Grafias do livro por vir – onde a floresta sempre vive e o pensamento selvagem floresce

(Maria Inês de Almeida[1] – Mesa-redonda “A cura terra”)

[SLIDE 1]

Neste colóquio sobre a Psicanálise e o Pensamento de Maria Gabriela Llansol, gostaria de relatar três experiências vividas com alguns indígenas das etnias Maxakali e Kaxinawá. Experiências de edição de três livros, começadas no ano de dois mil e seis.

[SLIDE 2]

Este relato vem com uma idéia: a terra se cura com a tradução. Foi o que aprendi com tais experiências, no convívio com as textualidades indígenas e a llansoliana. Penso também que o que costumamos chamar de literatura, no nosso contexto ocidental, sejam os extratos e as secreções do processo curativo. Ler esse processo, como cada espécie vivente é capaz de ler – é o que vejo nos textos – seria a forma de conhecer a medicina da natureza. Um dia, saberemos talvez que não havia arte, mas apenas medicina. (Le Clézio, Haï, p.7, apud DELEUZE, 2007)

[SLIDES 3, 4,5]

Gostaria de mostrar como tais extratos, ou lituraterras, algumas vezes, são literalmente orgânicos. O fato é que, se quisermos, teremos aqui um campo ou um jardim de pensamento. Trazer aos leitores esses jardins de pensamento se tornou o objetivo de nossos projetos editoriais, gráficos, escriturais, enfim. Por isso, compreendendo que editar é uma forma de traduzir, constatei que o trabalho do coletivo transdisciplinar de pesquisas – chamado não por acaso de Literaterras por suas fundadoras na Faculdade de Letras, Ruth Silviano Brandão e Lúcia Castello Branco – é pensar um método experimental na direção da literatura, na sua acepção de marca do vivo, em seus meandros tradutórios e editoriais.

[SLIDES 7,8,9]

O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.

Mas breve é o começo de um livro — mantém o começo prosseguindo.

Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.

Basta esperar que a decisão da intimidade se pronuncie.

                                           Vou chamar-lhe fio _____linha, confiança, crédito, tecido.

[SLIDE 10]

Assim, o primeiro livro foi feito para ser o Livro de Saúde do povo Maxakali. Começou com a idéia de que, se os técnicos de saúde do governo pudessem ler o texto maxakali, eles poderiam cumprir melhor seu papel de ajudar esses índios a tratar dos males que a colonização lhes tem trazido.

Neste livro, se revelou a tríade de todos os livros: a paisagem, a polimorfa mulher, e o microcosmo do homem. [SLIDE 11] Os pontos de fuga em que o sexo de ler realiza a tradução, de acordo com a perspectiva em que se coloca o tradutor – aquele que tem por missão entrar no mundo maxakali.

A paisagem sendo a língua maxakali sobreimpressa[2]. A seção do livro em que os maxakali empunham as ferramentas da escrita para escrever suas vozes. Suas palavras – nas narrativas, nos cantos – suas letras. Um processo de apropriação técnica em que os homens trabalham para fixar suas passagens,  sempre em terras estrangeiras: “A escrita era as vozes dos  trinta mil camponeses…”

[SLIDE 12]

A polimorfa mulher, a vontade de saber, o diálogo impossível entre “brancos” e ‘’indios”, a infindável conversa que todo romance entranha, ao estarmos sempre nos “contando histórias uns aos outros”, na tentativa de conhecimento mútuo, na viagem, no devir que às vezes se cristaliza e vira estátua de sal, quando se fica olhando para trás. O que resiste à historicização.

O microcosmo do homem seriam os termos do discurso (esse que “estrutura o mundo real”- Lacan, AP, p.15), o ponto em que se instaura o significante mestre, mas, por este furo mesmo, tratando-se de clichês médicos, palavras-índices, sempre se pode retornar à paisagem, pois é para lá que o vetor indicial aponta.

