Monólogo com Llansol
ou
Conversa de Contos do mal errante em clave de Mal de arquivo

por Vania Baeta

Trago a impressão de tuas confidências envoltas, que, mais do que contos, contam teus desígnios e últimas vontades, segredo impossível de macular, testamento. Embora, como tal, não escape ao mal de arquivo: impossível escapar.

Dirias, rindo-te, que a expressão “monólogo com” é paradoxal, assim como Derrida o disse a respeito do “Monólogo com Freud” de Yerushalmi. Sim, confesso, é cópia. A cópia como aprendizado: a mão que segura a mão de uma criança, arriscando os primeiros passos de um caminho insuspeitado. Copio como quem desenha o feltro da noite, vestindo o azul. Não penso, mas quero. E isso desenha o traço, a lança da escrita, com fulgor, chama e justiça.

Assim, leio em teus Contos do mal errante: “Observavam, atentamente, a cena fulgor que ela expressaria nas suas últimas vontades. Havia rostos ardentes e, em primeiro plano, uma mulher de atitudes múltiplas reflectidas em todos os vidros e espelhos da casa, e a quem ela ofereceria o seu último véu. Tal multidão de rostos não era simples, pelo contrário, manifestava sentimentos de cobiça e ansiedade” (CME, 8)
Ressoa, em mim, o passo seguinte: “dir-se-ia que já a memória desta cena fulgor ficou, porque eu olho e já ouço o rumor longínquo do testemunho que hei-de dar, e do testamento que vos vou deixar; sem medo de nenhum de vós me aproximo, me afasto, colho um pormenor […], acompanho-vos com a minha voz; que próprio à manhã é a escrita; que próprio à tarde é o estudo; que próprio a algumas noites é o meu amor”. (CME, 46)

Aceito e sempre aceitei tua companhia, que eu por nada trocaria. A voz, o poema, o dom de uma cena fulgor, morada fora do imaginário geograficamente situado pelo poder do príncipe e seus princípios. É o que escapa e sempre há de escapar ao Monopólio. Tua polis e tua morada estão em outro lugar: a aporia. Tua riqueza, tua pobreza: Poros e Penia – o amor ímpar, a encetar, no coração da escrita, o há nem Um.
— “não desejava desenvolver-me em termos de países, mas de árvores com afinidades; parece-me errado que digam que sou portuguesa, como me parece uma falta que o não digam; eu prefiro para cada ser, uma detalhada descrição de atributos singulares, exactamente como se descreve uma cena fulgor” (CME, 99).

À tarde, no quarto de estudos, li: “Com Freud, sem Freud, às vezes contra Freud, Mal de arquivo evoca sem dúvida um sintoma, um sofrimento, uma paixão: o arquivo do mal; mas também aquilo que arruína, desvia ou destrói o princípio do arquivo, a saber, o mal radical. Levanta-se então infinita, fora de proporção, sempre em curso, em ‘mal de arquivo’, a espera sem horizonte acessível, a impaciência absoluta de um desejo de memória” (MA, 9).

 

De fato, “é um temor que nasce do conhecimento do bem e do mal, e que tem aumentado durante estes últimos dias, à medida que tomamos posse do poder do homem” (CME, 14).

 

“É como se Freud não conseguisse mais resistir à perversidade irredutível desta pulsão que ele nomeia […] pulsão de morte ou pulsão de agressão ou pulsão de destruição, como se estas três palavras fossem, nesse caso, sinônimas. Mais tarde, Freud dirá que esta pulsão com três nomes é muda (stumm). Ela trabalha, mas, uma vez que trabalha sempre em silêncio, não deixa nunca nenhum arquivo que lhe seja próprio. Ela destrói seu próprio arquivo antecipadamente, como se ali estivesse, na verdade, a motivação mesma de seu movimento mais característico. Ela trabalha para destruir o arquivo: com a condição de apagar mas também com vistas a apagar seus ‘próprios’ traços […] Ela devora seu arquivo, antes mesmo de tê-lo produzido externamente. Esta pulsão, portanto, parece não apenas anárquica, anarcôntica […]: a pulsão de morte é, acima de tudo, anarquívica, poderíamos dizer, arquiviolítica. Sempre foi, por vocação, silenciosa, destruidora do arquivo” (MA, 21).

“Salvo exceção. Mas o que seria a exceção neste caso?

Mesmo quando toma a forma de um desejo interior, a pulsão de anarquia escapa ainda à percepção, certamente, sem exceção: a menos, diz Freud, que ela se disfarce; a menos que ela se tinja, se maquie ou se pinte (gefärbt ist) de alguma cor erótica. Esta impressão de cor erógena desenha uma máscara sobre a própria pele. Dito de outra maneira, a pulsão arquiviolítica não está nunca pessoalmente presente nela mesma nem em seus efeitos. Ela não deixa nenhum monumento, não deixa como legado nenhum documento que lhe seja próprio. Não deixa como herança senão seu simulacro erótico, seu pseudônimo em pintura, seus ídolos sexuais, suas máscaras de sedução: belas impressões. […] Como memórias da morte” (MA, 21-22).

À noite, no quarto crescente do amor, li: “as ideias compõe-se-me atraídas pelo impulso da memória” (CME, 204). E, em seguida: “o amor consome e a primeira pergunta que faço pela manhã é dirigida ao mal” (CME, 63).
— “quem perguntou o que é o mal? quem suspeitou que o excluído pelo ciúme seria a pedra angular desta construção?
assim,                         número finito, número infinito,
                   marcava o ritmo da modulação carnal cuja proa irrompia da imagem de um barco, até adormecermos porque o poder se esvaía, ou as águas se acalmavam, ou o vento se fora agitar outro mal além” (CME, 64-65).

— Podes dizer que percorres por testamento outros caminhos (cf. CME, 68). O testamento testa. Afinal, a Morte não saberá ler o que escreves (cf. CME, 127). Passarás incólume pela morte escrevendo (cf. CME, 204). Tentarás, até à alma, para além da lama, dar obra de criação ao mal (cf. CME, 152). Uma letra morre dissociando-se de uma palavra, que não se lê, nem imagina (cf. CME, 211). Deixemos, pois, “espalhadas sobre a mesa todas as letras do nome de Amor” (CME, 241). E convoquemos, com fulgor, o rito do fim, na figura de Copérnico:

“eu farei este rito, e depois partirei.
partirei na minha obra e no meu trabalho
pelo contacto cada vez mais profundo com
as figuras da teofania que me foi dada, do
mesmo modo que a substância e o destino.

a minha obra será uma obra de esperança, uma luz sobre o destino humano no percurso de fazer o homem. Inscrever-me-ei na linhagem de Ptolomeu, de Spinoza, de Comuns, de Dante. Será um canto realista e sublime, grave e alegre, enraizado e aéreo;

o meu trabalho será a face prática e científica dessa esperança; o homem é, e o homem há-de ser.
Mas antes preciso de cumprir um rito.
Pedir-lhes-ei um tempo breve e consciente das suas vidas.
[…]
Voltando para o centro do quarto, hei-de rezar:

‘Figuras do meu destino, figuras do seu destino sede compacientes connosco.
Dai-nos a ver, ao fim da nossa viagem, o rosto claro e radioso da alegria’.
No momento seguinte, voltar-me-ei [..] e dir-lhes-ei:

—‘Sempre sabereis onde encontrar-me porque a minha palavra ficará convosco. Eu estarei sempre na minha obra e no meu trabalho. Chamai, e virei’“ (CME, 255).

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