Maria Gabriela Llansol, a morte do cão e sua ressurreição

Sérgio Antônio Silva * (Mesa-redonda “A cura da poesia”)

era um vez um animal chamado escrita, que devíamos, obrigatoriamente, encontrar no caminho; dir-se-ia, em primeiro, a matriz de todos os animais; em segundo, a matriz de plantas e, em

terceiro,

a matriz de todos os seres existentes.

Constituído por sinais fugazes, tinha milhares de paisagens,

e uma só face,

nem viva, nem imortal. Não obstante, o seu encontro com o tempo apaziguara a velocidade aterradora do tempo,

esvaindo a arenosa substância da sua imagem.

Maria Gabriela Llansol, Causa amante

Um “livro carta” um dia chegou-me às mãos e, como uma carta de amor, tornou-se para mim um objeto que, antes mesmo de ser lido ou interpretado, deveria ser tocado, acariciado, cuidadosamente guardado em uma gaveta junto a outros objetos colecionáveis, pequenos fragmentos de uma vida que se constrói, também ela, por fragmentos.

Trata-se de Amar um cão, de Maria Gabriela Llansol, o primeiro livro que li da autora. O projeto gráfico, a ideia do “livro carta” é da editora Colares. Embora comercial, lembra um livro artesanal, dados seu pequeno formato, seu delicado papel, sua frágil e aparente costura. Outro livro da autora fora editado, ainda pela Colares, neste mesmo formato e coleção: Hölder, de Hölderlin. Dois trajetos distintos, o do poeta (que no livro também é árvore, segundo a raiz de seu nome) e o do cão, numa travessia da lucidez à loucura, da vida à morte e da morte à vida-escrita, dois textos tão intensos que contrastam com a delicadeza proposta pelo objeto-livro-carta. E, diga-se de passagem, até mesmo com a proposta de ilustração: como transformar em imagem essa escrita que, deixando de lado a representação “tradicional”, por assim dizer, constrói-se pela via da textualidade, das cenas fulgor, do encontro inesperado do diverso?

Ficarei aqui com o primeiro livro que li de Llansol, nos idos de 1990, Amar um cão, pois creio que ele talvez me possa dar alguma resposta ao tema do Colóquio, que é a cura da literatura. Não se pode resumir o enredo do livro, pois o texto de Llansol não se baseia em enredos ou temas, “mas segue o fio que liga as diferentes cenas fulgor”.

Há assim unidade, mesmo se aparentemente não há lógica, porque eu não sei antecipadamente o que cada cena fulgor contém. O seu núcleo pode ser uma imagem, ou um pensamento, ou um sentimento intensamente afectivo, um diálogo. Acontece, contudo, que há entre estes núcleos uma identidade formal (daí a importância formal dos meus textos, até ao nível gráfico) e que eu identifico pelo vórtice que provocam em mim. Quando um leitor reage da mesma maneira, esse vórtice confirma-se, e o nó construtivo adensa-se. (Llansol citada por Castello Branco, 2011, p. 225).

Com isso, ao invés de ser tomado pela narrativa que me leva, via imaginário, a algum lugar de conforto e distração (seria assim uma cura possível da literatura?)[1], sou arrebatado por esse vórtice textual, por esse redemoinho-poema que é Amar um cão. Daí só se pode dizer da experiência de leitura desse texto da maneira como ele mesmo nos ensina: “[…] ler é nunca chegar ao fim de um livro respeitando-lhe a sequência coercitiva das frases, e das páginas.” (LLANSOL, 1990, s.p.). Esse movimento assemelha-se àquele a que Antoine Compagnon nomeia de “o trabalho da citação”. Em um de seus ensaios sobre o tema, Compagnon parte da figura de um leitor conhecido como “o homem da tesoura”, que – literalmente – corta tudo o que lhe desagrada nos livros, para comprovar essa tendência do leitor moderno: “O essencial da leitura é o que eu recorto, o que eu ex-cito; sua verdade é o que me compraz, o que me solicita.” (COMPAGNON, 1996, p. 32).

O curioso é que, para o homem da tesoura, que lia sobretudo os clássicos franceses do século XIX, ou seja, textos em prosa calcados na narratividade, no realismo literário, para ele, esse movimento talvez se fizesse mesmo necessário. Acontece que, no texto de Llansol, o recorte já está dado de antemão, restando ao leitor, ou, para usarmos uma expressão mais adequada ao universo llansoliano, ao legente, outro trabalho, o de costura, de amarração das cenas, das frases que intensamente nos saltam aos olhos:

Uma frase, lida destacadamente, aproximada de outra que talvez já lhe correspondesse em silêncio, é uma alma crescendo.

