A luta cotidiana pelo fulgor

Foto de Claudia Itaborahy

 

A luta cotidiana pelo fulgor: escrever, tracejar, escrever.

Trabalho de mulheres, ainda quando dormem.

Como neste texto de Cláudia Itaborahy, nosso vigésimo terceiro dia.

 

 

Vigésimo terceiro dia

 

 

vivo no quase, no nunca e no sempre.

c. L. ________  a cidade sitiada

 

então, lucrecia bateu asas

 

lucrecia neves

enfim, recolheu-se para dormir

 

a noite

o quarto

o bicho

a cidade

 

voava na escuridão sobre a cidade

no meio do sono

 

sobre as quatro patas

farejando a escuridão

 

 

o que pode a noite, se não abrir a escuridão e transformar mulheres em bichos que farejam e voam  –  ainda que tenham quatro patas? do alto do arranha-céu, da altura do corpo próprio, a lente dispara contra a monotonia para ver movimentos íntimos, repetindo uma mesma cidade.

 

o que pode a noite, se não abrir a escuridão e alterar a paisagem? inventar mapas astrais, imaginar constelações, sentir cheiro do mar. abrir os olhos, deixando que  permaneçam  fechados, em estado de quase sonho, de quase delírio, para ver aquilo que já não há.

 

o que pode a noite, se não abrir a escuridão?

 

no deserto de um quarto, a mulher – no meio do sono – escreve.

e, como um bicho – cansado – dorme.

 

… por Claudia Itaborahy,

em junho de 2019.

 

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A luta cotidiana pelo fulgor

Quarto de escrita — Foto de Natália Goulart

 

A luta cotidiana pelo fulgor. Inventar, em texto, os lastros luminosos de uma vida.

Preparar os romances, desfazer os nós, escrever: um remédio.

Um vigésimo segundo dia, neste texto de Natália Goulart.

 

 

Vigésimo segundo dia

 

 

Acontece que escrever é

“(…) uma única avenida – Os Remédios (…)”[1]

 

Sabes, por tua própria vida, a que vives hoje, que ela é muito incerta.

Se algum dia visitares o Deserto-Branco, o Salar,

aquilo é o texto.

 

E, se não sabes ainda

chegar ao deus dará com a alegria de outra espécie para animar tua fina existência e essa tarefa vem visitar nossos quartos neste século febril como um raio de coragem,

poucas chegarão até lá se, em toda tua vida, tomares de assalto o outro e se insistires demais pelo zelo de teu nome próprio.

 

Hoje,

amar a correnteza, ir rumo as procissões do Um, descer o rio Quebra-Anzol e escrever, partir com isso

 

 “como um nada trabalhando no nada”[2]

 

 prescreveu Maurice Blanchot,

que vem de visita a esta casa desde o inverno do ano passado.

E, nesta mesa, Llansol abriu a jornada, trouxe a esperança terrível e agora

um campo grande deve existir nessas noites de batalha, para que, depois, cheguem à casa onde nunca estiveste e a deixem sempre por fazer-se, sempre a preparação[3], nos ensina Roland Barthes, ao tratar do romance.

 

 L., em Sol-Quebrando,

prescreveu para aquelas nem-todas,

 

se estais de volta ao mundo, escrevei.

perseverai noite à noite num lugar e, ainda que o sol entre nessa terra,

nada importa mais.

Testemunhem tuas cabeças.

 

Este animal que visita algumas casas

(nem todas, é preciso dizer, nem-todas), traz até o fim e consigo uma onda de Nazaré. E sabes, então, que é isto:

lutar agora por uma onda de Nazaré caindo em tua morada e em tuas cabeças

e, se vais segurar esse rojão que é a festa no interior,

e, se vais aplaudir a falta de caminho das águas de teu nome e rir com

          

os buracos de contenção jorrando em teus textos,

é que essa agua não fecha mais

as saídas

 

O que queres? Senão um instante de quebrar-se?

 

Fosse o que fosse,

 “agora o sol, o solo, a solo” (…)[4]  

 

Deixa o poeta em paz!

 

… em junho de 2019,

por Natália Goulart.

 

Nossa-Senhora-dos-Remédios – Foto de Natália Goulart

 

[1] LLANSOL, Maria Gabriela. Um falcão no punho. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011, p.22.

[2] BLANCHOT, Maurice. A parte do fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 314.

