Por que amo Llansol

Belo Horizonte, 5 de abril de 2012

 

Querida Gabriela,

 

é noite. É sempre noite quando te escrevo.  Acho que é a primeira vez que te chamo assim: Gabriela. Sempre te chamava de Llansol, lembra?  Você gostava que fosse assim, acho que por causa do meu sotaque, pois, na minha língua dos trópicos, acentua-se, sem qualquer esforço, o “sol” de seu nome. Devaneio um pouco, eu sei, mas como você mesma me disse uma vez, meu “pensamento vem sempre à tona de água”.

 

Hoje, quando comecei esta carta, foi o som desse nome, “Gabriela”, que tocou meus ouvidos. Meus lábios também, pois a sensação de dizer baixinho “Gabriela” é a mesma de tocar, levemente, as teclas de um piano. Tocar seu nome e ver sua sonoridade invadir a sala, nesta noite silenciosa, comove-me.

 

Já faz quase sete anos, desde que nos encontramos pela primeira vez. Foi em Sintra. Pelo menos esta foi a primeira vez de que lembrávamos, pois a impressão que tivemos, como você bem disse, foi que nos conhecíamos há mais de dez mil anos. Há muito tempo vinha lendo “seus” textos.  Faz quase cinco anos que recebi sua última carta. Menos de um ano depois, você desapareceria. Nessa carta, você termina dizendo: “Escreve”. E é o que venho fazendo, desde então.  

 

Há alguns dias, Gabriela, deparei-me com a seguinte pergunta: “Por que amo Maria Gabriela Llansol”? Escrevo, hoje, para tentar responder a essa pergunta, colocada pelo “fio de água do texto”. A pergunta é interessante, pois, ao indagar “por que amo”, ela já afirma: “amo Maria Gabriela Llansol”. E, sim, eu a amo, mas por quê?

 

Lembro-me que, no nosso primeiro encontro, você me disse que estava um pouco brigada com a palavra “amor”. Você se referia a sua banalização. Eu, timidamente (afinal, tinha apenas vinte três anos), disse, com a voz um pouco trêmula, que gostava dessa palavra. Você sorriu para mim e disse que também gostava dela, mas que a palavra “amor” deveria ser trabalhada. “É preciso trabalhar o amor”, você me dizia. “Para ele não virar uma bobagem, para não acabar”, eu pensava, pois o amor pode ser uma bobagem, não é? Ele pode, inclusive, acabar. E esse trabalho é de metamorfose. Amor é metamorfose, ele se abre para fora de si mesmo, como você disse certa vez. E, se é assim, ele não pode ser uma bobagem. Ou, pelo menos, não só uma bobagem. Ele pode, inclusive, ser uma forma de saber. Amor é pensamento, mas pensamento em fracasso, não é, Gabriela? É preciso meter a mão no pensamento, você já escreveu, mas é preciso também meter a mão no amor, pois assim podemos ler com o corpo, com nosso corpo, com o corp’a’screver.

 

Porém, há aqueles que pensam que ler com amor é de alguma forma anular-se, isto é, entregar-se ao outro sem resistência (como se isso fosse possível ou, até mesmo, fácil!). O amor, nesse caso, não daria lugar para a crítica, pois não se teria um certo distanciamento, blá-blá-blá… Ora, esse tipo de pensamento coloca o amor somente no campo da idealização, no campo da complementaridade. Em outras palavras: o objeto amado me completa. Ou, ainda, colocam o amor no campo da perfeição, e, por consequência, o amor torna-se impossível, dado que é perfeito. E, portanto, distante do sujeito como o firmamento dos peixes. Pensar o amor dessa maneira é fazer dele uma bobagem. Ler, então, desse lugar… Um horror, você não acha?!

 

O amor é impossível, não porque ele seja do campo da perfeição, mas, sim, porque é um corpo em expansão. Ele não está lá, nem aqui. O amor está aí. Ele está no mundo, errante.  Por ser assim, por errar no mundo sem pouso certo, por ser um corpo em expansão, por abrir-se para fora de si mesmo, o amor não exclui o seu oposto, o ódio, por exemplo. Por isso mesmo, como nos diz Barthes, “malogramos sempre ao falar do que amamos”. Ou, ainda, podemos pensar com Lacan que a melhor forma de leitura é a partir do amódio.

 

Isso tudo, Gabriela, aprendi com você. Aprendi que trabalhar o amor, no campo do fracasso e da expansão, trabalhá-lo como um corpo errante, colocar meu coração na proximidade do seu coração vagabundo, é também uma atitude política e ética. Porque “amar”, como disse Maria Bethânia, “já é um protesto”. Digo também que é uma forma de nos aproximarmos das outras formas existentes no mundo. Uma forma de habitar poeticamente o mundo. Uma forma de sermos “vivo no meio do vivo”.

 

Por tudo isso, Gabriela, por me ensinar, dentre muitas coisas, que é preciso trabalhar o amor, que é possível levar o amor para o cerne da experiência política e ética, posso responder, sem medo, a uma de suas últimas cartas, escrita em papel azul, na qual dizia “sobre papel azul, digo que vos amo”, com uma única frase: “sobre superfície branca, aqui no fio de água do texto – os sem-terra e os vagabundos – digo que te amo”.

 

Com amor,

 

João Rocha

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