Conversas com Llansol

“Esse é o abrigo na orla do bosque”. Esta frase, tomada de empréstimo da textualidade llansoliana, abre o “Abrigo”, um dos espaços da instalação “Habitar como Poética”, da artista plástica Cláudia Renault. Inaugurados no dia 26 de outubro e com o encerramento previsto para o dia 07 de dezembro de 2012, os espaços da artista fazem parte da Exposição “Motel Coimbra – Campus de arte e investigação”, que acontece no Colégio das Artes, da Universidade de Coimbra, e conta, ainda, com mais duas intervenções da artista: o “Atelier” e a “Sala de exposições”.
O gesto, os objetos, os restos, a sua recolha, o modo como são apropriados, riscam o espaço, inscrevendo nele uma outra topologia. A escrita cotidiana, grafada na cidade, nos passos que deslocam-se entre espaços múltiplos, estabelece o fio das conversas infinitas. Nela os objetos são habitados por outras densidades, pelo movimento que permite uma leitura em deslocamento, seguindo a direção da sua matéria, o seu poema. Este texto nasceu do encontro com as mãos que manipulam a matéria viva das coisas, com a força e a delicadeza riscadas na madeira e incrustadas nas paredes. Podia ter falado com elas. Desejei, é verdade. Dessa conversa, o que nos restou, foi apenas poema.

 

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Foto Antônio Olaio

 

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Foto Claudia Renault

 

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Foto Maria Raquel Dias

Este é o abrigo na orla do bosque

 

“I_______________este é um abrigo na orla do bosque – metade árvore, metade construção de ramos mortos; nesta árvore de vida, o declive do telhado é firme, impenetrável a erosão da chuva; como cada um chegou com sua árvore – Holderlin com quaercus, Joshua com pinus lusitanus, Giordano com a sua nogueira, há três árvores em torno da porta aberta de par em par;”

