Arquivos do Mal Errante

26 de Abril de 2005, Cabo da Roca

Aqui é o fim-começo do mundo.
Nunca imaginei ver uma paisagem como esta. Paisagem aberta. Infinita.
Estive hoje com Llansol e conversamos sobre várias coisas. Em um momento, ela me disse:

“Não sou portuguesa. Eu nasci no mundo. Eu sou do mundo. Eu estou aqui e pronto”.

Realmente aqui não é Portugal. Aqui é o mundo.
Aprendi, hoje, com Llansol, que essas nomenclaturas aprisionam as paisagens.
Não. Definitivamente aqui não é Portugal. Aqui é vivo. Aqui é tudo.
Na França o mar é lindo, mas aqui sinto a força do oceano. Aqui sinto a força do infinito e do aberto. Aqui estou em pleno mar. Aqui não tem o azul bem comportado de Nice.
Aqui é corpo, é víscera, é o mistério imenso. É o mundo aberto para fora de si mesmo. Como o Amor, como já bem disse Llansol.
As paisagens do amor e da escrita são assim: infinitas e avassaladoras. Densas. Paisagens oceânicas.
Sinto-me pequeno e isso não me parece mal. Sinto-me pequeno diante da imensidão desta paisagem que me toma. Estou feliz. É bom saber dos pequenos e dos grandes seres do mundo novo.
Quanto a mim, a partir de hoje, continuarei apostando no mistério. Continuarei sempre, acredito.

***

Acabo de lembrar-me do mundo novo trazido pelo Texto.
Estou sentado de frente para o oceano, mas agora tenho uma mesa. Só agora começo a notar o quão importante foi o meu encontro com Llansol. Aqui, de frente para o mundo novo, começo a perceber tudo o que ela me disse.
Sim. Um novo mundo está frente a mim. É preciso saber olhar para vê-lo.
Aqui de onde saíram caravelas que um dia chegaram a paisagens completamente estranhas e desconhecidas. Aqui começo a realmente perceber com mais intensidade a força do Texto.
Força que me invade e impulsiona-me para o futuro. Força da descoberta.
Sim. Continuemos a descobrir, desvelar, desbravar.
O oceano invade-me como o Texto também já o fez. “Tudo é tão ligeiro que cairá sem se ver”. Uma faísca de pensamento.

“Continuemos a viagem”, Llansol me disse.
“Sim, continuemos”, respondi-lhe.

10 de Maio de 2005, França (em algum lugar)

Ontem ou hoje, o tempo já se confunde, li o epílogo do livro “Na Casa de Julho e Agosto”, de Maria Gabriela Llansol, que se apresenta na forma de uma carta endereçada às Damas do Amor Completo. Falava sobre as mutações que ocorrem na vida.

“Como assim o que vai dando a morte, a figura posterior da metamorfose que vos move”.

O Texto é a expressão em linguagem destas metamorfoses, que, quando escritas, sofrem também uma transformação.

Escrevo no trem, ao lado de um rapaz que também escreve. Escrevemos juntos, em silêncio. Escrevemos e por isso estamos ligados pela ação. Porém estamos distantes, pois a paisagem da escrita é grande demais.
Escrevo ao lado deste rapaz que se mantém também no silêncio.
Mutação maior, o silêncio.

***

Minha viagem está chegando ao fim. Preparo-me para uma outra ainda maior. Preparo-me para entrar de vez na Paisagem do Poema. Penso já estar nela. Sempre estive, mas agora a vejo.

6 de Maio de 2005, Clermont –Ferrand

Parfois je suis comme ça. J’ai envie d’écrire mais je n’écris pas.
Quero escrever, mas só escrevo palavras vãs.
Palavras vãs talvez sejam não descartáveis.

“O lixo também pode ser interessante”, disse Clarice algum dia.

Sinto que às vezes preciso do movimento da escrita. O movimento que ela causa em meu corpo. Meus dedos tocando a página em branco. Minha mão inteira tocando-a. Quando escrevo, minha mão é toda à mostra. Ela é nua. Ela está nua sobre a página em branco.
O ruído do atrito da caneta sobre a folha em branco também me agrada. Escrever é isso.
Escrever é ________ .
Escrever é lançar-se em uma página em branco: página branca, melhor dizendo.

Hoje não escrevo nada, mas não paro de escrever mesmo assim.

9 de Maio de 2005, Clermont –Ferrand

“Eu peço a vida continuação e silêncio; on demande à la vie apaisement et silence.”
( Finita, M.G.L.)

19 de Maio de 2005, Paris

Ontem ou anteontem encontrei-me com V. Digo ontem ou anteontem, pois já não me lembro bem do dia preciso. O tempo torna-se a cada dia mais estranho para mim. Ele passa com uma outra velocidade.
Conversamos. Eu falava e ela me escutava. Ela falava e eu a escutava. Falamos de várias coisas, mas o mais importante foi quando percebi minha descoberta.

“Aqui na França descobri que sou jovem”, disse a ela.

Soa-me estranho um homem de vinte e quatro anos dizer que isto é uma descoberta, mas, ao pronunciar esta frase, senti que o peso de uma idade que não era minha desapareceu. A juventude abre portas para o desconhecido. Recebo o mundo novo trazido pelo poema. Recebo-o no coração de minha descoberta.
Falamos também de “amor” e do “ardor”. Disse-lhe que meu corpo arde na paisagem larga do amor. Ela me disse que via duas palavras dentro daquela que se mostra como “Ardor”.

“Ar e Dor”, ela me disse.

Ela via o ar em minha experiência e não mais a dor.

“Sim, eu também vejo o ar, mas já vi a dor de bem próxima”, disse-lhe.

Sim, conheço a dor. Conheço coisas que não conhecia antes. Conheço a intimidade do meu corpo com as páginas em branco do meu caderno. Conheço a tinta, o papel e a liberdade de escrever sem medo.

***

Agora estou em face de uma fonte no pátio do Palais Royal, em Paris. Escrevo rodeado de pessoas que não falam minha língua. Exceto Daniela. Radek também está aqui. Estou entre todos, mas estou sozinho. Escrevo só. Concentro-me nessas páginas tão brancas como a escrita. Brancas, estão prontas para receber o texto que vem e corre livre. Sim. Escrevo sem medo. Escrevo com intimidade.
Outra descoberta:

“A intimidade da escrita”. Não sei se posso falar muito sobre esta nova paisagem que desponta no horizonte. Posso dizer que já escrevo em lugares abertos, como fiz em Nice. Talvez esta seja a intimidade: escrever e só.

O barulho da fonte me acalma. Ela evoca um outro mundo. Sinto minhas vistas embaralhadas, quando elevo minha cabeça e direciono o meu olhar para outra direção que não seja a da escrita. Chamo isto de intimidade.

 

(Fragmentos retirados do diário de João Rocha)

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