Arquivos do Mal Errante

28 de janeiro de 2005, Belo Horizonte

“Texto, lugar que viaja” (MGL).

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30 de janeiro de 2005, Clermont-Ferrand

Sento-me agora em uma mesa de frente à janela. Sempre a desejei. Mudar de paisagem é mudar de vida.

24 de fevereiro de 2005, Clermont-Ferrand

Sempre que escuto Bethânia fico assim: gelado. Meu estômago gela. Sua voz impregna todo meu corpo, mas é no meu ventre que ela se aloja. O ventre é o lugar (con)sagrado da(a) poesia. Lembro-me de Emily que diz saber ler um poema quando sente o tampo de sua cabeça despregar-se. No meu corpo o lugar da poesia é o meu ventre. Descobri isto hoje. Uma descoberta desta vale uma vida inteira.

27 de fevereiro de 2005, Clermont-Ferrand

Às vezes tenho vontade de escrever. Assim. Do nada. Sem histórias; nunca gostei de histórias. Sinto vontade de escrever pelo simples prazer da escrita. Escuto um jazz, Louis Amstrong e Ella Fitgerald, e tenho vontade de escrever. Esse desejo começa no corpo. Sinto meu estômago gelar quando quero escrever. Escrever nada: minha ambição maior. É preciso trabalho e talvez toda uma vida.
Acabo de assistir uma aula: L’Histoire Litteraire. A professora falou muitas coisas, mas nada que se aproxime deste solo de sax que escuto agora. Quero um texto que seja um solo e que toque meu corpo como este sax que escuto. Quero o Texto. A universidade está longe dele. Eles estudam literatura com o cérebro. O corpo de afetos não lhes foi apresentado.

“________ gosto de uma mesa de Café que não me faça fome, que pareça um boudoir de mulher”.

Esta frase toca o meu corpo. A universidade está longe disso. A universidade tem fome de tudo. Ela quer saber tudo, enquanto eu estou certo de que nada saberei, mas o nada é vasto e por isso mesmo sua paisagem é________.
A universidade não sabe que uma só frase pode ser suficiente.

“Dá-me um copo d’água, tenho sede”.

Uma frase somente. Eles querem tudo. Infelizes. Pensam ainda que o têm. Eles estão no escuro e não percebem. Pobres. Todos estamos na escuridão do pensamento, mas é possível vislumbrar além. Porém, isso só será possível na nudez de um pensamento pungente. Pensamento que atravessa o tempo e o espaço, que nasce do corpo e toca a escrita. Pensamento que nos arranca de nós mesmos e, por isso mesmo, nos faz perceber que o corpo está lá. Pensamento que nos coloca em face ao corpo do amor. E é aí que a escrita se dará sem medo. Aí que poderemos vislumbrar, talvez, a verdade.

16 de março de 2005, Clermont-Ferrand

Il fait beau. A primavera enfim chegou. O sol deu seu sinal. Podemos passear pelas ruas sem sentir frio. Na Maison du Tourisme, encontrei um cartão postal que me escolheu. Uma paisagem simples: uma casa velha, um campo verde, árvores e uma neblina. Lembrei-me da Paisagem Llansol. Comprei-o. Comprei-o para ela. Pensei que aquela casa velha, em meio às árvores e à neblina, era a Casa da Escrita. Esta paisagem está agora em minha parede, mas logo estará em Portugal. Espero. Ao mesmo tempo em que pensava que aquela casa pudesse ser a Casa da escrita, pensava também que a Casa da Escrita é, também, o sexo de uma mulher.
Aquela casa carrega sua solidão (a escrita também). Ela é distante. Está em um espaço sem tempo. Está solta no mundo. Está no aberto. Ela está só. O sexo de uma mulher também.

Casa da Escrita, sexo de uma mulher.

Isso parece uma fórmula matemática, mas não é. Uma coisa não é igual à outra, mas, aqui, ambas possuem em seu núcleo o infinito.
Abrir-se para uma casa é tocar sem medo a solidão. É perder-se no sexo bruto de uma mulher. É, em muitos casos, também, escrever.

20 de março de 2005, Clermont-Ferrand

Cessar de viver, disse a um e outro, equivale a deixar inacabada a obra em mosaico__ um mosaico de fontes expressivas. Decidam, disse-lhes. Porque a paixão pelo texto só mata se for instantânea. E continuar a escrever não significa, de modo algum, continuar viva. Não há equivalência. Quer apenas dizer que se venceu o medo imediatamente anterior. E, com o corpo ou sem ele, haverá sempre um medo imediatamente anterior. Não é isto ser fiel ao texto? Como o interpretante é fiel à música. (O Jogo da Liberdade Da Alma, M.G.L.)

(Fragmentos do diário de João Rocha)

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