Por que amo Llansol

por Carlos Batista

Porque amo Maria Gabriela Llansol, estive ouvindo Arnaldo Antunes, “Que me continua”, e deixei o som mais alto e andava até o jardim onde via que o arbusto dos gatos foi podado por um jardineiro que deveria ter certa delegação do síndico para isso – e comecei a entrever uma forma de potestas, se potestas pudesse ser aqui entendido como aquilo que se está autorizado a fazer socialmente. E essa figura do direito romano, que faz par com auctoritas, pensava ouvindo, inclusive uma buzina de vendedor de algodão-doce que entrava no ritmo da música, que essa, aliás essas figuras não conviriam ao legente, pelo menos ao legente que dê ouvidos às palavras de legente do José Augusto Mourão: “Sabe-se que se é legente quando o júbilo de existir e o ler se tocam.” Penso então que tais figuras remeteriam a palavras de ordem, a letras de câmbio, a uma língua imposta, língua presa que fomenta a impostura.  Nessa impostura, diria, nessa impostura reativa, pois reage ao crescimento, reage à expansão dos ramos, penso, não há vis existendi, não há potentia agendi. Essa língua com impostura não convém a que o legente a continue, se o legente estiver em busca de leitura desejante.

Porque amo Maria Gabriela Llansol, pergunto: que figuras continuar? Que figuras continuar a ler no litoral do mundo, entre o espaço edénico e o político, os quais não se confundem? Que figuras continuam a leitura enquanto sopro de vida, pelo princípio de Espinosa?

Recorda-me que é o “como” e não o “porquê” que mais interessaria, em seu amor a Barthes, a Allain Robbe-Grillet.

Recorda-me,

 “_________ que posso eu dizer-vos que não quebre a incomunicabilidade das palavras de amor?”

Como amo Maria Gabriela Llansol? Como as coisas acontecem quando o texto______?

Como amo Maria Gabriela Llansol?

Ela que me conte nua, quando pisar delicadamente em seu seio, seio “que ninguém pode dominar ou destruir, nem eliminar por crueldade, ou cobiça”, à procura de sua emoção, que ela me morda o pé, sua retribuição de escritora viva, para que eu saiba que quem lê sabe.

Referências:

ANTUNES, Arnaldo. Que me continua. In: ANTUNES, Arnaldo. DIABATÉ, Toumani. SCANDURRA, Edgard. A curva da cintura. São Paulo: Rosa Celeste, 2011. CD

LLANSOL, Maria Gabriela. O sonhode quetemos a linguagem. Colóquio/Letras. Lisboa, n. 143/144, p.7-18, janeiro-junho, 1997.

LLANSOL, Maria Gabriela. Onde Vais, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio d’Água, 2000.

LLANSOL, Maria Gabriela. Um beijo dado mais tarde. Lisboa: Rolim, 1990.

LLANSOL, Maria Gabriela. Um Falcão no Punho. Diário I. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011.

LLANSOL, Maria Gabriela. Entrevistas. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011.

MOURÃO, José Augusto. O Fulgor é Móvel. Em torno da obra de Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Roma Editora, 2004.

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