A cura da literatura: uma nova configuração estética?

(Elisa Arreguy Maia[1] – Mesa-redonda “A cura da história”)

Teria preferido ver desdobradossobre a mesa os conteúdos da minha escrita. Aí, sim, teríamos um princípio de trabalho, o início de uma interpelação entre estéticas praticadas.

Se eu escrevo sobre Hadewijch, é com a escrita de Hadewijch; se eu escrevo sobre Copérnico, é com a revolução estelar de Copérnico; se escrevo sobre o embarcadouro, é utilizando o seu barco, e as suas margens; […] [Contos do Mal Errante, p. 118-119].

 

             No campo que se instaura entre a escrita e um sujeito, a Textualidade Llansol vem a ser uma escritura que se afirma enquanto uma operação de subversão do sujeito – de um sujeito que se reinventa na e pela escrita e, ainda, a TL é também uma operação que suporta uma mutação no campo da literatura. Em seu espaço em mutação, a TL não só deixa para trás a recorrência à metáfora, à narrativa. Correndo o risco de abandonar a escrita representativa para alcançar os nós construtivos da escrita, correndo o risco de perder as normasque a gramática assegura, ela salta para fora da ficção, afronta a normalidade e visa atingir o cerne do saber na cultura. No campo que se produz entre um sujeito e a escritura atinge-se e modifica-se o campo do saber. Assim como, um dia, a invenção do discurso da ciência interveio no campo do saber, produzindo um saber no real (quando uma fórmula científica escreve uma lei da natureza, ela extrai saber do real), também a operação com a letra, na literatura atinge, a seu modo, o campo do saber.

A escrita de Maria Gabriela Llansol trabalha com o saber textual. Sua operação com a letra advém de uma ruptura no semblant, e o texto que a promove faz um corte com o modo no qual nosso pensamento se organiza, forçando uma mutação na episteme através do que a autora expressa como a união da liberdade de consciência (conquista política da modernidade) com o dom poético (a força da “forma mais exata”, como os gregos definiam a escrita). Para desdobrar esse ambo (liberdade e poética), lembremos que o pensamento se organiza na e pela linguagem, e que a gramática vem a ser o fundamento mesmo da lógica da linguagem. Tradicionalmente, no Ocidente, o núcleo da reflexão filosófica calcou-se na “estrutura essencial do discurso sobre o ser[i]. O cogito cartesiano – penso, logo sou – selou a identidade da razão com pensamento no ser. Foi justamente nesse penso que a psicanálise deu o passo do inconsciente, pois, quando se trata do sujeito, já não é aquele que pensa, mas é o que fala e não sabe o que diz. O não-saber inscreve no coração do sujeito uma perda de “substância”. Aqui Lacan deliberadamente diz “substância”, marcando a condensação da gramática (o substantivo) na coisa (res)[ii]. E, com isso, Lacan nos levará a reconhecer que a perda é de gozo[iii].

A investigação de Lacan a partir do seminário 20 procura articular o gozo, a estrutura dos discursos (a estrutura tem “estrita equivalência” com a topologia) e o escrito (a função da letra). Servimo-nos dessa articulação para investigar aqui o “saber da letra” no fundamento lógico da subversão llansoliana e seu passo a mais, seu “passo a ler”[iv], que, assim como o entendemos aqui, não é sem a psicanálise, ainda que Llansol não o tenha feito a partir dela[v]. O passo llansoliana, se ele atinge mesmo o cerne do saber e intervém na organização do pensamento, como afirmamos, só poderia realizar-se plenamente, isto é, “sem ser marginal a nada”, sem restar como uma tentativa fracassada ou vencida, ao alcançar inscrever na Cultura seu passo adiante: voltar-se ao laço social. Não tão somente escrever e publicar, mas, sendo a escritura que é, sonhar ainda, ou por isso, um laço social também raro: uma comunidade de escrita[vi].

Ao aceitarmos que a TL produz uma mutação no modo do saber, fomos conduzidos, nós mesmos a um passo além, isto é, poder pensá-la como uma “mutação no discurso”. Assim, afirmamos também que a TL abre-se a um laço de discurso agenciado pela letra, que busca reunir legentes a partir não da identificação, mas no um-a-um. Um laço, um discurso, que não seria do semblant: impossível, evanescente e, ainda assim, por um instante, evocado na consistência mínima da escrita, na consequência da invenção do inconsciente – tocando o ponto de real do trabalho do inconsciente, exposto na superfície da escrita da textualidade, tal discurso ex-sistiria[vii].

