Por que amo Llansol

Fragmentos de uma prova inconfessável de amor

 

 

O texto que leio ama-me? Ou não me ama? O que alcançarei quando atingir o seu sexo? O ligar ao prazer do meu que é verdadeiramente ______

                                          

             

 

(Llansol, Os cantores de leitura)

                  

 

Confesso.

Confesso o que não se pode confessar. O que nem sequer pode-se dizer. Porque não se pode, mesmo que se queira. Há mais transparência no silêncio, que se guarda intacto no tecido das palavras, do que em qualquer segredo.

 

Em jeito interrogativo, pois, e sem revelações, digo-te, apenas, que deixei as palavras caírem. E que, no chão, peguei uma a uma e as lancei todas ao mar, como prova do meu enlevo.

 

Sim, desejei vagar pelo ritmo que se desenhava, pouco a pouco, naquele mar e em suas margens. Nas pregas do corpo – do meu próprio – e na flor-pensamento. Quando, na altura do sonho, o texto iluminava-me com sua voz noturna e sussurrava-me com intrépida ternura: Acorde! Ame!

 

Eu sabia, eu já sabia que, naquele som de sonho, era o ardente texto que vinha “tocar-me ao de leve no ombro”, falando baixo aos meus ouvidos, convidando-me a partir. Partir a trela. Partir o pão. “E o amor como partilha do mais difícil.”

 

Sabendo, eu não sabia, porém, que era magnífico andar por entre a espessura dos nomes fulgurantes de sol, seus raios imensos, seu timbre cintilante. Eu apenas pensava que, naqueles braços, haveria a cor que ainda não se via, ali inventada, em viva paisagem, para o sorriso das plantas, das estrelas e dos animais.

 

E o texto insistia em sua cantiga: Ame! É hora de a-cor-dar!  

 

Sobre a rara palavra, embora frouxa pelo uso, foi-se traçando, então, um caminho sólido nos cantos líquidos da página, onde meus pés mergulhavam os seus limites profundos. E os olhos, sempre companheiros da alegria – mesmo quando não –, bebiam os ramos lilases dispersos na soleira da porta, que se abria, lentamente, junto aos olhos, antes de sonhar.

 

De todas as maneiras, o texto, sem medo, repetia: O amor! O acorde!

 

E o raiar das notas, e sua harmonia, volatizavam a pena que manchava o espaço de transparências sobrepostas, até repousá-la na tônica da pauta, como ave à procura dos matizes de um cântico, e seu abrigo. Abrigada a palavra, restava ainda a voz, “mais pousada que retira o texto do papel, e o deixa incólume”.

 

Era a asa do texto, sim, era ela que pousava sobre um nome e o seu destino de sol. E penetrava a janela tingida de vidraças, onde vertiam as folhas ensolaradas/enluaradas da atmosfera que subia da fonte. Vento leve seguindo a direção de um princípio, soprando a asa que “escrevira” na água: único indício do ramo – seu limiar.

 

Mas o texto, ali, vogava sobre aquele nome, com o seu perfume.

 

Entoava-se o murmúrio mantido: amor. E ainda o texto, incansável, dizia: palavra-ave. Ave-a! “Escrever é o mais próximo da sensação de amar”, era o cântico do punho falcoeiro. Sonoridades que corriam como um enigma de fogo, mas que ninguém queria desvendar. Arder era o sol de todos. E o acorde vibrava incandescente: Ame, escreva!

 

“Pelos olhos e pela palavra”, amava-se, amando-se, então. E pedia-se ao texto que pronunciasse, devagar, suas ondulações oscilantes: mar, amar, a-mar. Imagens que, em espuma, vinham dar-se à concha da mão que trazia, sem aspereza, aquele meu amor inconfesso.

 

Que me deem a minha pena, então, para que eu possa, com ela, em silêncio, escrever-te:

 

Amo-te, por ensinar-me o fulgor no caminho que eu mesma escolhi para amar. Amo-te pela amplitude do canto que se abre no imenso mar das suas pautas de música. Amo-te pelo raio que derramas em meu pensamento a cada vez que volto a procurar o teu sol. Este nome caloroso em suas letras, Llansol. Llan-Sol.

 

 

* Estes fragmentos de amor foram escritos, por amor, às margens dos textos de Maria Gabriela Llansol, contendo, por isso, algumas citações referentes à obra da autora, além de alusões, não explicitadas, aos seus escritos, difusas no conjunto dos fragmentos. A não indicação das citações vale, aqui, como uma pista da minha (in)confissão, e da minha pena.

 

 

                                                                                     Fernanda Gontijo de Araújo Abreu

 

 

 

 

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