Cura da Terra – letra, hãmnõgnõy e o litoral do mundo

(Cinara de Araújo – Mesa-redonda “A cuda da terra”)

1. Escrevo notas sobre encontros vitais – três – seus riscos, suas intensidades, algumas interseções, ressaltos necessários. Experiências de combate/drama e inúmeros gestos tradutórios para que – em nosso tempo espesso, em nossa geografia de rebeldes assinalada por ela – possamos inscrever a cura da terra como figura do pensamento. Escrevo sobre lugares que desconhecemos: o inconsciente, os Maxakali, a textualidade de Maria Gabriela Llansol. Encontros áridos que me ensinaram a ler e a manter os pés na terra. Conquanto – ao debruçar-me sobre o livro, sobre a letra – o fulgor amplificou o jardim selvagem de milhões de anos, as diversas estéticas do mundo, os tantos mundos, a terra extensa que habitamos, que estamos por habitar.

“Quando já muito velha, ouvi “abandona tudo, mesmo tua decrepitude, e vem”, a experiência havia me ensinado que todos os encontros são áridos, apenas o meu retrato de cinco anos não aprendera com a vida essa lição. Não me admira, assim, que quando o olhei me tivesse perguntado “por que te queres tornar surda ao rumor, e à sua nostalgia?”. Quis-me explicar, mas o retrato, não me ouvindo, tirou-me a bengala e forçou-me a mão: “Vamos, agarra-te a mim e caminha. Vamos com Llansol até herbais”. Não é outro o motivo da minha presença aqui, pela manhã, de novo no mundo e na sua rua, porque todas as ruas do mundo nos levam a esse desconhecido que nos acompanha.” (LLANSOL, 2002:67)

Letra – “o sonho de que temos a linguagem”

2. Leio os 522 tomos de “Da sebe ao ser”, o terceiro livro da trilogia O Litoral do mundo. Não há dúvida de que o tempo histórico das descobertas marítimas dos portugueses é revertido. Em lugar da tradição literária, da narrativa linear do tempo das conquistas, inscreve-se, a partir da essência do eremitério e por sobreimpressão, outra experiência de grafia. Esse deslocamento é absolutamente metonímico e nada metafórico. O como se é abolido, trazendo para a língua vislumbrada por Assafora, por Llansol, uma outra densidade. A criação de uma matéria mais dura, textualmente uma matéria que não se deixa apanhar pelo destino e fatalidade da nostalgia e das cinzas. Personagens históricos são metamorfoseados em figuras: Camões, Comuns, Vasco da Gama, Vê Gama, Fernando Pessoa, Aosse, Hadewich, Ana de Penalosa – e o texto se abre para sua realização. A grafia selvagem sopra “as cinzas da lareira acesa sobre o mapa do caminho que eu tinha à minha frente”. (LLANSOL, 1988: 46)

3. A letra assim grafada, efeito da língua sem impostura, transforma a estética do encontro em estética orgânica. Para que o mundo “desconhecido que nos acompanha” possa, de fato, agir sem a perpetuação metafórica da aventura das naus. Uma nova arquitetura, o texto pede. Uma arquitetura em que os problemas técnicos da literatura retirem seus efeitos na descrição dos mundos. De tal maneira que a letra, seu fulgor, funciona como resistência e abertura. Não se cria realisticamente a história, não se narra o feito opressor dos heróis do mar, não se ficcionaliza a história composta no retorno das naus. Mantem-se o ressalto entre a literatura e o mundo, ao sair das cinzas ressentidas e das invenções pseudo-estéticas que imperam nas técnicas literárias de nossa língua-cultura.

4. São poucos os escritores que conseguem abrir caminho.“Quem fará falar os perdidos, os excluídos e os afogados?” (LLANSOL, 2002: 80)

5. O gesto da “não impostura da língua”, quando nos atemos somente às operações linguísticas, é inconcebível, é impensável. Materialmente impensável, ou só permite um pensamento que se realize no corpo e na dura matéria, muito singular, na qual se faz o fulgor.