[SLIDE 13]

Pois é justamente a leitura que tem o poder de transformar o sabido em deriva. A tríade llansoliana dos três livros abre o livro de saúde maxakali para sua inevitável circulação: do corpo da floresta para o corpo do livro para o corpo humano para o corpo da floresta…

[SLIDE 14]

O segundo livro, que ainda está sendo confeccionado, é decorrente de um projeto que numa trascriação chamamos de Cura da Terra, quando os professores maxakali em formação no curso de Educação Intercultural da UFMG nos revelaram o desejo de que o percurso acadêmico deles servisse para que buscassem uma forma de chamar as plantas e os bichos da Mata Atlântica de volta para a aldeia. Mimãti, a floresta inteira, com seus fluxos e pujança, com sua violência e seus desafios, por onde o tikmu’un  de cada maxakali possa exercitar sua força, sua rede de relações, que ainda sobrevivem – expressas a cada vez que o coro de vozes maxakali entoa um canto. Neste momento, vemos o que Nietzsche via claramente no coro dramático da Grécia antiga: a divindade dionisíaca se manifesta ela mesma, e se abolem as hierarquias baseadas na racionalidade:  

[SLIDE 15]

“Da mesma maneira, creio, o grego civilizado sentia-se suprimido perante o coro dos sátiros: e esse é o efeito mais próximo da tragédia dionisíaca, o fato de o Estado e a sociedade, e em geral as clivagens entre um ser humano e outro, darem lugar a um poderosíssimo sentimento de unidade, que tudo reconduz ao coração da natureza” (Nietzsche, NT, p. 59)

Este livro é o que os professores Maxakali, justamente os que estão encarregados de ensinar as primeiras letras às crianças da tribo, escrevem para que estas aprendam a ler no “livro da floresta”. Floresta formada de existentes-não-reais, pois sequer um dos animais ou plantas desenhados e nomeados no livro, pertence à realidade maxakali atual. Floresta imaginária? Não, floresta verdadeiramente virtual, na qual os yamiyxop transformam através do canto.

[SLIDE 16]

  Aqui podemos evocar o fato de a verdade nunca coincidir com a realidade. Além disso, podemos recolocar a discussão lacaniana sobre a relação das “sociedades etnográficas” com o saber, bem diferente da relação das sociedades científicas:

Pois bem, o discurso analítico se especifica, se distingue por formular a pergunta de para que serve essa forma de saber [a científica], que rejeita e exclui a dinâmica da verdade.

Primeira aproximação – serve para recalcar aquilo que habita o saber mítico (…) Esse saber disjunto, tal como o reencontramos no inconsciente, é estranho ao discurso da ciência. (Lacan, AP, p. 85)

 Portanto, ao editar o livro de ciências contendo os saberes dos Maxakali sobre a Mata Atlântica, aprendemos que entrar no mundo de seiscentos milhões de anos não seria pela via da história, mas através da escrita, quando esta se traça na sulcagem do corp’s’crever, nos seus movimentos para vida e para a morte. O livro resultante do projeto de pesquisa dos professores Maxakali – projeto transdisciplinar intitulado pelo Literaterras como Cura da Terra (ou Curaçao da terra, no portunhol de seu orientador acadêmico, o antropólogo colombiano Edgar Bolívar) – se abre pelo início e pelo fim, num movimento que nega a linearidade da história: da capa para diante, no sentido horário (da esquerda para a direita, na perspectiva Ocidental), se lê o processo de deterioração da floresta; e ao contrário, da direita para a esquerda (desde o Oriente), se lê o processo de recomposição, restauração ecológica da floresta.

Com a experiência editorial desses livros, posso afirmar que traduzir é copiar sem trair, trazer para o impresso a textualidade, onde cada ser persevera no que é. Assim entendemos a cura, a curação. Assim, a cura da terra é processo tradutório. E o trabalho incessante da literatura indígena que se faz hoje é curar a terra, porque permite que eles cuidem, através dela, desse mundo ocidentado, em que a esperança se perde na fragilidade da força dos discursos, em detrimento da força do traço dos corpos a escrever. Ao fazer livros com os índios, não é que estejamos fazendo terapia através do texto de Llansol, são eles, os extra-ocidentais, que, copiando na floresta esse texto, nos abrem caminhos textuais que nos trazem a cura.

