Primeiro dia

 

É início do ano 2019. Há séculos, estamos aí. Acordo e é dia: mais um, menos um? Havia várias noites: insones. Recolho o livro: A restante vida. O livro segundo da trilogia llansoliana: Geografia de rebeldes. Recolho a vida: seu dorso dormente. Busco: a luta cotidiana pelo fulgor. Lembro das palavras de Gabriela, a escritora que me acompanha como sombra de sol lunar: “o fulgor é preferível à verossimilhança.” Um travo na língua busca um copo d´água: há dias a secura não esquece a garganta. Lembro, de cor, de outras palavras da escritora: “a maior parte do que chamamos realidade é miséria alucinada.” Repito: sim, o fulgor é preferível à verossimilhança. Mas como, se o travo na língua embaçou meu olhar inerte? Olho o dorso do meu corpo e leio no dorso do corpo do livro, A restante vida (este é um livro cavalo, cavalo de batalha ou Pégaso): 

Todas as guerras foram uma só batalha, de reis querendo guardar e expandir o seu real, de burgueses desejando cidades livres, de camponeses lançando-se furiosos para onde isto acabe e o seu comece, de clérigos e de soldadesca distribuindo palavras e armas à fama, ao dinheiro, e ao reino de Deus próximo.

Da visão teocêntrica do humano (“porque o humano é ainda um dado teozoológico”), consumidor de poder, resta o Pobre: ensina o livro (A restante vida é composto por três partes: a primeira parte intitula-se “os meses da batalha”; a segunda parte é formada pelos “capítulos da espera”; a terceira compõe-se de 25 “lições”). O pobre é a parte perdida da batalha; o Pobre é o nome do sobrevivente; o Pobre é figura, resto, arquétipo; o Pobre é o nada, filho do nada, mas por isso mesmo é fonte de criação, princípio nítido da criatura e seu criador.

Então, diz o Pobre, que sou eu, que somos nós: que resto nos ficou, que resto vamos herdando? É claro que há uma luta; é claro que há um luto; é claro que o que resta é a Vida, a restante vida; é claro que esta não deixa de levar em conta a morte, a morte fresca, sem inscrição. Mas o texto insiste, na sua lucidez lancinante de cavalo mítico e selvagem: “Que outra coisa é a história senão esse lugar onde os poderosos realizam seus fantasmas, realizações que se cifram em vidas”? “Por que tardar em manifestar a nostalgia do momento em que as imagens do poder deixarão de andar à solta, imprevisíveis, famintas e tirânicas?”

O texto não avança razões, mas não tarda em suas manifestações: “desmunir-se é a regra do abrir”, diz ele. Sigo sua lição e arrisco: abrir, de par em par, as paredes nuas da minha des-razão; experimentar o chão cálido desta página; afagar meu sexo feminino no figurino fálico de suas armas simbólicas; raspar a tira bífida de sua língua sangrenta com a ponta firme de meu lápis afiado; desengolir o pó sórdido de suas palavras cansadas, descascadas de seus conceitos cheios de artrose; desentender sua lógica sórdida…… “Mas isso não é desmunir-se”, diz o texto, interrompendo-me em tom de exclamação. “Não”, digo-lhe, “isto é a aventura de lince dos meus olhos matutinos, agora, acordados; isto é a flor do meu desejo, que cresceu no muro caiado; isto é o fulgor rubro de minha manhã noiteira”.

Escolho a vida, pensei, luto pela restante vida e seu dorso ascendente: o júbilo cotidiano do nada, do rés, do Pobre, do filho do Pobre, daquele que, por ter perdido tudo o que nunca teve, herdou a imensidão de uma outra geografia (Geografia de rebeldes), que ainda está por vir, porque continuará a ser escrita por aqueles legentes, que sabem que “há um mundo de mundos” para além da miséria alucinada estampada, cotidianamente, em jornais, mensagens e imagens. Repito: o fulgor é preferível à verossimilhança. Que isso se escreva… 

  …em 08 de janeiro de 2019, por Vania Baeta.

 

Boca de Leão na parede caiada — Foto de Vania Baeta

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A luta cotidiana pelo fulgor

Capão, Vila Esperança, Bahia. Foto de Sylvie Debs

 

Iniciados, o ano e uma nova série, a luta cotidiana pelo fulgor. Tempos em que o dom e a luta vêm se cruzar, como artífices do novo e da sua aparição. Tempos em que se desenham os encontros, os livros, os corpos e o amor ímpar, sob o testemunho das chávenas envoltas em seda azul.

