O irredutível e o incurável

Leila Mariné da Cunha Guimarães (Mesa-redonda de encerramento “A literatura e o incurável”)

 

            Encontro meu fio no início do texto de Lúcia e Maria, com Barthes: a resistência e o irredutível. Esse irredutível da literatura, Lúcia nos propõe pensar “como o que resta da operação de cura: o incurável. Ponto esvaziado de metáforas e de imaginário, ponto de letra”.

            Esvaziar de imaginário a imagem. Esvaziar de transparência. Freud e Lacan conhecem bem a força do narcisismo, do amor a essa imagem fulgurante de nós, que modela nossa relação com o mundo e que nos engana, porque não nos contem em nada. Desse engodo de domínio, diz Lacan, o sujeito é o tolo necessário. E acrescenta: somente a desarticulação dessa imagem, seu desmembramento, sua dispersão aos quatro ventos esboçam indicar qual é seu lugar no mundo.

            Ao final de uma análise, Lacan nos recomenda Savoir-y-faire. Ah, é mesmo preciso saber-fazer-aí, aí nesse ponto que assim se revela como ponto incurável.

            Trançando o irredutível e o incurável da literatura e da psicanálise, lembro Lacan comentando A Viagem de Urien, de Gide (em francês: Le Voyage d’Urien, homofônico a Le Voyage du Rien – a viagem do nada). Lacan se refere à inscrição que Urien e seus últimos companheiros de viagem encontram quando se refugiam num bloco de gelo (glace), para não afundar na neve e nele talham escadas e passagens. No curso desses trabalhos encontram um cadáver aprisionado no gelo e sobre esse ataúde de cristal a inscrição: Hic desperatus (aqui desesperado). “Se tivéssemos sabido de início que era isto que tínhamos ido ver, talvez não nos tivéssemos posto a caminho (…)”

            Caminho intransitável, esse…

            Imagem curada de seu gozo analógico, do análogo. Quem sabe, “uma emigração para um LOCUS/LOGOS, paisagem onde não há poder sobre os corpos.” Imagem curada da analogia como uma letra chinesa em sua ‘desmemória’ dos mais remotos traços das coisas e onde o bric-a-brac de diferentes caracteres pode permitir a emergência de um sentido que advém como modificação de um uso consagrado. Como não lembrar o bric-a-brac das identificações? (Dona Olímpia, de Ouro Preto – lembram? – mostrava-o a céu aberto, vagando pelas ruas, coberta de fragmentos de tecidos, cores, objetos, recortes, figuras, coisinhas.) O movimento de se reunir ao próprio desejo vai contra o vincular-se à própria identidade e à própria consciência. Às voltas com a letra de seu desejo, Gide nos diz, em seu Diário dos moedeiros falsos: “o difícil é inventar onde a memória nos retém.”

            É ainda Gide que, do efeito da escrita e do livro, nos diz: “Ao sair de nós, ele nos muda, modifica a marcha de nossas vidas; como vemos em física aqueles vasos móveis suspensos, cheios de líquido, receber um impulso, quando se esvaziam, no sentido oposto ao do escorrimento do líquido que eles contêm”.

 Llansol o diz assim: “Chove e contrachove como se, do céu à terra, subisse um percurso quando, sem que se torne necessário, deveria descer”. Esse é um texto que me leva a reunir dois significantes, um lacaniano e um llansoliano: estamos falando de desarvoramento da paisagem?

             Freud diz que a análise deve fornecer o fio que permita sair do labirinto do inconsciente; Llansol nos convoca a “cair da memória no fio de água do texto.” Texto, tessitura tramada a fio de água. Penso na expressão popular do português para a impermanência: risco n’água? Sulco do navio? Talvez, então, como a mulher no Prelúdio do Parasceve, para se salvar de perigo tão iminente, correr e dizer: ’ O Meu Dicionário de Hoje. ’ É uma ancoragem…

            De hoje, portanto, quero deixar aqui registrado: Amemorieuse é mesmo uma palavra linda, Maria.

            Encontro afinal o irredutível das unidades mais reduzidas da língua e o incurável do corpo onde Freud, bom legente, descobriu a gramática pulsional, nesse brado de Llansol:

            “Ó língua, és tão forte

             E percutente nos fonemas que excedem

         A tua gramática teimosia. ”

          

             No seminário 20, Lacan nos diz que a dimensão do ler-se mostra que estamos no discurso analítico. Mas acrescenta: “Não só vocês supõem que ele (o sujeito do inconsciente) sabe ler, como supõem que ele pode aprender a ler. Só que, o que vocês o ensinam a ler, não tem então, absolutamente, nada a ver, em caso algum, com o que vocês possam escrever a respeito.”

             Fica assim colocado esse paradoxo entre leitura e escrita.

            Também Llansol, tratando do chamamento do texto, diz que ele “não pode ter descendentes, porque todos os seus legentes o ascendem.”

            Então, quem lê, está antes do texto… e o constitui? ‘O sujeito do inconsciente pode aprender a ler’… Não acontece a todos; penso que quando acontece começa no final do percurso. Talvez só aprendam esses que, como bem disse Maria, consentirem em cair da memória no fio de água do texto. Pois ali onde há analista, não é possível interrogá-lo, porque, justamente ali, ele está e não está.       

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