O Menino Literatura

(João Rocha[1] – Mesa-redonda “A cura da figura”)

Para Lucia Castello Branco

 

“ − Mas não se passa nada?

− Claro que passa.

− Eles existem” (LLANSOL, CL, p. 163)

 

 

Encontrei, de noite, na paragem de um autocarro,

Perdido de pai e mãe, um menino. Como te

Chamas? Literatura. Nome estranho para um

Masculino. Trazia como este nos olhos um susto

Verdadeiro velado por uma ousada fantasia. Via-se

Que a realidade lhe causava muito incomodo. Por exemplo,

Ser noite, estar só, pagar bilhete, ter de saber a direção,

Sentir fome, estar com frio, respirar tudo de escape. Dei-lhe

Minha mão e, através do veneno das trevas, para não o

Perturbar, trouxe-o para viver comigo. Seu nome

Pouco me dizia, mas por seu olhar daria

A própria escrita. (LLANSOL, OCDULEP, 2003, p. 84) 

Assim a mulher o encontra: num ponto de ônibus, sozinho, aterrorizado. Ele tem medo da realidade: a noite, a solidão, a fome, o frio, a falta de direção, a falta de dinheiro, o abandono. Ela lhe dá a mão e o leva para ir viver consigo. O nome do menino pouco dizia para a mulher, mas seu olhar lhe apontava um começo: pelo olhar do menino daria a escrita. Postura estranha para um menino, ela pensava… Tal postura fazia a mulher se lembrar de uma figura feminina, do Livro das comunidades, de Maria Gabriela Llansol, que morava em uma casa de um só quarto e de uma só janela e que tinha uma maneira distante de fazer amor: pelos olhos e pela palavra. E isso lhe causava um certo estranhamento. Já se via pelo seu nome (se, para a mulher, esse nome pouco dizia, para nós diz muito: Literatura) que ele não era um menino comum.

O menino Literatura já não estava mais só e ia viver com a mulher, em sua casa. Porém, não seria tão fácil para o Literatura conviver naquela casa, pois nesse novo lar a escrita e o medo eram incompatíveis. E, como vimos, a realidade lhe causava um incômodo. E que incômodo seria esse? O menino Literatura não suportava a ideia de não poder representar a realidade. Causava-lhe medo saber que ela é inapreensível. Ela é rápida ao olhar. Ela é sem forma, pois está em constante mutação. A realidade é fulgor. E o menino Literatura sentia medo de tudo o que não pudesse tocar com as mãos. Por isso estava tão assustado, quando se viu abandonado, sozinho, à noite, num ponto de ônibus à mercê desta força informe e mutante: a realidade. Digo realidade, e não real, pois acredito que o árduo trabalho de diferenciar realidade e real seria desgastante demais aqui e, a meu ver, desnecessário, dado que, se pensarmos a realidade em seu cerne, em sua singularidade para um sujeito, veremos que ela é impossível, pois nunca chegaremos a ela. Sempre nos escapará, assim como o real.  

Ainda assim, o menino Literatura acreditava poder retratar a realidade, mostrar aos outros como ela é. E essa era a fonte de seu incômodo, de seu medo, pois o menino parecia ter a ilusão, ou o sonho, de que possuía a linguagem. É preciso, então, para que o Literatura possa morar nessa nova casa, curá-lo. E a cura, aqui, não deve ser confundida com uma terapia medicamentosa, nem com a certeza de que o sujeito encarará de frente seus medos e nunca mais os encontrará de novo, tornando-se assim uma pessoa melhor; e muito menos encontrará na escrita aparatos para solucionar, de vez, o desconforto das pedras no meio de seu caminho. Não, não há cura possível nessa direção, pois como escreve Blanchot, lembrando Goethe, “está fora de causa acabar bem” (BLANCHOT, OLPV, p. 36).

