O devir poético do amor: margens de silêncio e escrita em Maria Gabriela Llansol

No último dia de maio deste ano de 2012, ocorreu, na Faculdade de Letras da UFMG, mais uma defesa de dissertação sobre a obra de Maria Gabriela Llansol. Às 10 da manhã, sob o céu azul do outono, estendeu-se a toalha branca com flores e frutas. E ali, com Fernanda Gontijo, brindamos a alegria do amor sive legens.
Postamos aqui o texto de apresentação da dissertação,  de Fernanga Gontijo, o texto de uma das professoras da banca, Vania Baeta, e o texto da orientadora, Lucia Castello Branco. Maria Inês de Almeida, outra das professoras da banca, não levou um texto escrito, mas a pujança de um comentário tecido em viva voz.


De uma ex-periência legente


                                                                        por Fernanda Gontijo



Encontro-me, aqui, hoje, no “novo”. Encontro-me, nesta manhã de outono, quinta-feira, mês de maio, diante de uma experiência que, embora almejada, embora profundamente desejada, e com amor, apresenta-se, a mim, neste momento, como inusitada, desconhecida. Sim, o que se seguirá é um novo encontro. Um encontro inesperado, diverso, com a legência daqueles que acolheram o texto sobre o qual trabalhei nos últimos meses, ou, a bem dizer, nos últimos anos, se contados forem os outros textos que, já antes, convergiam para esse, mais denso, que se configurou. Refiro-me à delicada, porque rigorosa e experiente leitura que vem, agora, se acrescentar a esse texto que passou por mim. Leitura que eu também acolho, com alegria, por saber estarmos todos, aqui, em um gesto de partilha do conhecimento, este bem da terra que Maria Gabriela Llansol veio, em nós, mobilizar. É no gesto dessa partilha, portanto, difícil e necessária partilha, que, acredito, continuará o texto a seguir o seu caminho, a se escrever.

Então, será preciso dizer que esse texto que hoje reúne aqui legentes abriu-se, em meu percurso, suavemente, e pouco a pouco, assim como ocorre às formas de amor que amadurecem na persistência dos gestos simples e intensos do cotidiano. Pois eram restos de leitura, restos de escrita, que eu colhia a cada dia, que eu cosia, que eu a-prendia, na constante iniciação de escrever, iniciação que eu não ousei recusar. Posso dizer que essa experiência significou o entendimento do que é amplificar pouco a pouco por meio da escrita, o entendimento daquilo que o texto mobiliza em seu interior, em seu exterior, quando se oferece ao corpo e ao pensamento de quem se vê, inesperadamente, ainda que com alguma espera, a caminho, no caminho de escrever. Eis uma experiência que não se é possível relatar, mas apenas percorrer. Aprendizagem única, ímpar, que o contato com o texto de Llansol, e a escrita sobre um tal texto, com um tal texto, fizeram saber.

Portanto, não pretendo aqui relatar cada um dos passos de uma experiência, mas apenas dizer que esta percorreu o seu destino de corpo, de linguagem, sua travessia. Ida de uma margem à outra, até aquela terceira instância que se desenha invisível, mantendo-se aberta ao conhecimento do amor, como ensinou Llansol. Terceira margem que pode levar a uma quarta ou quinta instância de notação, de anotação, como acabou ocorrendo no decurso desse texto e de suas pausas de silêncio.

A emergência do amor, então, na abordagem desse trabalho, na instância mesmo do título, teve, no movimento de pausada ampliação do texto, sua origem, o seu modo de existir. O amor que acabei por tomar como a própria expansão criadora do devir do texto: o seu dom. Sim, porque, acredito, o amor escreve. Eis o seu movimento secreto, sua experiência poemática, que avança, pela escrita, para além daquilo que não se pode ver, nem de antemão saber.

Foi assim que essa travessia se deu a partir da leitura do livro Amigo e Amiga: curso de silêncio de 2004, de Maria Gabriela Llansol. Livro sobre o qual, inicialmente, me debrucei para tecer algumas reflexões voltadas, principalmente, à questão da ausência que, no livro, se conjuga ao amor. O amor de uma rapariga por seu “amigo”, seu afectuante nômade que veio dizer, em 2004, do mistério do desaparecimento para aquela que, sem cessar, manteve o seu punho falcoeiro em constante trabalho de escrita. 