A partir do saber exposto da letra a céu aberto na escritura, a nossa investigação esbarrou com o questionamento: que pensamento pensa esse saber? E isso nos trouxe à relação do saber com a verdade.

Buscando a ordem de pensamento que avalia as “condições conceituais” com os quais nos orientamos para “pensar o pensamento”, Alain Badiou nos serviu de guia na avaliação do passo llansoliano. Ao analisar as condições de possibilidade da filosofia, diz ele: “Trata-se […] de saber o que quer dizer: dar um passo a mais[viii]. Mais dez anos depois, o filósofo (atravessado pela psicanálise) detém-se na relação da arte com o saber, para afirmar que a arte é, ela própria, um procedimento de verdade e que, como consequência, seu verdadeiro destino, ainda inaparente, é mostrar-se como pensamento. “A arte é um pensamento cujas obras são o real (e não o efeito)” [ix].

Para esse filósofo, um período histórico configura as condições de pensamento desse próprio tempo segundo operadores conceituais que se sustentam em paradigmas de uma ou várias dessas condições. Assim, ele nomeia quatro “procedimentos genéricos”, as quatro condições que segundo ele permitem o pensamento da filosofia: o matema, o poema, o amor (contemporaneamente, tomado no discurso da psicanálise) e a política.

 

Um período faz nó dos quatro procedimentos genéricos no estado singular, pós-eventural, em que se encontram, sob a jurisdição dos conceitos através dos quais um dentre eles é inscrito no espaço de pensamento e de circulação que faz filosoficamente ofício de determinação do tempo. No exemplo platônico, a Ideia é manifestamente um operador do qual o matema é o princípio “verdadeiro” subjacente, a política se inventa como condição do pensamento sob a jurisdição da Ideia (donde o rei-filósofo e o papel notável representado pela aritmética e pela geometria na educação desse rei ou guardião) e a poesia imitativa é mantida à distância, tanto mais que, como mostra Platão […] há uma cumplicidade paradoxal entre a poesia e a sofística: a poesia é a dimensão secreta, esotérica, sofística, porque ela leva ao cúmulo a flexibilidade, a variância da língua [BADIOU: 1991:14].

 

Logo, os períodos históricos marcados segundo os operadores conceituais propostos por Badiou serão, também, quatro. O período moderno é o que tem a categoria de Sujeito como seu organizador central, embora submetido ao “esquema do fim da metafísica”. Sobre a questão da desconstrução, ou não, da categoria de Sujeito, ele cita Heidegger:

 

[…] Nossa época é aquela onde a “subjetividade é empurrada para seu término”, que consequentemente o pensamento só pode terminar para além desse “término” que não é outra coisa senão a objetivação destrutiva da Terra, que a categoria de Sujeito deve ser desconstruída e tida como último avatar (moderno, precisamente) da metafísica; e que o dispositivo filosófico do pensamento racional, do qual essa categoria é o operador central, está a partir desse ponto mantido no esquecimento sem fundo daquilo que o funda, que “o pensamento só começará quando tivermos aprendido que essa coisa tão magnificada por séculos, a Razão, é o inimigo mais encarniçado do pensamento” [BADIOU: 1991:16.].

 

 

Badiou, com Lacan, reafirma para nosso tempo a categoria de sujeito, afirma que o período moderno continua, mas a razão é “a razão depois de Freud” [x]. Em seu Pequeno manual de inestética[xi], o autor fornece-nos uma análise que nos ajuda em nossas especulações sobre a “episteme-estética” de Llansol quando reconhece que, no entrelaçamento da arte e da filosofia, podem ser distinguidos três esquemas – o didático, o romântico e o clássico, esquemas estes que chegaram a seu ponto de saturação e isolamento e, por isso, “se deve tentar propor um novo esquema, um quarto modo de entrelaçamento entre a filosofia e a arte” [BADIOU: 2002:19-20].

