Arquivos do Mal Errante

Dando prosseguimento à série que pretende reunir o arquivo, tal como lido por Jacques Derrida, e o “mal errante” llansoliano,  postamos um texto inédito de Lucia Castello Branco, resultante de sua pesquisa atual no CNPq – intitulada “Traços de um corp´a´screver: o ´caderno de sonhos´ de Maria Gabriela Llansol –, que foi apresentado hoje, dia 7 de dezembro, em Aveiro, no VII Congresso da Associação Portuguesa de Literatura Comparada.

 

A Poética do Sonho em Maria Gabriela Llansol

 

                                                                                          Lucia Castello Branco*

Partirei de um sonho – “O sonho de que temos a linguagem”[1] –, como Maria Gabriela Llansol o nomeou, em um texto ao qual me sinto particularmente ligada. E aqui, neste momento atual das pesquisas, devo dizer que é ainda esse texto-sonho que me guia. Desse texto, publicado na Revista Colóquio-Letras, em 1997, destaco aqui um trecho:

“Sonho com o dia em que a presença que de nós ficará dos textos não será a do nosso nome próprio. Em que os signos da nossa travessia serão destroços de combate, toques de leveza_____________ o que eu esperava ficou,ficou a chave, ficou a porta, ficou a pedra dura ao luar.

Regresso a casa através da serra em que plantas brilham _____________ como não sendo casa numa cidade.

Sou aturdida pela presença da vossa escrita, que me acompanha pelas vertentes e pelas ruas. Caminho, e o pensamento caminha a meu lado :’o medo torna os homens densos’. Os poetas  deixarão de submeter-se à poesia. Quem escreve irá além da mágoa. Os animais, fascinados pela  benevolência do buda, sensata e moderadamente, indicam o pacto de bondade que a todos une.

Os homens saem de sua identidade. E o texto arrasta-nos para os lugares da linguagem onde seremos seres de fulgor, indeléveis e diáfanos _____________última parede iluminada de uma casa que se apagou, numa das avenidas da cidade serrana

onde reina ainda uma profusão amarga de sinais.”[2]

No momento da concepção do projeto sobre o qual lhes falarei hoje –- projeto intitulado “Traços de um corp´a´screver: o ´caderno de sonhos´de Maria Gabriela Llansol”, subsidiado pelo CNPq, desde 2010 –, interessava-me essa “profusão amarga de sinais” que resta, como “pedra dura ao luar”, nessa “casa em que as plantas brilham”. Interessavam-me os cadernos, os cadernos dessa escritora que um dia escreveu, em um de seus livros: “O caderno não é o escrevente do texto, mas o lugar onde o texto aprende a materialidade do lugar por onde corre.”[3]. Interessava-me, sobretudo, na direção da leitura como “tarefa séria”, tal como proposta por Blanchot, imaginar a mão que escreve o texto. Ou, nas palavras do autor:

“Estas páginas podem terminar aqui e nada que se seguisse ao que acabei de escrever me faria acrescentar ou retirar qualquer coisa. Isso permanece, isso permanecerá até o fim (…)

Isto, portanto, deveria estar claro para todo aquele que lesse estas páginas pensando que são tomadas pela idéia de infelicidade. Mais que isso, que ele tente imaginar a mão que está escrevendo: se ele a visse, talvez então a leitura se tornasse, para ele, uma tarefa séria”. [4]

E, interessando-me pela “mão que está escrevendo”, é claro que me interessava também aquela outra mão, aquela responsável pelo que Blanchot chamou de “preensão persecutória”:

“Acontece que um homem que segura um lápis, mesmo que queira fortemente soltá-lo, sua mão, entretanto, não o solta, ela fecha-se mais, longe de se abrir. A outra mão intervém com mais êxito, mas vê-se então a mão que se pode chamar doente esboçar um leve movimento e tentar retomar o objeto que se distancia. O que é estranho é a lentidão desse movimento. A mão move-se num tempo pouco humano, que não é o da ação viável, nem o da esperança mas, antes, a sombra do tempo, ela própria sombra de uma mão deslizando irrealmente para um objeto convertido em sua sombra. Essa mão experimenta, em certos momentos, uma enorme necessidade de agarrar: ela deve agarrar o lápis, tem de fazê-lo, é uma ordem, uma exigência imperiosa. Fenômeno conhecido sob o nome de ‘preensão persecutória’.”[5]

