A cura da história: um mundo por vir contido numa semente semântica

(Erick Gontijo Costa – Mesa-redonda “A cura da história”)

Encontro intenso, o da psicanálise com o texto de Maria Gabriela Llansol. Campos de escritas distintas, nem sempre breves, mas certamente intensas. Aproximando-os pelas suas singularidades, encontra-se uma palavra breve e cara a ambos os campos: a cura. Palavra-porta para o fulgor, para o clarão.

Gostaria de partir, neste texto sobre a cura da história promovida pelo texto de Maria Gabriela Llansol, de um relâmpago, o de Heráclito, que condensa todas as reflexões seguintes: “Todas as coisas conduz o raio[1]. O raio é o que conduz, muitas vezes, o pensamento da psicanálise e do texto de Llansol. Em O raio sobre o lápis, Llansol afirma:

 

Quando escrevo, o tempo retrai-se com

violência,              involui num único instante,

e o ardil da pedra surge.[2]

 

Estamos diante de um texto que – atravessado pelo raio poético – exibe a retração do tempo e a espacialização da escrita – o ardil da pedra – e revela a mínima unidade da linguagem: a letra[3], unidade irredutível da linguagem. Da experiência com a letra, litoral das palavras com o que nelas vive e goza não apenas do tempo restrito entre o nascimento e a morte, mas do espaço de uma “pervivência”[4], tal como a apresenta Benjamin, em “A tarefa do tradutor”, advém uma escrita que, sem muito dizer, diz muito.  Nela, o raio conduz todas as coisas, a vida. E falar das coisas da vida é já história. Que história, então, se pode constituir, sob o signo do raio, do fulgor llansoliano?

Walter Benjamin, em “Sobre o Conceito de História”, revela a técnica narrativa que aqui nos interessa: “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele foi de fato’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo”[5].

A escrita da história, em Benjamin, não parece ser o conhecimento dos fatos exatamente como foram, mas sim o ato de projetá-los com a intensidade e a brevidade do relâmpago. Narra-se por lampejos, literalizam-se reminiscências.

Llansol, leitora de Benjamin, por sua vez, afirma em seu diário Uma data em cada mão – Livro de horas I: “desejo planificar a História, os séculos, estendê-los no papel ou numa grande folha de cartolina branca, através de esquemas, traçados e sinais. Visioná-los”[6].

Planificar os séculos no papel e visioná-los é, em determinada acepção da palavra, uma cura. Basta pensarmos na cura como secagem de certos alimentos e deslocarmos tal significação para a cura das palavras. Aqueles que se deixam atravessar pela psicanálise ou pela escrita bem sabem dos efeitos da redução da enxurrada das palavras promovida por essas práticas.

Por exemplo, a respeito da cura em questão, que, penso, opera em determinadas experiências de escrita, Llansol revela alguns efeitos:

 

A mesma paisagem, sem «eu», este chão é um horizonte.

Só muito mais tarde me dei conta do que significou passar por estes lugares. Onde escrita e vontade de curar se confundiram. Curar é uma espécie de efeito com agente ausente; trazer alguém à fala, através do fio de água de si. O texto pertence ao mesmo sinal. Quem se cura, não conta, é uma narrativa pobre, um chão quase seco, um olhar em toda a parte.[7]

 

A história à qual nos referimos já não é a dos tempos que se detalham em infinitas páginas de livros, porque quem se cura – o próprio texto que, escrevendo-se, reduz-se a um olhar conciso, que se objetiva em um instante de escrita – não conta, é uma narrativa pobre, um olhar em toda parte. Sobre essa objetivação do olhar na escrita, que se expande em toda parte e fascina, Blanchot esclarece sua natureza:

Esse meio de fascinação, onde o que se vê empolga a vista e torna-a interminável, onde o olhar se condensa em luz, onde a luz é o fulgor absoluto de um olho que não vê mas não cessa, porém, de ver, porquanto é o nosso próprio olhar no espelho, esse meio é por excelência, atraente, fascinante: luz que é também o abismo, uma luz onde a pessoa afunda, assustadora e atraente.[8]

 

O olhar narrativo que aqui evocamos, fascinado pelo relâmpago, condensa-se e expande-se sob a lei da concisão. A história é agora outra. A linguagem que o olhar condensa é, sem dúvida, a do poema. A do “redemoinho-poema”, porque apresentar a vida, matéria fluida que escapa, exige a linguagem do poema, que condensa e tudo reduz a um olhar em toda parte: “A água não tinha expressão: descrevê-la era um trabalho infindável que se perdia na floresta. Melhor seria dizer um redemoinho poema[9], escreve Llansol, em seu Hölder, de Hölderlin.

A escrita llansoliana, regida pela lógica condensadora do poema, tem como morada o coração do espaço sem tempo, do tempo espacializado, do espaço eterno, porque, lembremos o poeta francês René Char, “Se habitamos um clarão, é o coração do eterno”[10]. O clarão que se habita, podemos nomeá-lo fulgor. E o fulgor da cena de escrita – a cena-fulgor – é a própria técnica de escrita em Llansol.

Por fim, o que resulta da condensação poética promovida na narrativa histórica, ou cura da história, quando falamos da escrita poética de Llansol?

