O dom do júbilo

No ano de 2001, quando eu me encontrava nos EUA, em pesquisa de pós-doutorado sobre Emily Dickinson, mantive estreita correspondência, por carta e por email, com Maria Gabriela Llansol e Augusto Joaquim, amigos que, nessa época, na aridez do deserto californiano, me fizeram a “companhia, que eu por nada trocaria”. 

A esse meu tempo desértico, Maria Gabriela Llansol o chamava, carinhosamente, de “o tempo de Emily”. E é também por essa razão, mas sobretudo porque o tempo não foi só desértico, mas fértil, que o subtítulo de meu livro A branca dor da escrita é justamente “Três tempos com Emily Dickinson”. Porque houve o tempo desértico, o tempo fértil e um terceiro – aquele que, como os outros, também mete medo –, e que também está escrito em O amor não vazará meus olhos.

No Natal desse ano, Maria Gabriela Llansol enviou, a alguns de seus amigos, textos “personalizados”, que se dirigiam, singularmente, a cada um. O texto que me coube, a “Anunciação”, sempre o partilhei, em época de Natal, com amigos que eu julgava merecedores de receber, assim como eu, essa mensagem. É este o texto de Llansol que ofereço aqui, neste Natal, aos legentes do fiodeaguadotexto, como uma mensagem natalina e como um voto para 2013. Desse pequeno texto, sublinho as palavras que estão entre as mais lindas que já recebi: “o meu sim engrandece o dom do júbilo dirigido a todos os vivos sem excepção”.

Lucia Castello Branco

 

versão da anunciação de Lucas, o inspirante

___________________________________ nesse dia, num fim de tarde de dezembro, um fiel de amor foi enviado a uma casa onde um grupo de humanos se preparava para cear

entrou e disse

— Saúdo-te porque acolheste a graça. O dom do júbilo está contigo.

Ao ouvir tais palavras, cada um dos presentes sentiu-se perturbado. Ninguém se opôs à sua presença, apenas ficando a pairar o significado do que fora dito. Então, o mensageiro do amor explicitou:

— Tranquiliza-te. É a ti que o dom do júbilo se dirige. Vais dar à luz um trabalho singular, em ti gerado e desenvolvido.

Cada um dos presentes disse então:

— Mas como? Sou tão fraco, mal conheço o sopro inspirador.

O fiel do amor respondeu:

— O júbilo tomar-te-á, a pujança do vivo nutrirá o que aspira a dar-se. Nada é impossível ao ímpeto bondoso do Universo.

Cada um dos presentes disse então:

— Quem sou eu para fugir ou me negar? Que a sua palavra cumpra em mim o que anuncia.

E sentaram-se à mesa. Antes da refeição ser servida, cada um dos convivas disse em louvor:

— O meu sim engrandece o dom do júbilo dirigido a todos os vivos sem excepção; o meu espírito estremece de alegria na sua presença.

Entre os convivas, alguns pensavam em força, outros em alguém, o que em nada perturbava a mensagem que lhes fora transmitida. O fiel de amor inclinou-se diante de cada um e disse:

— De hoje para o futuro todas as galáxias aceitarão como fragmentos de estrelas o pó do teu corpo.

Principiaram a comer e, quando se levantaram, antes de se separar, foram tornar frondosas as árvores que continham os frutos das suas vidas.

Maria Gabriela Llansol

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