A voz que escreve a loucura

(Ana Maria Portugal – Mesa-redonda “A cura da história”)

Deram-me o nome de Casa de Quaercus.

E Hölderlin foi meu.

Llansol,

 Hölder, de Hölderlin.

 

Pois o silêncio divino aprendi a honrar

quando Diotima curou minha razão de ser.

Hölderlin,

Geh unter, schöne Sonne..

.

 

 

 

Hölder, de Hölderlin

 

Hold = amável, fagueiro, brando. Com uso do dativo, ser afeiçoado a, querer bem.

Holder ou Holunder = sabugueiro. Hold no antigo alemão.

Hölderlin = nome medieval do diabo, também quer dizer pequeno sabugueiro.

O título do poema de Llansol “Hölder, de Hölderlin” pode indicar várias coisas, dentre as quais, Hölder de Hölderlin, ser afeiçoada de Hölderlin, não somente o poeta, mas ainda esse pequeno sabugueiro, tido como árvore da vida ou onde mora o espírito do destino, com sementes de propriedades curativas. Assim foi Hölderlin na poesia, ao redoar à antiguidade grega seu valor de discórdia e de ânsia de liberdade em relação ao destino. Hölder será pela voz de Llansol (Myriam), o nome futuro de Hölderlin.

O poema de Llansol fala das figuras que trazem suas árvores: Hölderlin, com quaercus (carvalho), Joshua com pinus lusitanus, Giordano com sua nogueira. Três árvores em torno da porta aberta de par em par; uma união às portas do paraíso.

Sim, paraíso. Hölderlin estudou teologia, foi seminarista em Tübingen, mas não quis exercer funções junto à igreja. Seus deuses estavam mais próximos aos deuses gregos que ao monoteísmo cristão. Posteriormente estudou filosofia, tendo frequentado em Jena os cursos de Fichte, ao lado de Schelling e Hegel.

Portanto, belas companhias no paraíso: o sagrado – Joshua (Jesus); e a filosofia – Giordano Bruno. Mas não sem as árvores, imagem sensível, presença da natureza, do corpo, do chão.

Hölderlin (…) sentiu uma grande ausência: sua cabeça ia abandoná-lo, e ele levantou-se ainda para ir no seu encalço com os braços; tudo principiava pelo som – o som de fazer o último poema.

____________ Hölderlin sentou-se silencioso à minha frente que sou casa.” – escreve Llansol.[1]

Hölderlin nunca teve casa. Primeiro, a casa era de sua mãe; depois, por muitos anos era a casa das crianças presas a seu encanto de preceptor; às vezes a casa dos amigos que o acolhiam amorosamente, e nos últimos 30 anos de vida, uma vez que não havia mais esperança de curar sua loucura, através de Sinclair vive na casa de um mestre marceneiro de nome Zimmer, em Tübingen, que era seu grande admirador por ter escrito Hyperion, poema sobre o amor a Diotima e a liberdade. Nesta casa do marceneiro acolhedor, poetas e amigos da poesia o visitam.

Afeiçoada de Hölderlin, a casa-poema de Llansol se abre de porta em porta e o abraça universalmente. As figuras lhe fazem companhia e duplicidade, especialmente Joshua e Myriam, no lugar de Diotima, numa composição de sonho, cujo regaço e o roçar da saia se extinguiam na memória, sem deixar vestígios. “Falava com o pôr-do-sol: ‘por que é que o poente nunca é tão intenso como o regaço’; a falar, perguntava, e a adorar lançava-se a subir a escada do entendimento” [2]

No poema-poente o sol desaparece e a amada brilha – o que faz Myriam refletir sobre essa estrutura, como se Hölderlin lhe soprasse ao ouvido, e que ela vê com ternura, e por um caminho ladeado de barreiras: erro humano num copo de cristal. [3]

Hölderlin brincava ali, saltando; ia-se perdendo na sala; via-se deslizar, com ele, um lugar sem criaturas humanas. Myriam pensou para Joshua: ‘perder-se no outro perdido é a experiência que está a ter.’ Tinha nas mãos uma porção de excremento humano, que tentava moldar numa superfície de poema; mas a angústia, de modo imerecido fazia-o saber que a loucura era a mente estar com o poema e o corpo ausente.[4]

 “Poesia é fome de realidade” – diz Octavio Paz. O poeta é objeto e sujeito da criação poética. É o ouvido que escuta e a mão que escreve o que diz sua própria voz. O que vai ser nomeado se apresenta ao poeta pela primeira vez como um silêncio ininteligível.[5]

Hölderlin incita o poeta a ter coragem e não temer nada. A coragem do homem começa na recusa de um destino de imitação. ”Sua vocação não é repetir: quando olha ou nomeia o que está diante de si é ao desconhecido que responde. Habita o mundo como poeta, salvaguardando a sombra e a ausência”.[6]

