LACAN E LLANSOL: FIGURAS NA DIREÇÃO DA CURA

(por Vania Baeta – Mesa-redonda “A cura da figura”)

Direi que há um encontro entre o texto de Maria Gabriela Llansol e de Jacques Lacan. Direi que há um encontro inesperado, porque este nem sempre se dá, obviamente, e, quando se dá, pode ser sempre em outro lugar, que não mais aquele que esperávamos encontrá-lo. Porque os lugares, embora fixos, não se fixam no sentido de uma apreensão do mesmo.

Direi que há um encontro inesperado do diverso. O diverso, aqui, é distinto. Porque, para além da elegância ou da beleza ou da diferença ou da estranheza, há uma dignidade em questão: “elevar o objeto à dignidade de coisa”, como Lacan define a sublimação, um dos destinos da pulsão, em seu seminário sobre a ética, a ética da psicanálise.

Há uma ética, em questão, que não se distingue, no caso llansoliano, de uma estética: a do dom poético, a da liberdade de consciência. E não haveria, na psicanálise, ou não deveria haver esse mesmo compromisso ético/estético? Não haveria uma estética lacaniana?

Segundo Haroldo de Campos, “Lacan reconjugou escrituralmente Gôngora e Mallarmé”, joycianizou-se também com “sua proliferação neológica” e chegou a formular, parafraseando Buffon, “O estilo é o homem, acrescentaríamos à fórmula, somente para alongá-la: o homem a quem nos dirigimos?”[1] Deixemo-nos, então, acompanhar Haroldo de Campos:

O estranhamento, a outridade radical em matéria de linguagem, se chama poesia. Não à-toa uma psicanálise, como a repensada por Lacan na fonte lustral de Freud, propõe uma poética, “qui incluirait la technique, laissé dans l’ombre, du mot d’esprit”. Engenho e arte (Camões, o Camões ‘maneirisa’ que influenciou Gôngora). Agudeza y arte de ingenio (Gracián).

Essa psicanálise interessa, desde logo, aos poetas. No Brasil, não por acaso, uma das primeiras referências ao autor de “L’instance de la lettre dans l’inconscient ou la raison depuis Freud” – justamente àquela passagem em que Lacan refuta o dogma saussureano da linearidade da linguagem, para propor uma escuta polifônica e partitural da cadeia do discurso, modelada na poesia.[2] 

O próprio Lacan, sabemos, em 1956, no texto intitulado “Situação da psicanálise e formação do psicanalista”, escreveu:

… não há forma por mais elaborada do estilo em que o inconsciente não abunde, sem excetuar as eruditas, as conceitistas e as preciosas, que ele não desdenha mais do que não o faz o autor destas linhas, o Gôngora da psicanálise, pelo que dizem, para servi-los.[3]

 

Portanto, uma tal figura, o Gôngora da psicanálise, é uma figura do próprio texto, seja no escrito, seja nos seminários, onde chega a afirmar: “só posso estar aqui em posição de analisando do meu não quero saber de nada disso”. Assim também Llansol, figura dos seus. Vejamo-la em O começo de um livro é precioso (começo 35):

Apesar de ter decidido não compreender, ela

Persistia em explicar-lhe por que lia a Gabriela Llansol ____

“É a casa que ensina a ler (pausa) imagina um extraordinário

Atractivo para o amor (pausa) o livro fala (pausa)

Procura a página que te fala (pausa) são da substância

Dos beijos e da boca (pausa) sentam-se à mesa

Num estético convívio (pausa) a sua liberdade

É tal que, se as folhas se partem, regressam por si sós

Ao ponto de partida e juntam-se, esperando (pausa) são

Pombas somente ligadas por uma fita de voo (pausa)

Não vês? (continua) 

 

Continuemos, pois. Os textos que se encontram nessa e nesta mesa, em estético convívio, são de natureza tal que, embora extremamente rigorosos, nos campos em que se situam, a ordem da indecidibilidade os conduz de forma a eliminar a possibilidade de uma compreensão que os confinem a uma interpretação confortável.

Trata-se sempre aí de algo conforme ao que Derrida comenta em relação à teologia negativa, seja a de um Angelus Silesius, seja a de um Mestre Eckhart, místicos que podem ser encontrados tanto na obra lacaniana, quanto na obra llansoliana. Trata-se, pois, de “um equívoco essencial, significante, decisivo em sua própria indecidibilidade,[4] a saber, aquela que marca o duplo genitivo (‘objetivo’ e ‘subjetivo’, antes mesmo do surgimento gramatical ou ontológico de um sujeito ou de um objeto)”.[5]

Vejamos, o genitivo é, em primeiro lugar, o caso do complemento do nome. Expressa simplesmente que um nome determina outro. Os usos do genitivo, na maioria dos casos, são de natureza semântica ou lógica, mais do que sintática.

Tomemos, pois, o caso em questão — “a cura da literatura”; “a cura da figura” — em sua indecidibilidade, entre sujeito e objeto, marcado pelo duplo genitivo, perguntamos: a literatura cura? Ou é ela própria a ser curada? Qual é o nome que determina o outro? A figura cura ou ela é curada? Llansol, Lacan: figuras que curam ou são curadas pelos próprios textos?

Encontramos também um caso semelhante na figura llansoliana: “este é o jardim que o pensamento permite”. Perguntamos: É o jardim que permite o pensamento ou é o pensamento que permite o jardim?