É certo que a experiência de escrever sobre um livro de tal intensidade, de tamanha densidade, embora predominantemente envolto em ar de verdadeira leveza, como o é Amigo e Amiga, evocou-me deslocamentos imprevisíveis no decorrer do texto. Deslocamentos que eu não evitei, nem o poderia. Pois o que ali estava em jogo, para mim, já naquele momento, era acompanhar e ser fiel ao movimento de um texto que me ensinava a jogar o jogo da liberdade da alma, jogo este que eu, sem lhe opor resistência, aprendia com Llansol. Assim, “da morte ao vivo”, proposta inicial para a elaboração de um trabalho a partir do referido livro de Llansol, ou, posteriormente, “o devir como simultaneidade, em três movimentos de silêncio” sobre o mesmo livro, houve uma ondulação para o amor e sua “amorte”, aquilo que, desses dois significantes – o amor, a morte –, resgata o amor em sua operação de poema.

A respeito da proposta inicial deste trabalho, transmutada em outra, e depois ainda em outra, eu poderia dizer, reportando-me ao que escreve Llansol em seu último livro publicado em vida, Os cantores de leitura, livro cujo título inicial seria O livro dos afectos, que uma das actividades mais misteriosas da escrita é […] dar nome a um texto, vê-lo mudar de nome, e / guardar secreto esse nome. Nas palavras de Llansol, o título O livro dos afectos, apesar de mais fraco [em relação a Os cantores de leitura], diz exactamente o que se passa nessa distância sobreposta.

Creio que algo semelhante ao que descreve Llansol se deu em relação à metamorfose ocorrida de um a outro título da dissertação, de um a outro percurso encontrado para o texto que eu escrevia, já que os primeiros títulos, e o seu intuito secreto, ali permaneceram. E, assim, o que do “vivo” se deu, o que do movimento silencioso ocorreu, no curso do texto, foi a emergência do amor, este nome que, já oculto no que eu pensava escrever, com sua impulsão de ir além, mais além, revelou-se no gesto da escrita, em seu “dar o que não tem”.

Por isso, penso que tal mudança de direção foi mesmo da ordem de uma ampliação, de uma expansão, já que o título que eu pretendia dedicar ao primeiro capítulo – “O devir poético do amor” –, ao situar o discurso amoroso em Amigo e Amiga, acabou se tornando não só o nome do trabalho, como também a abordagem central do texto, e do conjunto de seus fragmentos. Fragmentário, então, esse texto, com sua pobreza inicial, essencial, pobreza que, fazendo-se recurso no caminho a percorrer, gerou amor. Este híbrido de escrita que acabou por conferir as suas margens silenciosas, invisíveis, ao texto, e ao que, nele, se discutiria.

A ideia das margens, portanto, que também acabou por se incluir nesse percurso, diz de certa demarcação que incide sobre o que se escreve no interior e no exterior de um texto. Espécie de litoral, de contorno, letra ou figura, que se borda, de forma fluida, na torrente da linguagem. Forma de localização, de delineamento do silêncio construído à volta de um texto, tal como o queria Llansol, ao afirmar que acreditava ser uma dádiva muito grande que se faz ao texto do outro, construir-lhe silêncio à volta. Penso que essa afirmação é a justa medida de um curso de silêncio da escrita, já que o texto llansoliano, assim como outros que se inscrevem no mesmo fio de fulgor, na mesma linhagem, procuram, pela prática da escrita, desfazer os nós do imaginário do texto, ao buscarem dizer, ainda que por formas distintas, de uma literatura que se apresenta, ao leitor, como potência, e longe dos mecanismos de poder. Texto, portanto, que procura no leitor real, e não no leitor abstrato, formas de comunicação afetiva e de conhecimento para além do figurino da inteligência. Eis, acredito, uma das práticas de silêncio do texto: dar abrigo à palavra que falta para dizer do outro da linguagem, do corpo que se põe a ler em sua singularidade legente.

Assim, ao dizer dos caminhos fragmentários de um trabalho de escrita que incide sobre os afetos, e que se dá mesmo por certo movimento de contenção afetiva – tal como se vai desenhando, gradativamente, no livro Amigo e Amiga –, as margens textuais, com o seu “limite fluido”, pareceram-me pertinentes às linhas do curso de silêncio que, no livro, se busca percorrer. Além disso, como sabemos, a palavra curso significa não somente transmissão, estudo, aprendizagem, mas também, o fluir de um rio: o “rio inesquecível” já presente, desde os primeiros livros, na Textualidade Llansol.