Tudo isso, eu sabia, para caminhar em direção ao que Llansol chamaria de “pulsão da escrita”[6], mas também para tentar alcançar a segunda acepção – aquela mais sutil, para onde o texto de Llansol, afinal, se dirige – deste título de sentido em mão dupla: “O sonho de que temos a linguagem”. Trata-se do sonho de que possuímos a linguagem? Sim, naturalmente. Mas trata-se, sobretudo, do sonho do qual possuímos (apenas) a linguagem. Ou, mais propriamente, a escrita.

Era nesse ponto que o projeto começava a se abrir à interseção com a qual venho trabalhando há mais de vinte anos – entre a Literatura e a Psicanálise –, permitindo o encontro de Maria Gabriela Llansol com Sigmund Freud, este que também possuía o seu caderno de sonhos, que parece ter se perdido. [7]

Mas Llansol, até onde sabemos, não possuía exatamente um caderno de sonhos. Seus cadernos trazem, como seus livros publicados, um pouco de “tudo ligado a tudo”[8], embora suas anotações de sonhos, mesmo nos livros publicados, apareçam explícitas no texto, ainda que o sonho, algumas vezes, não ganhe uma descrição: “Eu sonhei com o Texto a viver ainda a Norte – não o escrevi.”[9]

Assim, mesmo no projeto inicial, quando eu ainda sonhava em trabalhar com os manuscritos de Llansol, o tal “Caderno de Sonhos de Maria Gabriela Llansol” já aparecia como o que a própria escritora talvez nomeasse como um “existente-não-real”. Sabemos que o “existente-não-real” é uma das importantes figuras da obra de Llansol, que diz respeito à existência, distinta da realidade e do factual. O “legente”, para Llansol, é algumas vezes designado como parte da “comunidade dos existentes-não-reais”. De maneira análoga, eu propunha, na ocasião que o projeto foi concebido, em 2010, que o “Caderno de Sonhos” que eu pretendia construir a partir da leitura e da anotação dos cadernos do espólio llansoliano, já existia, em meio aos cadernos da escritora, como um “existente-não-real”.

Hoje, com dois anos e meio de desenvolvimento do projeto, tudo isso parece-me bastante curioso, pois constato, ao relê-lo, que alguma coisa do futuro desse projeto já estava ali, no caderno de sonhos como um “existente-não-real”. E isso que já estava ali só posso testemunhá-lo através de minha escrita, a escrita do projeto. Ela, a escrita, já sabia – eu não sabia.

Porque um pouco depois do início do projeto – menos de um ano depois, já que ele começa a ser realizado em março de 2011 –, eu já poderia prever, pelo andamento da carruagem, que não seria tão fácil colocar as mãos – as minhas mãos – naqueles cadernos. Os dirigentes do Espaço Llansol, espaço do qual faço parte desde a sua fundação, não permitiriam que esses cadernos fossem folheados assim tão facilmente. E o famoso índice de sonhos de Maria Gabriela Llansol, que eles teriam anunciado em 2009, logo após a sua morte, não viria a público.

Por essa razão, já que toda tarefa comporta também uma renúncia, como assinala Benjamin em seu magnífico “A tarefa do tradutor”[10], minha tarefa foi renunciar aos cadernos para buscar, nos livros publicados de Llansol, os seus sonhos. E anotá-los, um a um, ao lado de uma anotação bastante obsessiva de A Interpretação dos Sonhos, de Freud. Pois a própria Llansol me daria esta direção:

“A elaboração deste texto, se nós o estudarmos de um certo ponto de vista, tem as suas leis de desenvolvimento. É como o estudo dos sonhos. Com um só não chegamos à conclusão alguma, mas se houver uma sequência muito grande, começamos a distinguir as leis que o regem. Em função disso eu estou a ver como lógico que o meu próximo livro se chame precisamente: Os Cantores de Leitura.[11]

A direção estava aí: reler toda a obra – seus 29 livros publicados em vida – para chegar até Os Cantores de Leitura, último livro da autora, em que a escrita do sonho se revela mais nítida, em sua tessitura. E este passou a ser meu projeto, desde meados de 2011: anotar os sonhos escritos na obra publicada de Llansol e anotar os sonhos de A Interpretação dos sonhos, de Freud. É claro que, em meio a esses sonhos do livro de Freud, estavam, como sabemos, os seus próprios, mas não só. E este “não só” restou ali, por um tempo breve, a me provocar.