A cura, aqui, não visa um bem-estar. Ou, pelo menos, não só isso. Como sabemos, não se pode, mesmo se desejarmos, acabar com o mal-estar, o estranho, pois dessa maneira estaríamos, de alguma forma, desconsiderando a noção de inconsciente, este “desconhecido que nos acompanha” (LLANSOL, SH, p. 38). E isso seria um despropósito sem tamanho. Porém, “a cura faz-se, e não sei o que isto quer dizer” (p. 21), diz Llansol em Amigo e Amiga: curso de silêncio de 2004. É preciso que tomemos essa palavra, cura, em suas diversas acepções. Curar é também, tratar, cuidar, curtir, preparar para o uso, como quando se cura a madeira para ser usada; clarear, no sentido de deixar brancos os lençóis curados ao sol; retirar o excesso, como quando se vai tirando todo excesso de água para que se faça o queijo e a isto chama-se “cura do queijo”. Nessa direção polissêmica da cura, devemos encontrar para o menino Literatura algumas “imagens curativas”, como lemos em Maria Gabriela Llansol, em seu livro Amigo e Amiga: curso de silêncio de 2004.

A primeira encontro no texto Che cos’è la poesia, de Derrida. Encontro ali uma das imagens do poema: um ouriço-coração, este animal esférico que faz do sentido e da forma uma mônada, um nó. Para Derrida, o poema encerra-se nesta imagem: um animal abandonado numa estrada a mercê de todo e qualquer acidente. Imagem parecida com a que a mulher narra, ao encontrar o menino Literatura; porém, aqui, o animal-poema não parece ter medo, ao contrário do Literatura. O menino, então, ao encontrar o animal-poema, que aqui trago como uma imagem curativa, começa a perder o medo e assim consegue avançar mais um pouco em direção a sua nova casa onde o “medo e a escrita são incompatíveis” (LLANSOL, UFNP, p, 13). O menino começa a ficar menos incomodado com a realidade.

A segunda imagem curativa encontro em um dos livros de MGL:

________ se uma criança diligente se dispuser a espiar o fulgor de uma cena libidinal mais ousada,

depara com o silêncio que se escava em seu redor – e a preenche. […]

Sem ver a projeção da sua sombra, a ave fêmea sabe que, de dor, pode atacar intrusos. Cega – rente à neve. Fêmea-humana passa, por obrigação que lhe foi imposta pela primeira opacidade da prova e

agarra

a criança diligente arrastada pelo nó atrativo que a impeliu para o fulgor.

Assim, o rapazinho Literatura perdeu o último artifício que lhes restava do seu nome – Literatura. (LLANSOL, AA, p. 149).

O rapazinho Literatura é raptado, então, por uma ave-fêmea-humana, impelida pelo fulgor, e perde o último artifício que lhe restava no nome. Perde o próprio nome: Literatura. Ao perder esse nome, cura-se, no sentido de retirar o excesso. Perde todo o artifício que o nome Literatura lhe dava e pode, enfim, entrar na casa da mulher, Témia, aquela que “temia a impostura da língua”. Já não tem mais a obrigação de representar a realidade, ação que parecia se encontrar na fonte de seu medo, pois agora era para o fulgor que caminhava. Enfim, aprende que “não há literatura. Quando se escreve, só importa saber em que real se entra e se há técnica adequada para abrir caminho a outros” (LLANSOL, UFNP, p. 55).

Chegamos então a uma questão que nos seguiu calada até aqui: qual o sexo da Literatura? Porque Llansol a coloca como o menino Literatura, e não a menina Literatura? Poderíamos pensar que a Literatura à qual ela se refere é do campo fálico, do poder, isto é, ela fala da literatura como instituição. Por isso o masculino… Acontece que esta parece ser uma explicação “acostumada” demais e, segundo o poeta Manoel de Barros, é preciso desacostumar as palavras para que elas entrem no campo da poesia. As explicações também, penso eu. Nesse caso, usar o feminino, a Literatura, não mudaria muita coisa, pois como observa Lacan, “a mulher não existe”. Dessa maneira, dizer a Literatura, pode somente marcar um gênero e assim continuaríamos na ordem fálica, mesmo nos valendo de um nome feminino – a Literatura. Curar a literatura parece ser uma operação de desaparecimento. Desaparecimento dela mesma. E, aqui, lembro-me de Maurice Blanchot, pois ele marca o trajeto da literatura como sendo o do seu próprio desaparecimento. Nesse lugar podemos ver o olhar de Orfeu: o que a literatura ama, como Orfeu, é ver o desaparecimento de Eurídice, o que eles amam é justamente a mulher no ponto onde ela já não está – seu desaparecimento.