6. Como material bruto, os textos poéticos fazem a psicanálise avançar. Foi assim com Freud, mesmo em seu pensamento romântico sobre a arte e a literatura. Foi assim, de forma mais intensa, com Lacan. Certamente na última tendência de seu ensino, em que ele busca encontrar um meio para formalizar e transmitir o “real”. Ele se desprende da “consistência da linguagem”, ou da “lógica do significante” em prol não apenas de uma interpretação fora do significado e do sentido (que já era apregoada pela primazia do significante), mas também em prol de uma maneira de encontrar um “saber no real”, e um meio para transmitir esse saber. Se o que constitui a instância do inconsciente é a letra e não o significante, e a letra não é “legível”, é apenas scriptível, então dizer que “o inconsciente está estruturado como linguagem” requer uma precisão. “O inconsciente está estruturado como uma linguagem, ‘cuja estrutura só se revela pelo escrito’”. Depois de reafirmar a primazia do significante, Lacan, no texto “A função do escrito”, do Seminário 20, vai nos dizer o que “se passa em Joyce”. Nesta passagem, torna-se claro que a operação de leitura da “letra” inclui aquilo que “se lê mal”, ou que “se lê de través”, ou que “não se lê”. O conceito de “letra” na psicanálise lacaniana abre, assim, espaço para – especificamente na partilha, na transmissão – desconstruir as tantas formas estéticas realistas que imperam em nossa cultura.

7. O elemento que determina a potência do fulgor é a ausência da metáfora, entretanto, a forma llansoliana de conceber as operações da linguagem, seus atos metonímicos, à maneira de um verdadeiro método, cria em seus ledores-legentes elementos materiais, não-metafóricos, para percorrer esse imenso dossel textual. O texto não se queixa dos infinitos que não conseguimos ler. (LLANSOL, 2002, p.259) O texto sabe, como em negrito no tomo 116 de “Da sebe ao ser”, que “nunca serão elucidados os efeitos da escrita”. Mas ainda assim, e por isso, na estética orgânica em nascimento, o texto deixa o legado. A herança não é o mar, mas o seu movimento. O espaço – entre terra e mar, entre mar e céu, entre terra e escrito – não é espelhado. A viagem não nos leva, desliza conosco, ou ao nosso lado sobre a paisagem.

“ – Qual a missão que te foi dada? – perguntou-me Vê Gama. – Legar os sinais – respondi – Que o fio não se quebre nas minhas mãos.” (LLANSOL, 1988: 56)

8.

“E assim por nós adiante, atravessamos o jardim quadrado que é o que fica do jardim triangular onde já se achou presente o jardim que o pensamento permite ________ e que é um jardim em ruínas, com arbustos recentemente plantados, e restos de velhas árvores e vegetação que foram ali queimadas, ou abatidas, que Don arbusto olha iluminado.

Do lado que possui como chave o horizonte, interroga-se sobre o que há de verdadeiro na gravitação universal, onde tombarão, uma a uma, as imagens trazidas no bojo das naus”(LLANSOL, 1988:18)

hãmnõgnõy   –  uma terra diferente dentro da mesma terra

9. A terra Maxakali tem quase nenhuma floresta. Vegetação devastada, em parte pelo modo nômade de ocupação e em grande parte pelas atividades pecuárias anteriores à demarcação. O problema de demarcar terras indígenas esbarra, obviamente, na dimensão do poder e das conquistas portuguesas e ocidentais. Também em nossa herança literária, pouco espaço se abre para dar corpo à estética realmente nova. Nossa literatura ainda não enfrentou mundos irredutíveis. Em geral, as traduções e as edições de livros indígenas têm como campo o realismo literário, forma que impera há mais de cento e cinquenta anos e cria seus efeitos na descrição do mundo ocidental. Muito se diz do recente em mais valia ao velho, quase nada sabemos do novo, que ali, em processos estéticos desconhecidos, do novo que ali resiste e é abertura. O novo que pertence aos antigos, em sua ancestralidade. Sabemos de antemão que a nossa literatura ocidental, mesmo a dos textos fantásticos, não pertence aos Maxakali, que possuem o Hãmnõgnõy, a terra, uma terra diferente dentro da mesma terra, uma terra-céu onde habitam os Yãmiy.