[SLIDE 17]

Maria Gabriela Llansol, com a cabeça de Muntzer, no Livro das Comunidades, simplesmente trouxe a escrita aos rios em cujas margens vive a jibóia, aquela que ensina as mulheres huni kuin a escrever a ciência (Duá) . A ciência da jibóia transmitida pelo cipó. A imagem que é letra. Esses desenhos geram a vida em comunidade. As mulheres fazem os tecidos, a cerâmica, as pinturas nos corpos – ou seja, geram as formas de conviver.

[SLIDES 18, 19,20]

A terceira experiência é a de edição do Livro Vivo. Este não é propriamente o livro da natureza que foi escrito por Deus. É algo escrito ativamente pela humanidade de cada homem verdadeiro. É a natureza da escrita: marcar por onde passa o olhar dos viventes. O livro vivo é fruto de uma poética.

Entre os Kaxinawá, por exemplo, são as placas nos parques de plantas medicinais, as esculturas em madeira em que se depuram formas sonhadas, os Kenê mostrados nas mirações da Ayauasca, tudo isto que marca a convivência na floresta. A escrita própria da floresta. O que mostra a convivência na floresta, mesmo que seja como a dos Maxakali, que a possuem concretamente no papel e nos yamixop.

[SLIDES 21,22, 23, 24]

Desde os anos 70, o Pajé Agostinho Manduca Mateus, que vive na aldeia São Joaquim, do Baixo Rio Jordão, no Estado do Acre, vem realizando um trabalho de mapeamento e anotação das plantas medicinais do seu povo Huni Kuin. Sua pesquisa foi aos poucos motivando e se desdobrando em várias outras pesquisas, envolvendo todas as 32 aldeias Kaxinawá do Rio Jordão. O fato é que atualmente se pode ver, em todas as aldeias, os parques – onde vivem, cada um com seus acompanhantes, os ancestrais do povo Huni Kuin, que muito antigamente foram humanos e se  transformaram em “medicinas”. Plantas que trazem e mantêm o pertencimento, as relações de parentesco e os conhecimentos próprios de cada uma das quatro famílias estruturantes e fundadoras do povo Huni Kuin: Duá, Banu, Inu e Inani.

[SLIDE 25]

A este projeto de reconhecimento, mapeamento, nomeação, registro e memória das plantas medicinais que acompanham e cuidam do povo Huni Kuin, o pajé Agostinho chama de “Livro Vivo”. Em 2009, ele veio do Acre para propor ao Literaterras a responsabilidade de editar em papel esse Livro Vivo.

Finalmente, em julho de 2011, fomos à aldeia São Joaquim realizar a oficina de edição do Livro Vivo. Para iniciá-la, o Pajé nos mostrou seus parques: “Este é o livro vivo. Agora os técnicos da universidade vão nos ajudar a fazer o livro no papel”. Ora, estávamos ali diante de um projeto mallarmaico:

“O papel intervém cada vez que uma imagem, por si mesma, cessa ou recede, aceitando a sucessão de outras, e como aqui não se trata, à maneira de sempre, de traços sonoros regulares ou versos – antes, de subdivisões prismáticas da Idéia, o instante de aparecerem e que dura seu concurso, nalguma cenografia espiritual exata, é em sítios variáveis, perto ou longe do fio condutor latente, em razão da verossimilhança, que se impõe o texto” (Prefácio a Un coup des dés…)

Mãos à obra: fomos então reconhecer, mapear, nomear, cuidar da memória das folhas de caderno que os pesquisadores huni kuin nos apresentaram.

