“UM EU É POUCO PARA O QUE ESTÁ EM CAUSA”

paulo de andrade[1] (Mesa-redonda “A cura da poesia)

Fazendo ecoar um grito súbito – “Poema, que me vens acompanhar, por que me abandonaste?” (LLANSOL, 2000, p.13) –, gostaria que toda a minha fala, hoje, aqui, pudesse se resumir a uma única frase, uma espécie de simples prece ou pura constatação, que seria mais ou menos assim: Eu peço à poesia que me cure. Mas, antes que eu me antecipe ao entendimento ou mesmo à escuta dessas palavras, à primeira vista tão claras, vejo, como anuncia o grito, que a poesia não está lá. Está apenas eu, eu sozinho. E onde eu está, a poesia não se faz dom.

É verdade que aprendemos, desde a escola fundamental, com a teoria tradicional dos gêneros literários, que a lírica é por excelência a expressão do eu e da subjetividade. Mas como bem adverte Silvina Rodrigues Lopes,

 

A literatura, ou a poesia, para utilizar uma palavra diferentemente equívoca, é, pelo menos desde o romantismo, como uma das radicais maneiras de desfixar o imaginário, isto é, de desfazer as fórmulas susceptíveis de produzir imagens manipuláveis e redutíveis a um valor de troca. […] Esta proposta, ou esta dádiva, da poesia corresponde a um trabalho de singularização que coloca o poeta contra o imaginário, contra o mundo na medida em que ele é imaginário, ou seja, representação construída na reversibilidade de imagens e conceitos. (LOPES, 2003/2004, p.73)

 

Estabelecendo, pois, uma dupla relação com o imaginário, simultaneamente contíguo e oposto, o poeta faz um “esforço para se arrancar à indiferença do anônimo”. Mas esse gesto “não implica a afirmação de um ‘Eu’ que domine as capacidades criadoras de um indivíduo e se afirme como centro e limite do mundo”. A poesia, ao recusar o banal, afasta também a lógica do sujeito uno e incólume às afecções do exterior, concebendo-o como “um ponto de subjectividade móvel”. (LOPES, 2003/2004, p.74)

Sem permanência que se demore, a literatura, a poesia vai. Para onde?

 

Se vim para acompanhar a voz,

irei procurá-la em qualquer lugar que fale,

montanha,

campo raso,

praça de cidade,

prega do céu __ conhecer o Drama-Poesia desta arte. Sentir como bate, num latido, na minha mão fechada. Como ao entardecer, solta, tantas vezes, um grito súbito: – Poema, que me vens acompanhar, por que me abandonaste? – Como me pede que não oiça, nem veja, mas me deixe absorver, me deixe evoluir para pobre e me torne, a seu lado, uma espécie de poema sem-eu. (LLANSOL, 2000, p.13)

 

A obra de Maria Gabriela Llansol, já muito distante da poesia de que nos fala a teoria dos gêneros, bem como de certa noção de literatura, subordinada à história, ao cânone, à instituição literária, ou seja, a todos os mecanismos de poder que dela se apropriam e limitam a sua potência, “defenderá a perspectiva do poema como um discurso esvaziado do eu”. “Só assim”, nos diz Lucia Castello Branco,

 

tornado “poema sem eu”, o escritor talvez seja capaz de “olhar sem cindir”. E então, quem sabe, participar do que Alain Badiou designou como a “operação poema”, essa “representação local de uma verdade”, operação que, evacuando o sujeito, acaba por produzir um ponto de verdade em que ele próprio, sujeito, se constitui. (BRANCO, 2011, p.105)

 

E a textualidade vai ainda mais longe, leva mais longe o grito pelo poema, quando, a esse eu esvaziado, retira o estatuto da monocultura do humano, dando-lhe outro corpo: um corpo de vivo, não mais um corpo de eu, já que “a vida não é essencialmente nem principalmente humana; […] o vivo não tem uma forma estável e, com clareza, identificável” (LLANSOL, 2000, p.190). Corpo de fulgor, corpo de figura – e “o fulgor não fala a linguagem do ser” (p.191), mas é capaz de receber a nova “boa nova”:

 

“A boa nova anunciada à natureza” é o escândalo que a minha época não aceita. O Ser existe como beleza, mas nós perdêmo-lo e percorremos toda uma órbita excêntrica para o voltar a encontrar. A Boa Nova dirige-se à Terra no seu todo: não só porque nesta se desenvolveram entidades irredutíveis mas também porque é no seu todo que está ameaçada.