 

 

A meu ver, o que caracteriza o final do século XX é que ele não introduziu um novo esquema em larga escala. Embora se afirme que é o século dos fins, das rupturas, das catástrofes, para o entrelaçamento que nos diz respeito[2], vejo-o antes como um século conservador e eclético. Quais são, no século XX, as disposições plenas do pensamento? As singularidades solidamente destacáveis? Vejo apenas três: o marxismo, a psicanálise e a hermenêutica alemã. [Quanto à arte] o marxismo é didático; a psicanálise, clássica; e a hermenêutica heideggeriana, romântica [Badiou: 2002:16].

 

Se os esquemas conceituais estão saturados, seria preciso pensar o que lhes é comum, no que diz respeito à relação da arte com a verdade. Nessa relação, as categorias que Badiou propõe são imanência – isto é, “será que a verdade é realmente interior ao efeito artístico das obras? Ou a obra de arte não passa do instrumento de uma verdade exterior?” – e singularidade, isto é, “a verdade testemunhada pela arte é absolutamente própria a ela? Ou pode circular em outros registros do pensamento operante?” [Badiou: 2002:20]. Ora, a tese de Badiou é, propriamente, afirmar a simultaneidade da imanência com a singularidade – “a própria arte é um procedimento de verdade”. Enfim,

 

A arte é um pensamento cujas obras são o real (e não o efeito). E esse pensamento, ou as verdades que ele ativa, são irredutíveis às outras verdades, sejam elas científicas políticas ou amorosas. O que também quer dizer que a arte, como pensamento singular, é irredutível à filosofia. Imanência: a arte é rigorosamente coextensiva às verdades que prodigaliza. Singularidade: essas verdades não são dadas em nenhum outro lugar a não ser na arte [BADIOU: 2002:20-21].

 

A singularidade concentra um ponto muito importante na proposta filosófica de Badiou, pois é ela que autoriza uma diferença irredutível em relação aos outros campos do saber. Badiou faz então a pergunta: “Quais são as configurações contemporâneas?” Mas a coloca em reserva. O próprio autor afirma que “a maioria das conseqüências dessa tese ainda está velada, e ela obriga a um considerável trabalho de reformulação” [BADIOU: 2002:21].

Poderia a escrita llansoliana ser tomada como um “quarto esquema”, surgindo como uma configuração “imanente e singular”? E essa diferença de configuração em relação à episteme se daria com possíveis efeitos sobre o campo do discurso, naquilo que detectamos como um chamamento a um novo laço? Compossíveis efeitos de discurso. Voltemos nossa atenção ao que se passa na escrita.

Na escrita da letra, na recolha do que sobra da erosão significante, no forçamento ao que não seria do semblant, a Textualidade Llansol convida a uma escrita que se exerce em estados fora-do-eu, que se realiza segundo certa intensidade, na proximidade entre existência e êxtase que a língua porta[xii]. Ou seja, esse texto provoca uma experiência. Desde aí, segundo um procedimento contemplativo que busca suas fontes em outros registros que não o pré-consciente-consciente, a TL vai encontrar suas figuras de criação. Enquanto a ficção produz personagens, que exploram o lado emocional da imaginação e escrevem-se segundo as normas realistas, reproduzindo ad infinitum a busca pela verossimilhança, o texto llansoliano, deslocando-se da narratividade à textualidade, encontra os seus existentes-não-reais e reais-não-existentes, suas figuras[xiii]. Ele busca seus reais-não-existentes, estesque têm existência de Letra, que se efetuam na Letra. Vigorando entre o simbólico e o real, escrever, no espaço Llansol, vem a ser o duplo de viver[xiv] e dá-se segundo sua técnica de sobreimpressão: as múltiplas realidades convivem e deságuam na escrita, desfazendo a unidade do mundo (unidade que é um efeito da história e, portanto, da ficção), redesenhando tempo e espaço em uma apreensão que é nitidamente marcada por uma topologia não esférica[xv].

É assim que a textualidade opera, buscando sobreimprimir a liberdade de consciência – essa conquista da Revolução Francesa, que tem seu acabamento na Declaração dos Direitos do Homem –, ao dom poético, operação que pode reencontrar a vibração, o fulgor que a narratividade perdeu: “Eu digo: – o dom de envolver uma atmosfera sugestiva na realidade (que procuro desenvolver pouco a pouco, e que chamo escrita, seja ou não expressa verbalmente e incorporada, por sinais, no papel) [cf. Um falcão no punho, p. 63-4]”. Tal sobreimpressão refunda o desejo pelo novo que, para Llansol, se ausentou da cultura.

