Conversas com Llansol

Para Llansol, em memória de seu nascimento

I

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“Vou deixar de guardar passarinhos”, diz o menino em voz alta. “Vou deixar de guardar passarinhos”. A menina escuta, com a infância grudada nos olhos, escuta com o corpo: seu único abrigo. E o menino, no passo desse ritmo, lhe oferece o poema riscado no chão:

“Para entender nós temos dois Caminhos:
o da sensibilidade que é o entendimento do corpo
e o da inteligência que é o entendimento do espírito.
Eu escrevo com o corpo.
Poesia não é para compreender,
mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser árvore”.

E a menina, corrompida até a quimera, arvoreceu.

(Mosaico tecido em fragmentos sobre o poema de Manoel de Barros para a série Conversas com Llansol, acompanhada do outono das árvores.)

II

“Segundo o ‘espírito da restante vida’, a História é obra do poder, os seus interstícios são caoticamente habitados por tudo o que não atingiu a linguagem comum, institucionalizante  e vive na expectativa que é também apelo, busca de interlocução, o seu resto, réstia de luz, princípio de verdade.” (Silvina Rodrigues Lopes, em Teoria da des-possessão: ensaio sobre textos de Maria Gabriela Llansol)

“Todas as guerras foram uma só batalha, de reis querendo guardar e expandir o seu real, de burgueses desejando cidades livres, de camponeses lançando-se furiosos para onde isto acabe e o seu comece, de clérigos e de soldadesca distribuindo palavras e armas à fama, ao dinheiro, e ao reino de Deus próximo.
De homens, nem sombra. Vários são, numerosos sendo, a negarem-se mutuamente esse nome, o seu que de todos fosse.
(…)
Este texto diz que não nos ficou só uma ideia de real, diz também que no texto nos resta uma sombra, a da vingança sobre os restos.” (A. Borges, em “Texto para a Restante Vida”)

“Perguntar-nos-emos sempre o que foi possível, neste mal de arquivo, queimar. Perguntar-nos-emos sempre, para partilhar com compaixão este mal de arquivo, o que queimou de suas paixões secretas, de sua correspondência, de sua ´vida´. Queimar sem ele, sem resto e sem saber. Sem resposta possível, espectral ou não, aquém ou além de uma repressão, na outra borda do recalque, o originário ou o secundário, sem um nome, sem o menor sintoma e nem mesmo uma cinza.” (Jacques Derrida, em post-scriptum ao Mal de Arquivo: uma impressão freudiana)

“Meditemos no último escritor, com quem desapareceria, sem conhecimento de ninguém, o pequeno mistério da escrita (…) Que resultaria daí? Aparentemente, um grande silêncio. É o que se diz delicadamente quando morre um escritor: uma voz que se calou, um pensamento que se extinguiu. Que silêncio, então, se ninguém mais falasse da sua pompa, que é a palavra das obras acompanhada do rumor da sua fama.
Meditemos nisto. Tais épocas existiram e existirão, tais ficções são realizadas a certas alturas na vida de todos nós. Para surpresa do senso comum, no dia em que essa luz se apagar, não será pelo silêncio, mas pelo recuo do silêncio, por um rasgão na espessura silenciosa e, através desse rasgão, pela aproximação de um novo ruído que se anunciará a era sem palavra. Nada de grave, nada de ruidoso; apenas um murmúrio que nada acrescentará ao grande tumulto das cidades de que julgamos sofrer. A sua única característica: é incessante. Uma vez ouvido, não pode deixar de o ser, e como nunca o ouvimos verdadeiramente, como escapa à escuta, escapa também a toda a distração, tanto mais presente quanto mais nos desviamos: ressoar antecipado do que não foi dito nem nunca será.” (Maurice Blanchot, em “A morte do último escritor”)

“Creio que os outros escritores ´do meu ramo´, já conhecidos ou ainda no começo, aqui e no Brasil, vão ter de pensar no modo como criar um espaço de vida, que não seja marginal a nada, mas um lugar real de escrita e de leitura.” (Maria Gabriela Llansol, em carta a Eduardo Prado Coelho, datada de 25 de novembro de 1999)

“Vem bestial a morte que vem do Brasil há quinhentos anos.” (Sérgio Alcides, em Píer)

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