Conversas com Llansol

Na semana passada, recebemos a visita do escritor Juliano Pessanha, autor de Sabedoria do Nunca, Ignorância do sempre, Certeza do agoraInstabilidade perpétua. No dia 25, ele esteve na Faculdade de Letras da UFMG para uma conversa sobre o litoral traçado entre escrita e vida, sobre a experiência do exterior e do caminho que nos leva a ela, a vida, sem perder a dimensão de seu fora. Em outras palavras, conversando com Llansol, ele parece nos indagar: como viver no vivo – este exterior-interior do mundo? A conversa foi introduzida por textos de Maraíza Labanca e João Rocha postados logo abaixo.  No dia seguinte, Juliano esteve com os colaboradores da pesquisa “Palavra em ponto de dicionário” na Cas’a’screver. Nesta tarde, dedicada à prática da letra, lemos e escrevemos. E com essas “práticas do silêncio”,pudemos vivenciar, bem de perto, esta frase de Llansol: “escrever é o duplo de viver”. Abaixo, vocês podem conferir as fotos, capturadas por Frederico Amoz, desse dia.

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Pétala desgarrada[1]

“O desastre está separado, é o mais separado que há.” M. Blanchot.

“(…) a palavra da escritura é a palavra que despenca.” J. Pessanha.

A obra de JP – composta de poemas, ensaios, heterotanatografias – busca um outro lugar para o que parece não ter lugar. Um lugar outro – que já foi o da infância e o não lugar do fora – onde haja novas modalidades de encontro e palavras decaídas de um discurso que faz liame, liame social.

Por uma palavra assim limada dos discursos, deseja-se acessar um “dizer raro” (Deleuze), que inaugura e assombra o mundo e a linguagem, dando passagem à “região da vida possível”, antes intocada. Isso porque a escrita pode se lançar para fora da série, extraviar-se do ciclo alimentado pelos que obrigam a dizer, pelos que disseminam a oferta e a demanda infinita de sentido. Interessa escrever, impondo silêncio às palavras, para fazer brotar a voz “lavada pelo fogo”, contra toda a industriosidade gestual que impede a vinda do novo lugar. As figuras que atravessam seus textos, Gombro, K., Z.  (alusões a Kafka e a Gombrowicz), recorrem, por isso, a um “exílio interno” do homem, ao limite das possibilidades de comunicação e dos modos de vida estabelecidos. Então poderiam promover um novo nascimento.

Há, primeiro, portanto, o desgarramento do mundo. Mas pétalas desgarradas caem no chão, como letras, e podem formar um caminho para o desejo. Um rota?, uma linha de fuga[2]. As pétalas despencadas corolam com o vento: há algo no chão, restante, que seu texto convida a olhar. Mas há ainda mais vento, se o desastre é condição da palavra literária. Há mais vento e abjuramos, em instabilidade perpétua. (E, se Juliano Pessanha utiliza, ele mesmo, a expressão “rota de fuga”, é para abordar os modos de vida criados para escapar de uma vida tornada um grande cosmético. É preciso trazer – de volta – a rugosidade da vida: este um de seus gritos.)

Deve haver, pois, uma infidelidade ao dentro, só assim entramos nele – assim: como quem sai. Reconfigurando-o; inscrevendo, aqui, o . E poderemos, então, partilhar esse fora, as lonjuras. Quando acontece este estado de proximidade: tece-se uma nova abordagem do outro, cujo encontro faça florescer uma “costura amorosa”[3] que contamine pelas distâncias e continue ressoando.

O desgarramento dessa escrita segue em direção a um encontro despossuído do excesso de palavras e demandas que inundam esse mundo a que se cola o homem sem deserto. Mais além de uma palavra segura nas malhas de um dizer bem acomodado no dentro (e no centro), tremulam os limites, vibra o que circunscreve o tempo. Há frêmito na palavra. Mas, se há hospitalidade, já há tratamento dos modos de encontro. Estriado e delicado, porque é de pétala que se trata.

Emerge o corpo, nesse ponto. Encontro com o que fisga o corpo e com as coisas do mundo em estado de celebração, tomadas em sua “epifania permanente”[4]: a pétala desgarrada, e também o hino, a quebra da onda, a crina avermelhada de um cavalo[5].

E desejamos que este espaço possa ser desmobilizado o bastante (“um lugar além da normalidade e além da exclusão[6]”) para dar passagem aos “acontecimentos que tocam um corpo exposto”. A carne viva, uma libra de carne viva, porque a nós também interessa o lugar onde “alguém é tocado e atravessado para além de todo e qualquer funcionamento racional, (…) onde uma questão insiste em forma-de-ferida, ali é o lugar onde o ‘eu’ deve mergulhar e deixar-se desmanchar”[7], como se desmancham as rosas.

