Conversas com Llansol

Pequeno herbário para guardar palavras

 

é cedo, olho no relógio que trouxe comigo e que ainda mantém a hora de um outro horizonte. entre o tempo de lá e esse que amanhece na cidade de traçado azul, vivo num intervalo de tempo suspenso. o outono chegou há pouco e ainda ontem as folhas resistiam à ventania. mas a carta – pequeno herbário para guardar palavras – essa há de encontrar o tempo da primavera nas mãos da senhora da luz. queria dizer-lhe em voz alta a viagem, as palavras colhidas na serra de sintra, as folhas sem árvores que encontrei no caminho. ela, que talvez esteja, ainda, no tempo dos sonhos, há de colher as palavras que plantei no jardim ao lado do quarto.
preciso dizer-lhe que as pedras vieram morar comigo e chegaram, todas, antes das chuvas que anunciam o outono. foram elas que me fizeram companhia na última sexta-feira, antes que pudesse sair de casa para a estação de comboios. a chuva insistia e, no tempo nublado do dia, pensei que ela talvez pudesse lavar o caminho. parti com a chuva, com a liquidez da chuva, para um encontro que não sabia bem se, em torno do texto, do silêncio que se tece em torno do texto, e que o celebra num ritmo de pausa e alegria, ou da glória do texto, da sua possessão. da partida guardo apenas a chuva; da chegada, o medo. nesse intervalo, invento algumas palavras para guardar e tecer – eis o meu exercício: tarefa infinita. o livro me percorre, li mais tarde na casa de julho e agosto.
da chegada, envio-lhe as imagens de ontem: a noite, o seu bem tarde, as malas, a fome de um enorme cansaço. foi apenas hoje, bem cedo, que li o texto da senhora da luz, a sua memória, o espírito das roupas. achei triste, porque sempre acho triste uma amizade perdida, mas tenho aprendido que “se um corpo não compõe com o outro (…)”, a despedida dos corpos é uma saída para a alegria, para a memória das águas claras de yemanjá.
foi mesmo ela que convoquei, na minha prece profana, ao lado de teresinha, ao entrar no castelo: “santa teresinha seja o anjo protetor na travessia desta vida, me empresta as suas rosas para ofertá-las às águas de yemanjá, ela, que faz, do meu corpo, líquido. quando este assim o deseja, mas também seixo que segura todo o mar. deixe escorrer pelas águas aquilo que deve passar”. os castelos me assustam, porque guardam a memória dos príncipes, a ostentação, o poder sobre os corpos….pensava que o jardim podia ser o lugar aberto para o encontro.
chegar até lá foi trabalho difícil: perdi o trem, perdi a hora, perdi novamente o trem. uma aflição. como se o pensamento seguisse sem o corpo, e ele, pesado, insistisse em ficar. mas tinha um desejo de encontro com a senhora das vozes, com a paisagem, o desejo aberto do livro e uma ideia insistente a percorrer o olhar: resta ainda alguma coisa por desfazer, no encontro com as árvores. Consegui chegar, afinal, mas no fim das primeiras leituras (o que me deixou entristecida!). o tempo permitiu-me apenas entregar-lhe os livros e conhecê-la: “sobretudo a voz” – pensei. tudo muito rápido, pois a voz segue o seu rumo em direção ao poema, ao fino fio que leva ao poema.
do encontro, restou-me a leve impressão de que aquela voz tocava no ponto do guardado, da guarda, da conservação. do caminho da leitura que se orienta pelos referenciais fora de um texto que sabe que a ressurreição dos corpos é uma prolongação infinita que desinstala todos os valores de presença e ausência, de animado e inanimado. ela se anuncia, nesse texto, como extensão de corpo, na medida do mundo e da aproximação de todos os corpos.
escutava as leituras e os argumentos, e me lembrava, como uma espécie de cantilena que insiste em apresentar-se de cor (no corpo), das palavras da senhora das rendas: conhece a biografia e passa adiante, admira a crente sem desposar o seu movimento, confronta a arte de viver da amorosa com a ressurreição dos corpos, última e definitiva aspiração do texto ardente.
de pessoa, o que arde é movimento, respiração que busca saída na palavra que possa, talvez, voltar a apresentar o real. de Bach, o gesto da fuga, do deslocamento, da composição de corpos fulgurantes que revelam-nos que o percurso de um corpo é súmula da sua potência de agir. com suas biografias recuperadas, lidas e relidas, numa espécie de remontagem da “origem” da escrita, seguindo um movimento contrário ao da operação do livro, essas figuras deixam de ser devir texto. e não é isso o que os corpos desejam? sem consistência podem deslocar-se numa existência real.  eis a profusão da escrita, o seu mundo vivo, o trabalho da metamorfose. voltamos ao texto para desfazê-lo, ou seguimos com ela, tentando fazê-lo adiante, lançando-nos também nesse devir de um texto sem origem? porque a origem, ideia cristã, ainda se há, já a perdemos. sofremos dessa perda, irremediavelmente, sem que tenhamos que dizer, a todo momento: deus nos livre e guarde desse mal. mas há sempre os viciados em identidades, ela já havia escrito, para quem as figuras precisam ser alinhadas, guardadas no mal da origem, e que fazem da leitura o domínio de um saber sobre o texto, num constante exercício de arquivo.