Então, criando um espaço de vida inscrito em margens que se amplificam no curso circular do texto – movimento do eterno retorno –, esse movimento não se confunde, contudo, com o que resta marginal nas bordas textuais, fixo em seus  limiares. Ao contrário, como afirma Llansol, ao destituir-se da literatura e passar para a margem da língua, o que esse texto faz saber é que, ainda nas palavras da autora, acolher os marginais nas margens, que estão sempre em perigo, e em lenta evolução à beira do rio, mar, correnteza d’água, foi ideia colhida no pano de rendas feito por Eulália. Ou seja, criar um espaço de vida que não seja marginal a nada, como o quer Llansol, supõe o deslocamento do discurso dominante, do discurso do poder, para o curso fragmentário da escrita, que se inscreve, paradoxalmente, sempre às margens dos códigos culturais vigentes, e de suas formas de representação. A escrita que se faz à margem da literatura é, por efeito, aquela capaz de, mais fortemente, torcer o funcionamento da língua até o íntimo, abalando formas de pensamento já estabelecidas culturalmente, buscando, dentro mesmo dos limites da linguagem, o seu mais além, a sua restante vida. Esse o impulso literário. Essa a anomalia poética, e a sua forma de exceder aquilo que se convenciona como verdade, ou como valor propagado em dada cultura; limites nos quais a arte, a poesia, acabam, irremediavelmente, se chocando. Sem, contudo, nesses limites permanecerem, o que o pensamento poético faz é forçar a ampliação, a abertura a outros reais, sem hierarquias nem rupturas, mas pouco a pouco, como o afirma Llansol. Intuito de um texto que não se quer paralisado pela impostura da língua, e que faz das bordas literárias, a sua abordagem, a sua bordadura, a sua letra-laço e devir.  Movimento de poesia nômade. Movimento de um curso amoroso e de seu modo peculiar de cantar o amor.

A propósito do canto, e da tênue bordadura que este é capaz de traçar no fluir do texto, outro ponto que destacamos, no decorrer da dissertação, foi a presença da musicalidade no fazer silencioso da escrita de Llansol. Pois que, segundo a autora, a música, esse amor interior que ainda não fala, imprime de muda beleza a linguagem textual. Os componentes musicais, instrumentos que, com maior ou menor intensidade, encontram-se sempre nos liames da escrita, revelam a potência capaz de expandir os elos afetivos de comunicação. Por isso, “cantar a leitura”, movimento em que a voz é ressaltada em sua singularidade, em sua afetividade, é uma das direções tomadas pelo texto de Llansol. Indo ao encontro da escuta do tom, do timbre da voz, o que o texto imerso em música favorece é a expansão dos afetos, da coexistência dos sentidos e dos fragmentos da linguagem, colocando em contato as formas mais prováveis e as mais imprevisíveis de existência, em uma mesma paisagem.

Por isso, a música, saber essencialmente composto por fragmentos, por notas que modelam, com maior liberdade, a construção de uma melodia, é convocada a um texto que trabalha, de forma tão contundente, a escuta: escuta da própria voz; escuta da voz das figuras que emergem do texto; escuta da voz-legente. Voz que não se estanca, contudo, em uma interpretação, ou em formas fixáveis de teorização. Ao contrário, o que a escuta musical propicia, com seu saber fluido e originalmente fragmentário, é a mobilização dos modos de dizer daqueles que se põem a ler, com o seu canto, os movimentos ruidosos de uma escrita.

Além disso, a dizer com Nietzsche, a música, como elemento de “legitimação do mundo como fenômeno estético”, ressalta o teor estético de percepção do mundo em detrimento das suas formas acostumadas de sentido. Essa é a sua força dionisíaca, segundo Nietzsche, já que, por abalar a ordem comum do mundo, convencionada culturalmente, substituindo, assim, os deuses míticos pelo deus fragmentado, Dioniso, o que a música visa, em última instância, é à “sobreimpressão” estética do mundo em relação aos modos estabelecidos do saber. Porém, o que, para Nietzsche, na música, identifica-se à arte trágica – já que, ao mesmo tempo em que desloca modos instituídos, cria alicerces catárticos na compreensão do mundo herdado dos gregos –, para Llansol corresponde à necessária “dissonância” e à mobilidade do pensamento e dos afetos, para se chegar a uma equivalência ética e estética na destrinça das várias estéticas do mundo, o que só poderá significar uma possibilidade de alegria, de potencialização do pensamento do amor.

