Por que amo Llansol

                                                                                       por Fredericoamoz

Há o corpo e não há respostas – não podem estar juntos pelo mesmo espaço – uma pergunta só pode dar luz a outras e é isto que nos propomos a fazer: dar continuidade a esta filia.

Eu conheci o texto, em outras palavras, eu conheci a maternidade, através da textualidade de um corpo – a alegria de uma prática, de um curso infinito: eu realizei a falta, o espaço, a luz que atravessa o jardim até o papel sobre a mesa, iluminando o risco invisível e interminável da escrita – o risco de lágrimas que me suaviza o rosto, porque é efeito daquilo que o corpo expulsa (o corpo é nada mais do que uma tentativa, dentro de um decurso de tempo, de se expulsar de si mesmo).

Eu tenho a alegria de sentir o corte, a dor – o peso dessa escrita, que é o peso de cada momento a vir (é um peso não cumulativo – cada momento contém a matéria presente em todo este espaço futuro). Assim [as palavras de um livro].

 

A: escrever vai me matar ainda.

F: e que não seja de escrever,
que seja de amar.

A: é a mesma coisa.

 

Dessa forma, como escrever que se ama alguém? Não há nada mais difícil. A escrita não tem endereço, não é destinada a ninguém – é do além que se trata, segue em direção a um silêncio[o intratável da escrita]. A única saída (empiricamente impossível) seria um legente que lesse o texto ao mesmo tempo em que é escrito e a figura que mais se aproxima daqui é o próprio escrevente. Esse ínfimo instante é a casa da escrita. Sinto aqui o puro egoísmo pessoano: escrever a alguém é nada mais que escrever a si mesmo – estamos sempre a contar uns aos outros a loucura dessa prática.

Estou a ler Cantileno durante uma noite de silêncio e calma incomuns, na casa sem paisagem – é o começo de uma travessia que brota ao lado de uma certeza: a casa é sem pai____________ e, por essa travessia, imagens me acompanham, eu desejo paisagens que não conheço, mas que me penetram: o caminho a Sintra, a Praia das Maçãs, o Café Ramisco: eis aqui o colo materno do meu querer-escrever. O escrevente nada faz além de buscá-las

 

a paisagem é o limite da linguagem.

 

Cada palavra deste texto é uma confissão de amor à Mãe e uma tentativa infantil de atravessá-la. Em seu colo eu posso escrever ‘eu-te-amo’, sem o medo de uma resposta – posso atravessar o intratável silêncio

 

 

Eu me acostumei à falta, à solidão, às horas, ao sofrimento, à voz, ao cheiro, ao corpo, à dor. Só não me acostumei ao silêncio.

Ao amor? Bem, se acostumar ao amor é a causa de todo fim.

 

 

 

 


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