A escrita – “o dom de envolver uma atmosfera sugestiva na realidade” – revira o espaço literário, o que era adereço, atributo, vem ao cerne. O poético é o coração da escrita. Aí a literatura faz-se geografia de uma terra sempre estrangeira. O que não prevalece, mas faz sulco, erosão, marca o mundo com traços ilegíveis que aguardam pelos tempos afora sua inscrição, é chamado à existência de escrita.

Esse procedimento metódico de revirar a literatura faz o texto saltar da literatura e o expõe no avesso do pensamento. Muito além de um gesto retórico, “escrever como duplo de viver” faz corte: a TL é um corte na realidade fantasmática que se partilha na cultura – a realidade fantasmática, na cultura, é o eterno retorno da ordem edípica como tratamento ao gozo e ao mal-estar. Assim é que algo inédito se depõe nessa escrita.

Suponhamos agora que a Textualidade Llansol seja uma nova configuração, tal como antecipa Alain Badiou, e suponhamos que isso que se depõe tenha efeitos de verdade (já que uma nova configuração seria, por definição, uma “verdade-arte”):

 

Uma configuração não é nem uma arte, nem um gênero, nem um período “objetivo” da história de uma arte, nem mesmo um dispositivo “técnico”. É uma sequência identificável, iniciada por um acontecimento, composta de um complexo virtualmente infinito de obras, que nos permite dizer que ela produz, na estrita, imanência à arte que está em questão, uma verdade dessa arte, uma verdade-arte [BADIOU: 2002:25. Grifos do autor][xvi].

 

 

           Se “a arte é um pensamento cujas obras são o real”, então ela não reproduz nada, mas cria. “Paradigmática então nos parece a citação de Heine sobre a gênese da criação que na pena de Freud faz pensar em uma tarefa civilizatória, ou, mais ainda, em um voto: ‘Criando, pude curar. Criando, eu me tornei bem disposto’”[xvii].


[1] Trecho do livro Textualidade Llansol letra e discurso, especialmente para A Cura da Literatura: breve encontro intenso da psicanálise com o texto de MARIA GABRIELA LLANSOL. Faculdade de letras da UFMG, BH, 20/10/2011.

1 Isto é, entre arte e filosofia.


[i] SANTOS. “Prefácio”. In: WITTGENSTEIN: Tratactus Logico-Philosophicus. São Paulo: Edusp, 1993, p.15. Veja-se, também, sobre a lógica: MAIA. Transfinitos 2, 2003, p.127-128.

[ii] Cf. LACAN, 1982, p.33.

[iii] Tudo que se articulou sobre o ser supõe que se possa recusar-se ao predicado e dizer o homem é, por exemplo, sem dizer o quê[iii]. O que diz respeito ao ser está estreitamente amarrado a essa seção do predicado. Daí nada poder ser dito senão por contornos em impasse, demonstrações de impossibilidade lógica, aonde nenhum predicado basta. O que diz respeito ao ser, ao ser que se colocaria como absoluto, não é jamais senão a fratura, a rachadura, a interrupção da fórmula ser sexuado, no que o ser sexuado está interessado no gozo. LACAN, 1982, p.20. 

[iv] “[…] meus Escritos, cujo livro se compra – dizem –, mas para não ler [pas à lire].” Cf. LACAN, 2003, p.503.

[v] O não-sem é um modo lógico que a psicanálise revela e que remete a um real em jogo; não sem a psicanálise quer dizer que o que se passa com a escritura de Llansol se beneficia desse saber novo que a prática freudiana instaurou na Cultura.

[vi] Não há como desenvolver isso neste trabalho, mas entendo que promover este laço de escrita faz parte daquilo que neste encontro serve de interrogante: a cura da literatura.

[vii] ARREGUY MAIA. Textualidade Llansol – letra e discurso. Tese de doutoramento em Letras, UFMG, 2005.

[viii] BADIOU. Manifesto pela filosofia. Rio de Janeiro: Aoutra Editora, 1991, p.5.

[ix] BADIOU. Pequeno manual de inestética, 2002, p.20. Nesse trabalho, o interesse do filósofo centra-se na relação da arte com a filosofia. Esta última, paradigma do discurso do mestre, subsume um grande leque dos saberes conceituais.

