“O texto alimenta-se de texto. Tem especial apetência por formas de texto poderosas, como os textos místicos, eróticos, proféticos”. 

Este fragmento, extraído do Ardente Texto Joshua, de Llansol, serve-nos aqui de pórtico para introduzirmos uma breve citação de Barthes, sobre o “texto ardente”:  “É legível o texto que eu não poderia reescrever (…); é escriptível o texto que leio com dificuldade, exceto se eu transferir completamente o meu regime de leitura. Imagino agora (certos textos que me são enviados o sugerem) que existe talvez uma terceira entidade textual: ao lado do legível e do escriptível, haveria qualquer coisa como o receptível. O receptível seria o ilegível que prende, o texto ardente, produzido continuamente fora de qualquer verossimilhança e cuja função – visivelmente assumida por seu escriptor – seria a de contestar o constrangimento mercantil do escrito; esse texto, guiado por um pensamento do impublicável, atrairia a seguinte resposta: não posso ler nem escrever o que você produz, mas eu o recebo, como um fogo, uma droga, uma desorganização enigmática.” (BARTHES, Roland. Roland Barhes por Roland Barthes. SP: Cultrix, 1975. P. 127: Legível, escriptível e mais além).

Talvez tenha sido com o espírito do “texto ardente” que os objetos de Janaína de Paula entraram, esta semana, na Cas´a´screver. Como “objetos ardentes”, eles foram pousando, ligeiramente, sobre o chão da casa, sobre as prateleiras, nas paredes, ao lado dos nossos objetos. E, com eles, chegou também o livro de Janaína – Tradução e Transposição no Campo da Pulsão de Morte —, que ontem foi lançado, durante uma fest´a´screver. Com prefácio de Vania Baeta e posfácio de Lucia Castello Branco, a dissertação em Estudos Psicanalíticos, defendida em 2008 na UFMG, chegou ao livro por uma operação do “texto ardente”: a transposição, como a definiu Mallarmé. 

E então, a festa que celebrava o lançamento do livro celebrava também a chegada de Janaína à Cas´a e a sua partida para Coimbra, em estágio de “doutorado sanduíche”, para trabalhar o texto ardente ao lado de Fernanda Bernardo, mas também ao lado de Mallarmé e Llansol. No delicado movimento da transposição que se opera na passagem do escriptível ao receptível, no texto de Janaína de Paula, o encontro de duas proposições que, aparentemente – apenas aparentemente – se opõem:

“Não há literatura. Quando se escreve, só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros”. (Llansol)

“Sim, que a literatura existe e, se quiserem, sozinha, à exceção de tudo”. (Mallarmé)

As imagens captadas por Silvério em 4 de agosto de 2012, na Cas´a´screver, testemunham que o dom poético e a alegria não faltaram ao festim.

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