10. A textualidade matiz do trabalho desenvolvido pelo Grupo Literaterras mostra que há mundos que começam, que há possibilidade de manter ressaltos na tradução para a não hierarquização das línguas, que “ser português é, deveras, um facto, mas não necessariamente um destino.”(LLANSOL, 2002: 132) Assim, da terra e de nossa cura, nos ocupamos na feitura do livro didático Tikmuun Maxakani Yõg Mimãti Ãgtux Yõg Tappet (O Livro Maxakali conta sobre a Floresta) e de seus desdobramentos. Os pequenos resíduos de Mata Atlântica entre as localidades de Pradinho e Água Boa, são vislumbrados no encontro entre a textualidade e os índios da etnia Maxakali, entre os Yãmîy e o livro, no projeto Ãpu yumuyõg hãm mainã  – “A cura da terra”. (Inicialmente, a versão em português para o nome do projeto foi estabelecida como sendo A cura da terra maxakali. Posteriormente, os professores indígenas propuseram outra tradução, mais literal: Vamos ensinar a cuidar de nossa terra.) O projeto, parte do percurso acadêmico dos professores Maxakali, em que vários encontros se fizeram, entre biólogos, geógrafos, literatas, antropólogos, outros pesquisadores índios que habitam a floresta amazônica (Kaxinawá, Iawanawá) num incessante trabalho de traduções e deslocamentos.

11. Não se trata da “incorporação de traços poéticos indígenas às letras nacionais, de obras indianistas e/ou indigenistas, apontando para a importância da cultura indígena na formação estética da comunidade brasileira”. (BARRA, 2011: inédito) A etnologia e a literatura precisam se transformar em outra coisa. A formação intercultural proposta pelo Literaterras atravessa o corpus da literatura (da arte) em dois sentidos: a prática lingüística da tradução nunca está separada da prática estética (perto do que Antônio Risério denomina convergência do poético – no sentido que vai desde a criação de poemas até a leitura semiótica das coisas do mundo); e o campo da literatura pode abarcar, com o rigor necessário, as diferenças e as singularidades, sem reafirmar o jogo de forças inscrito na nossa cultura. Claro que para isso, temos que conceber novo espaço também para a literatura, para a grafia, para a sonoridade, para a letra, para a textura das coisas, uma dobra para compor um campo literário mais amplo. A textualidade Llansol afirma este campo, não somente porque não repete a história, mas, sobretudo, porque não faz ficção do que nos resta. As práticas coletivas de escrita, edição e tradução dão à “convergência do poético” outro caminho. Podemos pensar em Drama-Poesia, é a poesia e é também o ato. Um combate, que enfrenta mundos irredutíveis, abre mundos no mundo, letra por letra entre as linhas e o branco.  

12. Começamos a ver imagens concretas da escrita: metamorfoses, traduções. Para onde nos leva a escrita? Uma vez mais, não se trata de uma nova rota para a conquista da terra ou do mar. São as caravelas, o mar em destroços, índios exterminados, alcoólatras, casas abandonadas, fogo posto, árvores cortadas – um mundo que não há de pertencer-nos. Porque também se trata do movimento do mar, da clorofila, da língua sem impostura. “Da terra vem a água, da água nasce a alma, da alma voam as imagens.” (LLANSOL, 1088: 24)

13. Maria Inês de Almeida utiliza-se de figuras extraídas da obra de Maria Gabriela Llansol para falar da prática do Núcleo Literaterras :

A tradução literária, assim como o ensino, pressupõe a convivência e o exercício da escuta. Com isto, fomos observando na prática a ampliação dos conceitos de escrita (para além do alfabeto, numa perspectiva semiótica, como o que se dá a ver/ouvir/ler), letra (como resíduo, marca da passagem humana), tradução (cópia adulterada pelo que o sexo de ler está vendo, troca verdadeira), literatura (técnica adequada para abrir caminho a outros). (…) O que estamos chamando de ancestralidade pode ser percebido no exercício da escuta, como extrato da voz que se ouve. Daí, pudemos apreender um sentido de escrita – rastro, arquiescritura – que não exclui a fala, o alfabeto, mas que inclui desde as pinturas rupestres, as pinturas corporais, os diversos grafismos indígenas (por exemplo os kene  dos povos amazônicos Pano). (ALMEIDA, 2010: 17)