Através do outro, e em face do outro, sob o seu olhar, um ser sendo forja a sua identidade.

[…] no intervalo do afecto entre os perigos do poço e os prazeres do jogo.

o sopro de vida é leitura.

“a morte é dar como verdadeiro o que é.”

Assim, nesse jogo de cortar-colar – ou, se preferirmos a nomenclatura da poesia, talvez mais propícia ao texto de Llansol, de escandir, que significa, segundo o dicionário Houaiss, encontrar a medida certa, “dar destaque às sílabas de (palavra, verso) ao pronuciá-las” –, reordeno minha leitura, o meu entendimento da trajetória desse cão que também é pedra, mineral – posto que seu nome é Jade. Aliás, esta é outra característica da obra de Llansol presente no livro: a não predominância do reino do humano sobre os outros reinos. O cão, animal, tem nome mineral, nasce (ou figura) de uma árvore – o medronheiro –, adquire dons humanos, aprendendo a ler, morre e se transforma em pura escrita.

Eis, portanto, o reino que interessa a Llansol, o reino da escrita, o reino da letra, representada, no livro, metonímica e anagramaticamente, pela trela do cão.

Principio a recorrer às palavras que anunciam a realidade:

– Por que brincas? Por que não brincas? Por que brincas sozinha?

– Por necessidade de conhecer. De conhecer-te – respondo.

– Entraste no reino onde eu sou cão. Pesa a palavra.

– Eu peso.

– Desenha a palavra.

– Eu desenho.

– Pensa a palavra.

– Eu penso.

– Então entraste no reino onde eu sou cão – concluiu ele.

Neste meu gesto de cortar-colar, de escandir, sou tomado (não sem antes oferecer certa resistência ao texto, segundo minhas pequenas neuroses de acadêmico literato) por esse devir cão, esse tornar-se radicalmente outro a que o texto de Llansol nos convida. Afinal, o que está em jogo já não são nossos íntimos segredos, nossos medos por vezes mesquinhos, mas sim a exterioridade a que nos lança a palavra poética:

A literatura não é a linguagem que se identifica consigo mesma até o ponto de sua incandescente manifestação, é a linguagem distanciando-se o mais possível de si mesma, e se este colocar-se “fora de si mesma” põe em evidência seu próprio ser, esta claridade repentina revela na distância mais do que um sinal, uma dispersão mais do que um retorno dos signos sobre si mesmos. (FOUCAULT, 1990, p.14).

Esse “colocar-se fora de si mesma” leva àquilo que é próprio da literatura, àquilo que Maurice Blanchot (1987) chamou de exterior. Nesse percurso, adentra-se no campo do outro, ou, para continuarmos com Blanchot, do neutro, que não é necessariamente oposto à interioridade, à presença do “eu”, mas sim sua continuidade, possível de ser entendida a partir, por exemplo, da topologia moebiana, onde o dentro e o fora se confundem, um sendo a extensão do outro.

No entanto, nessa passagem do “eu” ao “ele”, há sempre os perigos do poço: como não se perder – completamente? Como não se ressentir diante, não exatamente da ausência de sentido, mas da presença do não-sentido? Ora, paradoxalmente, a saída, ou a saúde da literatura reside nesse ato mesmo de fazer o sentido avançar em direção ao não-sentido, nesse perder-se no outro perdido, para lembrarmos uma passagem de Hölder, de Hölderlin. Hölderlin perdeu-se na loucura, Jade perdeu-se na doença e morte, mas o texto de Llansol faz com que eles encontrem, nesse perder-se, um devir textual. Para Deleuze, estaria aí a saúde da literatura: “Fim último da literatura: pôr em evidência no delírio essa criação de uma saúde, ou essa invenção de um povo, isto é, uma possibilidade de vida. Escrever por esse povo que falta… (‘por’ significa ‘em intenção de’ e não ‘em lugar de’).” (DELEUZE, 1997, p.15). Dessa maneira,

A saúde da literatura reside na capacidade de, fazendo com que a linguagem se distancie o máximo de si mesma, seja capaz de promover a destituição daquele que escreve. Só aí, então, para além do sujeito e do mito particular do neurótico, arrastando a língua para fora de seus sulcos costumeiros, a literatura é uma saúde.