A anotação sempre foi, para mim, um dos métodos privilegiados de leitura e escrita. Um dos meus livros, Livro de Cenas Fulgor, atesta esse método de maneira radical: trata-se de um livro de listas variadas – “coisas que fazem o coração bater mais forte”, “coisas que enchem de angústia” –, seguido, em cada série de listas, de uma página em branco, para que o leitor possa também anotar as suas listas.[12] Já aí, neste pequeno livro publicado em uma edição artesanal, o método se dava a ver: pois o livro abria-se ao caderno e, através das listas – as frases incompletas –, o livro abria-se à anotação.

Foi também no segundo semestre de 2011 que pude me encontrar com o primoroso seminário de Roland Barthes, intitulado A preparação do romance.[13]  Trata-se de um livro em que as notas do curso Barthes se apresentam compiladas e datadas,  mas trata-se, sobretudo no volume 1, de um livro em que a anotação, a notatio, aparece como método de escrita:

“ – Por um lado a Anotação, a prática de ´anotar´: notatio. Em que nível ela se situa? Nível do “real” (o que escolher), nível do “dizer” (que forma, que produto das à Notatio? O que essa prática implica do sentido, do tempo, do instante, do dizer? A Notatio aparece de chofre na intersecção problemática de um rio de linguagem, linguagem ininterrupta: a vida – que é texto ao mesmo tempo encadeado, prosseguido, sucessivo, e texto superposto, histologia de textos em corte, palimpsesto –e, de um gesto sagrado: marcar (isolar: sacrifício, bode expiatório etc). A Anotação: intersecção problemática?”[14]

Eis-nos, então, de volta a uma prática: a prática de anotar, a notatio. E eis-me, de novo, diante da “restante vida” da notatio: o texto encadeado, prosseguido, mas também superposto, como num palimpsesto. Ou, para usar uma palavra llansoliana: o texto em “sobreimpressão”.

Nesse momento em que me encontro com esse texto de Barthes, encontro-me, de fato, em uma intersecção problemática. Pois o “Caderno de Sonhos de Maria Gabriela Llansol”, que já não se apresentava dessa forma, já que os sonhos de Freud (os seus e os de seus pacientes) começavam a entrar aí, através da minha prática da notatio, de uma maneira um tanto desorganizada (as partes do livro não se separavam, como eu de início supunha, mas se sobrepunham, como nos sonhos), lançavam-me, sem que eu o soubesse, ao mesmo impasse enfrentado por Barthes: “como passar da anotação, da Nota, ao Romance, do descontínuo ao fluxo (ao estendido)?”[15]

No primeiro momento, eu pensava estar enfrentando apenas uma parte desse impasse: a passagem do descontínuo ao fluxo. Ou, em outras palavras: como transformar minhas anotações (meus fichamentos) em um livro encadeado, em que a teoria se impusesse ali, de forma coerente e organizada? Eu não sabia, até então, que minha questão não dizia respeito apenas à construção da teoria, mas à “preparação do romance”.

Até que um terceiro passo se impôs ao método: decidi, sem saber bem por que (talvez por um movimento de fidelidade ao método freudiano), anotar, em meio às anotações dos sonhos de Llansol e dos sonhos de Freud, meus próprios sonhos. E aí, nesse momento, creio que o romance começou.

