Por que amo Llansol

Por Que Amo Maria Gabriela LLansol

por Vania Baeta

           

            Há quase quinze anos. Estava finalizando o curso de psicologia e cursava, então, a última disciplina — “Psicanálise e Linguagem” — ministrada pela Profa. Leila Mariné. Nada no horizonte parecia ter consistência de sentido para meu corpo, para meus olhos. A psicanálise, sim, havia chegado como uma redescoberta estranha: o estranho que nos aponta a saudade de casa. Mas, mesmo assim, as leituras, com as quais me deparava, não condiziam com um a mais ou o além necessário para a gravidade do que estava em questão, seu corpus. Nada me dizia que o caminho seria transitável. Lembro-me: a restrição da alma, se isso for possível. Não era sequer angústia, apenas pobreza. Quando a pobreza perde a graça de seu encontro fortuito com o recurso; quando a pobreza, em seus andrajos, panos sujos de chão, não estende sua mão ao mísero pão que surge. Não, não era bem isso, nem menos do que isso, porque já seria muito. Não, não era nada, porque já seria muito, porque cada palavra escrita aqui já seria e muito. Era o baço: meus olhos embaçados sem cansaço.

            Nesse dia, nesse último dia, na última aula, a professora retira das mãos um texto, um último gesto de generosidade, que nunca mais poderei esquecer. Era um trecho de Causa amante, soube depois, lido em voz alta. Então, não pude acreditar, não seria possível: digo não seria, mas foi o improvável. Algo como provar o improvável. A música? Talvez. Mas havia a clareza soberana da incomunicabilidade das palavras de amor, como quando os amantes nus falam — coisas anódinas. Não, acho que ainda não. Apenas o pasmo, o vislumbre de uma outra língua, absolutamente estranha, absolutamente minha. Minha, não porque fosse minha. Minha simplesmente porque eu sabia absurdamente a frequência dessa cifra, dessa letra, dessa deriva, paisagem indômita. Mesmo que eu não soubesse (e ainda não sei) o que essa palavra significa. Letras duras ao luar.

            Foi assim, diante desse pasmo essencial, que, ainda confusa, procurei saber o que era aquilo, aquele texto lenhoso, aquele vento suave. Qualquer adjetivo pode ser perigoso, porque impreciso e meloso. Não é nada disso, eu sei. Mas é o que temos no momento e já não me importa mais. Porque, a partir de então, partir foi o gesto trêmulo que aprendi. Apesar de tudo, conheci o júbilo, o dom, a brutalidade, a animalidade, a luxúria e a pobreza desse texto. Consegui. Levei-o para casa, em xerox. Como quem prende um pássaro raro na gaiola; como quem transporta uma gaiola em seu carro; como quem chega a casa e busca um lugar. A impressão de que aquilo era proibido. Não podia e ainda sei que não posso. Talvez, hoje, eu saiba melhor o tanto que não posso. Mas não podia deixar de seguir. E segui: escolhi uma janela, a que dava mais abertura para os olhos. Mas era de noite e o manto estrelado cobria a paisagem invisível. Ainda é assim: o manto estrelado cobrindo a paisagem invisível. Mas também era absolutamente histórico, material e cotidiano. Havia erudição nesse texto? Haveria quantas portas abrisse. Era uma casa antiga esse pássaro. Como se seu canto invocasse gerações e gerações e gerações. E quisesse limpar seu lamento. Mas a morte, o túmulo, o tálamo. Nada lúgubre pousava. O corvo não o visitava.

            Busquei uma janela, disse. E poderia até dizer que fiz um altar, não vou mentir. A adoração tem a força da dor, tem a dureza da dor, tem o pulsar do coração. Não vou mentir. Comecei a experimentar o tempo: seu alargamento, expansão e retração, o tempo fora do tempo, radicalmente encetado nele mesmo, como uma flecha de aqui e agora. E, quando saía do texto, recuperando o fôlego de uma vaga consciência, eu só conseguia pensar: é isso! É isso. Talvez as místicas não me abandonassem jamais. O verbo se confundia e abria a radicalidade do puro desejo, do puro corpo, do puro amor. Insano, sim, insano. Nenhuma febre jamais. Mas se abriu aí outra duração, naquela janela aberta, de par em par, pelo canto de Causa amante, esse pássaro. Essa noite, essa noite escura, seria uma espécie de noite obscura da fé. Refiro-me simplesmente à presença de San Juan de La Cruz, de Ana de Peñalosa, de Hadewijch d´Anvers e, mais que tudo, a companhia de uma rapariga — a rapariga que temia a impostura da língua. Quem não a conhecerá?

            O mais engraçado (cheio de graça e horror) é que diante disso e depois dessa noite passei a fugir, a me esconder, a buscar uma orla no abrigo do bosque, onde pudesse apenas aprender a ler. A ler esse estranho texto. As tarefas cotidianas, os compromissos, minha filhinha, o tempo da escola e o tempo do banco e das contas, tudo eu o fazia rapidinho, correndinho. De um pulo a outro, livrava-me e, assim, pegava a gaiola do raro pássaro, colocava-o novamente no banco do carro e saía. Saía procurando um abrigo na orla do bosque, o silêncio necessário, a cortina do céu, a terra. E lia e me dava ao aprendizado impossível dessa leitura.

            Essa é a razão pela qual eu só posso amar Maria Gabriela Llansol, porque nada, desde então, escapou a esse raio sobre o lápis; porque nada, desde então, é sem ela; porque, na dobra de um outro horizonte, esse texto sempre me acompanha e há de me acompanhar, mesmo quando eu me vou, mesmo quando eu me voo. E, principalmente, quando eu me for.

      

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s