Por que amo Llansol

Amor o nome disso que escreve

Primeiro, havia o desamparo. O desamparo e a resistência de uma frase: “Tudo é tão ligeiro que cairá sem se ver”[1]. Assim, como letras que caem levemente em um lugar preciso, comecei a ler a obra desta tão rara escritora, Maria Gabriela Llansol. Justa, essa resistência foi, para mim, porta de entrada em seu texto. Foi a primeira possibilidade de me apoiar na raiz de sua literalidade. Foi o meu primeiro lugar de leitura em seu texto.

Depois do desamparo, uma espécie intensa de amor, em que texto e vida se fundiram, criaram corpo. Essa vertigem em que, quase cego, abismava-me de palavra em palavra. Percebia, algumas vezes, uma “ferida insanável no rigor inviolável da palavra”[2]. Talvez a frase que rosnava, sem remédio. A minha frase, talvez. Passar a voz ao papel passou a ser um modo de estar vivo, de ser um legente dessa obra. Escrever no amparo de um texto principalmente tangível ao corpo, aos afetos. Hoje, ainda não encontrei palavras melhores para dizer disso. Da palavra, de sua cura, do amor. Por isso, aqui repito, de cor, palavras de Llansol, que agora me ocorrem:

O amor tem dosagem.

Principia por ser um líquido escuro numa farmacopéia

Abandonada. Espesso, espera ser dividido em porções

Mais líquidas, que o transformem numa poção de cura

Homeopática. Um prazer curado que regressa

À fulgurância. Não desejo rapto

Mas santidade[3]

Creio mesmo ser somente a resistência das letras capaz de suportar um corpo, ao contê-lo. Creio ser a dosagem certa das palavras o que faz respirar e passar adiante o que de um corpo na palavra vive.

E porque “Quem se cura, não conta, é uma narrativa pobre, um chão quase seco, um olhar em toda a parte”[4], talvez seja pobre a minha pequena narrativa ao lado do texto de Llansol, mas não o afeto que me liga a essa escritora e sua obra.

Pouco a pouco, tombei levemente as minhas nas palavras de um texto para sempre íntimo, estrangeiro. Amor o nome disso que escreve.

Erick Gontijocosta

 


[1] LLANSOL, Maria Gabriela. Hölder, de Hölderlin. Sintra: Colares Editora, 1993, p. 10.

[2] LLANSOL, Maria Gabriela. O começo de um livro é precioso.  Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, p. 342.

[3] Idem, p. 175.

[4] Idem, p. 112-113.

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