Trata-se, evidentemente, de uma mudança de posição, que talvez possamos localizar, com alguma precisão, na introdução do magnífico texto “A insônia do escrever”, que abre o livro Ladrões de palavras, de Michel Schneider:

“… A noite em branco. Um homem adormecido se pergunta confusamente: o que acontece de tão difícil quando eu volto a mim, correndo o risco de não voltar, entre um dia que não acaba de acabar e um livro retomado numa hora que não é nunca a boa, aquela em que se devem fechar os livros, pousá-los sobre a mesa de cabeceira, e mergulhar na procura do livro que se traz consigo?”[16]

Pensemos nesse homem, o escritor, como um “insone adormecido”: aquele que, na noite em branco, não consegue sonhar, mas adormecido, não consegue, no entanto, “voltar a si”. Talvez esse seja o desenho que melhor retrate, na dimensão de um existente-não-real, alguns escritores. Talvez seja esse o desenho que nos reste traçar da escritora Maria Gabriela Llansol, que dedicou toda a sua vida ao exercício de escrever — à “insônia do escrever”—e a uma espécie curiosa de sonho: “o sonho de que temos a linguagem”.

O texto que recebe esse título — “O sonho de que temos a linguagem”—, e que é organizado a partir de excertos que a escritora decidiu não incluir no terceiro de seus diários publicados — Inquérito às quatro confidências —, porque “lhe tirariam leveza e aceramento”[17], pode ser lido nessa dupla dimensão — do sonho e da insônia —, justamente porque comporta, como já observamos, uma ambigüidade essencial, em seu título: trata-se do sonho que temos, que possuímos, que somos donos da linguagem, mas trata-se do sonho do qual temos (apenas) a linguagem.

Creio que uma leitura cuidadosa do texto leva o leitor a afastar a primeira interpretação, já que o sonho, afinal, é o de que “a presença que de nós ficará não será a do nosso nome próprio”. Os sujeitos, portanto, destituídos do nome, são menos aqueles que sonham o sonho do que os que são por ele sonhados. Ao sonho que sonha os sujeitos poderíamos chamá-lo, em consonância com Llansol, de escrita, e daí já podemos deduzir que o que nos coube dela — a escrita — é apenas o seu resto: a linguagem.

Àqueles que são sonhados pela escrita poderíamos denominá-los, então, não exatamente de insones — porque, em alguma instância, eles adormecem —, mas talvez de “dormentes”, os que dormem na insônia do escrever. Parece-me ser esta a posição que ocupa a escritora Maria Gabriela Llansol com relação ao texto e à escrita, já que é à “exigência da obra”[18]  e à pulsão da escrita que seu texto parece obedecer.

Tal posição nos obriga, enquanto legentes, a tomar também uma posição análoga de leitura. Se considerarmos, com Freud, que o sonho é sempre uma escrita hieroglífica, e que o sonho nos sonha, teremos forçosamente que considerar a materialidade e a literalidade dessa escrita, resistindo à interpretação que busque atingir o significado do sonho, mas abrindo-nos à leitura, à legência, que suporte, com o corpo, mas na passividade do “dormente”, a significância do sonho:

“Lacan enfatiza que o primeiro ponto com relação ao sonho é que se trata de um hieróglifo, uma mensagem cifrada que deve ser decifrada. Isso significa que é preciso resgatar um outro código, um código perdido. Mas a interpretação do sonho não é simplesmente uma decodificação, como se fosse possível dispor de uma tabela de equivalências. Sendo que essa tabela não existe e não pode existir, é preciso encontrar o código perdido na base das redes associativas. Esse ponto é muito enfatizado por Freud quando critica o método que chama de ´simbólico clássico´, em que há uma espécie de canônica preestabelecida que permite caracterizar o sentido do sonho. O sonho é um hieróglifo que deve ser entendido literalmente, isto é, em função de seus elementos materiais, de suas finalidades ou suportes de significação. É na estrutura fonemática do sonho que se articulam os significantes e não na consideração global do significado, o desejo deve ser tomado à letra, em sua literalidade (relato do sonho).”[19]

Ora, essa leitura por “redes associativas”, que não propõe uma decifração do que é cifrado, mas um deslizamento do que é material, literal, é a única possível aos legentes, diante do texto de Llansol. E talvez suas anotações de sonho possam servir como um material privilegiado para, não só  examinarmos a especificidade dessa escrita que foge ao “simbólico clássico”, como também extrairmos daí um método que nos permita refletir acerca dos fundamentos da escrita, da literatura e da leitura. Contudo, é sempre preciso advertirmo-nos de que “Não há literatura. Quando se escreve, só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros.”[20]