[3] Veja-se a esse respeito em BARTHES, Roland. A preparação do romance I. São Paulo: Editora. Martins Fontes

[4 ] LLANSOL. Um falcão no Punho. p. 45.

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A luta cotidiana pelo fulgor

Salvador, passeata do dia 30/05. Foto de Lucia Castello Branco

 

A luta pelo fulgor se dá, todos os dias. Com as palavras, as letras, o poema.

Também em comunidade, nas ruas, na luta contra o sucateamento da cultura, da educação, do pensamento.

É uma batalha pelos bens da terra, os cinco: “O conhecimento, a abundância, a generosidade, o prazer do amante e a alegria de viver” (Llansol) e contra a vontade dos príncipes e poderosos: a de que todos estão fadados à servidão.

Uma luta pelo fulgor, neste vigésimo primeiro dia, em texto de Lucia Castello Branco.

 

 

Vigésimo primeiro dia

 

 

Desde o dia 30 de maio, dia da paralisação geral no país, ela tinha se visto novamente em p & b. As cores estavam lá e o vermelho intenso brilhava como uma flama no céu. Mas, depois do vermelho intenso, que também era o da sua camisa, como a de tantos ali, haveria o sangue pisado das unhas, o indicativo e o dedo médio: os dois presos, como que por uma triste sina, na porta de um café que se dizia santo.

 

Agora lembrava de Clarice, que um dia escrevera que era mais fácil ser um santo do que uma pessoa. Pois teria sido justamente na porta do Santo Café, e numa praça que tinha o nome de Piedade, que o roubo se dera. Ali, diante dos olhares dos policiais e dos anjos, no momento em que ela se pusera a ler o manifesto à literatura, elaborado pelos discentes, não pelos docentes. E ela sabia que nesse manifesto, ao lado deles, de alguma forma, a sua voz estaria presente. Não por danação, mas por puro dom.

 

Haveria também de ouvir a sua voz em outras manifestações, em roubos sutis que se operavam assim: sob o seu nariz. E ela, ali, parada na porta da igreja, ao lado de uma amiga suave que se chamava Alba e a quem o destino agora a ligaria por uma outra via: a de ajudá-la a recolher os restos dos furtos, lavar os roubos, limpá-los de sua triste sina. Vai-las lavar alba.

 

Mais tarde, depois do trabalho kafkiano de resgatar os dados, as senhas, as frases, os aplicativos, os sonhos, a liberdade virtual, ela veria de novo o mar. “Você nunca pode sair daqui”— disse a amiga, enquanto as duas se preparavam para  comer o bolo de laranja com café e ler a prece, pensando com isso escapar aos hackers.

 

 

Ali, na prece do texto ardente, Maria Gabriela Llansol teria escrito: “Está quase tudo por saber. Quando Teresa se volta para as águas e entra nelas, sentimos que há urgência que arrisca a vida no pouco tempo que lhe resta, mas não suspeitamos sequer o que seja essa entrada _______ a junção das águas.”

 

“Sim, está quase tudo por saber”, ela pensava, enquanto preparava o corpo para as abluções que a livrariam, para sempre, do jejum do coração. Diante da mulher, o mar se abria, para que ela pudesse, como que por milagre, atravessá-lo. Abria-se provisoriamente, embora a seus olhos ele permanecesse irremediavelmente compacto.

 

Aquela que lia estava por chegar. Ela a ajudaria a reunir os pequenos fragmentos da batalha: um boletim de ocorrência, uma senha perdida, um carro para transportá-la nas emergências, a foto de um amigo. “A terna reciprocidade feminina”, lembrou, segurando sobre o peito o ardente texto, enquanto escutava, sem que tivesse escolhido, a canção de seu filho: “Mama, don’t worry”.

 

Dois dias mais tarde, ela faria a oferenda para Yemanjá. Sequer suspeitava que era esta a sua luta cotidiana pelo fulgor:  essa entrada ______ a junção das águas.

 

maio/junho de 2019

                                                           … por Lucia Castello Branco.

 

Alunas e alunos do Programa de Pós-graduação em Letras: estudos literários (Pós-lit) da UFMG pelo direito à literatura e à educação! Nos ajude a compartilhar.

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A luta cotidiana pelo fulgor

Notre Dame em Chamas. Fonte: internet.