Por fim, todas essas considerações sobre a linguagem musical, que se encontra fortemente difundida no texto de Llansol, fizeram-se presentes na abordagem da dissertação, desde a aproximação entre o livro Amigo e Amiga e o Cântico dos cânticos, ou entre o mesmo livro e as cantigas galego-portuguesas, quanto na estruturação do próprio trabalho, que acabou construindo-se por “notas”, tópicos, ou, fragmentos de escrita, que foram se moldando, pouco a pouco, à medida do próprio escrever. Notas que, dessa forma, emergiram no compasso dado pelo texto, cujo ritmo marcava-se ao fazer do movimento melódico; movimento que, já antes, implícito no texto, eu acabei por permitir, por minha conta, risco e alegria, que, a certa altura, transparecesse na elaboração do trabalho. 

Penso que esse foi um dos efeitos de se abordar os fragmentos de um “dis-curso” amoroso, tal como ocorre em Amigo e Amiga. A música, amor interior, acabou se tornando, para mim, um elo entre o que eu abordaria sobre a escrita de Llansol e o próprio texto que eu escrevia, como forma de trazer a instância musical, fortemente tocada no texto de Llansol, ao estatuto de palavra, dando-lhe um curso. Aprendizagem que adveio, não tenho dúvida, dentre outras circunstâncias, do contato com o texto dessa escritora portuguesa, cujo pensamento está, constantemente (e ainda), a alargar-se. Creio, porém, que, como “resto” de uma operação, as referências musicais, por vezes, se salientaram na estruturação do trabalho, o que, de forma aparentemente deslocada, foi coerente com o que se passou nessa travessia, em minha experiência legente, e, de alguma forma, também, nesta experiência textuante.

Vejo que, entre o silêncio e a musicalidade que o texto de Llansol convoca – silêncio que não é da ordem da escassez de palavras, mas, ao contrário, do “ato” singular da escrita, do acesso a esta instância de linguagem como forma de não-impostura –, o que adveio ao texto foi um rumor silencioso, pleno em suas pausas e ondulações melódicas, impelindo ao movimento, à metamorfose, e aos necessários desvios e encontros que o texto é capaz de suscitar. (E isso não é uma metáfora).

Sem mais palavras, e requisitando, agora, a quarta “pausa de silêncio”, aquela que ficou em suspenso na dissertação, digo apenas e, a posteriori, que, sim, o texto, alegria que me espera na linguagem, pegou-me na mão para outro lugar. Este, aqui.

 

 

       Belo Horizonte, 31 de maio de 2012.




O TRABALHO COM AS LETRAS E SEU LUTO AZUL

Tomo seu ramo, Fernanda, um ramo deveras composto com rigor. Digo deveras, palavra um pouco desusada, porque ela traz, em sua nuvem semântica, a verdade: de verdade. A escrita como busca de verdade.

Tomo seu ramo, porque brincando com as letras, anagramaticamente, encontramos, no ramo, a palavra amor: o amor em flor – a flor de seu desejo, diria. E como não respeitar o não recuar diante do desejo, de seu desejo, se isso é uma atitude ética, na radicalidade do que isso pode sustentar? E este trabalho, “o trabalho com as letras e seu luto azul, vem demonstrar” (cito a p.115 de sua dissertação).

Tomo seu ramo e faço o trabalho com as letras, as letras vão rolar do próprio nome, então: amor. Ao pé da letra, tomo o R de rigor. Encontro-o no curso, no percurso de sua leitura silenciosa à volta de Amigo e amiga, `a ronda…

O A, de Amizade, amicícia, é tomado, em sua leitura, desde o diálogo desse livro de Maria Gabriela Llansol com suas fontes: seja o Cântico dos cânticos de Salomão, seja as cantigas d´amigo da tradição medieval galego-portuguesa. Fontes de alegria neste caso, e não “fontes e influências”, noção revirada (saturada?) no campo da Literatura Comparada?

Assim enceto uma questão, definindo, porém, que não desejo uma argüição, cujo tributo ainda a academia paga ao poder do saber ou modelo medieval (penso que, talvez, degenerado), mas se trata, simples e alegremente, de perpetuar uma conversa infinita – tal como você a escolhe no campo da leitura, um jardim que o pensamento permite. A questão seria: como pensar essas noções tradicionais da Literatura Comparada – a de “fontes e influências” – a partir do texto de Maria Gabriela Llansol? O texto llansoliano “colocaria em xeque” “o estatuto conferido a essas noções da literatura na contemporaneidade” (p.11)? Como? Trata-se aí de tocar em uma ética da leitura? Tocar como se toca uma partitura?

