(Salvo o método) Carta para a menina j. e para ninguém também

Por Vania Baeta

Ouro Isso. Ouves isso? Ouriço, em Derrida, ponto p, da poesia. Palavra em ponto de dicionário = palavra em ponto de poesia. Estradas: circuitos em tradução: exigência da poesia. Que se traduza, diz a pulsão. Ditadura, ditado e cor (aprender de cor, de coração). Nem um eu a salvo na maré imensa da dor. Sinto.

Sente: Ouro Isso. Salvo o Douto Inconsciente da Verdichtung e da retração. O ouro não. Não em acepção por valor de troca e mercado. Mercadoria e lastro. Reserva de. Mas o ou(t)ro enquanto matéria dura, bruta, resistente – mineral, na mina – menina j. – qual pedra dura ao luar, no chão de estrelas, no chão de letras. Dela, brilho e fosco, conforme a luz. Ao luar, disse.

Ouro Isso. Resistente ao risco. Não o risco, porque risco não haja. Mas a filigrana fixa as nervuras, as linhas traçadas ao vento – e pluma – nada empanará tua visão, se luminosa a queres e luminosa a tens. Faustos saberes pseudocosmopolitas interrompem a marcha na estrada – ouriço nenhum – mais vasta que sua imatura insolência é a estrada. Não sem perigos, sabes, menina j., principalmente quando a falta falta.

Ouro Isso, menina j.  O poema, sabê-lo de cor, de coração. Menina, ocorre-me este, de quando menina-eu: “Margarita, está linda la mar / y el viento lleva esencia sutil de azahar / yo siento en el alma una alondra cantar / tu acento, Margarita, te voy a contar un cuento: / Este era un Rey que tenía un palacio de diamantes, / una tienda hecha del día / y un rebaño de elefantes. / Un quiosque de malaquita , un gran manto de tisú  y una gentil princesita, tan bonita Margarita, tan bonita como tú. / Una tarde la princesa vio una estrella aparecer, /la princesa era traviesa y la quiso ir a coger. / La quería para hacerla decorar un prendedor, en que luce con la estrella  verso, perla, pluma y flor”

O poema rasga a memória, menina j., no esquecimento. O fato é que a princesinha de Ruben Darío, o poeta, queria colher uma estrela para, com ela, decorar um prendedor: verso, pérola, pluma e flor. O poeta a acompanha, mas o Rei grita zangado: “já não te disse que o azul não se deve tocar!” Tocaste o azul, menina, meninas tocam o azul, talvez, os poetas também. Os reis, não. Contos de reis moeda de troca mundana. Neste mundanal ruído, assim, interessa a quem? Sim, assinam em baixo, mas pouco importa a mim.

O poema rasga a memória, menina j., no esquecimento. Nada escapa ao Isso, que sempre se esvai, que não cessa de não se escrever. A escrita, sim. Que ouro jaz—–idas no tempo, se lá não há. Escamas consignadas à morte. A tua morte, a minha morte, jamais.

Déjà: Derrida, Jacques . Salvo o nome, para além do nome. Em glória dele, em vão. Jamais queria ele, talvez, nada além de sua circonfissão – a pele, a lira. Nem a ira de uma tão pobre tradução: sem pele, sem lira. Delira pouco o rei.

Pas-de-sens: as linhas mareadas de quem um dia, sim, ganhou o mar – sem mais do que uma terra prometida. As convulsões de uma viagem. Sim, a promessa. Se dele não restar nem a letra:

— “De ti não restará nem a letra, não-sem (pas sans) as letras de teu nome”, dir-lhe-ia, “toujours déjà.

— “Isso absolutamente não prescreve um novo ‘método’ de leitura, que consistiria em acuar em toda a literatura o nome próprio do autor”, — adverte Geoffey Bennington.

Déjà, menina j., a indecidibilidade já chegou à boca da obviedade douta, viste? Apropria-se (essa boca) de tudo para dar lições de mestre. Qual o título? Não, menina, não a douta ignorância, que é outra coisa. Ouro Isso. A coisa do poema não toca, é raro, a quem não sofre de angústia. Salve a pátria do falogocentrismo , então.

Salvo tu. Nome.

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2 respostas para (Salvo o método) Carta para a menina j. e para ninguém também

  1. João Rocha disse:

    Vania, seu texto é precioso. Preciso.

  2. Sophia Hugo disse:

    Alguém entendeu isso?

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