Conversas com Llansol

Para Melissa, gata e amiga de Llansol, a quem só restou, depois do desaparecimento de sua dona, “dormir e esperar”.

Gato num apartamento vazio

Morrer – isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato

num apartamento vazio.

Trepar pelas paredes.

Esfregar-se nos móveis.

Nada aqui parece mudado

e no entanto algo mudou.

Nada aqui parece mexido

e no entanto está diferente.

E à noite a lâmpada já não se acende.

 

Ouvem-se passos na escada

mas não são aqueles.

A mão que põe o peixe no pratinho

também já não é a mesma.

 

Algo aqui não começa

na hora costumeira.

Algo não acontece

como deve.

Alguém esteve aqui e esteve

e de repente desapareceu

e teima em não aparecer.

 

Cada armário foi vasculhado.

As prateleiras percorridas.

Explorações sobre o tapete nada mostraram.

Até uma regra foi quebrada

e os papéis remexidos.

Que mais se pode fazer.

Dormir e esperar.

 

Espera só ele voltar,

espera ele aparecer.

Vai aprender

que isso não se faz a um gato.

Para junto dele,

como quem não quer nada,

devagarinho,

sobre patas muito ofendidas.

E nada de pular miar no princípio.

 

(poema de Wislawa Szymborska, na tradução de Regina Prysbycien)

 

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