 

14.Na cosmogonia Maxakali, todo o conhecimento – tanto o sagrado quanto o técnico – provém dos Yãmiy, nome genérico dados aos espíritos. Os Yãmiy estão relacionados e são “os elementos da natureza – o sol, a lua, as estrelas, a cachoeira e às espécies vegetais e animais, particularmente os pássaros.” (ALVARES, 2004: 7). Segundo Zezinho Maxakali o xunin (morcego), um dos Yãmîy mais fortes no canto-ritual, é um pássaro e não um mamífero. A importância dos pássaros para os Maxakali não seria apenas o seu pertencimento ao canto, mas também ao lugar em que habitam. Os pássaros voam entre o chão e a abóboda celeste, exatamente nesse intervalo encontra-se a Hãmnõgnõy. Conforme nos assinala Charles Bicalho, Yãmîy tem pelo menos dois significados: canto e espírito. Além dos elementos da natureza os Yãmîy são as transformações da alma dos mortos Maxakali. São corpo-espirituais ou espírito-corporais “que habitam o hãmnõgnõy e visitam a aldeia para a realização do yãmîyxop. Compõem-se das almas dos mortos: humanos (tikmû’ûn, outros povos indígenas ou não-indígenas), animais, plantas, e até objetos.” Compõem-se também de alguns elementos do tempo, como por exemplo, no canto “Para saber que é madrugada”. Transformados em canto, visitam as aldeias, trazendo do hãmnõgnõy(a morada dos yãmîy) o conhecimento ancestral. Um maxakali torna-se tikmû’ûn (verdadeiramente humano) quando em metamorfose com o Yãmîy.

 15.

Hãmnõy – Outra designação para hãmnõgnõy. Formada pelas mesmas partículas hãm (terra) e nõy (outro), sem nõg (terminar). É a “outra-terra”.

Hãmnõgnõy – É a “terra-limite-dos-outros”. Morada dos Yãmîy. Formada por hãm, contração de hãhãm (terra), nõg (terminar) e nõy (outro – termo para “outro”, que quer dizer também “um igual”). Seria um limite ou fronteira entre o mundo dos yãmîy e o mundo dos tikmû’ûn (humanos). Segundo a cosmologia maxakali, os yãmîy viveriam num espaço compreendido entre o céu (pexkox) e a terra (hãhãm).Creio que podemos pensar num “lugar onde termina uma terra e começa outra”, tendo o hãmnõgnõy como uma espécie de fronteira, ou local onde termina a terra ou o território dos tihik (homens, humanos) e começa a terra ou território dos yãmîy (espíritos). Daí ser ele uma “terra-limite”.(BICALHO, 2010: glossário)

 

16. “Terra-limite, terra-limite-dos-outros”, nos propõe Bicalho, mas também: outra terra, terra dos outros, terra dos ancestrais, horizonte[1] (exatamente a linha que separa- une terra e céu), uma terra diferente dentro da mesma terra[2], terra dos espíritos, local onde termina a terra dos humanos (os tikmû’ûn) e começa a terra do outro, imagens da terra onde vivem os yãmîy, terra no céu, ou céu. Céu, como quando Isael e Sueli Maxakali traduziram do português para o Maxakali astronomia: “estudo ou conhecimento das estrelas do Hãmnõgnõy e não do pexkox (céu). Assim são “estrelas do horizonte”, mas também, pensamos, o céu de estrelas está na terra. Na outra terra dentro desta. Assim como estão o sol e a lua na terra antes, contam os professores João Bidê, Joviel, Tuilá e Margarida Maxakali. E depois sol e lua saem da terra e habitam a outra terra no canto do pica-pau. Também nós não-pássaros, não-índios, não-estrelas, moramos entre o chão e a abóboda celeste. Nossa terra, apenas, talvez mantenha o céu mais distante.