[SLIDE 26]

O desafio, como um lance de dados, estava lançado ao acaso. O que se nos impôs ao papel foi a cópia do mito, como uma partitura: lendo esse livro, seus leitores necessariamente entoariam, cada um a sua maneira, o canto da origem das medicinas Huni Kuin. Um canto que atualiza um acontecimento que começa a relação dos humanos verdadeiros com os que vivem no mundo vegetal. Ouçamos o Pajé Dua Busã (Manoel Vandique, de 77 anos), na forma como ele decide começar o Livro Vivo:

De primeiro ninguém comia carne, só comia legumes e só comia frutas. Como o Agostinho já filmou, gravou, como que a lagarta virou gente e virou macaco. Dai pra cá o povo já vivia com dor de cabeça, dor na coluna, dor de dente, dor na barriga…

Tinha uma mulher chamada Mukani, seu pai e sua mãe queriam fazer seu casamento com um rapaz e Mukani não queria. Até que um dia, achou um pau bem levinho, bonitinho. Ai a mulher disse: − Esse pau é bem bonitinho, se virasse uma pessoa, gente, eu ia me casar. Se sentou em cima de uma árvore, acho que ali que começou a transar com ela. Foi indo, foi indo, até que um dia essa árvore, Huã Karu, mandou ela trazer um pedaço dele, um pedaço bonitinho, e botar dentro da rede dela. Essa mulher trouxe e colocou dentro da rede dela. Olha, na hora que ela foi deitar, achou um rapaz bem bonitinho, aceitou, passou a noite com ele, até que se engravidou.

Dessa gravidez nasceu Yushã Kuru, o avô de Dua Busã, o primeiro pajé, que, não à toa é o nome indígena de Manoel Vandique, Pajé da aldeia Coração da Floresta, que ensina as medicinas para Agostinho Manduca e que este convidou para ser o mestre da nossa oficina. Pela relação dos humanos com seus antepassados, plantas que guardam sua ancestralidade humana, se forma sempre o Pajé, desde o ancestral Dua Busã até o atual Dua Busã. Esta é a lógica que o Livro Vivo impõe ao papel. Não pudemos, ao coordenar a oficina de edição na aldeia, nos furtar à observação de que o livro mesmo participa desta circularidade infinita que mantém o corpo da floresta. Da árvore ao papel, ao livro, à leitura, à decomposição.

O Livro Vivo então foi se compondo dos cadernos dos pesquisadores, alguns ditados pelo próprio Dua Busã durante os treze dias da oficina, ordenados segundo a partitura musical do mito de origem e convivência dos reinos dos vivos. [SLIDE 27, 28] O desequilíbrio provocado pela mistura abrupta dos sangues de homens com animais encontra a reordenação através da sabedoria das plantas, que fazem a mediação através do seu ensino. Elas sabem como cada família deve se comportar.

[SLIDE 29]

A cena da escrita na floresta, o movimento da montagem de um livro com a escrita alfabética transmutando-se em folhagens e bichos, com a força tecelã de Yube (a jibóia, que ensina a escrita –kene, às mulheres que tecem o algodão) e do huni (o cipó, que mostra os desenhos, e que me mostrou que o livro vivo era um jardim de flores delicadas) [SLIDE 32]. Tudo isto me impulsionava a escrever e fui eu também preenchendo meu caderno (confeccionado pela tecelã Izabela D’Urço) com meus pensamentos de editora. Há muitos anos, sem suspeitar ainda a magnitude dos poderes da floresta, nomeei o selo editorial através do qual me tornaria editora: Edições Cipó Voador.

[ SLIDE 30]

Naqueles dias, ouvir e participar do ato de copiar o ditado de Dua Busã (o Pajé Manoel Vandique) em língua hatxa kuin foi uma das experiências literárias mais felizes que tive a oportunidade de viver. Comparável a outra, em 2005, na Serra da Arrábida, quando Maria Gabriela Llansol, e a gente sentado ali, na grama do pátio, lia para nós de manhã seus escritos da noite, numa língua estranha, quase não a decifrávamos. Era a língua portuguesa.


[1] Professora de Literatura Brasileira e Edição da FALE/UFMG. Coordenadora do Núcleo Literaterras.

[2] Curiosamente Lacan (AP, p. 74) define sobreimpressão: A caracterização do discurso do mestre como comportando uma verdade não quer dizer que esse discurso se oculte, se esconda. A palavra oculto [cachê] tem em francês suas virtudes terminológicas. Vem de coactus, do  verbo coactitare, coactitare – o que quer dizer que há algo comprimido, que é como uma sobreimpressão, algo que exige ser desdobrado para ficar legível.

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