Porque essas noções implicam questões políticas e éticas; implicam questões de herança, de direito e de poder; implicam o poder da leitura, da literatura e da morte; implicam questões de sobrevivência, pervivência, tradição, tradução e traição; implicam questões de apropriação, espoliação, ampliação, negação, preservação; enfim, implicam o inesquecível. Enceto, assim, minha primeira questão como semente colhida de seu ramo: o amor ou leitura. Amor sive legens.

Quando lá no fim, na página 134, leio “re-citar” e “ressus-citação”, salta a meus olhos a palavra citação. Citação dos cantares. E pergunto: qual é o acorde perfeito para essa fuga, para esse leixa-pren ampliado na respiração universal dos textos? Por que pagar por isso? O que se prende, o que se deixa?

Trago nas mãos seu ramo, abro a janela de meu quarto e vejo a paisagem: o sexo da flor em sol. Há luz. Sei que ao ler, o não-saber deve operar em mim, para só assim fazer jus ao trabalho com as letras e seu luto azul.

Sim, direi, Amor sive legens para o entender. E “ler é ser chamado a um combate”. De que combate se trata aí? Como ler esse combate? O Cântico dos cânticos aparece também (citado mesmo) no Ardente texto Joshua. Ele faz parte do combate que se trava aí. Como ler esse combate? O combate de amor-leitura?

Tomo seu ramo e faço o trabalho com as letras. As letras vão rolar do próprio nome: amor. Ao pé da letra, tomo o O de ódio. Encontro-o no amódio (Lacan); encontro-o no percurso de um combate amoroso, à ronda de um duelo? Duelo, em espanhol, significa luto. O trabalho com as letras e seu luto azul? Luto, luta, leitura? Entravo aí mais uma questão, remetendo à página 39, onde se lê: “aproximação da morte e do amor, na estrutura do Cântico, algo da ordem de um ‘impacto da pulsão de morte sobre a evocação amorosa” [Kristeva].

Continuo no trabalho com as letras e seu luto azul. E perguntaria sobre uma articulação possível entre a “nota azul”, segundo Didier-Weill, e o luto azul llansoliano (ou em clave de luto azul llansoliano). Como pensar o azul?

No R, o ramo, sim, o rigor; no M, a morte, sim, o amor; no A, o anel, que encontra, no O, sua forma. Encontrei o anel no trabalho com as letras e seu luto azul, em seu texto, Fernanda, quando me dei conta, na leitura, que a figura da mulher-estere, definida como um metro cúbico de lenha (p.68), era a figura em chamas a experimentar em metamorfose ardente, que, de fato, o espantoso do amor é que não tem anel. Então, subitamente, a lenha me apareceu (outra vez anagramaticamente e brincando com as letras roladas do nome) como o anel (anel-lenha), habitado, no meio, por uma letra muda ou uma letra soprada: Ruah, h.

estere, uma mutação da mulher que não queria ter filhos de seu ventre, aquela que tinha uma maneira distante de fazer amor – pelos olhos e pela palavra? estere, agora, em chama ardente, um metro cúbico de lenha. A lenha, anel ao avesso com um sopro dentro, ou uma letra muda, h, arde no texto.

O mudo, sabemos, foi uma das traduções que Maria Gabriela Llansol utilizou para designar Deus ou Jesus, em O alto voo da cotovia, o livro de poemas de Teresa de Lisieux, aquela que anelava, que desejava ardentemente. E estere também arde, lemos na p. 65 de sua dissertação, e entrega-nos um fragmento de ensino.

Tomo, agora, de seu ramo, o trabalho com o fragmento, a maneira como você, Fernanda, anela os fragmentos em seu percurso de leitura e trabalho com as letras. À medida que eu ia desfolhando seu modo de anelar os fragmentos, de apurar a forma fragmentária da escrita, de tocar no alcance e nas possibilidades de uma estruturação assim dada; à medida que fui acompanhando os autores convocados para pensar essa forma, cada vez mais, eu pensava: sim, é isso! O silêncio se alargava e a alegria chegava. Chegava com audácia: uma poalha de dissonâncias luminantes que sustentam a estética da pobreza (MGL, p.81). Chegava com amor, o amor de transferência, lançado ao espaço: espaço literário, espaço edênico.

