Papel, tesoura…. e o grão da voz

onde os cantores de leitura,

que eu ando tentar ler,

 

ensinam um canto branco.

 

Um canto branco sem leitura invade as dunas e o deserto (…)

Mas quem resiste à leitura branca feita em branco?

 

(Maria Gabriela Llansol. Os cantores de leitura. Partícula 93 – Diafonia)

 

A folia da teoria

 

Eu quero o canto, o branco, o deserto.

A leitura que invade e sai.

Eu quero a cópia.

O inverso daquilo que nunca sonhei.

Eu quero ser Oswald de Andrade, Darwin, Freud e Wittgenstein.

Quero vociferar um manifesto na academia.

A folia da academia.

Apropriar-me da teoria.

Mapas, grafos, raios, fórmulas.

Fórmulas e pílulas, raios!

Repetir à exaustão.

Antropofagiar.

Devorar os portugais, que morrem à míngua.

Eu quero a prova dos nove.

Eu quero ver a alegria.

É a experiência de cada dia.

Quero usar a primeira pessoa do singular, sem pudor ou melancolia.

Eu quero plagiar.

Quero ser Dante e gigante.

Quero ser trovador, sem dor.

Quero ser Camões, Pessoa e Llansol.

Eu quero voz e vós.

Sóis e sois.

Ladrões de palavras.

Eu quero ser o dono da voz.

Eu quero a voz sem dono.

Eu quero ser o neutro, eu sou Blanchot.

Eu quero ser o outro, eu sou Rimbaud.

O espírito, a letra.

O sopro, a corda, a cítara.

Não quero ser Saramago, mas mago.

Eu quero o grão da voz.

Quero ser Barthes, porque amo Barthes.

Eu quero citar sem citar (já disse, sou a cítara).

Quero me apropriar, mastigar, deglutir….. sem digerir.

Não quero a nova ortografia, que me atrofia.

Eu quero a poesia…… sua folia.

Eu quero ser Borges, Cervantes….. sem serventes, nem serventia.

Eu quero o mar que sacia.

Eu quero roubar, acariciar, incorporar, granular.

Eu quero cortar.

Eu quero cortar.

Cortar direitos autorais, direitos nacionais, direitos transcendentais.

Eu quero morder sua língua.

Quero lançar ao mar uma garrafa (sem mensagem).

Eu quero pronunciar, anunciar, denunciar.

Eu quero ser Borges e Cervantes.

Quero ser o cavaleiro andante de todos os cavaleiros andantes;

A Dulcinéia de todas as dulcinéias;

A rosa de um Rosa ou de um Angelus Silésius.

Eu quero ser Teresa de Ávila….. ávida.

Eu quero a vida: o livro da vida.

Eu quero ser San Juan de la Cruz….. sem noite escura.

Eu quero a folia do dia.

Eu quero ser a poesia.

Quero a visão dionisíaca de um Nietzsche:

 

A embriaguez do sentimento no grito

Mais poderoso e mais imediato

A palavra cantada, como uma volta à natureza

O conceito de sereno-jovialidade grega

Entre a mão de escritores ciosos de gozo

A terrível pulsão para a existência

O suspirar da criatura por algo que foi perdido

A repugnância que se dilui no sublime

O grito de terror e o anelante soar do lamento

O homem sem medida de coisa

 

“É certo que queremos a verdade”, diz Nietzsche e digo eu.

“Mas por que motivo não preferimos a não-verdade?”

“A incerteza?”

“O próprio não-saber?”

***********

 

Era uma vez Eu, desmedida de todas as coisas.

As coisas, então, preferiram a poesia.

Um poema sem eu.

Comedido.

Preciso.

Era preciso: era a voz

— Extensão do corpo, viajando no espaço sem tempo

Era o grão da voz.

***********

 

                                                                       (Notas da Aula Inaugural de Vania Baeta)

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s