Conversas com Llansol

Redobra tecida, por Janaína de Paula, sobre fragmentos copiados, re-citados, alterados, num exercício de transposição, a partir dos livros: DICKINSON. Bilhetinhos com poemas; LLANSOL. Onde vais drama-poesia?; LLANSOL. Um Falcão no punho. 

 

Redobra : porque um dia olhei para o azul e me faltou o céu

O florescer me faz lembrar dela, como se fossem as suas próprias flores.
A natureza está a entregar-se neste momento, diz Dickinson ao invisível que lhe sorri logo à frente.
Sim, exatamente como acontece ao texto que ouve o mar bramir na copa das árvores,
a dança frenética dos elementos,
as folhas voam em sopro e em escrita _______________ os corpos nus das flores rasteiras em pleno esplendor. Não sabem o que o despertar lhes trará, sob a lei da refulgência da natureza.
A traição de um acento pode dar por vencido o êxtase – ela continua.
Sem distância não vemos a profundidade que se apaga e da qual não há regresso possível. Penso ainda se o nosso fim pode ser tão surpreendente quanto a curva de existência de um cravo.
Repare que, ao fundo, a árvore é um livro que distribui as folhas pelos ramos de modo que nenhuma escape ao sol; há um tal fulgor no sol que desce, e se esconde, que dificilmente posso concentrar-me sempre no mesmo lugar verde. A distância é o meu percurso, e, na globalidade do céu, receio não descobrir viagem por mar que nos oriente.
Desorientada olho o céu, desorientada sigo as constelações móveis, raros clarões de luz. Nas mãos do poema o gosto dos dias colhidos das copas mais altas. De lá, lugar do nascimento,
ela,
poema, oferece o carvalho e a clareira onde meu corpo vagueia com todo o resto. Na intimidade das árvores, combato com o invisível por misericórdia com o destino dos homens e da paisagem. Sigo o meu traço

com as palavras perdidas em terra estrangeira, pois o texto continua repleto de contrários.

Sim, diz-lhe Dickinson. Quem se mete por atalhos sabe os trabalhos que arranja.
Ouça apenas um fragmento dos grafemas de uma vida. Ouça o vivo nesses traços mínimos de um eu que se desloca e se esvai, marcado pela dispersão de uma escrita insistente, que guarda, nela mesma, os seus mínimos – cintilações fulgurantes – escritos sob a luz do luar libidinal.
Sinto que me estilhaço melodiosamente à procura dos meus múltiplos prazeres (o maior – o da sensibilidade do corpo). Começa sempre pelos olhos, que distribuem temas de meditação aos outros sentidos. Nesse dia corremos na direção do plátano e com ele alcançamos o aberto do céu. Ela, a rapariga que, num tempo anterior, temia a impostura da língua, já sem memória, acompanha-nos nesse retorno ao lugar aberto do nascimento.
Lemos, em voz alta, o diário do primeiro dia:
– A voz está sozinha – disse a minha mãe, ainda eu estava no seu ventre, a ler-me poesia.
– Não por muito tempo – responderam àquela que me iniciava na língua. E eu nasci na sequência de um ritmo.
Eu nasci para acompanhar a voz, fazê-la percorrer um caminho. De um lado a outro do percurso, não sei o que existe, o caminho caminha, eu deslumbro-me quando o tempo se suspende, e me permite parar a contemplar o espaço sem tempo.
Descobri que se, em vez de me concentrar na sombra do corredor, me deitasse de costas a olhar a mancha rutilante, o meu olhar poderia realizar o caminho inverso da luz e pousar no ramo mais alto da árvore e aprender com esta a produzir clorofila – a primeira matéria do poema.
O meu corpo permanecia deitado, no chão do quarto, enquanto o meu olhar aprendia a fazer poemas. Essa foi a primeira descoberta do olhar: se não levantares os olhos, não haverá sensualidade que nos abisme.
A clorofila, murmurou Dickinson, acompanhando o deslocamento do corpo a contemplar o céu.
Lá em cima há o espaço e, de longe em longe, uma condensação de espaço em luz, uma solidão unida e ordenada de pontos que parecem ignorar-se uns aos outros. Aprendi com Parasceve a descer da cidade vegetal que era até a cidade humana, igualmente iluminada pelo sol. Aprendi, na copa mais alta desse plátano imponente, que na clorofila não há metáfora. Pois o corpo está sempre a traduzir, para a sua necessidade de movimento, o desejo de que a palavra volte a significar o real. Aprendi a desenhar com o olhar a arquitetura para a aventura da luz, pois o pensamento é impelido pela geometria dos corpos. E há o adormecido. Há o aberto. Há.
Escreve – diz o texto.
Estou aqui a escrever cópias da noite, atravesso este tempo sem desterro nem resignação, e isso só terá sentido se alguém vier sublinhar a noite escura com a claridade dos seus olhos.

 

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