Arquivos do Mal Errante

26 de Maio de 2005, Roma

Acabo de ler um trecho do livro “Na Casa de Julho e Agosto”, da Llansol, e lembrei-me do nosso encontro.
Lembro-me que caminhávamos em silêncio e ela me indagou:

“Tu, como um legente deste Texto, queres fazer alguma pergunta para este corpo que o escreve?”

Ela colocou esta pergunta assim: a palo seco.

Ainda estou impressionado com a maneira como esta mulher coloca o seu corpo no texto.

***

Dois italianos entraram no quarto e interromperam o curso da escrita.

***

Estou fora. Procuro uma luz para escrever. Encontro-a. Ela não é tão forte, mas agrada-me também escrever na penumbra. Dizia sobre o impacto do encontro com um corpo que escreve. Dizia do impacto de um corp’a’screver.

Li um trecho da “Casa de Julho e Agosto”. Copio-o:

“(XLV)

Tu estavas com elas, e eu dirigi-te a palavra:

– Como estás, Eleonora?
– Bem. Não tens lido as minhas cartas?
– Sim. Na aparência.
– O que escreves?
– O que tu lês.__ Houve entre todas um momento de Silêncio, e Marta disse:
– A tua visão enganou-te. Nós não escrevemos nossas vidas.
– Eu sei. Na sombra, vós escreveis livros para Platin-Moretus, que revejo mais tarde, ou, mais tarde, traduzo em várias línguas.
– Sabes, Margarida__ chamou-me atenção Eleonora__, o homem do teu sonho não era um sonho.
– Então quem era?
– Era Alisubbo, com quem vivo em Lisboa, e que te queria mostrar seu corpo…
– … separemo-nos. Queria dizer o sonho de Alice.
– Era Luis M. __ disse inocentemente Branca. __ Tínhamo-lo odiado tão profundamente por ser homem que só nos restava ter-lhe gosto”.

23 de Maio de 2005, Firenze

Nem ser mortal, nem ser imortal, mas que seja?
(M.G.L.)

Penso que prefiro esta frase terminada com um ponto final:

 

Nem ser mortal, nem imortal, mas que seja.

30 de Maio de 2005, Roma

Soube, então, Margarida, que não te podia escrever mas justamente enterrar as minhas cartas junto à raiz das roseiras porque “pelas raízes das roseiras”, segundo um dos segredos de Alice, passa o mensageiro.”
(Na Casa de Julho e Agosto, M.G.L.)

 

(Fragmentos retirados do diário de João Rocha)

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