Trata-se, pois, da abertura de outros reais e não exatamente da literatura. Esta, talvez, a “tarefa séria” do legente: sustentar, com seu corpo, a expansão do corp´a´screver, permindo-se tangenciar, com a leitura intensiva, a dimensão do eterno a que o texto se abre e assim ler, para além dos reais-não-existentes, os existentes-não-reais. [21]

Este é hoje, afinal, o propósito do projeto – aquele que, desde o início, já estava lá –,  ao buscar desenhar, numa linha de fulgor, o “Caderno de sonhos”, que afinal não é mais exatamente o de Maria Gabriela Llansol, mas o de MGab. Reduzido o nome da autora à sua assinatura – às pobres letras que restam de seu nome – talvez possamos vislumbrar, nessa dimensão da letra, a radicalidade de uma prática: a prática da leitura literal, que termina por se encontrar, em seu limite, com a prática escritural.

Parece-me que também essa prática já estava anunciada no texto-sonho que me serviu de ponto de partida para o projeto. Pois o que a própria Llansol poderia ter designado como uma “poética do sonho” já estava lá, quando, ao anunciar que a lógica dos seus textos é análoga à lógica dos sonhos – “com um só não chegamos à conclusão alguma, mas se houver uma seqüência muito grande, começamos a distinguir as leis que o regem” –, Llansol nos oferece também um método de leitura: aquele que, ao tomar extensivamente o texto – “o que escrevo é uma narrativa, uma só narrativa, que vou partindo aos pedaços”, ela declara, em entrevista a mim concedida, em 1992 [22] — é capaz de ler, extensivamente, uma parte desse texto, associando-o aos demais. Afinal, como ela mesma observa em seu texto-sonho, “ver persistentemente é ver com extensão”[23], e como já o havia observado antes, “ler é uma alma crescendo”. [24]

Assim é que, autorizada pela leitura extensiva de seu texto, que venho realizando há exatos vinte anos, e pela leitura intensiva desse pequeno texto-sonho, que me coube ler desde a sua publicação, em 1997, e, ainda, pelo chamamento desse texto que, afinal, se constitui de excertos não incluídos do diário III da autora, Inquérito às quatro confidências, com alguns fragmentos que dizem respeito diretamente a esse trabalho de transmissão que venho realizando no Brasil, pude ler, com a “alma crescendo”, o trecho que se segue:

“Recebi, há dias, textos enviados de Belo Horizonte por Lucia Castello Branco. Dizia-me que trabalhava com os alunos sobre a escrita que, provisoriamente, dá pelo meu nome. Aqui deixo o nome de quem os escreveu, os enviados: Cristiano Florentino, Paulo de Andrade, Sérgio Antônio Silva. Digo-vos que são textos fortes, os deles, abertos ao meu texto. Como não abrir o meu texto ao deles?” [25]

Transmitido o método, escutado o chamamento, a pergunta que me tem atravessado, ao longo da pesquisa aqui referida, é análoga: “como não abrir o meu texto ao dela?” Porque parece-me que, também no texto de Llansol, como em Vergílio Ferreira, lê-se este pedido: “quando eu me for, feche o meu texto”. E resta-nos, como legentes, a tarefa de “fechar” esse texto. Mas, antes de rapidamente decidir que ele deve permanecer “hermeticamente fechado” [26], é preciso prosseguir, ainda com Llansol, a seu lado: “fechar o texto de outrem não é propriamente fechar. É lançá-lo com toda a violência, ferir de impacto o céu dos homens e das imagens. É retirá-lo do horizonte inclinado onde flui entre legentes e procurar-lhe uma foz vertical ___________onde, pelo labor dos criadores, substituirá, por decomposição, os mitos e as construções da razão”.[27]

Creio que hoje, antes mesmo de concluir a pesquisa que dará origem ao livro intitulado O Caderno de Sonhos de MGab, posso dizer que fui salva, por uma situação absolutamente contigencial, do “mal de arquivo”[28] que parece assolar a obra de um grande criador, quando este já não pode sustentar, com seu corp´a´screver, o movimento de seu texto.  Gosto de pensar que fui salva do “mal de arquivo” pelo “mal errante”[29], que atravessa a textualidade llansoliana. Como observa Derrida, “todo arquivo (…) é ao mesmo tempo, instituidor e conservador. [30]  Enquanto o “mal errante”, ao preferir a errância, o erro, a metamorfose e a dispersão, caminha em direção ao que Llansol anunciou em Um beijo dado mais tarde: “Curvou-se para reunir os textos que voavam em todas as direções, e formar um livro, ou destino”. [31]