Rutilações da seda, fulgor que se dá e pede, como uma questão: como realizar, no cotidiano, a luta e o dom, o fulgor?

Ressoando estes inícios, recebemos – com auxílio de C.Rafael Pinto, a quem agradecemos – do padre e poeta, agora Arquivista do Arquivo Secreto e Bibliotecário da Biblioteca do Vaticano, José Tolentino Mendonça, um texto para publicação, pela primeira vez em blog brasileiro. Este texto, ao lado de nos presentear o título desta série, nos testemunha a delicadeza do encontro com Maria Gabriela Llansol que é também a hospitalidade de sua textualidade; delicadeza e hospitalidade em que, em nosso Fio da água do texto e em nosso cotidiano próximo, desejamos habitar.

 

A luta quotidiana pelo fulgor

 

Creio que o que de mais importante podemos testemunhar e despertar na vida uns dos outros é aquilo que a escritora Maria Gabriela Llansol chama, na sua linguagem inesquecível, «a luta quotidiana pelo fulgor». O fulgor não é uma evanescência, nem resulta de um qualquer errático acaso. É um combate, o fulgor. É um esforço de todos os dias esta procura de luz, de intensidade, este desejo de uma cintilação na paisagem baça e opaca que, tantas vezes, parece ser a única que nos resta. O fulgor abre-nos a uma compreensão maior do próprio tempo. Liga-nos ao que está mais adiante ou mais fundo. Rompe brechas. Faz-nos teimosamente repetir: “não pode ser só isto”.

Encontrei-me com Maria Gabriela Llansol diversas vezes, e recordo de modo particular duas situações. Não sei se as torna especialmente indeléveis o facto de terem constituído a primeira e a última das nossas conversas. Talvez seja também isso. Ambos os momentos ocorreram em Sintra. No primeiro, ela estava à minha espera na estação, à chegada do comboio, e demos um demorado passeio pelo parque da Vila. Lembro-me que à queima-roupa ela me perguntou: «Tolentino, o que procuras?». Não esperava por aquela pergunta, fiquei calado e confundido, e respondi-lhe qualquer coisa de que me esqueci. Mas a sua pergunta ficou-me. A luta quotidiana pelo fulgor faz-se de exercícios assim. É verdade que são exigentes e que não estamos preparados para eles. Mas se cada um de nós não afronta, com clareza, os quês e os porquês que silenciosamente persegue, o fulgor daquilo que vivemos diminui, fica como que comprometido. No nosso último encontro, a Maria Gabriela já estava muito doente. Ela havia manifestado a amigos comuns o desejo de estar comigo e apressei-me a realizá-lo. Tinha uma dificuldade grande em falar, mas essa dificuldade era também uma misteriosa e humaníssima forma de linguagem. Acho que nos entendemos muito bem. No final, ela pediu que tomássemos um chá. E assim fizemos, nas chávenas mais belas do seu armário, sorvendo com aquele chá uma coisa que eu e gerações de leitores aprendem com ela: a luta quotidiana e extrema pelo fulgor. Umas semanas depois da sua morte, recebi um pacote proveniente da sua morada, que me deixou numa comoção que vão certamente compreender: num papel de seda azul, muito delicado, vinham embrulhadas as chávenas que celebraram o nosso último encontro.

Aquando da morte do meu querido amigo Frei José Augusto Mourão, os Padres Dominicanos decidiram incluir-me, com uma generosidade que muito me tocou, na condivisão simbólica da sua herança. Dessa herança afetiva que me foi atribuída, fazia parte uma carta que Maria Gabriela Llansol lhe havia endereçado. E dizia assim: «Talvez que solidão e companhia se avistem do mesmo lugar. Creio que o conhecimento nasce de uma espécie de passagem rápida de uma pela outra. “Olá”, diz a companhia. “Olá”, diz a solidão, e ambas desaparecem nessa tensão de querer ser e saber».

Falta só dizer que o fulgor é uma luta sem deixar, como se vê, de ser um dom.

 

José Tolentino Mendonça

 

Publicado em:
https://www.snpcultura.org/a_luta_quotidiana_pelo_fulgor.html

José Tolentino Mendonça e Jonas Samudio. Foto de C.Rafael Pinto
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Para que o romance não morra

Foto de Tatiane Costa

Porque repetir, como o sabemos, é também uma forma de recordar e elaborar, aqui repetimos, como memória do ano que termina, imagens do curso de silêncio, capturadas por Ana Alvarenga e editadas por Jonas Samudio, também por Maria Fernanda Machado e Matias Machado de Faria. São fragmentos de aulas ministradas por Lucia Castello Branco e seus alunos, como Llansol os chamou, em futuro autobiográfico, na impressionante Carta ao Legente, texto que abre as postagens deste fio de água do texto.

