Conversas com Llansol

Ainda os dias e o seu mais sonoro nada 

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Foto de Janaina de Paula Rocha

 

“Em suma daria a sua carne ao desejo que melhor a preparasse”

Era a epígrafe do dia.

Estava escrito que a casa sonhada não podia servir de abrigo, nem de cama, nem de mesa, nem de lugar de batalha. Para além da casa estava o fim do mais: a voz que havia de ter o texto, e o corpo que havia de conter a terra.Habitada pela escrita, uma mão se move em cada sala, exprimindo os futuríveis que os olhos vêem, proas projetadas para adiante.
É preciso ter coragem para acabar o seu corpo.
Se tu soubesses quantas sombras ficarão a morar conosco, quantas sombras se reduzirão a nada, e de manhã virão deitar-se nos teus braços, no momento em que confias os teus sonhos…se tu soubesses…
Fechou os olhos para ser possuída pela chama. Inventada a página, demarcou um território no confronto da ausência com o espaço da casa. Ela deixava-se ficar no mesmo lugar enunciado pelo livro. Imperceptível. Na perfeita ignorância em que se encontrava regressou a casa, a consultar a suas expectativas e a sua solidão. Meteu a mão na água, regressou às fontes, ou seja, ao mesmo ponto voraz que estava, de novo, no caminho.
Diz a ele que depois do silêncio recolhi mais uma palavra para fazer companhia aos objetos.
E de longe ouvia-se, em toda casa, o rumorejar da palavra e da sua garganta. Nesse momento conheceu a forma da sua claridade que outrora se chamava “amor perfeito”, e entrou nela a escrita.
Aponto-lhe a minha escrita como se lhe apontasse um corpo que ele talvez ame ou deseje.
Pedia-lhe que lhe contasse as histórias e lhe comprasse o tempo que precisa. Todo o tempo do mundo. Eterno. Nessa noite não amanhecia, pelo contrário, de novo as horas do meridiano se aproximavam. Quando, pela primeira vez, ficou só em casa, com todo o tempo diante de si, e o espaço vasto e fragmentado pelas lembranças e os móveis, sentiu correr as lágrimas por debaixo das folhas que compunham o corpo.
Salva da água, uma pequena pedra repousava no parapeito da janela aberta. No centro de uma caótica mistura de alegria e sofrimento, tentei encontrar o ritmo para começar a escrever. Pensava em todos os acontecimentos e imagens. Pensava na dor a adensar-se pelo caminho.
Mais uma guerra – dizia com ironia para si mesma.
Eis o combate do texto – sussurrou a leitura que sondava, para além da pedra, os indícios do amor, enquanto farejava os cantos.
A crueldade do amor – pensou.
Lentamente enlouqueço- constatou com tranquilidade, não sem o medo a espreitar a vida inteira.
A sala fechada para fazer silêncio aos objetos espalhados, nesse dia, era o resto que aceitava como companhia para a noite escura que anunciava-se.
Perder o perdido – escreveu.
Perder o perdido – repetiu.
Quem sabe um anjo ainda escute a minha prece.
Ainda não vejo os caminhos por onde nos leva a escrita. Tenho suas fissuras, suas imagens dispersas, tenho todo o resto guardado nas mãos. Foi por ela que perdi o amor?
Amor? – perguntou o texto voltando-se para ela com o seu rosto envelhecido, enquanto percorria a sala a meditar na ruína da batalha que desenrolava-se num longo silêncio.
O som do alarme soou aos seus ouvidos, e apesar de reconhecê-lo, sabia, naquele momento, que nada voltaria ao seu lugar habitual.
Qual lugar? Insistia a leitura a anunciar que nem por oração, nem por propósitos, avançaria solitária entre o inimigo.
Mais tarde, gotas de tinta se alastraram, manchando o chão do quarto e deixando a sua borra azulada nos pedaços de madeira arrancados. Um porto de abrigo se estava abrindo nos diversos tons andantes do horizonte das imagens. Mas a leitura, insistindo em seus começos, agarrava-se à história contada, às imagens fechadas no “todo”, às linhas completas de uma história e seu nada.
Seja mais claro- pediu ao texto.
Sim. Uma construção sonora e cênica está fundando-se. Teu jardim precisa apenas de ser ouvido.
E os começos eliminados pelo tempo?
E os arranjos desfeitos, cruelmente, pelas frases mal-ditas?
O ano nem começou e já vai pelo meio. Cada dia tem seu começo e não recomeça. Perco-me nas imagens do todo, nos detalhes esquecidos, e o novo não encontra abrigo na porta que não fecha. Leio que o amor tem dosagens. “Principia por ser líquido escuro. Espesso, espera ser dividido em porções distribuídas aos dias. Mais líquido, transforma-se numa poção homeopática”.
Mas ele deseja o rapto, enquanto ela a fulgurância.
Perder o perdido é o que está a acontecer – recoloca a frase para que ela ganhe em amplitude e desate o nó da dor.
Tu não podes ensiná-lo a ler. Apenas o texto, se ele consentir.
Tu não podes desatar-lhe os nós, apenas o caminho, se ele caminhar.
Tu não podes com ele na sua aterradora necessidade.
Este é o ponto extremo dos nossos corpos?
E o texto deu com ela a soletrar: deserto, deserto, deserto.
Que assim seja, que assim seja!

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Ainda as lonjuras, as distâncias, o azul de lá aberto no azul daqui. 

Ainda as lágrimas a riscar a densidade dos dias.
Que o amor possa morar nos seus sonhos – escreveu.
Então pensou, nesse dia estendido ao meio, que sair do poema lhe era a forma mais dura de combate. Perguntava a si mesma se devia “fazer durar a teia ou liberar a flor”. Fazer durar a teia com os cortes da flor. Enfrentava o odor dos lugares onde o tudo se fazia ouvir, separar, contar, documentar. E aqueles que lhe cercavam tanto já tinham ouvido, colecionado e dito, mas nunca tinham escrito. Qual a espessura de um corpo sem escrita? Qual a espessura de um corpo sem fissuras? Qual a espessura do fim?
Enquanto corre, eu, em texto, escrevo fim.
Às vezes confunde o texto consigo mesma? – era a pergunta que Angelus colocava naquela manhã.
Ele ama o texto ou a mulher que o escreve?
O insuportável se escreve no silêncio do texto ou no da mulher que o suporta?
Às vezes confundo – respondeu mentindo…às vezes confundo, mentiu novamente, como a se convencer da separação entre todas as coisas. Às vezes confundo e minto.
Abriu as escrituras para buscar as palavras sem mentir.

 

(Montagem de Janaina de Paula Rocha, a partir dos textos “A restante vida” e “O começo de um livro é precioso”, de Maria Gabriela Llansol)

 

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