Assim se dá a cura da literatura: não é mais uma questão de gênero, o Literatura, a Literatura, tanto faz. Curada, a Literatura não há. Mas isso não quer dizer que não possua uma existência: “A vida eterna não existe. […] A mulher não existe, mas é escrita por ___________. Deus não existe, é apenas de quem se fala e se escreve. Mas João da Cruz escreve… Deus não existe. Mas é escrito por S. João da Cruz” (LLANSOL, LH 1, p. 23).

Assim como a mulher e Deus, a literatura não existe, mas é escrita por um traço, uma linha. E será esta a sua existência, uma existência escrita e não mais preocupada com a realidade, já que ela própria se torna real no momento do seu acontecimento. Eis sua existência: a existência de um acontecimento.

Deparamo-nos, aqui, com que Llansol denomina de um existente-não-real: ele “não é livre, existe, mas não tem, por exemplo, a realidade de poder deslocar-se para ir até a janela” (LLANSOL, AMDB, s/p). Entramos, assim, no campo da matéria figural, campo onde a existência é uma existência de letras, traços, linhas. Onde a existência está mais ligada à forma do que à realidade, à verossimilhança, à ficção. Entramos no campo das figuras: “Então, para eu vir junto de vós a ser cantor de leitura e precursor da sensualética nesta Casa, o anjo desprendeu-me da imagem piedosa, e desprendeu igualmente dela para tornar-se um trajeto de figura” (LLANSOL, CL, p. 161). O trajeto de figura é um trajeto de cura, de desprendimento, de amor: “ensinar, dar testemunho por escrito, compor música/para quebrar o saber, levá-la à soleira da porta/para que ela receba o sol,/são atos de amor” (LLANSOL, CL, p. 162) E foi um ato de amor que levou a mulher dar a mão para o menino Literatura e levá-lo para viver consigo. Um ato de amor e de cura, para que o menino pudesse fazer sua passagem, sua passagem para a figura:

“Sem passagens não há matéria figural,

de que essa casa

que mensura a figura,

está repleta ______ faz parte do extraordinário que tu não telefones

normalmente,

que, a ti próprio, te consideres um objeto perdido,

no início da manhã, ou em qualquer momento da fingida tarde;

aqui, no local de trabalho, tudo amanhece de repente,

e os dias,

de tão monótonos e para que eu regresse à realidade,

esperam pela passagem para as figuras” (LLANSOL, AA, p. 226) 

E assim, na passagem para a figura, a mulher acolhe o menino Literatura e o lança no campo da metamorfose. Mas o que ela dá a ele de mais precioso é uma direção: a direção da cura, a direção da figura.

Referências Bibliográficas

BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Lisboa: Relógio d’Água, 1984.

DERRIDA, Jacques. Che cos’è la poesia?. Coimbra : Angelus Novus, 2003.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

LLANSOL, Maria Gabriela. Amigo e amiga: curso de silêncio de 2004. Lisboa: Assírio e Alvim, 2006.

LLANSOL, Maria Gabriela. Llansol e a mulher de Balthus: um diálogo. Manuscrito de M. G. Llansol: do Caderno 1.47, 2009.

LLANSOL, Maria Gabriela. O começo de um livro é precioso. Lisboa: Assírio e Alvim, 2003.

LLANSOL, Maria Gabriela. O livro das comunidades. Lisboa: Afrontamento, 1977; Lisboa: Relógio d’água, 1999.

LLANSOL, Maria Gabriela. O Senhor de Herbais. Lisboa: Relógio d’Água, 2002.

LLANSOL, Maria Gabriela. Os cantores de leitura. Lisboa: Assírio e Alvim, 2007.

LLANSOL, Maria Gabriela. Um falcão no punho. Lisboa: Relógio d’Água, 1998.

LLANSOL, Maria Gabriela. Uma data em cada mão: livro de horas I. Lisboa: Assírio e Alvim, 2009.


[1] Doutorando em Literatura Comparada, na linha de Literatura e Psicanálise, no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários – FALE / UFMG.

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