Por que amo Llansol

Declaração de amor

                                                                                              Por Lucia Castello Branco

Começo por declarar, publicamente, o que venho declarando há exatos vinte anos: amo Maria Gabriela Llansol. E aqui, parafraseando Alain Robbe-Grillet, devo indagar: o que entendo por Llansol, na frase “amo Maria Gabriela Llansol”? A resposta da moda, a que expulsa inteiramente o autor do texto, diria que devo entender por Llansol a obra de Maria Gabriela Llansol. “Trata-se de uma obra que conheço bem: muito a li, cheguei mesmo a saber algumas passagens de cor”.

É claro que a palavra Llansol é a escritora Maria Gabriela Llansol. “Mas pressinto que é também outra coisa”. E ela também o pressentiu, quando assim escreveu: “um corp ´a´screver”.

Então, declaro publicamente que amo esse corp´a´screver em mim, desde 1992, quando o encontrei, na Praia das Maçãs, em Colares, sob a névoa da manhã. Amo-a porque Llansol me devolveu a certeza de que não havia outro caminho senão este: o da língua sem impostura. Amo-a porque pude lhe dizer, ainda numa língua sem palavras, que não desejaria escrever, se tivesse que pagar, por isso, o preço da loucura. E com ela aprendi que a loucura era a mente estar com o poema e o corpo ausente. Para, logo em seguida, aprender que a escrita e o medo são incompatíveis.

E depois amo-a, porque ela me ensinou, em sutil transmissão, que um professor pode, também como um escritor, não terminar suas frases. Amo-a porque, no exercício da legência que ela me ensinou, pude praticar a leitura sem tutores, fora do viés melancólico de uma tradição decadente, sob a luz dos trópicos antropofágicos onde “a alegria é a prova dos nove”, como escreveu Oswald de Andrade.  Amo-a porque pude aprender com ela o que significa — e o que significou, nesses últimos vinte anos — manter o caminho prosseguindo.

E, ainda, amo-a porque pude lhe dizer, na frontalidade dos afetos, que não me responsabilizaria, nem por seu blog, nem pela divulgação de seu nome em congressos, porque esta não era a minha vocação. E, para além dessa vocação, terminei por sustentar o seu nome e a sua escrita, ao longo desses 20 anos, com o meu corpo, com a vibração da minha escrita e o alcance da minha voz.

E, para além dessa vocação, pude realizar, ao lado de alguns amigos legentes brasileiros e com o apoio da UFMG e da Prefeitura de Sabará, o I Colóquio Internacional Maria Gabriela Llansol, numa pequena cidade mineira, no Brasil. E, para além dessa vocação, pude apresentar a ela alguns jovens e desconhecidos escritores brasileiros do seu “ramo”, além de alguns não tão jovens, nem tão desconhecidos escritores portugueses, que dela não se aproximavam por receio, por respeito, e que depois se tornaram seus amigos.

Amo-a, porque, por ela, tive que me afastar, radicalmente, dos amigos da impostura da língua e dos que cultivam os “portugais morrendo à míngua”, como advertiu Caetano Veloso. E, por ela, pude receber, um a um, os poetas e os vagabundos que desde sempre me acompanham.

Amo-a pela suave companhia dos amigos que eu por nada trocaria e pela causa amante que nos reúne. Amo-a porque um dia dela escutei: “Quero que tu saibas que aquilo que tu buscas em mim _______tu o tens”.

E porque a amo, proponho — como o fez, no passado, a filha de Tom Jobim, ainda menina,  ao sugerir que o nome de seu pai deveria ser escolhido não só como nome de uma avenida da zona sul do Rio de Janeiro, mas como nome de nosso planeta —que o Espaço Llansol não se restrinja a uma casa — aquela em que ela viveu, modestamente, em Sintra, seus últimos anos de vida —, mas se estenda a todos os litorais, aos litorais do mundo.

Em papel azul vos digo que vos amo”. Estas são as últimas palavras que recebi, em carta, de Maria Gabriela Llansol, poucos meses antes de sua morte. E o “vos”, aqui, estendia-se a “Lucia Castello Branco e seus alunos”, como ela escrevera, desde muito tempo, desde a Carta ao Legente, publicada pela primeira vez no Brasil, no ano de 1998, nos Cadernos Viva Voz, da Faculdade de Letras da UFMG,  depois, no ano seguinte, em 30 exemplares artesanais e fora de mercado pela Edições 2 Luas, de Belo Horizonte, e, em 2000, como prefácio do livro Os absolutamente sós, pela Editora Autêntica, a mesma que, em outubro de 2011, publicou os seus três diários, com comentários de Arnaldo Antunes e Alice Ruiz, entendendo que os poetas seriam os mais indicados para recebê-la aqui, no Brasil, como aquela companhia que ela “por nada trocaria”. E porque “imensa é a generosidade dos poetas”.

Assim, em reciprocidade a seu amor expandido, a seu amor ímpar, devo dizer-lhe, ainda e sempre, que eu,  recentemente nomeada por tradutores sem fulgor de Adoradora Megalomaníaca LeviAna de Peñalosa, escritora brasileira do seu “ramo”, declaro, vestida com seu xaile preto da mente, mas ainda no azul da adoração, meu “amor em fracasso” por você,  Maria Gabriela Llansol.

 

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