“Isto é uma escrita” – ela tinha me dito.
Com esse anúncio entrei no Atelier e, em seguida, no Esconderijo agora chamado Abrigo: “um abrigo na orla do bosque”. Os objetos enfileirados, ocupando os espaços de uma linha, outra linha, os intervalos, outra linha,
compondo uma constelação escrita, em folhas de cimento branco, que guarda todas as cores. Na transparência dos vidros, nossos olhos fitam mais adiante, trombam na luz refletida, na cor de um ramo, no trágico de sua existência.
“O corpo em trânsito, desenhando o espaço de uma escrita” – pensei. Sim, é uma escrita. Eis “um abrigo na orla do bosque, metade árvore, metade construção de ramos mortos”. Procuro pela árvore, enquanto tenho nos pés todos os ramos espalhados pelo chão. Nem vivos, nem mortos: o vivo. Atravessados pela morte, resgatados da sua mudez, preservados no seu silêncio, deslocados, transpostos, recolhidos no intervalo de uma escrita. Restos de uma caminhada diária, trabalho das mãos em ofício dos dias.
Cheguei ao aletilê antes que ele estivesse “pronto”. Entrei ali como se entra num livro, como se recebe um poema. Peço perdão, infinitamente, mas o texto me acompanha… selado em meu corpo. Não quero fazer dele uma referência, mas ele insiste, convoca, escreve em mim o que não se pode dizer sem ele. Consinto. Eis o meu destino: consentir. Lembrei-me de Ponge e do seu O Partido das coisas. “Tomar o partido das coisas = levar em consideração as palavras”.
Disse a ela: “- Você precisa ler O caderno do pinhal. Sinto-me num poema de Ponge”.
Para além da referência, sabia que era preciso aprender a vibração de um gesto, o deslocamento de um corpo, a intensidade dos objetos em recolhimento. E, na passividade da sua composição de escrita, o dizer de todos eles: falam a cidade, os seus passos, os passantes incautos, os curiosos, os distraídos. Falam a vida deixada na rua, despercebida. Dizem o olhar, também distraído, porque interessado num único gesto: a recolha, o transporte, a escrita como deslocamento, sem garantias. Na distração de uma presença, eles dizem a ausência, o vazio desenhado pelos passos, o intervalo branco riscado na folha do poema.
“Não sei o que isso vai dar, é só a posteriori” – ela diz.
Nachträglich – a voz me reenvia ao conceito, a vibração do seu acontecimento.
Desloco-me por entre as palavras/objetos, aprendendo a ler a sua grafia, reconhecendo o intervalo de uma memória abandonada/recuperada/inventada, no interior de um espaço que avança para o infinito por vir. Sim, os objetos colados na parede, esparramados pelo chão como testemunhos de um gesto da artista. Um fazer com as mãos. Um fazer com os restos. “Só o resto se salvará”. Reconheço, no dizer do filósofo, a impossibilidade para o todo e a parte coincidirem consigo mesmos e entre eles. O resto é a lacuna entre um e outro, a separação irredutível entre os termos, o hiato aberto numa experiência que, mesmo arquivada, resiste a que tudo se arquive. Eis o seu mal: seu mal de arquivo. Não se trata, portanto, de um resíduo que poderia ser recuperado após tudo ter sido apresentado/dito, como se nos fosse possível retomá-lo para incluí-lo na ordem de um dizer arquivável. O que resta é o “fato bruto de uma existência, o fora da linguagem”, aquilo que inviabiliza uma plenitude discursiva. Nessa lacuna essencial, vemos fundada a língua do testemunho. Riscado na madeira, na ferida aberta do seixo, nos papeis espalhados pela parede, nos restos do chão: a dispersão dos objetos. A sua presença desatenta testemunha a aporia dos lugares mesmos, como a nos lembrar que longe dali não há morada possível e que, estando ali, tudo já é fora, partida: bordo e transbordo da linguagem.
Estando fora do arquivo e do corpus do já dito, o testemunho funda a língua como aquilo que resta, aquilo que sobrevive em ato à possibilidade, ou à impossibilidade de dizer, instituindo o Real do dizer. Essa também é a posição da palavra poética. Não arquivável – mesmo que possamos dizê-la de cor(po) –, a palavra poética “é aquela que se situa, a cada vez, na posição de resto”. Por estar fora de qualquer fundamento que possa realizar uma “identidade”, essa língua fundada preserva a sua exterioridade em relação ao arquivo, ao mesmo tempo em que inaugura um dizer que não elimina o resto. Vingança (d)os restos. Restante vida: “este é o abrigo na orla do bosque, metade árvore, metade construção de ramos mortos”.
Vingar: castigar, punir; mas também sobreviver, transpor. Sem a intenção de definir uma identidade preservada num fundamento e dirigida para um fim, esse resto – um mínimo, um sopro, uma dispersão – é transposto, ao mesmo tempo em que sobrevive na língua guardada, naquilo que resta de uma vida, como o testemunho de uma escrita marcada pelo amor e pela morte. Nela, os objetos estão em “conversa infinita” e, espalhados, com cuidado, compõem um corpo de escrita. Eis o seu fazer, o ofício das suas mãos, o trabalho do seu corpo.
Caminho por entre os vidros, faço voltas na sala como se contornasse um verso, sentisse a sua resistência, o último verso de um poema. Um diário dos dias em terra estrangeira. Uma escrita, sempre estrangeira. Testemunho. Restos recolhidos, guardados, afirmados no ponto do poema. Os objetos fisgados num instante, fora dos seus sítios costumeiros, transpostos para um outro lugar, sem que, no entanto, abandonem as ruas, as passadeiras, a sola dos pés dos passantes. Vemos seus passos. Que memória guardam? O que nos dizem na passividade de sua presença? Somos nós que lemos as suas linhas escritas, ou são elas que nos lêem, atraídos que somos pela sua surpreendente estranheza?
Podemos nomeá-los, reconhecer-lhes o lugar anterior, dizer deles com outras serventias. Mas a escrita convoca um ler em outro lugar, um ler em deslocamento. Um “Habitar como poética” – ela nos diz. E, ainda que possamos pensá-los no lugar em que deveriam estar, localizá-los, quem sabe, na aflição de ordenar o mundo das coisas com nossos olhos humanos, eles resistem nesse lugar ocupado, marcado, cravado na parede. Não pertencem mais às ruas, às famílias, aos dias. Não pertencem mais às matas, aos jardins. Mortos, foram abandonados. Mortos, foram recolhidos pelas mãos da artista. Trazem tudo consigo, essa memória, sem fazer dela uma pertença que lhes obrigue a retornar ao lugar costumeiro. Trazem isso inscrito, no seu corpo-objeto, enquanto “ex-crevem” em outro sítio. Vejamo-los assim, nessa ex-crição.
O lugar habitual perde-se na estrangeirice de um lugar outro, preservando, paradoxalmente, a sua memória. O seu tempo, antes do tempo da arte. E, no entanto, nada é costumeiro nesse lugar. Habitá-lo é fazer dele poema. Afirmá-lo no lugar de uma travessia, de um fardo, de uma densidade que, mesmo densa, deseja o movimento, o azul, o canto das andorinhas que atravessam o céu com seu ruído anunciador e encantatório.
Sei que foram elas que lhe fizeram companhia nos dias mais solitários. Sei também que foram elas que riscaram, com vôos rasantes, o azul enlouquecedor do céu daquela cidade. Mas, ainda que soubesse disso, que tivesse recolhido essa “confissão”, naquele lugar tudo parecia outro. Eis “um abrigo na orla do bosque”, (….) “impenetrável à erosão da chuva”.
Procuro sua árvore. Reconheço a de Holderlin, reconheço o seu carvalho. Tenho nas mãos a nogueira de Giordano, o seu fruto. Subo as escadas. “Procuro é a palavra”. Entro no abrigo para seguir os passos dessa “árvore de vida”. Todos os lugares nos levam a ela, como todos os caminhos nos levam ao mar. Aberta ao céu, ao vivo das folhas em movimento, recolhida das ruas, sem vida, pura matéria orgânica: viva. Não lhe reconheço o nome, a origem, o fruto que fornece. Não lhe reconheço, mas sei que é viva. Que o abrigo lhe oferece a luz e o calor para a matéria do poema. Altiva, dirige-se ao céu, em busca do seu aberto, do movimento desenhado pelas folhas que não são suas: próteses, enxertos transplantados para lhe devolver o sopro, o movimento dos ventos. Ela porta-se bem, parece apreciar o lugar que aquelas mãos lhe reservaram. Entrega-se com delicadeza ao gesto. Rouba o nosso olhar. Podemos ficar ali, parados, a contemplar a sua sombra, o seu movimento inerte, o castanho claro do seu tronco. Suas raízes, deitadas para fora do chão, nos dizem de um tempo em que a terra era o seu único alimento. Olhamos o chão para ver nele o céu estampado como um abismo. Ela permanece muda. Talvez nos observe. Talvez mire a nossa dispersão. O único movimento que se intromete na sua altivez silenciosa, no seu tempo arrancado à linearidade dos tempos, é o movimento das folhas esculpidas pela luz. Ventamos com elas. Vibramos com ela. Nessa fruição, nem o fardo largado no chão resiste ao fulgor que se desprende do movimento das andorinhas, a fazer-lhe círculos infinitos, ampliando o seu próprio corpo, esticando o seu feixe inerte.
“Eis a sua árvore, eis a sua escrita” – talvez pudesse ter lhe dito na saída. Mas a alegria tinha tomado conta dos corpos… espalhando-se por entre todos os objetos. Aqui as estrelas brilham sob os pés. Nessa árvore de vida, vemos a superfície riscada do poema, o seu verso trabalhado, esculpido. A luz que vem do jardim nos convida ao fora: seguimos com ela. Do Abrigo e do seu Habitar, trazemos no corpo o silêncio de todos os objetos, o carvalho de cada uma das árvores que nos acompanham e o orifício das suas raízes.
Há três árvores em torno da porta aberta de par em par; esse é, de facto, um bosque de pinheiros marítimos – um pinhal – e a agitação do vento circula na base, impelindo as janelas a uma velocidade de grande rapidez; aqui, as estrela brilham por cima das cabeças, e o cheiro do mar entra pelas narinas, (…)

