Arquivos do Mal Errante

21 de Março de 2005, Clermont-Ferrand

 Copio:

 v.,

 agora posso escrever: estou bem. os primeiros dias foram de profunda solidão. sentia falta de tudo. sentia a falta. aqui penso ter descoberto o núcleo duro da solidão: solidão da língua. encontrar-se imerso em uma língua outra não é uma tarefa fácil. este mergulho nos distancia de tudo, nos leva a ficar cada dia mais sós.

nos primeiros dias estive muito mal.

lembro-me sempre de um fragmento do i-ching que você me disse em um dos nossos encontros. era o fragmento da noiva. ele dizia que a mulher deve entrar no universo do marido bordejada pelo silêncio e pela delicadeza.

 

“qualquer invasão é dolorosa”,  escrevi um dia desses.

 

assim as coisas foram se ajeitando. fui mergulhando silenciosa e delicadamente, na língua francesa. como mergulhei também no amor. agora estou melhor.

tive dois encontros com você em meus sonhos, mas você estava sempre em silêncio. no último, que foi ontem, você me disse:

 

“vamos viajar.”

 

em maio, por volta do dia treze, vou a paris. gostaria de encontrar com você, se for possível. ficarei lá por uma semana.

 

um abraço,

 joão

 

“João,

 

Vejo a delicadeza de sua letra, mesmo em meio à violência do frio e do estranho. O outro lado da língua. Mas assim, com tamanha delicadeza, ela, essa língua, já é a noiva. E, havendo uma noiva, a solidão só pode se ver acompanhada. Uma réstia de sol(idão). Pois estamos a receber a chegada da primavera. Com alegria.

Sim, vamos viajar… nestas palavras de Llansol… O Jogo da Liberdade da Alma: “O universo multiplica-se com a descrição minuciosa da viagem”.

Sim, farei o possível para estar em paris na ocasião em que vier. Marquemos o encontro. Aguardo notícias.

Um abraço,

 

V.”

 

 “Evidentemente que estou no decorrer de uma viagem de comboio. A palavra forte não é viagem, mas no decorrer de. O sol ilumina metade do livro, cortando a página em luz e sombra. Com a trepidação, a minha mão transportada no comboio treme, e a pequena garrafa com água para beber, tomba.

Do ponto de vista dos meus olhos, esta é uma história não humana, entre coisas, uma menos-valia que decidi contar, porque pô-la a nu equivale a liberta-la da sua morte inglória e banal.

Não verteu a água, mas mudou a posição dentro da garrafa. Oscilou, estendeu-se à superfície tendo por horizonte apenas os meus olhos. Esse fenômeno simples foi visto por um outro que o escreveu.

O universo multiplica-se com a descrição minuciosa da viagem”. (Maria Gabriela Llansol)

 

Copiar um texto é amplificar pouco a pouco o universo de um outro. Não digo aqui qualquer coisa como “quem conta um conto aumenta um ponto”. Não é desta amplificação que falo. Falo de uma expansão do universo. De uma expansão do infinito. Falo da imagem infinita de um poema que se estende pela paisagem. Falo disso. Falo da solidão de dois corpos que não se conhecem, mais desde sempre caminham juntos. Falo do sol do amor. Do sol da escrita.

Copiar um texto é marcar com seu corpo o corpo de um outro. É entrar no campo da continuidade infinita. Copiar é permitir a invasão, sem violência, de um outro. “Invasão bárbara”, diria alguém. Copiar é também escrever.

 

V. me falou do sol. Lembrei-me do dia em que ele entrou pela primeira vez em meu quarto, em Clermont-Ferrand. Ele veio pela forma delicada de um feixe de luz. Um feixe de pura luz. “O Ramo do Primeiro Sol”, recordo-me. Tive a impressão de que ele aplacaria a solidão. Por alguns dias caminhei com esta certeza, mas agora sei que ele só fez com que eu não deixasse de vê-la. Ela: a solidão.

 

Não há tristeza nessa descoberta. Uma descoberta deve ser sempre celebrada, mesmo quando não se sabe direito o que ela é. O sol trouxe com ele uma descoberta. “O sol da língua”, disse V. “O sol de uma descoberta incerta”, penso alto. 

 

(Fragmentos do diário de João Rocha)

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