O RE-EXISTIR POÉTICO DA LEGÊNCIA


Fernanda Gontijo de Araújo Abreu (Mesa-redonda “A cura da poesia”)

 

se bem

que os alísios e os lagos não se elevem acima do grande plátano  – a  árvore fica presa. Contudo, seus reflexos caminham sobre as águas,

e é por esta via que eu recebo recados e mensagens.

 

      Como este:

      “Não te esqueças de voltar a ler o que já perdeste, pois no reler é que está a frescura e, na reacção, a resistência humana.” [1]

 

 

Esse fragmento do livro Amigo e Amiga: curso de silêncio de 2004, de Maria Gabriela Llansol, faz-me pensar – sempre que o leio, e releio – que o saber humano se renova na exata medida do seu movimento de leitura aberto à poesia. Voltar a ler o que foi perdido, como nos diz Llansol, é mover-se poeticamente no incessante recomeço da palavra que reside à sombra de uma linguagem, e que, entre ruínas, suas próprias ruínas, insiste em aceder a um novo ângulo do dizer. Sim, pois, “o passado está no futuro – no  lugar itinerante do meu desejo.” [2]

Na releitura, portanto, romper a linearidade do tempo, reagindo ao desvanecimento de uma palavra, resistindo àquilo que submerge no sentido. Na releitura, procurar, a dizer com Llansol, que a vida não se engane na fragilidade de uma narrativa. [3] Eis, aqui, o ponto em que a poesia emerge como a possibilidade de se atravessar a imobilidade da língua, rompendo a fixidez enredada nos temas da memória, ruindo verdades estabelecidas. A poesia faz oscilar aquilo que estanca a palavra, confere movimento ao que é inerte na sucessão das frases, propicia uma potente releitura das formas instituídas do saber.

Por essa via, o filósofo e escritor Jean-Luc Nancy, no livro Resistência da poesia [4], situa o fazer poético como aquele que, de algum modo, nos afeta abruptamente, concedendo-nos o acesso a uma esfera de sentido imediatamente dada, o que, supomos, poderá interceptar o fio habitual do entendimento. Segundo o autor,

Se compreendemos, se acedemos de um modo ou de outro a uma orla de sentido, é poeticamente. Isso não quer dizer que qualquer tipo de poesia constitua uma medida ou um meio de acesso. Isso quer dizer – e é quase o contrário – que apenas esse acesso define a poesia, e que ela só tem lugar a partir do momento em que ele [o acesso] tem lugar. [5]

 

Nancy ressalta, ainda, que a possibilidade poética decorre da absoluta dificuldade em que o acesso à orla de sentido se faz. Esse acesso, não é, entretanto, um acontecimento acidental, pois “o difícil é o que não se deixa fazer, e é propriamente o que a poesia faz”. [6] Desse modo, a poesia é o ponto exato em que o difícil se faz fácil, já que ela é, precisamente, a potência através da qual a dificuldade pode ceder.

Llansol também parece indicar-nos que a poesia sobrevém daquilo que não se deixa fazer facilmente. Ela nos diz: “sem o dom poético,         a liberdade de consciência definhará” [7], dando-nos a ver o árido terreno humano em que se busca erigir a liberdade de consciência. Conforme a autora, um dos problemas percebidos por seus textos é justamente a dificuldade em se “fazer um duplo viável da liberdade de consciência e do dom poético” [8], sem o qual “um acesso ao novo, ao vivo, ao fulgor” [9] nos será barrado.

No entanto, Llansol nos diz que, para se aceder ao novo, deve-se “operar uma mutação da narratividade e fazê-la deslizar para a textualidade[10], esta geo-grafia que “tem por órgão a imaginação criadora, sustentada por uma função de pujança ________ o vaivém da intensidade.” [11] Este espaço, por seu aspecto criador, é aquele no qual a poesia poderá ceder-nos o seu dom. Sim, eis a dádiva da textualidade, sua graça. Força textual que cede, pelo dom poético, à absoluta dificuldade do sentido, concedendo-nos um deslocamento da narratividade para um novo percurso de linguagem, aquele de onde, exatamente, poderá emergir a poesia.

É assim que, na abertura de Ardente texto Joshua, de Maria Gabriela Llansol, há um diálogo entre Teresa de Lisieux e “Gabriela”, em que o dom poético vem colocar-se ao lado da escrita:

 

– Se eu nada fizer, nada existirá.

– Mas, se fizeres, poderá existir. Ou não.

-Sempre a inexistência tem mais força? – pergunto. Mas não particularmente a ela.

– É a graça, Gabriela – um dom.

E escreve no seu caderno: “um dom vem colocar-se ao lado do meu fazer para o proteger do nada”.

Escreve para que fique escrito. Para que esse nada leia, e não se equivoque. Note-se ________ mesmo quando escreve, nada está decidido.  Tudo está por decidir, mas nada está decidido para que assim não seja. Há naquela frase – a que está escrita no caderno –, a disposição de um combate.[12]

 

Então, “mesmo quando se escreve, nada está decidido […], mas nada está decidido para que assim não seja”, pois o dom poético coloca-se ao lado de um fazer, para o proteger do nada. A poesia demarca, assim, um limite na indeterminação da linguagem, um foco de resistência ao nada: ao nada fazer, ao nada dizer. A poesia substitui o nada pelo fazer exato do sentido que ela é. Por isso, Jean-Luc Nancy nos diz que “a poesia é igualmente a negatividade”, já que ela “nega, no acesso, aquilo que a determinaria como uma passagem, uma via, ou um caminho, e a afirma como uma presença, uma invasão”. [13]

