Por que amo Llansol

por Janaina de Paula Costa

“Eu não tenho tesouros, só incumbências”.

Incumbida da tarefa deste pequeno texto, não renuncio e sou invadida pela pergunta:

“Quem precisa que um ramo entre na sua vida?”

Naquele verão, trocara o buquê pelo ramo – o ramo lilás, carregado por uma pequena comunidade, em torno da escrita de Maria Gabriela Llansol. Há pouco, conhecera aquele texto. As marcas, os sulcos, lituras, traços, os espaços, vazios, sua voz. Não conheci Gabriela, mas seu corpo estava ali diante dos meus olhos, a suportar o poema.

Do ramo, um novo rumo.

“Um ramo à janela que abre, em simultâneo, para o quarto e a cozinha, é uma imagem guardada que se move e me comove, sem precisar de ter sentido.”

Encontro com o texto, com o balbucio das palavras de amor, amigo e amiga, o curso – disciplina do silêncio. “Ler era repleto de silêncio e da fascinação dos sons.”

Legente, seguia o trabalho. “Nenhum desassossego diminui, mas eu não estarei inquieta pela manhã.”

Por vezes, também mulher “salpicada de lágrimas”, me dei noites a fio aos sons pulsantes do seu texto.

“Os espaços de silêncio sucumbem velozes, e, por isso, limitava-se a dizer

amo-te”

Amo-te, Maria Gabriela Llansol, pela intensidade com que me lançastes no desejo da escrita. No jardim que a ausência e o pensamento permitem…

Ah, “o enigma de não ser inteira,

pensou a mulher que enfornava doces na noite obscura.”

Do ramo, ao rumo, ao novo amor. Salto-poema.

“À distância a que se encontra a mulher de outrora da mulher da noite obscura. Na esquina de uma rua, a vender doces de solidão (…) – se dará um salto instantâneo dos doces de solidão para a liberdade de gostar de doces.”

Confesso que, a princípio, temi o texto. A entrada não se dá sem riscos. Mas aprendera com Clarice que tudo começou com um sim, uma molécula de sim. Cheirava a tempo de morangos. E deixei Gabi entrar.

 A luminosidade furta-cor da janela do quarto permite a travessia infinita dos raios da letra llansoliana. O vidro transparente serve de pouso para as borboletas. Por onde passo com o texto, elas me acompanham – são muitas: coloridas, “amar-elas”, em vôo, pouso, vivas ou mortas.

“À entrada do apartamento, encontrei uma borboleta morta. A morte sobre as borboletas não lhes dá o aspecto de cadáveres – são sempre a cor e o desenho que sobressaem. Cor e desenho – não massa amorfa.”

Borboletras no infinito do azul.

“As porções de pedra quebrada da vida têm por projecto deixar de ser saudade. Não se cresce através de narrativas inverossímeis (que nem parecem verdadeiras), neste real onde o amor se abrasa, ou esquece, ou se extingue como tecido rasgado.”

Menina, com meus pés alados de mulher, deixo-me invadir pelo luar libidinal e procuro a renda, no lugar do tecido esgarçado. A máquina de costura e os botões cobertos compõem a blusa de manga longa que vai bem com o xale. Tento imaginar como seria sua longa trança. E o sabor da sopa de urtiga. A delicada louça. Melissa. E a penteadeira como móvel de cozinha. Bela paisagem.

“___________________ partiu. Teria sido uma indelicadeza da mulher detê-lo com a pergunta: __ Onde vais?”

Detenho-me, então, à restante pergunta:

“____________ que posso eu dizer-vos que não quebre a incomunicabilidade das palavras de amor?”

Por agora, digo obrigada. Obrigada Llansol, por devolver o “sol a quem lê”.

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