Deixou de se formar a partir da Beleza.

A ideia de que tudo o que não é humano tem, tal como o humano, necessidade de redenção, é vital para a nossa continuação aqui, ou noutro lugar.

No momento da posse, no poema de 11 de Junho (poema que nunca foi encontrado), tudo participa nas diversas partes: a boca, a copa frondosa, o cogumelo, a falésia, o mar, a erva rasteira, a leve aragem, os corpos dos amantes. Os três sexos que movimentam a dança do vivo: a mulher, o homem, a paisagem.

Esta é a novidade: a paisagem é o terceiro sexo. (LLANSOL, 2000, p.44)

 

Esse fragmento de Onde vais, Drama-Poesia? permite-nos perceber que a boa nova, anunciada não mais exclusivamente ao homem, mas à natureza como um todo, revela não apenas a inexistência da supremacia do humano sobre os outros seres – já que coloca animais e plantas “ao mesmo nível ontológico do ser-humano” (LLANSOL, 1994, p.141) –, mas também que o estético não é privilégio do humano, já que

 

todas as diferentes espécies de seres têm o gosto profundo de viver num mundo estético. A noção de beleza que os move pode ser muito específica e inabitual, mas todos eles se reequilibram na beleza que geram; sofrem quando o tecido de beleza que os envolve se rompe; vibram, porque esse tecido se recompõe. (LLANSOL, 2003, p. 143,144)

 

Dessa forma, a textualidade Llansol busca fazer da escrita um “espaço matinal de contra-sangue”, em que o romance (e também certamente o poema), tendo seu “centro nevrálgico” deslocado, descentrado “do humano consumidor de social e de poder” (LLANSOL, 1994, p.117, 120), metamorfoseia-se não em um novo gênero literário, mas, abrindo-se ao vivo e ao fulgor, retira-se do campo da impostura (do como se, da metáfora, que se opõe ou reproduz – representa – uma dada realidade, também ela antropocêntrica).

Na textualidade, o humano, então, “não poderá nunca definir-se pelo poder, pela razão, ou pela vontade”, já que, tornado também uma figura, “o ser-humano ou, se preferirem, o meu-ser-humana constitui-se […] na proximidade de um ponto de não-humanidade”, que é uma “Presença – Tesouro”, “uma realidade inconfundível, incomunicável, incompreensível e inimaginável”, mas que está “ao nosso lado, dentro e fora de nós, perto e longe”, e traz como risco a possibilidade de anulação do próprio ser-humano. O humano-figura abre-se a “grandes mutações […] que podem pôr em risco o corpo e, com toda certeza, modificam a maneira de ser e de viver”. (LLANSOL, 1994, p.130, 141, 121, 142)

 

Esta não-hierarquização radical das formas vivas, a proximidade entre elas, o estabelecimento de relações preferenciais são, em meu entender, o habitat mais adequado, por parte do ser-humano, ao exercício da sua arte de se tornar “forma humana”. (LLANSOL, 1994, p.142)

 

É por isso que podemos dizer que a boa nova anunciada pela textualidade Llansol não apenas desconstrói modelos e paradigmas estabelecidos por determinadas discursividades e culturas, mas nos apresenta – melhor seria talvez dizer: nos propõe –, sem levantar bandeiras ou compor programas, uma forma, ou formas (estéticas) de ser/estar no mundo que procuram se desvencilhar das relações pautadas pelo poder e pelo domínio e buscam restabelecer o pacto de bondade (ética) que une todos os seres.

Esta proposição (para tomar uma palavra de Espinosa) coloca-se não exatamente no campo de uma utopia, mas politicamente no campo da esperança, daquela outra esperança de que nos fala Blanchot e que deve ser fundada pela poesia (pelo dom poético, diria Llansol).