Talvez também, por isso, Llansol nos diga que “o fulgor é de outras paragens” [14], pois o acesso ao poético ocorre como um salto, um movimento fulgurante. É assim que a poesia reage ao indeterminado que habita as palavras, concedendo-lhes, por seu dom, mais do que elas poderiam dizer, ultrapassando-as em seu sentido imediato, oferecendo-lhes o excesso da sua própria existência. A escrita poética é a descontinuidade da vastidão da linguagem, sendo, por isso, uma invasão, um excesso e um acesso, uma reação e uma resistência à infinitude do não-sentido. A dizer com Nancy, a poesia é uma resistência à indeterminação do discurso, ao “mal infinito” desse discurso, revestido de suas supostas verdades. De acordo com o autor, a isso, necessariamente, a poesia resiste. [15] 

Portanto, escreve-se à poesia para que se possa reagir às verdades dos discursos legitimados por nossa cultura. Escreve-se também para se resistir às narrativas próprias, bem como às próprias verdades, encenadas pela memória.

Silvina Rodrigues Lopes, crítica literária portuguesa, diz que “na arquitetura de um poema disseminam-se pontos de resistência, pontos de decisão, que o tornam inseparável do fazer em que se origina”. [16] Nessa perspectiva, conforme Silvina, “a leitura é também ela […] experiência, resistência”. [17] Sim, a leitura é “potência em ato”, já que, tal como escrever, faz brotar pontos de resistência e decisão na indeterminação do sentido.

 A poesia lê-se sem ajuda de “especialistas”, e isso em nada contradiz o facto de haver nela uma memória antiqüíssima e um pensamento da poiesis e da linguagem […] Tal como só pode originar-se da experiência, um poema destina-se sempre à experiência de quem lê, ao contínuo movimento de recomeço tangente à história individual, e que faz ressoar nela os espaços-tempos não mensuráveis.[18]

 

      Não por acaso, Llansol designa legente uma espécie de leitor que, segundo ela, “não é o leitor abstrato, mas o real”. [19] Em consonância com o termo latino legens, a figura legente é não somente aquela que, mas, sobretudo, a que colhe, recolhe, escolhe. [20] Temos, assim, na prática da legência a que nos remete a obra llansoliana, uma releitura poética das formas condicionadas de sentido, uma re-ação aos modos instituídos do desejo, prática pela qual o legente pode “re-colher” o dom da textualidade. Na espera desse dom, ele faz acreditar sua leitura; nela, deposita sua resistência.

A leitura, nessa perspectiva, é mais que apenas ler, é também a escrita que se amplifica pouco a pouco. [21] Nesse duplo movimento, escrita e leitura são um só e mesmo fazer, uma só e mesma poiesis. Pois, sabemos que há, algures, como sempre houve, uma escrita a ler-se, e a ler-nos; escrita que se abre à poesia, podendo, através dela, re-existir. Como nos diz Llansol,

 

Seja como for, eu não invento a escrita. […] Eu re-nasço dela e, escrevendo, re-sisto, re-existo, na minha forma singular de existência. Eu constato que sou assim, que não me quero separar do facto de ser um ser por vir, e que empresto a minha voz a esta espécie (que é, no fundo, a minha) de vindouros por mansa insistência. Há muito que estamos nascendo. [22]


[1] LLANSOL. Amigo e Amiga: curso de silêncio de 2004. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 127.

[2] LLANSOL Uma data em cada mão:Livro de horasI. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p. 76.

[3] Cf. LLANSOL. Ardente texto Joshua, Lisboa: Relógio D’Água, 1999 p. 117. Nesse livro, há uma passagem em que  é dito à Teresa de Lisieux: “Vê se há caminho, Teresa     / ir lá ver foi o que sempre quiseste / viver na cultura              / procurar que a vida não fosse um engano de narrativa / na extensão e no pensamento, / entretanto, o tempo passou, e tu arriscaste a vida”.

[4] Cf. NANCY. Resistência da poesia. Lisboa: Vendaval, s.d.

[5] NANCY. Resistência da poesia, p. 9.

[6] Ibidem, p. 11.

[7] LLANSOL. Para que o romance não morra. In: LisboaLeipzig I:O encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994, p. 120.

[8] LLANSOL. O espaço edênico. In: Na casa de julho e agosto.2. ed. Lisboa: Relógio D’Água, 2003, p. 150.

[9] LLANSOL. Para que o romance não morra. In: LisboaLeipzig I:O encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994, p. 120.

[10] LLANSOL, loc. cit.

[11]LLANSOL, loc. cit.

 

[12] LLANSOL. Ardente texto Joshua, p. 7.

[13] NANCY, Resistência da poesia, p. 12.

[14] LLANSOL. Onde vais drama-poesia? Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 225.

[15] Cf. NANCY.  Resistência da poesia, p. 34.

 

[16] LOPES. A anomalia poética. Lisboa: Vendaval, 2006, p. 254. 

[17] Ibidem, p. 255.

[18] Ibidem, p. 255-256.

[19] LLANSOL. Carta a Eduardo Prado Coelho. In: http/www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk7/.

[20] Jacyntho Lins Brandão diz que legens, “significa, antes de o que lê, propriamente o que colhe, o que recolhe, o que escolhe.” Cf. BRANDÃO. O corpus ardente. In: Livro de asas para Maria Gabriela Llansol. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007, p.168. 

[21] Cf. LLANSOL. Um falcão no punho: diário I. Lisboa: Rolim, 1985, p. 37.

[22] LLANSOL. Onde vais drama-poesia?, p. 211.

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