Por que amo Llansol

A textualidade que acolheu, no seio de uma cultura européia, o pensamento indígena.

                                por Maria Ines de Almeida, diretora do Centro Cultural UFMG

Se não fosse o exercício diário e constante de escrita dessa mulher dedicada a traçar uma outra geografia no mapa mundi, não teríamos chão para receber as sementes textuais do pensamento ecológico que os índios do Brasil anunciam.

Em plena Conferencia das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio +20, em junho de 2012, ouvimos a pergunta: como conciliar a maxima oswaldiana de que a alegria é a prova dos nove com a ideia de que o nosso mundo está em perigo? E nos lembramos da boa nova anunciada à natureza: o terceiro sexo é a paisagem. O mundo está sempre acabando, por isso a alegria é a prova dos nove. E quando o mundo codificado pelo homem acaba, começa o real da paisagem, o reino de gaia. A poesia, nós a  encontramos nesse limiar.

A textualidade llansol constituiu, desde que tivemos o prazer de iniciar o aprendizado de sua leitura, uma cintilação infindável que nos tem ajudado a ler também os textos indígenas.

Nesses textos, lansolianos e indígenas, podemos vislumbrar o sonho de que a vida é também a morte, e a vida é dos vivos que escutam o canto do pássaro sábio do povo Huni Kuin: shuku shukuê (a vida é para sempre)! O mulateiro, a cobra, a aranha, a lagarta, etc, algumas plantas e animais escutaram esse canto e se transformaram, não sentindo tanto o medo da morte. Os humanos estarão em condições de ouvir e aceitar o desaparecimento de seu mundo próprio em favor de novas formas? Esta é a pergunta que muitos fizemos na Rio+20.

Guardaremos a lembrança da mulher escritora e suas palavras porque são contemporâneas, tanto quanto a infindável cadeia de mitos que os povos indígenas nos fazem atualizar a cada vez que sentimos a ameaça de que um mundo vai se acabar. Ambos são fonte e manancial de uma sabedoria necessária para que a nossa sociedade se deixe regressar em direção a sua própria matriz – os afetos que ligam cada ser a sua própria natureza. 

Amo a escritura de Maria Gabriela Llansol a cada vez que um indígena me faz sentir a alegria de desaparecer em favor de um traço que irá compor o emaranhado de lianas e fulgurações do jardim divino que chamamos Terra. O texto dessa mulher traz para os legentes a potência de seguir vivendo através do dom poético, transmissão do que vibra em cada um: a voz própria e singular que nos faz existência graciosa.

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