Desses corpos que perderam, juntamente com a faculdade de se locomover, a possibilidade de se refundir numa estrutura inteira, a sua memória e a sua história não serão mais que a de uma constante desagregação. Resta o cheiro, o som que principia cada começo, as imagens hermeticamente fechadas, a transparência dos vidros, a nos lembrar que, perdidas a grandeza e a utilidade – pelo gesto de deslocá-los e misturá-los, compondo com todos eles outros corpos, outras memórias –, a vida demonstra que não possui nada em comum com a pretensa ostentação do mundo. “Este é o abrigo na orla do bosque”: cenário para a vida de milhares de seres infinitamente menores, terra vegetal que lhes permite viver a insistente passagem dos dias, resta habitá-lo, sem saber, afinal, como cada um chegou com sua árvore.
“Nachträglich”, lembrei.
Nachtraglich – e os fonemas dizem aos meus ouvidos, enquanto os olhos inquietam-se com a vibração silenciosa do texto.

 

j.

 

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Foto Vera Valadares

 

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Foto Vera Valadares

 

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Foto Vera Valadares

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Uma resposta para Conversas com Llansol

  1. Lucia Castello Branco disse:

    Claudia, ao rever seus objetos catados nas ruas de Coimbra e amorosamente deslocados para o seu abrigo, lembro-me do filme “Le glaneur et la glaneuse”, de Agnes Varda, e penso, com Llansol, que “é preciso meter a mão no pensamento”. É o que você faz, e o que faz também a menina J., com seu texto, ao devolver esses objetos ao silêncio de onde emergem. Em meio ao barulho e à truculência do mundo, seus objetos sobrevivem, elevados à dignidade da Coisa.

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