A luta cotidiana pelo fulgor: pelos olhos e pela palavra

A árvore de Alone I  — Foto de Alone Oliveira Gomes

 

Esta, que já tem nome de árvore dos olivais, e que traz no devir de seu nome a solitude, é também a que reúne galhos, tronco e ramos all in one. Para ela, talvez o texto  de Llansol pudesse dizer: “se um conjunto de erva é muito basto, mais rapidamente se enovela.”

 

Mas ela, como os poetas que andam de ponta cabeça e têm o céu como abismo, sabe que um abismo muito alto tem no cume a companhia. Desse ponto do cume, só ela “vê pequenas moradas isoladas onde, em cada, há um habitante com sua auréola de fulgor”.

 

Digo-lhe que “o céu partiu, o prado partiu, já não há território por onde avançar”. E ela nos ensina, com seu pensamento de árvore: “é do lado oposto que se desenham as linhas de comunicação com os que moram longe”.

 

O lugarejo em que ela plantou raízes chama-se Praia do Forte, próximo a Salvador. E é principalmente de sua potência de agir que ela arranca a sua força de existir. Com ramos, folhas grandes e flores mimosas agarradas ao seu tronco, ela sabe ser sombra para a “insignificante partícula humana a quem foi entregue o governo de todo o reino”.

 

Escute aqui o episódio 6 de Hölder, de Hölderlin, que compõe a aula-poema 9:

 

A árvore de Alone II — Foto de Alone Oliveira Gomes

 

 

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A luta cotidiana pelo fulgor: pelos olhos e pela palavra

A árvore de Lia  — Foto de Lia Cunha

 

Antes que o momento de Hölderlin se apresentasse nas leituras de Janaína de Paula e Cristina Fernandes, em uma breve intervenção naquela mesa de um congresso, alguém já havia dito que aquelas quatro mulheres eram as doces bárbaras. Estavam distantes como a palma da mão e entre elas, em uma espécie de anel, circulava o texto de Llansol.

 

Uma delas tinha os olhos inchados de chorar, mas nem todos perceberam isso ali. Chorava pela tristeza da véspera, em que recebera a notícia sobre uma casa que começava a tombar, como tombaria, no próximo episódio de Hölder, de Hölderlin, um pinheiro. Mas chorava também, em comoção profunda, pelas árvores que chegavam às suas mãos justo naquele instante em que o texto “No adorável azul” era lido em voz alta, em movimento de autêntica sobreimpressão.

 

Uma delas era a árvore de Lia Cunha e ela dizia que aquela era sua árvore-casa, vizinha da casa-árvore de Lina Bo (Coaty), na Ladeira da Misericórdia, em Salvador. A outra era também uma casa-árvore, de Pablo Soares, um pé de Juá, em Juazeiro do Norte, no Cariri cearense.

 

Foi quando aquela que tinha os olhos inchados lembrou-se da frase de Llansol, na carta que todos eles leram: “Começais a vir, dando-me companhia que eu por nada trocaria”. E seu coração se acalmou. Era ainda tempo dos vagalumes, que não apenas sobreviviam, mas resistiam a qualquer deterioração, porque suas casas, de fato, eram árvores e haviam de tombar, aos olhos de Hölderlin, em ângulo puro.

 

“Tudo é tão ligeiro que cairá sem se ver” —  lembrou — enquanto observava que Pablo não segurava seu juazeiro com cordas, mas com um abraço universalmente verdadeiro. Não teve tempo de dizer aos dois que suas casas-árvores eram ali, na companhia de Inês, Janaína e Patrícia, o seu abrigo no coração da floresta. Mas teve tempo de dizer à plateia invisível o nome da amiga folhagem que lhe trouxera de volta a luz dos vagalumes: Sônia Magalhães.  E estes a ajudariam, em comunidades sempre inconfessáveis, a atravessar tamanha escuridão.

 

Estávamos, simultaneamente, em Salvador, Belo Horizonte, Rio Branco e Berlim, mas Llansol, Hölderlin, Kant e os parentes indígenas e afro-descendentes nos diziam que  soara, para todos nós, com força de existir, a “hora final daquela fase do dia”.