 

Numa visita ao béguinage de Bruges, na experiência de sobreimpressão de “vários níveis de realidade (…) coexistindo sem nenhuma intervenção do tempo”, Maria Gabriela Llansol termina por ser perguntar em português, “em português e não em qualquer outra língua”,

“’O que se passou aqui? O que é que aqui, no que se passou continua a passar?’ (qu’est-ce que se passe ici – qu’est-ce qu’ici dans ce que s’est écoulé continue de s’écouler?).”

Talvez seja ainda esta a pergunta que então se repita, neste texto de Sylvie Debs, diante do espanto de um país e de todo um mundo de mundos, quando um de seus ícones – a Notre Dame – se põe a arder em chamas. “Qu’est-ce que se passe ici?”, repetimos em francês, em francês e não em qualquer outra língua.

“Um dom vem colocar-se ao lado do meu fazer para o proteger do nada”, ouvimos baixinho, ao ver a imagem de Santa Theresa de Lisieux, intacta, em meio à destruição. Eis a figura de Llansol que aqui trazemos, como numa prece, propondo outra tradução para a sentença bíblica: “sois poalha de luz”, ela escreve, em sua luta cotidiana pelo fulgor.

 

Vingtième jour

 

Ce lundi 15 avril, après six mois de manifestations hebdomadaires des gilets jaunes et trois mois de grand débat, la France avait rendez-vous avec son Président à 20h pour connaître les nouvelles lignes de son orientation politique, rendez-vous que certains auraient honoré et d’autres négligé. Mais la France entière, et bien au-delà de ses frontières, avait un rendez-vous imprévu avec l’Histoire…

La vue des flammes jaillies des entrailles de Notre-Dame léchant le ciel avec une fureur stupéfiante dans un gouffre de nuages noirs était une image proprement insoutenable… Et pourtant, il a bien fallu se rendre à l’évidence : Notre-Dame était la proie d’une violence destructrice comme n’importe quel édifice du monde, du plus humble et inconnu au plus majestueux et célèbre… « Tu es poussière et tu retourneras à la poussière » clamait le feu.

Une part de nous-mêmes s’effondrait en même temps ! Cette cathédrale, étroitement liée à l’Histoire de France, immortelle et impérissable, comme nous-mêmes et nos existences, succombait sous nos yeux. Allégorie de la chute finale de notre civilisation ? Il est encore trop tôt pour le savoir, mais c’est bien l’atteinte au vestige palpable du passé, au symbole de la beauté et de la spiritualité, à l‘œuvre de la foi, d’artisans et d’artistes qui nous a blessé si fort.

Chacun dans son désespoir singulier a perçu que cette émotion était partagée par l’autre, par tout un pays, par le monde entier. Ce moment de communion universelle nous révéla que ce monument-là, sauvé une première fois par un jeune homme de vingt-huit ans en 1831, était celui qui incarnait notre âme commune, notre identité. Ce n’était pas seulement le cœur de Paris, ce monument de pierres vibrantes, mais aussi le nôtre, notre chair et notre sang qui brûlaient. Nous comprenions combien ce lieu était une présence réconfortante, maternelle, protectrice… Devant son agonie, la tristesse et les regrets nous envahirent. Un terrible sentiment de « trop tard » nous saisit. Notre-Dame va partir en flammes sans que nous ayons eu le temps de lui dire adieu…

Heureusement, le lendemain matin, nous sommes rassurés : si elle a semblé fragile comme nous tous, elle a su résister et maintenir sa façade, sa structure, sa présence. Il faudra maintenant s’en occuper, et prendre soin de nos vies et de notre humanité, que nous délaissons régulièrement, faute de temps. L’effroi qui nous a saisi aura servi à nous rappeler qu’une fraternité sans transcendance ne peut pas fonctionner et que la politique sans spiritualité n’existe pas.

« Incrédulité, émotion et communion le 15 avril 2019 »

… Avril 2019, par Sylvie Debs

 

Vêpres du Lundi Saint à Notre-Dame de Paris, 15 /04/2019

 

Vigésimo Dia

Tradução de Lucia Castello Branco.

Na segunda-feira, 15 de abril, após seis meses de manifestações semanais dos coletes amarelos e três meses de grande debate, a França tinha um encontro com seu presidente, às 20h, para conhecer as novas linhas de sua orientação política, encontro que alguns teriam cumprido, outros negligenciado. Mas a França inteira, e bem além de suas fronteiras, tinha um encontro imprevisto com a História…

A visão das chamas jorrando das entranhas da Notre-Dame, lambendo o céu com um furor impressionante, num fosso de nuvens negras, era uma imagem propriamente insuportável…E, entretanto, era preciso se render à evidência : Notre-Dame era presa de uma violência destruidora como qualquer edifício do mundo, do mais humilde e desconhecido ao mais célebre e majestoso … « És pó e ao pó retornarás », clamava o fogo.