É possível, marcar, então, certa direção de cura. Pois ela, a figura (seja ela uma figura-frase, como essa que acabamos por citar, seja ela uma figura histórica — como San Juan de La Cruz, Ana de Peñalosa, Mestre Eckhart, Suso, Hadewijch d’Anvers, Teresa de Lisieux, Camões, Fernando Pessoa, Bach, Spinoza, Müntzer, Lacan, Llansol — seja ela, ainda, uma figura vegetal ou animal ou “coisal”, seja o que for…), ela não se deixará compreender em qualquer oposição filosófica binária.

Ela, a figura, há de resistir, há de desorganizar, há de ser, na beleza e na lógica que a constitui, em sua phisis, uma cena fulgor, um nó, um nó construtivo do texto, que modula, com sua voz própria, a partitura que se está a tocar.

Não há como acomodá-la em uma síntese, por exemplo, o que constituiria um terceiro termo, ou seja, uma solução dialética. A escrita, aqui, em seu estatuto de “pharmacon, não é nem o remédio, nem o veneno […] Nem/nem, sendo ao mesmo tempo ou bem isso, ou bem aquilo”,[6] de acordo com a dosagem e o corpo que a receber, no momento ou estado que a receber.  

Daí decorre que, sendo fiel à incompreensão em jogo (incompreensão que constitui, a meu ver, o rigor do texto lacaniano e llansoliano), nunca o leitor poderá dizer que, de fato, o texto Llansol e/ou o texto Lacan se encontram em tal ou tal ponto específico. Contudo, no fulgor da leitura desses textos, cada qual à sua forma, ilegíveis e, paradoxalmente, hiper-legíveis, quando esta (a leitura) atinge esse estado (fulgurante), é possível vislumbrar, não sem paixão, não sem cura, não sem loucura, mas também não sem rigor, que justamente esse ponto, o modo da incompreensão e da ilegibilidade visam, precisamente, a escrita como busca de verdade; a escrita como marca do desejo; a escrita como caminho transitável; a escrita como transmissão de uma causa.

Escutemos, pois, indecidivelmente, o acento na busca ou na verdade: a busca é que é de verdade? Uma busca verdadeira? Ou busca-se a verdade?  Essa busca, essa busca de verdade, o desejo em causa – causa amante llansoliana – seria, a meu ver, a marca do instrumento, do corpo, do traço, do estilo ou do raio sobre o lápis dessas obras: uma com seus matemas; outra com seus poemas.

O desejo em causa marca, assim, o final do texto lacaniano intitulado “A direção da cura”. Trata-se aí, segundo o psicanalista, de tomar o desejo ao pé da letra: o ser, ou melhor, a falta-a-ser do psicanalista. Ele invoca, com uma beleza magistral, a radicalidade do desejo em Freud, a potência de transmissão da letra – da letra freudiana, que não deixa de ter relação com sua pena de escritor. Além do mais, convoca de certa forma, ou chega mesmo a exigir do psicanalista, “passarinheiro”, que ele seja, antes de mais nada, um letrado. 

Contudo, tanto Lacan quanto Llansol, apostando na prática da letra – operada por cada um em seu campo; cada qual com seu desejo passarinheiro – deslocam a literatura do campo das belas letras, do poder simbólico, do âmbito da comunicação, do espelho imaginário da representação, da tradição melancólica do romance. Nas palavras de Lacan: “O poder simbólico […] não tem que ser demonstrado. É o próprio poder. Não há nenhum vestígio de poder no mundo antes do aparecimento da linguagem”. 

Assim, Lacan enceta seu L, na letra de “Lituraterra”; Llansol enceta seu duplo L numa segunda língua, nascida no céu da boca de uma rapariga que temia a impostura da língua; Lacan tropeça na letra, em ponto de dicionário, Lalande, e erra, dizendo “lalangue”…


[1] LACAN.  Escritos. Trad. Inês Oseki-Depré. Perspectiva, 1968, p.14. (“Abertura da coletânea”)

[2] CAMPOS, Haroldo. Barrocolúdio: Transa Chim? In: CESAROTTO, Oscar. (org.) Idéias de Lacan.  2.ed. São Paulo: Iluminuras, 2001, p. 164.

[3] LACAN. Escritos. Perspectiva, 1978.

[4] “Este neologismo, já empregado por Silviano Santiago (org.) in Glossário de Derrida, Francisco Alves, RJ, 1976, exprime a qualidade das ‘unidades de simulacro, falsas propriedades verbais, nominais ou semânticas que não se deixam compreender na oposição filosófica (binária) e que, no entanto, habitam-na, resistem-lhe e a desorganizam, sem jamais constituir um terceiro termo, sem jamais dar lugar a uma solução da dialética especulativa (o pharmacon não é nem o remédio, nem o veneno; o suplemento não é nem um mais, nem um menos; o hímen não é nem a confusão nem a distinção; o espaçamento não é nem o espaço nem o tempo; o encetamento (entame) não é nem a integridade de um começo, de um corte simples, nem a secundariedade. Nem/nem sendo ao mesmo tempo ou bem isso, ou bem aquilo’ (J. Derrida, Positions, Paris, Minuit, 1972, p.58)” Nota do tradutor. In: DERRIDA, Jacques. Salvo o nome. São Paulo: Papirus, 1995, p.10-11.

[5] DERRIDA, Jacques. Salvo o nome. São Paulo: Papirus, 1995, p.10.

[6] Nota do tradutor. In: DERRIDA, Jacques. Salvo o nome. São Paulo: Papirus, 1995, p.10-11.

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