 

Escute aqui o episódio 5 de Hölder, de Hölderlin, que compõe a aula-poema 8:

 

Veja aqui as intervenções bárbaras daquelas que chegaram, cada qual com sua árvore, antes da hora final daquela fase do dia:

 

 

A árvore de Pablo  — Foto de Maria Angélica Soares

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A luta cotidiana pelo fulgor: pelos olhos e pela palavra

A árvore de Cristina — Foto de Luzia Santana

 

“Leio alto para as plantas” — escreveu Llansol, em Amar um cão, outro precioso livro-carta. “Leio alto para as plantas, avisando-as de que, segundo Hippon, as sementes subtis produzem fêmeas e que, das mais espessas, nascem os machos; há sementes fechadas e abertas.”

 

Cristina Fernandes, esta que se dá a ver a olhar as árvores, parece ser da espécie das sementes sutis, que por sua vez lêem alto para as plantas. Pois, em sua prática de ler em voz alta, as plantas e os animais parecem sempre estar à sua volta, a ensinar que “ler é nunca chegar ao fim de um livro, respeitando-lhe a sequência coercitiva das frases, e das páginas”.

 

Estamos no episódio IV, de Holder, de Holderlin, e nele surge a figura de Myriam, figura bíblica recorrente na textualidade de Llansol, na cena de “Ana ensinando a ler a Myriam”. E, quando aparece nesse texto, a pergunta é da ordem do espanto: “Quem diria que é Myriam que ali está?” Também nesse  contexto surge Joshua, outra figura bíblica, que mais tarde reaparecerá em Ardente texto Joshua, livro que se escreve com os manuscritos de Santa Theresa de Lisieux.

 

O contexto de Holderlin, habitado pelos deuses da Grécia, agora mortos, se abre à leitura de um contexto bíblico, que em Llansol em nada se aproxima do religioso, mas talvez indique algo do que ela chamou de “alma crescendo”, em Amar um cão: “uma frase, lida destacadamente, aproximada de outra que talvez já lhe correspondesse em silêncio, é uma alma crescendo.”

 

E assim, na “relação de alma crescendo que se estabeleceu entre nós”, “fora da luz comum”, prosseguimos na leitura de Holder de Holderlin. Ali, “com seu pendor para a distância, Myriam tinha se evadido para uma casa ainda mais avançada, e passara à janela da cozinha, onde a água fervia sobre carvões e cinza”. A partir de então, “tudo é tão ligeiro que cairá sem se ver”.

 

Escute aqui o episódio 4, como conteúdo de nossa aula-poema 7:

 

A janela de Cristina — Foto de Kátia Silva

 

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A luta cotidiana pelo fulgor: pelos olhos e pela palavra

A árvore de Joanne — Foto de Joanne Silva Nascimento

 

Na dicção de um corpo e de uma paisagem falando-se, dicção que incorpora o “dom poético” e a “fulgorização”, Maria Gabriela Llansol escreverá o seu Holderlin. Introduzido por um radical que diz de sua origem inumana — Holder –, o poeta é aí tomado em sua dimensão concreta de árvore quaercus. 

 

Em sobreimpressão com essa natureza inumana, ou com essa “pessoa vegetal”, o narrador é, também ele, fulgorizado e lançado para a dimensão inumana: ele é a casa que o poeta habita, a casa que assiste ao nascimento da poesia e à ocupação da razão pela loucura, a casa que se sustenta por vigas de madeira, que por sua vez são da mesma matéria do papel e do lápis  com que se escreve a história de Holderlin, em sobreimpressão com seus poemas.

 

Assim, tudo é árvore, embora cada qual chegue com sua árvore particular. Como aqui, neste fio de água do texto, cada legente vai chegando com sua árvore. A árvore de Ayanne, no caminho de Salvador a Caruaru; a árvore de Joanne, na entrada de Irecê, sertão da Bahia.

 

Esta última, quase mais céu que árvore, leva-nos a pensar em como é “profundo e rutilante o disco do sol poente”, no prenúncio de uma nova intimidade: a de um poema-poente, que está a se escrever.

 

Escute aqui o episódio 3, como conteúdo de nossa aula-poema 6:

 

 

Foto de Joanne Silva Nascimento

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A luta cotidiana pelo fulgor: pelos olhos e pela palavra

A árvore de Ayanne — Foto de Ayanne Sobral

 

Estamos em 1779 e o menino Holderlin, ainda não louco e não poeta,  já perdera o pai e o padrasto, mas ainda não perdera aquela que, mais tarde, seria descrita em vários de seus poemas — sua musa Diotima: “Vem, dulçor da musa etérea — e para mim aplaca o caos do tempo (…)”

 

Seria preciso esperar por mais doze anos para que os primeiros poemas do autor fossem publicados e por mais vinte e um anos para que as primeiras manifestações de perturbação mental começassem a surgir no rosto daquele que, a partir de então, passaria os restante quarenta e três anos de sua vida enclausurado na loucura e devotado à poesia e às traduções.