O curso, intitulado “Para que o romance não morra, o corpo dos escritores”, teve a textualidade llansoliana não só como objeto de muitas aulas, mas também como método. Constituiu uma experiência inédita na Faculdade de Letras da UFMG, pois a responsável pelo curso encontrava-se em Salvador, ministrando uma outra disciplina na UFBA, também na companhia de Maria Gabriela Llansol: “Para que o romance não morra, a restante vida”.

Assim, esse foi um curso presencial e não presencial, em que aquela que o desenhou esteve ali como “hóspede de rara presença”, ensinando que “sem eu, este chão é um horizonte” e que um curso pode ser também “uma espécie de efeito com agente ausente”, trazendo outros à fala, “através do fio de água de si”.

Como um voto para o ano que se inicia, desejamos, sempre, que o romance não morra. E, com palavras de encerramento para o ano que se vai, dizemos, na companhia de Llansol, que estes fragmentos não contam, porque quem se cura não conta. E afinal fomos curados, pela textualidade llansoliana, dos males da representação.

Que o fulgor, então, possa se repetir, uma vez mais, saudando o novo começo, sempre precioso, e a restante vida, em seu devir.

 

Vania Baeta Andrade: Para que o romance não morra, a pulsão da escrita

 

Janaína de Paula: Cor’p’oema Llansol

 

João Rocha: Um corpo cem memórias de paisagem

 

Erick Gontijo: O corpo: acurar-se da escrita

 

Daisy Turrer: O corpo de Blanchot na orla exígua da escrita

 

Maraíza Labanca: Nuno Ramos e o corpo a mais

 

Paloma Vidal: o corpo de Roland Barthes em performance

 

Alex Keine: A mão e os manuscritos de Clarice Lispector

 

Cinara de Araújo: Um corpo expandido na performance invisível

 

Jonas Samudio: O corpo na mística: Lacan e Llansol

 

Lucia Castello Branco e Maria Fernanda Machado: O corpo em biografemas em ‘As praias’, de Agnès Varda

 

Bárbara Guatimosim: Kafka e a busca de sustentação: um corpo a se escrever

 

Ana Alvarenga: Farfalla Ligeira: o corpo exilado de Marina Tsvetaieva

 

Foto de Tatiane Costa

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Para que o romance não morra

Foto de Lucia Castello Branco

 

Ana me pede que lhe dê a direção. A direção para um trabalho que já começou, antes mesmo que nos déssemos conta disso. Lembro-me de uma figura importante da obra de Llansol: “Ana ensinando a ler a Myriam”. E não lhe digo que ela está nos ensinando a ler Marina Tsvetaieva, porque não é ela exatamente quem nos ensina, mas o Texto.

O Texto ou, mais propriamente, a textualidade, chegou um dia com ela – Maria Gabriela Llansol. Mas ele já estava aí, nuvem pairando, à nossa volta. Ele estava nos tecidos espalhados pelo chão da casa, estava ao pé da árvore que cresce na direção que não é a do corredor, mas a da clorofila: a primeira matéria do poema.

Por isso, quando vi que Ana fotografava as árvores e os índios, e suas casas de quase árvore em aldeias brasileiras, soube que ela chegaria um dia à textualidade. Mas não esperava que ela chegasse assim com força ao texto de Marina: pela via do exílio, sim, mas sobretudo do exílio do amor. Porque sabemos que “estar no amor, permanecer no amor, não pode deixar de ser fulgor deserto”.

Acho que Ana também não esperava que ela chegasse, com Marina, ao lugar de onde houvera partido: a música. Porque Ana canta e toca com o ouvido de quem escuta a música da textualidade. E é sempre da textualidade amorosa que se trata. Assim, partimos da música do texto para a música cantante, da música da língua russa, para a música da língua francesa, chegando, enfim, à língua portuguesa. Porque Ana sabe que, em qualquer tradução, é o ritmo o que nos conduz.

Talvez Ana não soubesse que eu lhe daria muito trabalho, propondo-lhe este caminho: da tradução à transposição. Talvez ela nem sonhasse que o que eu buscava era o lugar de onde havíamos partido. Mesmo assim, ela já refez os caminhos de Marina, na França, que foram também os seus, quando menina.