[…] A literatura é uma saúde não só na medida em que arrasta a língua para fora de seus sulcos costumeiros, mas também na medida em que está “do lado do informe, do inacabamento”, como observa Deleuze. A literatura é uma saúde, na medida em que não se reduz à neurose – ao “papai e mamãe” – mas também na medida em que não se completa, em que não se precipita ao ponto de uma psicose. A literatura é uma saúde também, e principalmente, porque caminha em direção ao que ela é: seu desaparecimento. E, porque é não-toda, e inacabada, a literatura é sempre porvir. Nisso reside também sua saúde, que é também o seu delírio. Em não ser completa, em ser não-toda, em saber que “escrever: não se pode”. Mas em insistir, sempre, em avançar em direção à impossibilidade da escrita.

Maria Gabriela Llansol avança em direção à impossibilidade da escrita, e seu texto nos diz justamente da impossibilidade de uma leitura pronta, acabada, completa. Depois de muito perseguir o sentido, buscar identificações imaginárias, procurar um modo de ler (e recontar) uma história com começo, meio e fim, acabo por me render ao reino do cão Jade, que é o reino da trela, da letra. Se ele adoece, adoeço com ele. Se ele viaja por um jardim de estrelas, vou junto. Se se precipita, acabo por me precipitar. E se as ilustrações do livro, embora bem feitas e assinadas por uma grande artista, Ruth Rosengarten, direcionam meu entendimento para a imagem de um cão que já conheço, Jade insiste em ser este cão que me acompanha como não ser, sem rosto, sem pelo, incorpóreo “como um cisne de feltro”, ora animal, ora mineral, ora árvore, ora leitura, ora palavra, porém com uma força que me faz amá-lo, assim como ao texto que o gerou. Essa força – a força da letra – é o que se identifica como a saúde da literatura. Quanto ao sentido, ele virá, mais cedo ou mais tarde, sob o véu da beleza ou a nudez do real.

Por fim, podemos dizer que o cão Jade passa por um processo de ressurreição, posto que ressurge da morte ao texto:

Depois desses dois dias de grande dor, Jade partiu de Colares seguindo o itinerário da geografia do seu corpo. Porque ele próprio tinha verificado que o melhor caminho era o seu. O seu existe para si. E ele encontrou-se no centro de uma cena fulgor. Avançando com a cena fulgor, chegou a uma povoação onde havia uma mulher que tinha o cão doente, deitado num relvado. Às portas da morte, como se diz dos humanos.

– Espera. E vem aqui, antes que o meu cão morra.

– Vai – respondeu-lhe Esse. – Em nome da cena fulgor que me acompanha, aqui, ou ali,

o teu cão vive, nela.

Ressuscitar a leitura de Amar um cão, para mim, foi como reafirmar a fidelidade a um chamado. Afinal, haverá volta para quem entrou, um dia, no reino onde ele é cão?

Referências

BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

CASTELLO BRANCO, Lucia. O silêncio do exterior: Deleuze, Lacan, a literatura e a vida. (Inédito).

CASTELLO BRANCO, Lucia. Chão de letras: as literaturas e a experiência da escrita. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2011.

COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Trad. Cleonice Mourão. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007.

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1997.

FOUCAULT, Michel. O pensamento do exterior. São Paulo: Princípio, 1990.

LLANSOL, Maria Gabriela. Amar um cão. Sintra: Colares, 1990.

LLANSOL, Maria Gabriela. Causa amante. Lisboa: Relógio d’água, 1996.

LLANSOL, Maria Gabriela. Hölder, de Hölderlin. Sintra: Colares, 1993.


* Doutor em Letras: Estudos Literários pela UFMG. Professor do curso de Design Gráfico e do Programa de Pós-graduação em Design da Universidade do Estado de Minas Gerais. Autor de A hora da estrela de Clarice.

[1] “Felizmente a escrita, esta que pode no decompor, é também capaz de construir palavras, frases e, com elas, acasalar, fazer sentido. E aí estamos de volta, senão à literatura, ao reino reconfortante de certa ficção que encobrirá, com o véu de beleza, o horror do real.” (CASTELLO BRANCO, 2011, p.224).

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