 

Quero que me deixem totalmente na floresta“– ouvimo-lo dizer no texto de Llansol — “não tenho medo de perder-me porque, para a minha alma, o perigo é nulo.

 

Escute aqui o episódio 2, como conteúdo de nossa aula-poema 5:

 

“… falava com o pôr-do-sol” — Foto de Aynanne Sobral

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A luta cotidiana pelo fulgor: pelos olhos e pela palavra

A árvore de Holderlin — Carvalhos (South Carolina)

 

Ele caminha às margens do rio Neckar, em Lauffen, onde viera num dia 20 de março a nascer. Ele caminha em direção ao rio e brinca com as pedras ali, à margem, como qualquer menino. Ele é um menino ainda de nome majestoso: Johann Christian Friedrich Holderlin. Este nome que, mais  tarde, ele já não conseguiria pronunciar com precisão –“Eu lhe digo amanhã. Custa-me lembrar meu nome, às vezes” — ainda não circunscrevia a obra e a loucura daquele que, afinal, seria assolado pela cegueira de “olhar de frente o sol”.

 

Ela caminha, cento e cinquenta anos depois, às margens de um outro rio, o Tejo, ou de um outro mar, o da praia das Maçãs. Ela caminha rumo a uma paisagem incomum, que é também uma paisagem de escrita. Em direção ao “sexo da paisagem”, ou ao “sexo de ler”, caminha aquela que traria, em seu nome, o sol que um dia Holderlin ousara olhar de frente.

 

Assim podemos anunciar, brevemente, o encontro de Maria Gabriela Llansol com Holderlin, na sobreimpressão que se dá a ler no magnífico livro Holder, de Holderlin, que a partir de hoje passamos a escutar em episódios, seguindo a divisão do livro em 11 partes.

 

Escute aqui o episódio 1, como conteúdo de nossa aula-poema 4:

 

 

A árvore de Llansol — O plátano Parasceve (Sintra) — Foto de Janaína de Paula

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A luta cotidiana pelo fulgor: pelos olhos e pela palavra

Uma flor branca para compor um ramo lilás — Foto de Paulo de Andrade

 

Foi assim, com sua flor branca e sua árvore, que ele chegou:  o seu Manacá de Cheiro. “Qual é o princípio do nosso encontro?”– Llansol perguntava, no fragmento que ele recortou do livro O jogo da liberdade da alma.

 

Essa pergunta de Llansol, trazida por Paulo de Andrade, um dos mais jovens e mais antigos legentes brasileiros de seu ramo, lembrou-me uma outra, que ele mesmo certa vez recortara, de outro livro da autora: “Quem precisa que um ramo entre na sua vida?”

 

Não sei se Paulo já precisava, ou se ardentemente desejou esse ramo, no princípio de nosso encontro. Mas o fato é que, junto com um pequeno grupo de alunos da Faculdade de Letras da UFMG, organizamos os primeiros volumes de trabalhos acerca desse texto. Paulo de Andrade e Sérgio Antônio Silva foram os editores destes dois volumes da Revista Viva Voz sobre Llansol: Um corp’a’screver 1Um corp’a’screver 2.

 

Foi para essa revista que Llansol escreveu o magnífico prefácio — a carta à Lucia Castello Branco e seus alunos — , que decidimos publicar como Carta ao Legente, numa edição de apenas 30 exemplares, da 2 Luas, de BH. Mas essa edição terminou por se multiplicar em outras. Para que o ramo se espalhasse e chegasse a outros alunos, a outros legentes, a outros lugares. 

 

Mais tarde, em outro texto fundamental, intitulado “O sonho de que temos a linguagem”, publicado na Revista Colóquio-Letras, Llansol faz referência direta a Paulo de Andrade e Sérgio Antônio Silva como escritores de “textos fortes” abertos a seu texto. E declara: “Como não abrir o meu texto ao deles?”

 

Ao receber de volta, de Paulo de Andrade, o ramo da escrita, sabemos que o princípio de nosso encontro sempre esteve ali: na clorofila — a “primeira matéria do poema”. E celebramos, ao pé da árvore, a existência desse “lugar real de escrita e de leitura” aonde ainda voltamos a nos encontrar, a cada dia.

 

Aula-poema 3

 

Manacá de cheiro — Foto de Paulo de Andrade

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