mas, afinal, o texto resiste, resiste na sua potência de corpo que vibra e avança para além daquilo que o próprio arquivo define: livra-se desse mal, desse mal de arquivo. e os guardadores, pelo exercício intransigente de uma função, guardiões que não sabem guardar, seguem colocando guarda e excluindo qualquer exercício de delicadeza, com a fúria e o desejo de posse estampados no rosto. o que é vivo no arquivo torna-se objeto de lembrança pessoal, de memória que deve ser preservada das invasões. deus nos livre e guarde desse mal. quanto imaginário para um texto que se pretendia apenas imaginante. quanta guarda para um texto que se pretendia para além da encosta infinita: sem arquivos do fim. cem memórias de paisagem. por ser cem, estamos no infinito do eterno retorno do mútuo, de mãos vazias e repletas de escrita, seguimos os passos do amor sem obediência, para que o arquivo assuma o força de poeira, fora de qualquer moral e qualquer sistema de princípios.
no herbário, os cuidados do jardineiro formam, não um culto mas uma cultura do imemorial, renunciando a toda aderência e a qualquer gesto de retenção. na recolha das palavras para compor esse lugar de coisas vivas, já não sei se tudo o que escutei é apenas o meu desejo de que ela, a senhora das vozes, pudesse, sobretudo, dizer as coisas assim.
o senhor que guarda justificava o  movimento arquivista (esse mal!), mas numa tentativa de retificação, relativizando um pouco uma primeira ideia, tão difundida, de que, a partir do conhecimento dos manuscritos, a leitura da obra seria qualquer outra coisa que não o que já se tinha feito até ali. efeito de um movimento de resistência da letra, no seu trabalho silencioso de escrita insistente?
pude escutar o texto da senhora em fúria, também a partir desse ponto. ela estava lá, e permaneceu em silêncio. mas tudo é muito confuso, e o véu segue protegendo a todos, porque há uma necessidade das aparências, um enaltecimento da sabedoria, da erudição. e resta, sempre, o exercício constante de uma política da boa convivência em que a tensão entre os corpos precisa ser apagada.
coisa que não se apagou foi o constrangimento da mulher, constrangimento do corpo, apagamento da voz na leitura. como uma senhora que recebe os convidados para a ceia do marido, sem entusiasmo, pois retida na dureza de uma tarefa levada com afinco, e numa única direção: o tratamento, “desinteressado”, dos objetos, do texto. sem desvios, sem sobressaltos, sem arrebatamento.
uma pequena caliandra sentou-se ao meu lado para me oferecer a sua folha, soprando, numa única frase recolhida da imagem do castelo, as palavras que lhe ofereço: “tudo está fazendo muito mal a eles, os senhores, sem que eles percebam”. sim, coloquei uma folha ao seu lado, este é o mal – disse, prosseguindo na imagem. porque, mesmo dizendo que a casa não é um museu, tentando apontar para o vivo de um lugar onde os corpos continuam passando no trabalho dos dias, na vida dos objetos que habitam o espaço, na poética de um cotidiano, acho que a casa, pelo desejo desmedido de posse, de guarda, de restrições que impedem o movimento de outros corpos, outras leituras, tem infelizmente, tomado ares de museu.
desejei por um momento que os cadernos, as fotos, os vídeos, os papéis soltos, esses vivos – porque são vivos, apesar do senhor referir-se a eles como “matéria quase morta” que ganha vida apenas pelo trabalho que se faz em torno deles – fossem guardados na biblioteca de babel, protegidos no interior aberto da casa de holderlin, onde as paredes podem falar…
à tarde, quando voltei, me peguei distraída num único pensamento: “será que ela, a senhora das rendas, está aqui?” pensei que sim, que ela estava lá, no seu passo silencioso, guardando alguns corpos, voando com aossê, na leveza das suas asas. ela continuava no trabalho com as ervilhas, enquanto bach tocava a sua música…nessa fuga, nesse nó. e o meu corpo sentiu uma enorme alegria, sem constrangimento podia me deslocar pela sala, para a varanda onde acontecia a exposição da dama dos desenhos e suas infinitas bordaduras azuis. traçadas sobre o risco de um falcão, em tecido branco, dependuradas no varal, voando, no ritmo do ventania que abria a tarde. lindas bordaduras. e ali, no vento, ela, a senhora das rendas,  oferecia-nos a sua presença.
gostei de ter encontrado com o menino dança. segui a vibração dos passos que faziam círculos pela sala, desenhando um movimento de leitura que eleva, leva, devagar, todos os corpos para um outro lugar. ele, que agora “só quer dançar”, fez da dança um acontecimento sem começo nem fim,  imperceptível para os olhares astutos. também ali, na dança, nesse passo onde “ninguém te dá quem és”, ela segurava o xale aberto sobre o texto, seguindo o ritmo das folhas abandonadas, deixadas, com delicadeza, pelo chão.
sem que todos pudessem acompanhar, bach parou de tocar, aossê seguiu seu percurso de falcão e ela, no seu traço de figura, saiu para correr com o vento. no afeto desse deslocamento, atenta apenas ao seu movimento, saí também, encerrando, assim, a minha pequena  participação naquele encontro.
“amanhã verá o mar e não esse terreiro de cedros” – disse-me, com as rendas cobrindo as mãos. “amanhã só verei as palavras recolhidas, vogando nas águas guardadas pela serra de sintra” – pensei. e uma paisagem marejada de imagens se mantém: assim seja, assim seja.  
eis o saldo desse encontro: o vento, a renda, as águas. os corpos na dança do texto, o falcão fora, voando para além do castelo e ela, em passagem rápida, me dizendo que, se o corpo permanece constrangido, a alegria não nos acompanha. foi só depois, já na paisagem aberta do cabo da roca, que pude ver o mar e o seu adorável azul.

j.

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Uma resposta para Conversas com Llansol

  1. rafael gamboa disse:

    GOSTEI! partilho em parte… agora ja percebo a “furia” do Senhor e quejandos…
    Rg

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