Dichterisch wohnt der Mensch, escreve Hölderlin, num poema tardio – poéticamente o homem habita… esta terra.[7] Heidegger pergunta-se sobre este modo de habitar poético, mostrando como há algo aí de real, de atual, e não apenas o de uma existência entre poetas, ligada à imaginação. Hölderlin fala de habitar como um traço fundamental da condição humana, assim como a poesia o é para ele. Na poesia o homem se comporta como se fosse o criador e mestre da linguagem, e não seu servidor. Heidegger vê nesse poema de Hòlderlin a necessidade da medida, que é, por exemplo, dobrar-se às aparências do céu ou da natureza. Contra as cópias e imitações, o trabalho de fazer imagem – Ein-Bildung – faz entrar o invisível numa coisa que lhe é estrangeira, isto é, reveste o invisível com uma forma. Assim as imagens poéticas não são simples fantasias ou ilusões, mas imaginações como inclusões visíveis do estranho na aparência do familiar.[8]

A voz do poema segue o percurso de Hölderlin, cada vez mais Hölder, quaercus. Llansol escreve esse percurso intercalando o texto com obstáculos – barras /.

________à minha volta havia o seu quaercus e árvores dependentes. Nascera, em alto grau com a capacidade de sentir./ Tornara-se rapidamente árvore – inteligência com frutos. / No meio aquoso da seiva – não ouvia, não falava – de objectos inúteis. / Sentia a inteligência brilhando no fundo de todos os sentimentos. Olhos, mãos, sentido do olhar eram simultâneos. / A fadiga de estar sempre diante de uma resposta tomara-o por completo. / Mas, no ano seguinte, a fadiga de estar sempre diante deste mesmo obstáculo levantara-lhe, finalmente o queixo – as hastes –, por cima de todas as copas e cabeças. / A sua sombra era água, e as articulações que cruzavam os ramos mantinham-se húmidas. A água não tinha expressão: descrevê-la era um trabalho infindável que se perdia na floresta. Melhor seria dizer um redemoínhopoema. [9]

O redemoinho-poema, sem medida, só pode ter uma: o silêncio.

Tinha a cabeça branca à frente, e escura atrás; assim expressava a substituição parcial da razão pela loucura; embarcara neste seu olhar sobre paisagem, que está contendo a maior parte do silêncio; do outro lado, ousando ir plantar-se, solitário, entre pinheiros, o seu carvalho esperava-o. [10]

A voz se reduz a murmúrios, numa nova língua de sons guturais – assim expressa Llansol o fulcro do trabalho da poesia, onde o poeta se perde na literalidade de seu nome, quaercus. Em seus últimos anos, Hölderlin não se reconhecia nesse nome, adotando na escrita de breves poemas a assinatura Scardanelli, sempre acompanhada de um “submissamente”.

“Quando se escreve, só importa saber em que real se entra e se há técnica adequada para abrir caminho a outros.” – diz Llansol O real que Hölderlin abriu continua sendo objeto de causa contínua e incessantemente.

Um dia ele disse: “Por isso foi dada ao homem a língua, o mais perigoso dos bens, para que ele dê testemunho do que é” [11]


Bibliografia

HEIDEGGER, M. “…l’homme habite em poète…” In Essais et conférences”. Paris: Ed. Gallimard, 1958. p. 224-245.

HÖLDERLIN, F. In lieblicher bläue… In Costa, D. Pelo Infinito. Lisboa: Vendaval, 2000. p.13-19.

HÖLDERLIN, F. Poemas. Trad. Paulo Quintela. Ed. Bilíngüe.. Lisboa: Relógio d’água, 1991.

HÖLDERLIN. F. Poemas. Ed. Bilíngüe. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

HÖLDERLIN. F. Poemas. Ed. Bilíngüe. Trad. José Maria Valverde. Barcelona: Icaria Literária: 1983.

LLANSOL, M.G. Hölder, de Hölderlin. Lisboa: Colares Editora, 1985.

LOPES, S. R.. In Costa, D. Pelo Infinito. Lisboa: Vendaval, 2000. Apresentação, p.7-11.

PAZ, Octavio. El arco y la lira. In La casa de la presencia. Poesia e historia. Ciudad de México: Fondo de Cultura Econômica, 1995. p. 33-288.

QUINTELA, P. In Hölderlin. Poemas. Lisboa: Relógio d’água, 1991. Prefácio à 1ª. edição.


[1] Llansol, Hölder, de Hölderlin, parte I.

[2] Llansol, Hölder, de Hölderlin, parte III

[3] Llansol, Hölder, de Hölderlin, parte IV.

[4] Llansol, Hölder, de Hölderlin, parte X.

[5] PAZ, Octavio. El arco y la lira, p. 173.

[6] Lopes, Silvina Rodrigues. In Costa, Daniel . Pelo Infinito. Apresentação,  p.9.

[7] Hölderlin. In lielicher bläue… In Costa, Daniel . Pelo Infinito. p.13-19.

[8] Heidegger. “…l’homme habite em poète…” In Essais et conférences”, p. 241. (224-245)

[9] Llansol, Hölder, de Hölderlin, parte VII.

[10] Llansol, Hölder, de Hölderlin, parte VIII.

[11] Quintela, Paulo. In Hölderlin.Poemas. Lisboa: Relógio d’água, 1991. Prefácio à 1ª. edição.p.30.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s