Variações em torno de uma só nota

afinal, uma única melodia respondia ao silêncio[1]

 

(Janaina de Paula – Mesa-redonda “A cura da figura”)

 

Ela, a rapariga que sai do texto e retorna a ele, sabe que entre um espaço e outro não há mais do que uma dobra de silêncio. Uma dobra apenas. Ela, que escreve apenas com uma nota, deseja curar com o silêncio o ruído atroz da metanoite (IQC, p.14). Porque desde muito cedo, essa rapariga – que temia a impostura da língua –, tomou conhecimento de que o embate das imagens se dava no próprio corpo. Que nele, uma nota de silêncio compunha a sua ária, a sua vibração dissonante, a sua claridade: “É o meu corpo que incendeia a chama________________________________[2] (IQC, p.16), ela nos diz. Eis, então, nas linhas desse dizer, uma só nota de silêncio: chama.

Essa rapariga – que podemos chamar Témia, podemos chamar Gabi, podemos chamar ela –, deixada só pela morte sucessiva dos vivos, ganha corpo de escrita pelo sopro da chama que a atravessa. Ou, talvez, fosse preciso escrever essa frase com os verbos no tempo que lhes cai melhor: ela, deixada só pela morte sucessiva dos vivos, ganhará corpo de escrita pelo sopro da chama que a atravessará. Assim, entre um tempo que há de vir e um que já se esvai, temos a perenidade de um instante, o acontecimento de uma vida, marcada não pelo seu passado autobiográfico, mas pelo seu futuro autobiográfico.   

 

Creio que os meus textos sabem muito mais; eles não estão atrás, no meu passado autobiográfico; eles estão diante de mim, no meu futuro autobiográfico; atraem-me tanto a mim quanto a outros que os tocam, para saber

             e não mais. (PQRNM, p.15)

 

A rapariga do texto nos conduz, assim, a um espaço em que uma melodia de silêncio, em sua nota mínima, revela-se como uma presença que faz coincidir momentos distintos, separados por todo um curso de duração. Desse apagamento do tempo pelo próprio tempo, do silêncio – ruído atroz da metanoite – pelo próprio silêncio – canto-fulgor –, e do desaparecimento pelos vestígios do próprio desaparecimento, restam-nos apenas “pedaços de real” (Lacan,1975/76, p.119), destacados de um todo. É em direção a esses fragmentos, que consistem em não se ligar a nada, e em torno do qual o pensamento divaga que a rapariga avança, sem, contudo, deixar de escutar a melodia desse um quarto de silêncio. Esses fragmentos, afirmados no seu ponto de desaparecimento, seguem uma espécie de “corrida vertiginosa e ininterrupta do passado para o futuro, sem oscilação de um extremo ao outro, sem repouso (Genet, 2000, p.47). E assim nos indicam

onde nasce uma palavra livre, como nascida de uma morte, escreverá para lhe retirar, um a um, todos os atributos perecíveis, como estes não são do corpo, mas de um luar libidinal inadequadamente punitivo (JLA, p.91).

 

Ela sabe, e não mais que isso, que o silêncio subtrai a noção de tempo, justamente por sua nota de duração: chama. Mas, talvez, ela saiba também, com o texto, que nessa direção

 

a metamorfose do tempo transforma o presente em que ela parece ocorrer, atraindo-o para a profundeza indefinida onde o “presente” recomeça o “passado”, mas onde o passado se abre ao futuro que ele repete, para que aquilo que vem volte sempre, e novamente, de novo. (Blanchot, 2005, p.23)

 

É desse tempo – metamorfoseado – que nos chega a rapariga que carrega uma só nota de silêncio. Do interior da casa dos objectos, deixada vazia pela Morte Sucessiva dos Vivos (UBDMT, p.54), ela avança para fora, lugar exterior, para em seguida, retornar a ela. Nesse passo de figura, destituída de qualquer pessoalidade, um contorno cintilante adensa-se, um nó desata-se para atar-se em outro lugar. Em torno desse nó, algumas variações:

Esse anel é de ouro?”. “Não”, é uma jóia de possuir o mau silêncio, profundamente mudo, o mau silêncio que perseguiu      a rapariga que temia a impostura da língua e a diminuiu na sua altura quando ela quis chegar – pela via única –, ao fulgor da palavra; o mau silêncio e o bom ladrão não coabitam juntos, e Temia escolheu, dentro do mesmo espaço de linguagem, um para ti, outro para mim,                                                                                                                              e deixa-me no meio do labirinto sabendo para que lado olhar (UBDMT, p.17).