O livro que pretendo formar com os sonhos anotados dos textos de Maria Gabriela Llansol, antes de fechar hermeticamente o seu texto, procura sua “foz vertical”, que deseja substituir, “por decomposição”, os mitos que já começam a se criar em torno de sua obra, e mesmo de sua figura autoral. Afinal, como observa Blanchot, em seu magnífico texto “Morte do último escritor”, o que resulta da morte de um escritor, ao contrário do que se supõe, não é o “grande silêncio”, mas justamente o “recuo do silêncio”,  pela aproximação de um novo ruído que anuncia a era sem palavra.[32]

Lembremo-nos das palavras de Llansol, em entrevista a João Mendes: “Creio que é uma dádiva muito grande que se faz ao texto de um outro: construir-lhe silêncio à volta”.[33] Lembremo-nos de suas palavras, em “O sonho de que temos a linguagem”: “Quando ela morrer, não batam latas. Ela não quer ir de burro depreciativo, como Sá-Carneiro. Quer ir num Pégaso solar, seu companheiro indefectível.”[34]

Talvez assim, ao buscarmos escutar o silêncio de onde a textualidade llansoliana emerge e para onde irremediavelmente se dirige — como um sonho encerra-se, sempre, em seu “umbigo”, que é também a sua abertura [35]–, possamos vê-la como figura, projetá-la na travessia, sustentar-lhe o sexo de ler com que lerá o novo que a habita.[36] E, então, poderemos indagar, como o faz Derrida, referindo-se a Freud, no post-scriptum do Mal de Arquivo:

Perguntar-nos-emos, sempre, o que foi possível, neste mal de arquivo, queimar. Perguntar-nos-emos sempre, para compartilhar com compaixão este mal de arquivo, o que queimou de suas paixões secretas, de sua correspondência, de sua ´vida´. Queimar sem ele, sem resto e sem saber. Sem resposta possível, espectral ou não, aquém ou além de uma repressão, na outra borda do recalque, o originário ou o secundário, sem um nome, sem o menor sintoma e nem mesmo uma cinza. [37]


* Escritora, autora de diversos livros de Literatura e Psicanálise,  além de romances, novelas e livros de literatura infanto-juvenil. Professora Titular em Estudos Literários da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.

[1] LLANSOL, Maria Gabriela. O sonho de que temos a linguagem. Revista Colóquio-Letras, Lisboa,

FUNDANBENKIAM, n.143-144, jan-jun 1997. P. 11- 17.

[2] LLANSOL. O sonho de que temos a linguagem. P. 11.

[3] LLANSOL, Maria Gabriela. Ardente texto Joshua. Lisboa: Relógio D´Àgua, 1998. P.

[4] BLANCHOT, Maurice. Pena de Morte. RJ: Imago, 1991. P. 119.

[5] BLANCHOT, Maurice. O Espaço Literário. RJ: Rocco, 1987. P. 15.

[6] A respeito da “pulsão da escrita” em Llansol, ver ANDRADE, Vania Baeta. Luz preferida: a pulsão da escrita em Maria Gabriela Llansol e Therèse de Lisieux. BH: FALE-UFMG, 2006. Tese de Doutorado em Literatura Comparada.

[7] ROUDINESCO, Elizabeth,   Dicionário de Psicanálise. RJ: Zahar, 1998. P. 390-397: Interpretação dos sonhos, A.

[8] LLANSOL, Maria Gabriela. Entrevista a Lucia Castello Branco. A escrita sem impostura. In: LLANSOL, Maria Gabriela. Diários de Llansol. Entrevistas.BH: Autêntica, p.51.

[9] LLANSOL, Maria Gabriela. Os Cantores de Leitura. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007.P. 50.