Uma parte de nós desabava, ao mesmo tempo. Essa catedral, estreitamente ligada à História da França, imortal e perene como nós mesmos e como nossa existência, sucumbia diante de nossos olhos. Alegoria da queda final de nossa civilização ? Ainda é muito cedo para se saber, mas foi a violação do vestígio palpável do passado, do símbolo da beleza e da espiritualidade, da obra da fé de artesãos e de artistas o que tanto nos feriu.

Cada um, em seu desespero singular, percebeu que essa emoção era partilhada com o outro, com todo um país, com o mundo inteiro. Esse momento de comunhão universal nos revelou que esse monumento, salvo pela primeira vez por um jovem de 28 anos, em 1931, era aquele que encarnava nossa alma comum, nossa identidade. Pois, com esse monumento de pedras vibrantes, não era somente o coração de Paris que queimava, mas também o nosso, nossa carne e nosso sangue. Compreendemos o quanto esse lugar era uma presença reconfortante, materna, protetora… Diante da sua agonia, a tristeza e os lamentos nos invadiram. Um terrível sentimento de ‘tarde demais’ nos atingiu. Notre-Dame vai partir em chamas, sem que tenhamos tido tempo de lhe dizer adeus….

Felizmente, na manhã seguinte, fomos tranquilizados : se ela pareceu frágil como todos nós, ela soube resistir e manter sua fachada, sua estrutura, sua presença. Será preciso agora cuidar dela e cuidar de nossas vidas e de nossa humanidade, que regularmente abandonamos, por falta de tempo. O horror que nos atingiu terá servido para nos lembrar que uma fraternidade sem transcendência não pode funcionar e que não existe política sem espiritualidade.

« Incredulidade, emoção e comunhão em 15 de abril de 2019 »

… abril de 2019, por Sylvie Debs

                        

Santa Teresa vigilante. Fonte: internet.

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A luta cotidiana pelo fulgor

Foto e composição de Maria José Vargas Boaventura

 

O trabalho, dia a dia, pelo fulgor, acontece, também, ao redor das noites. Por entre elas, como travessia para chegar ao seu além. Talvez, “uma manhã de seda”, ou a metanoite, como escreveu Llansol; talvez, ainda, o nono dia: este texto poema, de Lucia Castello Branco.

 

 

Décimo nono dia

 

 

Acordar com o barulho do mar. Talvez ela nunca tivesse imaginado que isso fosse possível. “Porque as ondas embalam”— ela teria dito, certa vez, ao senhor que insistia em não compreender porque ela se movera até ali. Era o décimo nono dia e a amiga lhe oferecera a metanoite. O real, lugar envolvente e sublime da metanoite, está para além da noite.

 

“Ninguém sabe que pesadelo desperta o poema”. As palavras de Mohsen, mudadas para o português na voz de uma cítara. Tudo o que ainda vai cair. O poema ensina? A crina de um cavalo, o corpo desnudo do homem, sua brutalidade. Ontem, na voz de João, teria compreendido que a universidade é um patrimônio da humanidade. Mas João, com sua força de filósofo, não teria sido capaz de trazer a  poesia de Derrida em seu canto: o ouriço.

 

Ali, na beira do mar, ela se preparava para enfrentar o novo dia: a paralisação geral no Brasil. “Mas o mar não vai parar”— ela pensou. E teve vergonha. Estar ali, na metanoite, a ouvir o barulho do mar. Ser acordada pelo pesadelo do poema. E insistir na poesia que ensina a cair.

 

A outra amiga do mar preferiria o canto das gaivotas. E sua off sina: escutar o que o mar não diz. Para ela, um pouco mais tarde, diria do grão da voz, o misto erótico de timbre e de linguagem. Mas agora, enquanto permanecia ali, finalmente entendera que ainda é noite, que será sempre noite, sem trevas.

 

Escolhia, assim, a bermuda vermelha para paralisar o corpo. Ir ao Campo Grande, ao lado dos companheiros. Sonhar com o dia em que o mar, o ouriço, o grão de areia e o grão da voz serão também o patrimônio da humanidade. E os poetas e os vagabundos. E os cruéis e cândidos animais. E mesmo aquele homem ali, que não se move de si, e sonha com o dia em que o mundo, como que por milagre, virá devolver-lhe a vida.