Vagamundos, a vagueação do fragmento, o devir da música, da fuga, foi o que fragmentou e partiu, repartiu seu Sumário? A contaminação da forma fragmentária? A partitura? Tua razão de partir não foi o amor?

Eu sabia, e ainda sei, que o fulgor tocou, ardeu sua chama em escrita de Fernanda.

                                                                                          Vania Baeta

Querida Fernanda,

            Eis-nos, afinal, em outro lugar. Este, aqui. E porque nos encontramos hoje, aqui, fui de novo ao encontro da causa amante, esta que há exatos vinte anos tem me movido e sempre, de novo,  me comove. Fui atrás do livro Causa Amante, um dos primeiros que li, de Llansol, e dei-me conta de que sua segunda edição, aquela com o belíssimo posfácio de Augusto Joaquim, havia desaparecido. Passei a noite em claro, na internet, tentando localizar um novo exemplar (raríssimo, ao que parece), na cidade do Porto. E por ele espero, até hoje.

            Só depois, um pouco mais conformada, busquei a primeira edição. Lá estava, para minha surpresa, não a primeira, mas a segunda dedicatória que recebi de Maria Gabriela Llansol:  “Para a Lúcia Castelo-Branco, no inicio de uma amizade, MGab Llansol. Praia Grande, 21 set92.”E, então, de novo me surpreendo, não apenas com os vinte anos que se passaram, mas com o fato de Maria Gabriela Llansol já saber, na ocasião, do tempo que se passaria. O início estava ali ____ o começo precioso. E está ainda, hoje, aqui.

            Leio, na abertura de Causa Amante:

 Passo I

Aqui

Estou coberta pelo nascimento de Ana de Peñalosa e a neve, que ia fundir-se, voltou a cair; meu corpo está molhado e meu espírito emerso em névoa.  Preocupo-me com o espaço nevado do jardim, e seus habitantes —- os melros, à procura de sobras e sementes, os gatos, Jade, Olo, as três galinhas. Tenho, por vezes, com os donos das lojas, conversas amistosas que me circundam durante o dia. O empregado do banco, cujo trabalho nestes dias de ruas alagadas pelo degelo, pergunta-me se não foi difícil; há nele um humor acolhedor e uniforme. A neve é, nestes dias, a verdadeira claridade da natureza e, de regresso, a nossa casa coberta de branco parece-me enorme; tenho um sobressalto no que foi um jardim e vejo, à transparência, como o meu dia-a-dia e o nascimento de Ana de Peñalosa estão ligados; ligados a mim mesma, como se a estrutura dos arbustos e os relevos que sustentam a neve fossem o meu diário, e a neve total que os cobre, os meus livros, desde o livro das comunidades. (P.11)

            Já aí, nessa abertura de um livro escrito em 1980, Maria Gabriela Llansol anunciava que o nascimento de suas figuras estava ligado a seu dia-a-dia, e não à história dos Príncipes, e que as coisas que faziam parte desse dia-a-dia – os melros, as sementes, os gatos, as galinhas – eram tão importantes quanto a neve, a casa coberta de branco, o livro. Já ai, nessa abertura de um livro que, não por acaso, se intitula Causa Amante, sabemos que a causa e as coisas fazem uma coisa só – apenas uma coisa sozinha – nesse mundo figural.

            Tudo isso, que é tão pouco e no entanto é tudo, ocorre-me agora, aqui, quando encerro a leitura do texto de apresentação da sua dissertação de mestrado, que se fecha com as palavras: “este, aqui”. E então leio, antes ainda do “Passo I”  de Causa Amante:

                                                           Aqui

                                                         É Tudo,

                                                           Nada

                                           Entre Tudo e Nada.

                                                      Movimento

                                                            Gosto

                                                                  E

                                                            Quando

                                                                Mais

                                                                Fim, 

                                           Causa Amante (p. 7)

            A Causa, esta que aparentemente deve estar antes, aparece, aqui, depois do fim. E move. Como a sua música, o seu canto, Fernanda, que sempre esteve lá, desde o início, mas que talvez tenha se mostrado com toda a sua força, com toda a sua potência, depois do fim. Chegaremos a ele.