17. Poderiamos aqui invocar na teoria da tradução, o caminho aberto por Benjamin em “Die Aufgabe des Übersetzers”, a tarefa do tradutor (“ou melhor: aquilo que é dado ao tradutor dar, o dado, o dom, a redoação e o abandono do tradutor”- sua tarefa-renúncia). O problema da tradução estaria vinculado ao momento em que se esbarra na língua pura. Encontrar uma origem ou uma matriz, ainda que a origem (Ursprung) seja sempre um salto (Sprung). Por ora, saibamos que os saltos originários, no exercício da tradução, são densos em sua materialidade. [3]

18. Chamaremos outro ponto do pensamento Benjaminiano que aqui parece essencial. Ele afirmou que “o mundo é a nossa tarefa”. Entretanto, tal como nos faz ver os Yãmiy, há muitas regiões entre a superfície da terra e a face do céu. Com a hãmnõgnõy, começamos a compreender que há co-existência de “outra terra diferente” no seio da própria terra. Isso permite que pensemos que há também outros mundos estéticos diferentes dentro de um mesmo mundo.

19. Os pajés conhecem a língua ritual – a terra que termina a terra que começa, os mistérios indizíveis –, são responsáveis por garantir o trânsito entre mundos durante a realização dos rituais nas aldeias: o ir e vir entre a terra dos homens e a terra dos espíritos sagrados (hãmnõgnõy). Os Maxakali são excelentes tradutores. Transitam entre mundos, desde tempos imemoriais. Tradutores, pois compreendem a língua dos mundos que visitam. Não criam mundos, habitam.

20. Não podemos afirmar a tarefa de Benjamin, o mundo e expansão geográfica-estética da tarefa, sem imaginar qual a forma de co-existência desse outros mundos.  No projeto Ãpu yumuyõg hãm mainã  – “A cura da terra”  resguardando as possíveis nuanças, podemos enumerar o mundo físico da floresta (antes a Mata Atlântica e, hoje, a área desmatada), o mundo da floresta na língua Maxakali (e sua ausência de tempo, e sua inscrição ritual), o mundo da floresta na língua portuguesa (e suas concepções científicoambientalistas), o mundo da floresta na literatura brasileira (a poesia indianista, indigenista, indígena), o mundo da floresta xamânica dos Yãmiy (ao qual não temos acesso), o mundo textual da floresta – o livro ao ser, coletivamente, escrito, editado, traduzido.

21.  Seguimos agora, não com a memória histórica de Camões, mas com a grafia em arabesco de Comuns. O devir não sistematizável do texto. “Comuns apontava com o dedo mostrando-me, ao longe, três formosos outeiros, erguidos com soberba graciosa, onde eu só distinguia três moradas em cada um dos pontos cardiais do nosso alcance. Mas eu não quis desdizer, nem ele para isso me deu tempo, porque continuou: “- Mil árvores estão ao céu subindo, como pomos odoríferos e belos: a laranjeira tem no fundo lindo a cor que tinha Daphne nos cabelos”. Eu olhava o que ele via escrevendo: se o jardim tem quatro lados é para oferecer-nos o apoio estável de uma mesa; (…)”( p. 95)

22. O texto de Llansol, sua noção de textualidade e de fulgor, avança no destroncamento e na não hierarquização destes vários mundos quando nos mostra a técnica da sobreimpressão. Para essa escritora, os vários mundos são a nossa tarefa – a destrincha dos mundos estéticos e o ressalto que se forma entre eles. Mundos não sobrepostos pelo tempo, mas grafados, ou sobregrafados, num mesmo espaço físico, formando mais de uma geografia. Tal operação é efetuada pela textualidade: “texto lugar que viaja” – “signografia-sobre-o-mundo.” (LLANSOL,1996: 167)

23. Além da extensão ou do desdobramento geográfico/linguístico proposto por Benjamin, há a possibilidade de conceber uma abertura geográfica presente na força estética do texto. Signografia sobre o mundo, uma dobra, não somente o texto viaja, mas o texto-lugar. Nesta sobregrafia, sobreimpressão, os mundos não estão escritos uns sobre os outros, não formam palimpsestos, eles (os mundos e os escritos) preservam seus traços originários, e, para tanto, precisa-se manter um ressalto, uma fissura entre eles. Porque não se fazem mundos em cima de ruínas de mundos, é preciso habitá-los. Como se fosse possível ver, na tradução das línguas, no devir interétnico, no encontro entre os mundos, não a união de duas grafias, nem somente o próprio, nem somente o estranho, mas a potência de vida, a força estética que imprime na letra a liberdade linguageira nos mundos.