[10] Refiro-me aqui ao termo alemão “aufgabe”, em sua dupla acepção de tarefa e renúncia. A esse respeito, ver a tradução de Susana Kampff Lages de “A Tarefa do Tradutor”, de Walter Benjamin. In: BRANCO, Lucia Castello (org.). A Tarefa do Tradutor de Walter Benjamin: quatro traduções para o português. Cadernos Viva Voz, FALE-UFMG, 2008. P. 66-81: A tarefa-renúncia do tradutor. Trad. De Susana Kampff Lages.

[11]LLANSOL citada por BARRENTO, SANTOS (orgs). O que é uma figura. Lisboa: Mariposa Azual, 2009.P. 110.

[12] BRANCO, Lucia Castello. Livro de Cenas Fulgor. BH: 2 Luas, 2000.

[13] BARTHES, Roland. A preparação do romance. V. 1 e 2. SP: Martins Fontes, 2005.

[14] BARTHES, A preparação do romance. V. 1. P. 37.

[15] Ibidem, p. 37-8.

[16] SCHNEIDER, Michel. Ladrões de palavras. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990. P. 9.

[17] LLANSOL. O sonho de que temos a linguagem. P. 8.

[18] A respeito da “exigência da obra”, ver BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. RJ: Rocco, 1988.

[19] MAGALHÃES, Ligia C., VALLEJO, Américo. Lacan: operadores de leitura. SP: Perspectiva, 1981.  P. 31: Discurso onírico.

[20] LLANSOL. Um falcão no punho. Lisboa: Rolim, 1985.P. 57.

[21] O real-não-existente é outra figura llansoliana, em conjunção/disjunção com o existente-não-real.

[22] LLANSOL, Maria Gabriela. A escrita sem impostura. Entrevista concedida a Lucia Castello Branco. In: LLANSOL, Maria Gabriela.  Entrevistas. BH: Autêntica, 2011. P. 48.

[23] LLANSOL. O sonho de que temos a linguagem. P. 16.

[24] LLANSOL, Maria Gabriela. Amar um cão. Colares: Ed. Colares, s.d. S.p.

[25] LLANSOL, Maria Gabriela. O sonho de que temos a linguagem. P. 17.

[26] LLANSOL, Maria Gabriela. Hölder, de Hölderlin. Colares: Ed. Colares, 1994. s.p.

[27] LLANSOL, Maria Gabriela. O sonho de que temos a linguagem. P. 13.

[28] A esse respeito, ver DERRIDA, Jacques. Mal de Arquivo: uma impressão freudiana. RJ: Relume Dumará, 2001.

[29] Faço referência, aqui, diretamente ao título de um dos livros de Llansol: Contos do mal errante. Lisboa: Rolim,

[30] Ibidem, p. 17.

[31] LLANSOL, Maria Gabriela. Um beijo dado mais tarde. Lisboa: Rolim, 1990. P. 95.

[32] BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Lisboa: Relógio D´Água, 1994. P. 229-233: Morte do último escritor.

[33] LLANSOL, Maria Gabriela. O Espaço Edênico. Entrevista a João Mendes. In: LLANSOL, Maria Gabriela. Entrevistas. BH: Autêntica, 2011. P.

[34] LLANSOL. O sonho de que temos a linguagem. P. 11.

[35] Faço alusão, aqui, a noção freudiana de “umbigo do sonho”. A esse respeito, ver FREUD, Sigmund. A Interpretação dos sonhos. Parte Ii. Sobre os sonhos. 2 ed. RJ: Imago, 1987. No trecho intitulado “O esquecimento dos sonhos”, à p. 482, lê-se: “ Mesmo no sonho mais minuciosamente interpretado, é frequente haver um trecho que tem de ser deixado na obscuridade; é que, durante o trabalho de interpretação, apercebemo-nos de que há nesse ponto um emaranhado de pensamentos oníricos que não se deixa desenredar e que, além disso, nada acrescenta a nosso conhecimento do conteúdo do sonho. Esse é o umbigo do sonho, o ponto onde ele mergulha no desconhecido.”

[36] Parafraseio, aqui, o texto de Llansol, quando ela se refere a Vergílio Ferreira, em “O sonho de que temos a linguagem”: vê-lo como figura/ projectá-lo na travessia/ sustentar-lhe o sexo de ler com que lerá o novo que o habita”. P. 8.

[37] DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo. P. 129.

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