[x] LACAN. Écrits: L’instance de la lettre dans l’inconscient ou la raison  depuis Freud. Paris: Seuil: 1966.  P.493.

[xi] Cf. BADIOU. Pequeno manual de inestética, 2002.

[xii] Sobre a relação da episteme com a instância do Eu, veja-se MILNER. A obra clara, 1996. Segundo ele, as três feridas narcísicas impostas à humanidade – Copérnico, Darwin e a própria Psicanálise (segundo Freud, 1922) – têm como tese de fundo “um anticopernicianismo recorrente, ele está ligado ao Eu”. O heliocentrismo instaura radical desarmonia entre o centro geométrico do sistema planetário e o centro de observação, no caso de Copérnico, ou com o próprio centro do círculo, no caso da elipse de Kepler (a elipse tem dois núcleos, sendo que um está vazio). Isto é, em ambos os casos, a boa forma do círculo onde “todo o centro coincide com todo centro”, cede a uma má forma. O Eingeliebe, o amor de si, equivale ao Eu, e o Eu é o nome do Imaginário. O Imaginário é gestáltico. O eu privilegia toda boa forma, logo o anticopernicianismo é de estrutura. Se a episteme antiga desapareceu como figura histórica, ela resiste, no entanto, no Eu. E é assim, diz Milner, que o Eu tem horror à ciência e à letra como tal. Enquanto a ciência e a letra são indiferentes à boa forma, o Imaginário é radicalmente estranho à ciência moderna, pois esta, literal, dissolve o imaginário.

[xiii] “Da leitura transformada em produtora – e receptora – de efeitos e de afecções migra-se para criação, pela escrita, desses puros seres de linguagem, esses reais-não-existentes, que não devem ser confundidos com personagens romanescos (ainda que seus nomes remetam a seres que realmente existiram) […]. Descarnados de um romanesco típico dos chamados romances históricos, essas figuras são, por assim dizer, o nome próprio da escrita, nomes retirados dos textos lidos e transformados em habitantes do que Llansol denomina mundo figural.” Cf. GUIMARÃES, 1997, p.220.

[xiv] “Em Llansol, escrever torna-se o duplo de viver. Não porque a vida seja tomada como matéria de poesia ou envolta por um caráter poético, mas antes, o contrário: ‘Ele [Musil] diz: O dom de envolver a realidade numa atmosfera sugestiva (o poeta). /Eu digo: – o dom de envolver uma atmosfera sugestiva na realidade (que procuro desenvolver pouco a pouco, e que chamo escrita, seja ou não expressa verbalmente e incorporada, por sinais, no papel)’ [cf. Um falcão no punho, p. 63-4].” Cf. GUIMARÃES, 1997, p.220-221.

[xv] Vale lembrar, a topologia não esférica é o estudo do espaço que tem servido à investigação da estrutura do sujeito falante. Ela justamente se opõe ao Eu. Ver nota XII acima.

[xvi] Segundo Badiou, a “tragédia grega” é uma configuração, o “acontecimento iniciador” leva o nome de Ésquilo, “mas esse nome, como qualquer outro relativo a acontecimentos, é antes o indício de um vazio central na situação anterior da poesia cantada”. Em Eurípides esta configuração já estará saturada. O “romance” é um nome de configuração para a prosa, tem o “acontecimento iniciador” em Cervantes e em Joyce seu ponto de saturação. Na música, o “estilo clássico” (Charles Rosen) é uma configuração que vai de Haydn a Beethoven (ponto de saturação). De qualquer modo, a configuração é uma multiplicidade infinita, e os nomes próprios são retidos como “ilustrações significativas da configuração, ou pontos-sujeitos ‘estrepitosos’ de sua trajetória genérica”, que podem ser maiores ou menores, redundantes ou ignorados. Cf. BADIOU, Pequeno manual de inestética, op. cit., p.25-26.

[xvii] “Criando, pude recuperar-me; criando tornei-me saudável” – esta é a tradução que encontramos em FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1974. P.102. A tradução citada é de Betty Milan em: LACAN, J. O Seminário livro 1. Os escritos técnicos de Freud. RJ: Zahar Editores, 1983. P.154. Final do texto Narcisismo saber conhecer, 2011, desta autora, no prelo.

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