 O litoral do mundo –  

24.

nem todos tinham texto. O texto não era absolutamente necessário. Comunidades havia que tinham apenas o que sentiam, sem saber o que experimentavam. Tal acontecia, sobretudo, com as comunidades em que predominavam plantas ou animais ou estrelas. Tomavam por livro o seu mapa envolvente, sem que soubéssemos se nalgum deles estaríamos incluídos. Tínhamos apenas uma informação essencial. Não éramos um ermo. No pomar, por exemplo, havia-se formado um lago  onde nadava o peixe da impossibilidade. Era-nos, pois impossível repousar sobre a verdade. O nosso olhar saía do livro e mergulhava nas suas águas levemente agitadas. Nelas víamos espelhado o lugar em que sempre pensávamos quando sobrevinham as imagens de todos os lugares por onde havíamos passado. E todas elas nos diziam “vós sois os habitantes deste mundo”. (LLANSOL, 2002, p. 322)

 

 

Bibliografia

 

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ALMEIDA, Maria Ines de (Org.). Projeto “Laboratório Intercultural e Textualidades Extra-Ocidentais”, elaborado pelo Grupo Transdisciplinar de Pesquisas Literaterras: escrita, leitura , traduções, enviado à Fapemig, atendendo ao edital 07/2009.

ALMEIDA, Maria Inês de (Org) Rigor e invenção no percurso de Txaitá Ibã na tradução de cantos Kaxinawá: experiência transdisciplinar e intercultural nos estudos literários,  elaborado pelo Grupo Transdisciplinar de Pesquisas Literaterras: escrita, leitura , traduções, enviado à Fapemig edital – conhecimento novo – 03/2010.

ALMEIDA, Maria Inês de. Ensaios sobre literatura indígena contemporânea no Brasil. São Paulo, 1999. Tese (doutoramento em Comunicação e Semiótica) – PUC/SP. 

ALMEIDA, Maria Inês de. Literatura indígena e experiência tradutória. Relatório técnico apresentado ao CNPq como parte dos resultados da pesquisa empreendida no Núcleo Transdisciplinar de Pesquisas Literaterras: escrita, leitura, traduções, no período de março de 2007 a fevereiro de 2010, subsidiada pela bolsa de produtividade.

ALVARES, Myriam Martins. Yãmiy – os espíritos do canto: a construção da pessoa na sociedade Maxakali. Campinas, 1992. Dissertação (mestrado em Antropologia) – UNICAMP.

ARAUJO, Cinara de. Biografia como método: a escrita da fuga em Maria Gabriela Llansol. Belo-horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2008. 210p. (Tese, Doutorado em Literatura Comparada).

ARAUJO, Cinara de. “Um ramo insignificante de flores flutuando ao acaso”. In: CASTELO BRANCO, Lucia e ANDRADE, Vania Baeta. Livro de Asas-para Maria Gabriela Llansol. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007. (p.131-149)

ARREGUY-MAIA, Maria Elisa. De uma escrita que faria laço. In: CASTELLO BRANCO, Lucia; ANDRADE, Vania Baeta. Livro de asas: para Maria Gabriela Llansol. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007. p.109-24.

BARRA, Cynthia C. S.; ARAÚJO, Cinara S. “Português Língua Escura: práticas de leitura e de escrita com professores Maxakali”. Anais do 17º COLE, Campinas (SP), julho de 2009.

BARRA, Cynthia C. S. O fulgor como método de leitura – Llansol e os Maxakali. Texto apresentado no Breve encontro intenso da psicanálise com o texto de Maria Gabriela Llansol.   (Inédito)

BARRA, Cynthia. Sobrescrever Blanchot. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2007. (Tese de Doutorado.)

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[1] POPOVICH citado por BICALHO, 2010.

[2] Tradução – ALVARES, 1992.

[3]  A partir daqui o texto segue caminho esboçado em BARRA, Cynthia C. S.; ARAÚJO, Cinara de. “Português Língua Escura: práticas de leitura e de escrita com professores Maxakali”. 

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