A esperança revela a possibilidade daquilo que escapa ao possível: ela é, no limite, a relação restabelecida, lá onde está rompida. A esperança é a mais profunda, quando ela mesma se afasta e se despoja de toda esperança manifesta. […] Esperando não o provável que não é a medida que se pode esperar, não a ficção do irreal; a esperança verdadeira – o inesperado de toda esperança – é a afirmação do improvável e a expectativa daquilo que é. (2001, p.84)

 

Sendo aquilo que é, sabemos, contudo, que o improvável é o que escapa à prova, não pela ausência de demonstração, mas porque nunca aparece onde se deve provar. Isso nos levará, como bem demonstra Blanchot, ao campo do impossível, ao qual a poesia (o dom poético) deve responder. “A poesia não está aí para dizer a impossibilidade: ela lhe responde somente, respondendo ela diz. Assim, em nós, é a partilha secreta de toda palavra essencial: nomeando o possível, respondendo ao impossível.” (p.93) “Toda palavra inicial começa por responder, resposta ao que não foi ainda ouvido, resposta ela mesma atenta, onde se afirma a espera impaciente do desconhecido e a espera desejante da presença.” (p.94)

 

Nisso empenhei o meu texto. Voltar a dar à forma-humana a afirmação positiva do corpo e fazer dele um corpo de afectos, de sensações, de impressões, para que, seja qual for o seu destino – a glória ou o nada –, não se possa jamais esquecer desta terra. E o texto pôde definir em que consiste a centralidade da forma-humana:

no Amor, ser os sentidos (a sensualidade e os sentimentos) da Presença não humana; no Amor, ser a consciência das formas-animais e vegetais, a consciência da paisagem. (LLANSOL, 1994, p.146)

Mas esse empenho, em sua radicalidade, “desconhecendo, em cada acto, se este tem sentido _____ se não acabará destruído, e se tudo não foi praticamente em vão ___________ o texto é sem promessa e sem garantia” (LLANSOL, 2000, p.188). Mas procura.[2]

Eu pede à poesia que procure. Também irei eu – procurá-la. Pois,

 

Se vim para acompanhar a voz,

irei procurá-la em qualquer lugar que fale,

montanha,

campo raso,

praça de cidade,

prega do céu __ conhecer o Drama-Poesia desta arte. Sentir como bate, num latido, na minha mão fechada. Como ao entardecer, solta, tantas vezes, um grito súbito: – Poema, que me vens acompanhar, por que me abandonaste? – Como me pede que não oiça, nem veja, mas me deixe absorver, me deixe evoluir para pobre e me torne, a seu lado, uma espécie de poema sem-eu. (LLANSOL, 2000, p.13)

Referências

BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita. v.1: A palavra plural. Trad. Aurélio Guerra Neto. São Paulo: Escuta, 2001. p.73-94: A grande recusa.

CASTELLO BRANCO, Lucia. Chão de letras: as literaturas e a experiência da escrita. Belo Horizonte: UFMG, 2011. p.103-106: Tu, poema; p.107-116: Superfície de poema.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Grande dicionário Houaiss da língua portuguesa.Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994.

LLANSOL, Maria Gabriela. Na casa de julho e agosto. 2.ed. Lisboa: Relógio D’Água, 2003. p.141-168: O espaço edênico. (Entrevista a João Mendes.)

LLANSOL, Maria Gabriela. Onde vais, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio D’Água, 2000.

LOPES, Silvina Rodrigues. Poesia: uma decisão. Aletria, Revista de Estudos de Literatura, v.10/11, Belo Horizonte, 2003/2004, p.72-80.


[1] Professor Adjunto do Instituto de Letras e Linguística da Universidade Federal de Uberlândia.

[2] Jogo aqui com a relação etimológica latina entre cura,ae ‘cuidado, preocupação, direção, curatela, tratamento, guarda, vigia, objeto ou causa de cuidados ou amor’ e curiosĭtas,ātis ‘cuidado, diligência em buscar uma coisa, procura cuidadosa, empenho de saber’. Cf. HOUAISS; VILLAR, 2001, verberte cur-.

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