A casa descontemplada

MGab me disse que Mb naturalmente chegaria, pois ela já era uma cantora de leitura. E Mb, mais tarde, chegou. Mas não para o texto de MGab. Este ela rechaçaria: “Gosto do teu texto – não do dela.” Recusava o texto de MGab por sua loucura, ela me diria mais tarde. “Não o alcanço.”

A sinceridade de Mb sempre me impressionou, tanto quanto sua mudança de humor. Porque o que ela dizia em tão poucas palavras – “não o alcanço” – alguns dos que se diziam amigos desse texto não o conseguiriam admitir.

E, no entanto, não o alcançavam. Por isso, tentavam limpá-lo de toda a loucura, como limpavam, durante dias seguidos, os pequenos objetos de sua casa para depois exibi-los como um troféu particular.

Eu tinha muita pena de vê-los assim: os objetos assepticamente preservados. E MGab, retirada deste mundo, não poderia devolvê-los ao fulgor de uma certa sujeira, de uma certa imperfeição.

Agora, enquanto eu escrevia estas palavras, o sonho unheimlich retornava: como é possível ser expulsa da própria casa? Mas a casa não é própria, é imprópria. E a letra “E”, aí, não é uma aditiva, mas tão somente a inicial de uma palavra: “expulsão”.

Deixemo-los, então, ali, a brincarem de papai, mamãe e filhinha. Eles ainda não aprenderam, nem com MGab, nem com Deleuze, que a literatura não é um papai e mamãe. Enquanto MGab dorme, deixemo-los ali, a comerem, tranquilamente, o amor. Porque o sonho está fechado, mas o caderno, não. E a abóboda celeste, mais cedo ou mais tarde, há de ruir.

E, então, leremos:

“Todos mamam, excepto a estrela Mira Ceti que inunda com o seu volume o mar; a frase está pronta para ser cantada e depois, se o merecer, ser refeita pela leitura. A frase não tem voz. Antes de ser definitivamente canto, é uma tremura. Da ética, da estética, da ementa cheirosa do pensamento. Poderia ter escrito do aromático, mas não, a poesia rebenta com a crueza do silêncio. O silêncio, Rorante, não é cru a meus olhos. Acabou com qualquer ilusão de facilidade. Continuo a comer, e a descomer, e não me refiro ao acto habitual de defecar. Refiro-me à descontemplação que reveste as paredes desta Casa saudada.” (CL, p. 64).

(Lucia Castello Branco, fragmento do livro O Caderno de Sonhos de MGab, inédito)

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