O Dom do Júbilo (sobre o encontro de Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra e Toumani Diabaté)

“A gente enchendo a tarde vinda de toda nossa vida pequenina, cantando.”  

(Luandino Vieira, No Antigamente, na Vida)

 

 

            Ali, “no antigamente, na vida”, no grão do chão, o mundo começa de novo. Estamos no Mali e no Brasil, ao mesmo tempo, tão longe e tão perto, enquanto ouvimos a “Kaira”, de Toumani Diabaté, na letra e na voz de Arnaldo Antunes, mas atravessada pela voz-grito-lamento de Safiatou Diabaté. Edgard Scandurra, nos vocais e na guitarra, não nos deixa esquecer que o canto-grito-lamento é também doçura, e que “a música muda o mundo pra melhor”.

            A kora, instrumento ancestral usado pelos velhos griots africanos, metade casca de fruto, metade couro de animal, parece também chorar nas mãos de Toumani Diabaté. E traz de volta a noite dos tempos imemoriais, a outra noite. Mas o sol lá fora, o sol que nos atravessa os olhos desde o início do filme, não nos permite não ver que a direção do canto-grito-lamento é sempre a do deserto.

            “A música, para eles, é o que serve de base para o improviso do canto” – observa Arnaldo Antunes. O que talvez explique o inesperado encontro entre as canções de Arnaldo e Scandurra e a música de Toumani Diabaté: o “encontro inesperado do diverso”.

            Mas quero aqui falar também de um outro encontro: aquele das imagens desse filme atravessado pelo sol de uma terra que “some além do monte”, essa  “terra virgem, terra velha”, que fica tão perto de nós nesse filme que elege a pobreza, não como um valor exótico, mas como um valor estético: “evoluir para pobre”, diria Maria Gabriela Llansol; “palavras pobres que restam”, acrescentaria Clarice Lispector.

            Os olhos de Toumani, os olhos de Scandurra, os olhos de Arnaldo são também os olhos de Rosa Celeste a nos guiar, em lição de delicadeza, ao som dessa música ao mesmo tempo estranha e familiar, como a querer nos dizer: “Não vou te deixar na mão, nem vou te deixar a pé”.

            Mas eis que estamos a pé e descalços — e com as mãos vazias — nesse grão de chão. Mas não estamos sozinhos. Lá estão aqueles três – sempre aqueles três e sua ternura, a nos olhar – e sua disponibilidade para o encontro: na dança no parque, no jogo de bola com as crianças, na novela brasileira exibida na rua, na TV.

            O mundo tão longe tão perto, Arnaldo, e você tão lá, a fotografar tudo o que se vê e tudo o que não se vê e ainda o impossível de não ver: a gentileza, a alegria, a doçura, a elegância desse povo colorido por seus panos estampados.

            Não vou me esquecer, Arnaldo, nem dessas imagens, nem desse sol, nem dessa voz-grito-lamento a atravessar o deserto, ao som da kora de nossos ancestrais. Não vou me esquecer que, quando você voltou de lá, ainda foi capaz de escrever, sobre Um Falcão no Punho: “Eis o chão que Llansol nos convida a pisar, lenta e pausadamente, onde cada frase esconde uma surpresa, um segredo, uma nova pele por baixo de outras, mais profundas, sem perder a superfície, onde as palavras se misturam à matéria incerta do mundo”.

            A matéria incerta do mundo, Arnaldo, já estava ali, no chão que você nos convidou a pisar, com sua viagem em direção aos desertos. E só um poeta de delicados dedos é capaz de reunir Serge Gainsbourg e Toumani Diabaté, enquanto desliza da areia seca do Mali para a areia movediça de Llansol.

            “O meu sim engrandece o dom o júbilo” – escreveu ela, em sua Anunciação. O teu sim, Arnaldo, o sim aos sons e às cores do Mali, engrandece o dom do júbilo de inumerável Brasil.

 

  Lucia Castello Branco

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