Por que amo Llansol

Estive discretamente a dizer

             porque amo Maria Gabriela Lansol

 

Fiel à letra, escrevo. Fiel ao amor, “mesmo se o corpo com isso haja de sofrer”, pois que o amor, hoje, é palavra mal-dita, escrevo. O amor, amorte, a tentativa de dizer a última palavra, atraída pela ausência desse encontro, mas também pelo toque, feito sopro, da lembrança de um sonho inteiro.

Escrevo, não para dizer-lhe porque a amo, pois falta, nessa sentença, o ponto da sua interrogação. Há, isso sim, no aberto da falta da última palavra de amor, aquela impossível, a afirmação de um gesto: Amo. Eis o gesto que se afirma nessa forma marcada por um afeto que não pertence ao tempo. Talvez já a amasse, a ela, Gabriela, a sua escrita, o seu corp’a’screver, antes mesmo de conhecê-la.

Devo dizer-lhe, então, que todas as minhas palavras, aquelas escritas e as outras, en souffrance, todas elas, lettres, “são unicamente resultado da vontade que eu desejava conseqüência do puro amor”; se escrevo, por um ato de decisão, se continuo a escrever o amor, “até que me digam que pare”, é porque “escrevo a alguém como se o não voltasse mais a ver”.

E nunca a tinha visto.

Não foi cedo que a encontrei. Não foi cedo que tomei nas mãos esse corpo ligado à organicidade da terra, por recolher em si a memória dos vegetais, por alinhar-se à luz que corre em direção ao plátano, evitando a chaga dos corredores estreitos. Não. Não foi cedo que pude tomá-lo nas mãos. Talvez – eu pensava –, por me faltar o corpo para recebê-lo, mas, também, a abertura para o risco de fazer desse corpo, que pensava ser meu, o lugar das mutações, da intimidade do fora.

“Há sempre uma ameaça que paira sobre a dilatação dos corpos” – só depois puder ler.

Há o risco das linhas. O seu riscado. A sua dispersão.

Não foi cedo que a encontrei. E, no entanto, esse encontro inaugurou a aurora de uma vida. A sua manhã. A luminosidade da sua sombra. O lugar do seu mais cedo. Pensava que seria preciso ter um corpo para acolher esse, a’screver, deitado na folha pelo rasto incandescente de um acontecimento: de escrita, de corpo. O dela, o nosso, o de todos da sua linhagem. Mas ali, na aurora de um tempo, que hoje já não sei se cedo ou tarde, ali, na aurora de um encontro, o que estava a acontecer era a mutação dos corpos, a sua composição, o seu deslocamento medido apenas pelo som grave de uma leitura.

O risco era passagem. A travessia, o aberto.

Seguia com ela, às vezes bem distante, guardada na gaveta ao lado da cabeceira. Para esquecê-la, para tentar recontar, em outro lugar, o inédito dessa leitura. Para não dizê-la de cor. Confesso que a troquei, algumas vezes, pelo trabalho das rendas. Enquanto tecia podia esquecê-la, podia fazer dela ponto de tricô, um nó a sustentar o tecido inteiro. Talvez ela me esperasse, pacientemente, talvez esperasse esse tempo em que tentava livrar-me disso, sem entender que isso era o fio de um trabalho imprevisível e raro. Outras vezes, a tive por muito perto, seguindo a forma da sua letra, o traçado do seu ritmo, tomando por minhas as suas imagens. Copiava, citava, recitava. Recortava pedaços inteiros para juntá-los a fragmentos que eram meus. Inventava o corpo de um texto, sua dobra, a sua extensão. Tudo era meu e era outro. E o texto se entregava, com generosidade, à tarefa do amor e da renúncia.

Sem avistá-la, tínhamos traçado um conhecimento íntimo. Sem poder vê-la, tinha os indícios das suas curvas, o timbre da sua voz, o toque da sua pele. Ela. Escrita.

Não havia corpo antes, pensava agora, na dispersão dessa leitura/cópia/escrita. Não há programa de corpo para recebê-la. Apenas corpo sendo escrito na queima de um instante feito partida. Partia, então. Nesse conhecimento. Nesse consentimento.

Queria dizer-lhe nos olhos esse amor. Essa partida. Queria entregar-lhe, por escrito, o corpo dessa lágrima. Mas, sem avistá-la, partia com o texto, seguindo o espaço vazio aberto logo à frente.

 

E, como se não voltasse mais a vê-la, desejando conhecê-la de tão perto,   tocá-la no corpo, nesse corpo, a mulher, feito corpo em poema, sonhava.

E a voz, uma única voz, respondia: você já a conhece.

Eis o nosso único encontro, o nosso silêncio feito escrita, o nosso corpo,                           discretamente, tornado sonho.

 

Janaina de Paula

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s