 

o poema não pode quebrar a fidelidade à palavra dada, nem a

nova fé que pretende instaurar poderia________e nasce

um poema estranho de renúncia e traição____________,

 

um mundo por vir contido numa semente semântica de mostarda[11]

 

Diferentemente da história nostálgica, a que um dia Benjamin apresentou como um anjo[12] que, de olhos fixos no passado que se perde em ruínas, é arrastado por uma tempestade – o progresso –, escreve-se um poema estranho, uma semente textual – a letra –, que contém, por sua vez, a história do mundo, o mundo por vir, o do desejo escrito, irredutível.

 

 

Referências

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Editora Brasiliense, 11ª ed., 2008.

BENJAMNIM, Walter. A tarefa do tradutor. In: BRANCO, Lucia Castello (org.). A tarefa do tradutor:quatro traduções para o português. Belo Horizonte: Fale/UFMG, 2008. Disponível em:  http://www.letras.ufmg.br/vivavoz/data1/arquivos/atarefadotradutor-site.pdf. Acesso em: 1° set. 2011.

BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

CHAR, René. O nu perdido e outros poemas. Trad. Augusto Contador Borges. São Paulo: Iluminuras, 1995.

LLANSOl, Maria Gabriela, Uma data em cada mão – Livro de horas I. Lisboa: Assírio e Alvim, 2009.

LLANSOL, Maria Gabriela. A Restante Vida. Lisboa: Relógio D’Água, 2001.

LLANSOL, Maria Gabriela. Hölder, de Hölderlin. Sintra: Ed. Colares, 1993.

LLANSOL, Maria Gabriela. O raio sobre o lápis. Lisboa: Assírio e Alvim, 2004.

LLANSOL, Maria Gabriela. Onde Vais, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio D’Água, 2000.

MANDIL, Ram. Os efeitos da letra – Lacan leitor de Joyce.Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Contra-Capa Livraria/Faculdade de Letras da UFMG, 2003.

SCHÜLER, Donaldo. Heráclito e seu (dis)curso. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2007.


[1] SCHÜLER, Donaldo. Heráclito e seu (dis)curso. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2007, p. 65.

[2] LLANSOL, Maria Gabriela. O raio sobre o lápis. Lisboa: Assírio e Alvim, 2004, p. 49.

[3] Em seu texto “A letter, a litter”, Ram Mandil apresenta uma interessante definição de letra, referente à rede conceitual psicanalítica, que nos permite pensar em que medida a letra indica, na língua, uma substância a ela distinta, sem representação, mas nela presente. Em termos lacanianos, indica o gozo em meio à língua: “É possível dizer que, em uma leitura retroativa, a letra, pensada como distinta do significante, seria o que, na ordem da linguagem, permitiria apreender a circulação dessa substância, dessa materialidade à qual Lacan gradativamente associa o gozo.”  In: MANDIL, Ram. Os efeitos da letra – Lacan leitor de Joyce.Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Contra-Capa Livraria/Faculdade de Letras da UFMG, 2003, p. 47.

[4] “As ideias de vida e de pervivência das obras de arte hão de ser compreendidas de maneira bastante objetiva e não metafórica. Mesmo nos tempos do pensamento mais preconceituoso não se tem o direito de atribuir vida apenas à corporalidade orgânica. Mas não se trata, como Fechner o tentou, de estender o domínio da vida sob o cetro débil da alma, tampouco de querer definir a vida a partir de momentos da animalidade, momentos como a sensação ainda menos suscetíveis de fornecer parâmetros capazes de caracterizá-la senão de modo ocasional. Faz-se plena justiça a esse conceito de vida quando se lhe reconhece onde há história e não apenas seu cenário (Schauplatz). Pois é a partir da história, não da natureza, muito menos de uma natureza tão instável quanto a sensação e a alma, que é preciso circunscrever o domínio da vida. Surge, assim, para o filósofo, a tarefa de compreender toda vida natural a partir desta vida mais extensa: a da história. E, de qualquer modo, a pervivência das obras não é muito mais fácil de ser conhecida do que a das criaturas? A história das grandes obras de arte conhece sua descendência a partir de suas fontes, sua estruturação na época do artista e o período, em princípio eterno, de sua  pervivência nas gerações seguintes.” BENJAMNIM, Walter. A tarefa do tradutor. In: BRANCO, Lucia Castello (org.). A tarefa do tradutor:quatro traduções para o português. Belo Horizonte: Fale/UFMG, 2008, p. 53. Disponível em:  http://www.letras.ufmg.br/vivavoz/data1/arquivos/atarefadotradutor-site.pdf. Acesso em: 1° set. 2011.

[5] BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Editora brasiliense, 11ª ed, 2008, p. 224.

[6] LLANSOl, Maria Gabriela, Uma data em cada mão – Livro de horas I. Lisboa: Assírio e Alvim, 2009, p. 124.

[7] LLANSOL, Maria Gabriela. A Restante Vida. Lisboa: Relógio D’Água, 2001, p. 112 e 113.

[8] BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987, p. 23-24.

[9] LLANSOL, Maria Gabriela. Hölder, de Hölderlin. Sintra: Ed. Colares, 1993, p. 29.

[10] CHAR, René. O nu perdido e outros poemas. Trad. Augusto Contador Borges. São Paulo: Iluminuras, 1995, p. 83.

[11] LLANSOL, Maria Gabriela. Onde Vais, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 97-98.

[12] BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Editora Brasiliense, 11ª ed., 2008, p. 226.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s