 

Era dia 15 de maio de 2019. Dia da paralisação geral. Na luta cotidiana pelo fulgor, ela tinha sido acordada pelo barulho do mar. Para ir, em passeata, reivindicar o que os brutos lhe roubavam. Não, não havia ali nenhum ato gratuito de rebeldia. O poema, caminhando em direção ao Campo Grande, era então o único rebelde.

 

… em maio de 2019

por Lucia Castello Branco.

 

Alunos da Escola de Teatro da UFBA, na manifestação de 19 de maio de 2019, em Salvador

Foto de Lucia Castello Branco

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A luta cotidiana pelo fulgor

Fotograma de Visages Villages, de Agnès Varda (2017)

 

A luta, no decorrer dos dias, se faz, por vezes, de modo frontal, pelo vivo, pelo fulgor que passa pelas mãos.

Luta em escrita, em mulheres, como neste texto de Carlos Batista. Nosso  décimo oitavo dia.

 

 

Décimo oitavo dia

 

 

o quase semelhante convida a entrar

num lugar que antecipadamente

sabemos ser firme e vagabundo.

Maria Gabriela Llansol

 

De restos e rostos é o que levaria o tom deste escrito. Ocorre que corre o risco. <<entrem, entrem, é urgente>>. Ao descontar dos dias. Quem me chama me livraria? O tom se queria hesiódico – Opera et dies, Teogonia – devido a uma discutida etimologia do nome do autor: “aquele que tem prazer com o caminho”[1]. Push of joy. Há quem lute um dia. Pela abertura do caminho. Mas tem dia que não está sendo contado. Um resto que não está sendo computado. Algo que reluta. Acordar com o dia incerto. Há certezas tão verdadeiras quanto incertezas.

 

Imagens para se colocar em dia. Imagem de campos sem pássaros. Imagem de índios em seus grandes campos de soja transgênica, onde se ressalta o grande maquinário agrícola e a grande multa ambiental. Imagem do ministro do meio ambiente, posando para a reportagem ao lado da ministra da agricultura, ao indicar a possibilidade do perdão judicial para a grande multa ambiental. Imagem pressentida, mistura do comércio de armas de fogo e do comércio de autoridades com caçadores. Mal-estar advindo da imagem do lema da bandeira nacional avançando contra as florestas – o centro da paisagem. Trata-se do mesmo mal-estar que, a se dizer com Eduardo Vidal,  desde Freud nos funda? Então, que não nos naufrague por um qualquer sucedâneo do “élan civilizador” de Mein Kampf![2] Há quem lute vários e vários anos. Imagem de vislumbre, outra luta, outra lida, elevar a impotência do mal-estar à impossibilidade? Cotidianamente? Pelo fulgor, colocar em dia o que induz a uma modalidade particular de relacionamento. Por exemplo esta imagem, se abríssemos as pessoas encontraríamos paisagens, se abríssemos Agnès Varda, encontraríamos praias – o que me recorda O Litoral do Mundo, na sequência de Geografia de Rebeldes – trilogias de Maria Gabriela Llansol. Pois.

 

Quando um útero é do tamanho de um punho, quando há um falcão no punho, observo, por um poema atribuído a Brecht, que há mulheres imprescindíveis, aquelas que lutam toda uma vida, aquelas que têm prazer com o caminho, e não podem deixar de percorrê-lo. E pela força maior da alegria da língua de Emily que vem bater à porta, não à porta da casa de nº 86-88 da rua Daguerre, em Paris – onde se faz uma ausência desde 29 de março de 2019 de uma presença de mais de seis décadas –, mas à porta da película de onde a cineasta nos convida a entrar, por esse impulso mesmo (push of joy), vejo uma cena exceder a lei do espírito de gravidade: apanhar os caminhões na estrada com a mão em um passe de fulgor – cena de cinema matinal de contra-sangue. Cena que tanto me acena a Le Camion, de Duras. Cena que me diz, com as palavras de uma homenagem a Clarice: “como és bela, ó vida!”.  Cena que me leva ao convívio do vivo. Viva Agnès! Viva Gabriela! Viva Emily! Viva Marguerite! Viva Clarice!