Nesses caminhos, Ana se reencontrou com sua mãe, mas esta não foi verdadeiramente a surpresa, pois a mãe sempre esteve lá. A surpresa talvez tenha sido reencontrar-se com seu pai, que andava perdido nas sombras da floresta de Meudon, nas fotografias desgastadas pelo tempo, no antigamente, na vida.

Hoje, quando é véspera da véspera de Natal, dia dos nascimentos, mostramos neste fio de água as imagens da aula-show de Ana Alvarenga, captadas por sua câmera, mas editadas pelas mãos sutis de Jonas Samudio e de Miguel José Samudio Neto.

 

 

Nessas imagens, uns fragmentos da emoção que nos tomou a todos, naquele último dia do curso de silêncio. Melhor dizer: comoção. Pois com Ana nos movemos, durante todo o curso, em direção ao lugar de onde havíamos partido: a textualidade Llansol, um corp’a’screver, o corpo dos escritores.

 

 

 

Fotos de Lucia Castello Branco

Para o gesto futuro de Ana, este que ainda virá no acabamento de suas traduções, ofereço-lhe um fragmento de A restante vida, de Maria Gabriela Llansol. E o pensamento de algumas imagens, em que um pai se desenha, trazido de volta ao texto pelas barcaças do tempo:

            “Dessa altura da minha vida meu pai que  todas as semanas me enviava de longe curiosas mensagens, guardou um cofre de memórias. Tendo vindo passar uma semana conosco e estando à janela de guilhotina, viu um pedinte no Largo. Manda vir a casa o barbeiro para lhe fazer a barba e cortar o cabelo. Manda ir buscar uma camisa e roupa branca, manda dar-lhe jantar. 

            Ao olhar numa dessas memórias o meu rosto, lembro-me da projecção no espelho da minha face de hoje. Sobreposta, mas mais próxima, contemplo a minha face envelhecida, os cabelos compridos que descem sobre o ombro como uma pluma, não castanhos escuros: já brancos. Ao fundo do rosto de hoje e do rosto envelhecido, o rosto de criança. E tudo deve ser a mesma face onde andam os olhos.” (A restante vida, p. 80-81. Lição IX)

Que a restante vida de Marina Tsvetaieva, trazida de volta ao ritmo do Texto,  em traduções de Ana Alvarenga, nos permita ver, na noite deste Natal e no ano que se inicia, o trajeto de uma outra viagem, por ela já anunciada. E, transpostos os nós da dor, que nela se desenhe, enfim, “o rosto claro e radioso da alegria”, alegria a cair sobre nós.

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Para que o romance não morra

Foto de C.Rafael Pinto

Para que o romance não morra, continuamos a escrever, a tornar públicos os afetos que escrevemos. Continuemos a habitar, na intensidade dos encontros, os livros e os textos, corpos vivos que nascem.

Nessa vibração, vivemos, no último dia 13 de dezembro, os lançamentos dos livros Deserto, de Paula Vaz, Partitura, de Maraíza Labanca, nascidos sob o sinal da Cas’a edições, e de Teresa texto tecido, de Jonas Samudio.

E testemunhamos os nascimentos, do Deserto:

“É preciso mais? Não,
não são folhas secas.
Nelas escrevi
minha carta ao mundo”

Da Partitura:

“Passaram-se duas estações desde a última hora. Está tudo seco à volta de nós.

– E, secas, elas, as coisas, se quebram mais fácil.
– Também queimam.
– Estão já quebradiças as folhas que colhemos. São papéis que esperam ser rasgados.”

E de Teresa:

“escrita corte costura poemas vestidos livros
cortes mínimos dobras tecidos corpos
no singular de peças únicas”

Cenas que dos livros, dos cortes e das costuras, assim explicitamos, nas fotos de C.Rafael Pinto e nas filmagens de Kleriston Kolive editadas por Jonas Samudio.

Fotos de C.Rafael Pinto

 

 

 

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Para que o romance não morra

Foto de Ana Alvarenga

 

Apesar de sua mãe, Marguerite Duras escreveu. Também Kafka, apesar de seu pai, não abriu mão de uma ética: a do desejo de escrever.

Ouvimos de Bárbara Guatimosim, em “Para que o romance não morra”, os modos pelos quais a letra de Kafka inventou-lhe um corpo que, ainda que com peso capaz de afundá-lo, também foi sustentado pelo gesto que sustém a caneta.

E o amor.

E, como na recolha das imagens de Ana Alvarenga, editadas por Jonas Samudio e C.Rafael Pinto, testemunhamos: a escrita, sem pesar.

 

 

Fotos de Ana Alvarenga

 

 

 

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