            Antes, temos que passar pelo início. Quando Fernanda começou – isso já faz quanto tempo? – o seu desejo era trabalhar a relação entre a literatura e a morte, a partir do texto “A literatura e o direito à morte”, de Blanchot. Este era o tema inicial de sua monografia de final de curso de graduação. Mas, ao que parece, o texto de Llansol atravessou o seu caminho, o seu caminho em direção à literatura e seu direito à morte. E trouxe-lhe a máxima “Não há literatura”, e trouxe-lhe o vivo.

            Depois, um pouco mais tarde, já no percurso do mestrado, o amor, ao lado do vivo que atravessou a morte – o amor que escreve, em Amigo e Amiga – também se impôs. E, ao lado desse amor, a disciplina de um curso de silêncio.

            Talvez por causa do amor, ou por causa do curso de silêncio, minha orientação com você tenha sido tão silenciosa – ela sempre se deu por escrito. E, talvez por causa da disciplina desse curso de silêncio, você tenha se comportado sempre de maneira tão obediente. Sim, porque a Fernanda, no decorrer do curso, sempre escutou, atentamente, todas as sugestões, todas as recomendações, sempre acatou, sem discutir, as “correções” a seu texto. Chegou mesmo a concordar com um corte radical, que lhe sugeri, transformando um capítulo em dois e propondo-lhe um terceiro – em lugar de mais dois, que ela previa – para que um outro canto se pudesse ouvir: o dos cantores de leitura, com seu amor sive legens.

            Não me lembro mais, Fernanda, do que era previsto inicialmente para os capítulos 3 e 4. Lembro-me, apenas, de ter-lhe dito: “deixe isso para depois”. E de ter lhe sugerido que sua dissertação não era apenas sobre o amor, mas também sobre o canto. E de ter me surpreendido com a facilidade com que você recebeu essa sugestão e “mudou de rumo”.

            Se eu tivesse relido o capítulo que eu mesma lhe sugeri, de Julia Kristeva, o capítulo sobre o Cântico dos Cânticos, talvez tivesse percebido que a estrutura, também aqui na sua dissertação, é a da fuga. E que ela se sustenta por dois elementos que se conjugam: infinito e repetição. Mas esses dois elementos, como o par de amantes do Cântico, são “amantes não fusionais”, “apaixonados pela ausência um do outro”.

            Tudo isso, Fernanda, eu só pude ver no seu texto pelo que dele me escapou, nos escapou: o sumário. Pois o sumário desta dissertação, que se escreve como uma partitura, partiu, de outra maneira, toda a estrutura da dissertação. E então as três margens de silêncio e escrita se tranformaram em fragmentos de uma partitura nem um pouco obediente, nem um pouco comportada, como se as páginas do livro se soltassem e se pusessem a cantar. Assim:

“como é possível que eu não tenha ainda compreendido quem éramos todos verdadeiramente na morte? mas também um dia eles, os livros, não serão a nossa imagem mas as faces apreensivas dos que nos procuram       a ninfa ali deitada apunhalou o livro, e o livro, num rasgo de vontade, registou o facto; a ninfa ali deitada espezinhou o livro, e o livro, num rasgo de sensibilidade, guardou os passos mal dados; a ninfa, ali deitada, queimou o livro, e o livro, num rasgo de inteligência, espalhou-se no ar.” (Causa Amante, p. 85)

            Querida Fernanda, neste momento de “grande mal-estar na Comunidade”, como se lê à página 20 de Causa Amante – “Eu previa, para o futuro, um grande mal-estar na Comunidade” —, neste momento em que, quase esquecidos da causa amante, deixamo-nos mover/comover pela causa amarga da herança do espólio de Maria Gabriela Llansol, neste momento em que uma leitura colonizadora de seus textos pretende reterritorializá-los, buscando acomoda-los à história dos Príncipes e à tradição melancólica, creio que não é pouca coisa esse movimento que o seu texto fez, ao permitir que a partitura partisse o texto aos pedaços, como que a nos dizer, com Llansol, que o que ali se escreve é uma só narrativa, que se vai partindo aos pedaços. E então, Fernanda, depois dessa sua travessia da morte ao vivo, do livro à partitura, “da cópia, ao canto”, só me resta  parabenizá-la, deixando-lhe, na “quarta pausa de silêncio”, com a questão: “Diz-me _____, a tua razão de partir não foi o amor?”

                                                                    

                                                                             Lucia Castello Branco

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