 

… em maio de 2019

por Carlos Batista

[1] Alessandro Rolim de Moura, tradutor do grego, em sua introdução, menciona além dessa acima, outras discutidas etimologias para o nome Hesíodo: “aquele que emite canto” e “aquele que percorre a via do canto”. HESÍODO. Os trabalhos e os dias, p. 18.

[2] Veja-se a esse respeito ensaio de Jean-Luc Nancy. NANCY. Au fond des images, p. 79.

Referências

BADIOU, Alain; ROUDINESCO, Élisabeth. Jacques Lacan, passado presente. Trad. Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Difel, 2012.

CASTELLO BRANCO, Lucia. A branca dor da escrita. Três tempos com Emily Dickinson. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003.

CIXOUS, Hélène. Extrema fidelidade. In: LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. [Edição com manuscritos e ensaios inéditos]. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

DURAS, Marguerite. Le Camion, 1977.

FREITAS, Angélica. Um útero é do tamanho de um punho. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Penguin/Companhia das Letras, 2011.

HESÍODO. Teogonia. A origem dos deuses. Estudo e trad. Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 2017.

HESÍODO. Os trabalhos e os dias. Trad. Alessandro Rolim de Moura. Curitiba: Segesta, 2012.

LLANSOL, Maria Gabriela. Inquérito às quatro confidências. Lisboa: Relógio d’Água, 1997.

LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994.

LLANSOL, Maria Gabriela. Onde vais, drama-poesia? Lisboa: Relógio d’Água, 2000.

LLANSOL, Maria Gabriela. Um falcão no punho. 2. ed. Lisboa: Relógio d’Água, 1997.

NANCY, Jean-Luc. Au fond des images. Paris: Editions Galilée, 2003.

ROSSET, Clément. Alegria: força maior. Trad. Eloísa Araújo Ribeiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.

SEMPRUN, Jorge. A escrita ou a vida. Trad. Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

VARDA, Agnès. As praias de Agnès, 2008.

VARDA, Agnès. Os catadores e eu, 2000.

VIDAL, Eduardo. Psicanálise e literatura: minha solidão encontra a sua. Letra irredutível, M.D. / Revista da Escola Letra Freudiana. Ano XXXV, n. 48, 2016.

 

Fotograma de Les glaneurs et la glaneuse, de Agnès Varda (2000)

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A luta cotidiana pelo fulgor

Foto de Camila Morais

 

A luta cotidiana pelo fulgor se dá, cotidianamente, nos encontros, no convívio, na companhia tecida em texto e na comunidade.

Luta que, em 04 de maio de 2019, partilhamos, na 1ª Feira da Vila e que, aqui, se faz fio, neste décimo sétimo dia, com Janaína de Paula.

 

Décimo sétimo dia

 

“Lanço-lhe uma linha
de equilíbrio
tiro-lhe a rede
tiro-lhe o abismo
dou-lhe a rede
estendo-lhe o abismo”

(Maria Gabriela Llansol)

 

A Primeira Feira da Vila aconteceu ontem, no jardim interno da Vila onde ficam a Cas´a´screver e o Espaço a´ mais. Foi organizada por Maraíza Labanca, Camila Morais e Luíza Lagoeiro e reuniu artistas, editoras independentes, artesãos dos tecidos, das pedras e contas, dos aromas e sabores, toda essa gente que sabe, de algum modo, que “meter as mãos no pensamento” é seguir o ritmo do corpo, sua cadência de música e silêncio, fora do ritmo estonteante do mundo que tem na pressa a sua medida de valor. Demorar por lá… demoramos no jardim, entre plantas, livros, pães, flâmulas e essências. O sábado demorou na cadência desse ritmo e no encontro com pessoas que passavam trazendo o desejo de que o fulgor não desapareça… que ele demore e possa durar. Gente que sabe o valor do tempo gasto pelas mãos para compor um mundo onde seja possível encontrar outras formas de convívio. Um estético convívio, como escreveu Maria Gabriela Llansol.

 

Estivemos em companhia da alegria ventando para todos os lados, junto com as pequenas flâmulas tecidas por Maraíza Labanca, do espírito da comunidade – aquela que sabe dos ritmos distintos e do valor das coisas que se desenrolam na horizontalidade dos afetos – e do desejo de convívio no/com o jardim. Aprendemos com as plantas um modo de crescer em direção à luz e encontramos na amizade tecida nesse passo, a força movente para seguir na vida.

 

… em  maio de 2019,

por Janaína de Paula.

 

Foto de Camila Morais.

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