Entre dobras e depois



Sob chuva

a quarta-feira dobrou-se

sobre o sábado

sob chuva

a quarta-feira é o

sinal sobre a mesa

entre papéis dobrados e depois

de os pregos na erva

a quarta-feira não foi ontem

não foi antes

setembro não foi

não foi nada

dobrou-se sob teu olhar

sobre o ar

sobre a máquina de escrever

sobre a mesa

ao tempo em que o céu pousa

o céu pousa em tua página

li

sobre a nuca

no espaço da margem esquerda

em branco

branca quarta-feira terna

talha hoje no frio

por que ama?

por que escreve?

é que ela

custava a empurrar os pulsos

e não fugia como os outros

custava a alcançar os pulsos

o punho 

o falcão

a língua

a pena

a caixa de penas na feira de Paris

o ar

sem impostura

a quarta-feira

os dois passos

no mínimo

até o livro

custava a desdobrar as mãos

e não amava como os outros

no fundo

se assemelhava a sua própria dobra

no traçado da chuva

sobre o sábado

                               Cinara de Araújo.

                Canela, quarta-feira de junho de 2012.

(Para a série por que amo Maria Gabriela Llansol – com duas fotos e dois trechos: “Chove torrencialmente no texto” e “Voltei, portanto, aqui, ao local de trabalho que, não funcionando, sugere um duplo silêncio, um silêncio dobrado como dobradas são certas dores densas”)
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