 

            Ao contrário de Ulisses, essa rapariga que nos guia pelo espaço llansoliano abre os ouvidos para o canto da casa, mesmo sabendo que resta nele um silêncio inaudível, ruidoso, atormentador. No espaço traçado por essa nota, ela cava na linguagem o lugar de um canto habitado por outro silêncio. Um silêncio metamorfoseado em chama, no interior do anel de possuir o mau silêncio, trazendo o que é vida corrente para o invisível não tomado pela morte (IQC, p.29). Do silêncio ao canto, que guarda uma nota de silêncio, um passo se destaca no olhar:

 

Descobri que se, em vez de me concentrar na sombra do corredor, me deitasse de costas a olhar a mancha rutilante, o meu olhar poderia realizar o caminho inverso da luz e pousar no ramo mais alto da árvore e aprender com esta a produzir clorofila – a primeira matéria do poema. (…)     

O meu corpo permanecia deitado,                                                                                                       no chão do quarto,                                                                                                              enquanto o meu olhar aprendia a fazer poemas. Com o tempo como seria aquele corpo, separado da poesia, ou com esta apenas a brotar do seu olhar? (OVDP, p.12).

 

Deixada no meio do labirinto, mas sabendo para que lado olhar, a rapariga – nascida na sequência de um ritmo –, busca na cidade vegetal a aprendizagem da luz: a sua amplitude, a sua freqüência, a sua vibração. Todos eles, elementos de uma nota. Para curar o ruído atroz no interior do silêncio, o olhar percorre a linha que realiza o sentido inverso ao da luz, e o corpo, ao invés de seguir crescendo em direção ao corredor, avança para o aberto da claridade, seguindo a mancha rutilante que o conduz ao plátano. Nesse lugar, a luz realiza a sua função: produzir clorofila, a primeira matéria do poema, incendiando essa uma nota só de silêncio. Chama. Percorrer esse caminho impossível, ou esse impossível caminho, não traça uma morada, mas desenha um espaço em que o corpo – tambor de clorofila – encontra o seu canto-poema. No regresso, a língua ganha voz e o silêncio uma pausa em sua respiração.

Desse corpo corruptível, pois ocupado por todas as tonalidades de silêncio contidas numa única nota de silêncio, destaca-se a sarça, a silva, a substância lenhosa da língua, a pira de lenha (…) que, em qualquer lugar, ou particularidade que acompanhe a dor, é a causa amante da metamorfose (AA, p.155).

Da chama da pira de lenha incendiada, temos a luz e o silêncio. Temos os elementos do corpo captados no seu movimento, dobrados e redobrados até o lugar primeiro, aquele da matéria que, transformada, é o suporte de toda escritura. Dessa notação do silêncio, o que se extrai não é a sua representação, ou a palavra última, aquela que o eliminaria, mas a apresentação do fulgor do silêncio no canto que o evoca. Chama. Pois ele, curado pelo calor da luz ou a luminosidade do fogo, metamorfoseia-se na arenosa substância do poema, no ponto mínimo, lugar de acúmulo de uma vida que resta. Nesse lugar da matéria viva e ardente de uma única nota, nada é vulgar, tudo é figurável (IQC,p.101). Tudo é corpo nascido para perdurar.

Deixemos escorrer, através dos nomes de figura, a seiva de uma vida, a sua matéria mais resistente, a sua dor, a sua respiração: Temia, Gabi, Maria, Gabriela “amemorieuse”. Na queda de cinco letras de um nome próprio, restam, nas mãos, apenas três: ela. Três letras e uma só nota: chama. No silêncio desse nome, nome impróprio, nome de poema, se o fulgor não abolir os fragmentos, o corpo [de silêncio] cantante será unidade e unificação, a força de coesão do Há. (AA, p.98).

