Conversas com Llansol

Postamos esta semana, continuando nossa conversa infinita com Llansol, texto de Lucia Castello Branco acerca do espírito das roupas, que sempre habitou o texto de Llansol, em contraponto às roupas sem espírito, que se enfileiram no armário, depois que o amigo e a amizade se foram.

O espírito das roupas
e o equívoco das transparências

Imagem

Imagem do filme “Proposição 24”, de Gabriel Sanna e Lucia Castello Branco

Com Maria Gabriela Llansol aprendi, desde o início, que a limpidez não se confunde com a transparência, pois as transparências enganam. A limpidez a que Gabriela sempre se referiu tem a ver com seu trajeto inequívoco em direção a uma língua sem impostura. Sobre essa limpidez ela já declarava, em entrevista a mim concedida, em 1992: “Há vários níveis de escrita, mas este é muito específico e tem a ver com a limpidez.”
É o que me ocorre agora, quando visto as roupas de Gabriela que recebi como herança. Nada transparentes, suas roupas que hoje visto, quando sinto que preciso de proteção, evocam, em meu corpo, essa memória da limpidez: “Há um esforço para tornar límpidos o seu corpo, a sua maneira de viver, os seus dias, mesmo os sentimentos mais complexos e depois é que se pode escrever…”
E pergunto: “Quando é que se pode escrever, no entender daqueles que confundem a transparência com a limpidez?” Ou, ainda: “Quando é que se pode ler, no entender daqueles que confundem a legência com a hierarquia, o rigor com o academicismo e o sublime com o que um dia se alcança por desesperado esforço de sublimação?” “Ontem penhorei um casaco que remontava a meus dias de Liverpool, a fim de comprar papel para escrever”. Estas palavras de Marx, transcritas por Peter Stallybrass em seu magnífico O casaco de Marx, lembram-me que as roupas e a escrita, intimamente associadas, podem ser também signos de memória e dor.
Tudo isso me ocorre, enquanto arrumo o armário e ali encontro não só as roupas que foram de Gabriela, mas também aquelas que pertenceram a alguns amigos que perdi. Sobre o espírito das roupas já escrevi em outros textos e um deles — “Sarah entre os panos” – ainda me comove. Porque o corpo que vestia essas roupas já desapareceu, porque suas roupas já não cabem no meu corpo, hoje, e mesmo porque algumas dessas roupas já não habitam o meu armário. Mas o seu espírito – o espírito que um dia as animou – ainda está ali.
Mas há ainda outras roupas, aquelas que um dia me foram oferecidas por amigos, no gesto de acolhimento e reciprocidade de uma “troca verdadeira”. Essas roupas, ainda cuidadosamente enfileiradas, obrigam-me a perguntar: “O que fazer com elas, as roupas, quando o corpo do amigo já não cabe ali?” “O que fazer quando o amigo, que um dia as vestiu, delas se ausentou?” Como afirma Marcel Mauss, em O Dom, as coisas, como presentes, não são “coisas indiferentes”; elas têm “um nome, uma personalidade, um passado”. O que dizer, então, das roupas que já vestiram um amigo que não desapareceu deste mundo, mas que se ausentou de nós, do nosso mundo?
Há pouco tempo, nas águas mornas do recôncavo baiano, meu vestido branco quase foi levado pelos caprichos de Yemanjá. Quando o vi boiando nas águas, lembrei-me imediatamente do vestido florido que bóia nas águas do filme Redemoinho-Poema, que um dia fizemos para, com e por Llansol. Mas o vestido que Yemanjá queria era outro: o mesmo que uma amiga portuguesa desejou e um dia vestiu e que julguei que não devia ser seu. Em troca, que ela dizia ser verdadeira, deu-me o seu vestido transparente que então vesti, e me enganei.
Creio que Yemanjá, que é mãe e rainha do mar, já deve ter perdoado a filha distraída que não lhe deu o vestido branco. Mas a amiga portuguesa, esta nunca perdoou, nunca perdoará. Porque, já então, seu corpo não cabia bem no meu vestido, nem o meu no seu, como nunca, aliás, nossos corpos compuseram um com o outro. E, desde aquela época, e mesmo antes daquela época, já havíamos aprendido, com Llansol e Espinosa, que, quando um corpo compõe com outro corpo, dá-se o aumento da potência de agir e da força de existir. A essa força expandida dos corpos Espinosa chamou: alegria.
Estou certa de que a amizade – l´amitié, na língua de Maurice Blanchot – encerra, entre os corpos dos amigos, uma distância. Mas sei também que essa distância, na medida de Llansol, é a da “palma da mão”. Com a palma da mão que mede a distância da amizade, sustentamos os dedos que escrevem a limpidez, não a transparência. Pois a palma toca o corpo – corp´a´screver –, nunca a alma. E o corpo do amigo que já não cabe na roupa — não há mais como tocá-lo. Resta sua “alma penada” – escrita –, pairando num texto que nunca mais há de acessá-la. Restam as roupas no armário, rigorosamente enfileiradas, como uma triste memória do equívoco das transparências.

 

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