Há apenas uma nota. Nela, há ritmo, há espaço, há voz. Há o silêncio, e esse é de pedra/escura, iluminada (IQC, p.16). Iluminado o silêncio, com o fulgor que resta no nome de figura que o poema escreve, temos uma possibilidade de vida, essa que se mede pelos movimentos que traça, e pelas intensidades que cria (IQC,p.14).                                                                     

 

O ritmo da respiração desce e todos os ínfimos detalhes deste diálogo, com mesa, tapetes e cadeiras                  estão algures, entre o que há-de morrer em mim, e os meus olhos. “Jovem infinitamente estranha”, penso.                                                                                                                   – Infinitamente estranha tu és, ó visitante – diz o anjo –, tão infinitamente diferente do que julgas que és. Incendeias povoações, roubas e matas, e alegras o mundo, e aterrorizas, e queimas os lugares reticentes deste mundo.                                                                                                                        – Se tiveres um vislumbre de quem sou – diz-lhe a jovem –, e de quem me levou a olhar para ti, neste lugar da sala,                                                

tira-me a voz, e dá-me a arte de durar, de transmutar o corpo,                                                                       e de ter mãos que crescem

Na sala, onde estou sozinha com a chama_______. (IQC, p.17).

 

Operando em silêncio, no curso de silêncio, a rapariga desmemoriada nos faz esquecer de que “todas elas – Témia, Gabriela, Maria, Gabi –, sendo várias, são uma só: ela, a que não existe, a existente-não-real. Não será esta, a que não existe, a única que resta, curada, a ressoar, a chamar, chama no interior de um anel?”[3].

 

Referências

 

BADIOU, Alain. Por uma estética da cura analítica. In: BRANDÃO, Vera Maria Vinheiro (org.). A psicanálise e os discursos. Rio de Janeiro: Revista da Escola da Letra Freudiana, 2004. P. 237-242.

BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins fontes, 2005.

CASTELLO BRANCO, Lúcia. Cartas inéditas trocadas em torno do texto. 12/10/2011.

CELAN, Paul. Arte poética – O Meridiano e outros textos. Lisboa: Edições Cotovia, 1996. P.41-67: O meridiano.

GENET, Jean. O ateliê de Giacometti. São Paulo: Cosac & Nify, 2000. 

LACAN, Jacques. O seminário – livro 23. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

MALLARMÉ. Stéphane. Divagações. Florianópolis: Editora UFSC, 2010. P.157-168: Crise de verso.

LLANSOL, Maria Gabriela. Um beijo dado mais tarde. Lisboa: Rolim, 1985.

LLANSOL, Maria Gabriela. A restante vida. Lisboa: Relógio D’Água, 2001.

LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 1 – O encontro inesperado do diverso. Lisboa: Edições Rolim, 1994. P.116-123: Para que o romance não morra.

LLANSOl, Maria Gabriela. O sonho de que temos a linguagem. Colóquio Letras, Lisboa, FUNDABENKIAN, n. 143/144, janeiro-junho 1997, p. 5-18.

LLANSOL, Maria Gabriela. Inquérito às quatro confidências. Lisboa: Relógio d’água, 1996.

LLANSOL, Maria Gabriela. Onde vais drama-poesia?. Lisboa: Relógio d’água, 2000.

LLANSOL, Maria Gabriela. O jogo da liberdade da alma. Lisboa: Relógio d’água, 2003.

LLANSOL, Maria Gabriela. Amigo e Amiga – curso de silêncio de 2004. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005


[1] Os fragmentos em itálico são excertos retirados da Obra de Maria Gabriela Llansol. 

[2] Na transcrição dos trechos, foram mantidos os intervalos, os espaços e traços presentes nos livros de Maria Gabriela Llansol.

[3] CASTELLO BRANCO, Lúcia. Cartas inéditas trocadas em torno do texto. 12/10/2011. 

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