O encontro, então, constitui uma flor breve, pela contingência das pétalas atiradas no chão feito um lance de dados, fora do centro a que se agarram as belezas óbvias, as rosas no cimo das árvores. Porque uma pétala desgarrada pode atrair, pouco a pouco, outras pétalas livres, sós[8]. Aí, a presença da flor, ainda que breve, incandescente, de restos, desarvorada, no chão.

Maraíza Labanca (À visita de Juliano Pessanha – Belo Horizonte, 25 de abril de 2013 – UFMG)


[1] “Quando eu cheguei ao mundo nada mais tinha o benefício da chegada. A ‘rugosidade da vida’ tinha sido esticada até a extremidade onde o jorro das horas dá lugar à eternidade da cena. Assim, ameaçado pela linha de um ocaso, busquei a literatura e debrucei-me nos diários: neles eu escrevi a crina avermelhada do cavalo, o confuso espelho d’água na tormenta, a família curda fugindo da montanha, a calma no porto abandonado e o camelo devorado pela tribo. Um dia, ao pressentir a intensidade de um hino, eu disse também a pétala desgarrada, mas tudo que achei foi a ausência da flor”. (PESSANHA. Ignorância do sempre, p. 30. Grifo meu.)

[2] O próprio autor utiliza a expressão “rota de fuga” em Certeza do agora, p. 43.

[3] PESSANHA. Sabedoria do nunca, p. 62.

[4] PESSANHA. Ignorância do sempre, p. 45.

[5] Ver nota 1.

[6] PESSANHA. Instabilidade perpétua, p. 40.

[7] PESSANHA. Instabilidade perpétua, p. 67.

[8] Referência a um excerto da obra da autora portuguesa Maria Gabriela Llansol: “trabalhar a dura matéria move a língua; viver quase a sós atrai, pouco a pouco, os absolutamente sós”. Cf. CASTELLO BRANCO. Os absolutamente sós, p. 12.

Um narrador sem narrativa

 “Eu que sondei a vastidão de todas as distâncias, que mergulhei na hora vazia e aguardei a palavra negada, espero a chancela da noite e a brutal confirmação do exílio. Que a tua mão imóvel termine de me cobrir com o lençol da crueldade e que a palavra nunca resplandeça no epitáfio do corpo inatingido”[1].

Estas são as últimas palavras de Z que, ao fim da leitura de Sabedoria do nunca, soam como a contestação de um desastre: Z não conseguiu tornar-se um ser humano. Talvez, porque o “ser” estivesse para ele tão longe quanto o “firmamento dos peixes”[2]. E ele sempre peixe, “peixe fora d’água”. Sempre a ver a vida de tão longe, pois, para Z, esta sempre foi uma paisagem distante.

A vida, aqui, isto é, tornar-se um ser humano, significa a entrada no sentido, nos labirintos da linguagem. Para Z, a vida é uma construção, uma invenção. Mas uma invenção do outro: é o outro que constrói a minha vida. É a partir do outro que existo. E esse outro, por exemplo, pode ser Deus. Acontece que Deus abandonou Z. Não fez para ele uma vida. Então Z carrega um fardo pesado: o fardo de não ter uma existência. O fardo de estar sempre à margem, espreitando a vida como se a qualquer momento lhe pudesse chegar uma alegria pela “pretensão de ter um corpo, uma vida, uma história, a pretensão de aderir-se ao calor das coisas próximas e de ser atingido por um sentimento de verdade”, a pretensão de uma “vida razoavelmente verdadeira”[3].

Z não existia, ele acontecia no fora. Z era desgarrado. “O lado de dentro do mundo”, isto é, “um meio efetivamente absoluto onde os homens podiam ser, existir, encontrar e circular”[4], era, para ele, um sonho. E os sonhos são “distantes como a palma da mão”[5].

Z era um homem sem narrativa. Um homem sem experiência. Ele não se encaixava no papel do narrador, pois não podia narrar o que não tinha, isto é, experiência. Toda vez que tentava narrar alguma coisa, um encontro amoroso, por exemplo, era tragado pelo “tumulto” de sua não existência. As letras de sua pretensa narrativa embaralhavam-se como se as tivesse “escrito nas águas”[6] (p. 42). E a impossibilidade de narrar, vai tomando mais consistência quando, em um bar na beira de uma estrada, ele encontra um bêbado que possui a habilidade espetacular de falar horas a fio sobre si mesmo. E isso, para Z, estava mais distante que o firmamento. Aquele bêbado esfrega na cara de Z a certeza de que o “passaporte para a parte legível do mundo” nunca lhe seria concedido. Ele então sai correndo daquele bar, sem rumo, errante pelo mundo, estrangeiro de si mesmo, até se abandonar, nu, no fundo de um lago, depois de proferir as palavras com as quais comecei este texto:

“Eu que sondei a vastidão de todas as distâncias, que mergulhei na hora vazia e aguardei a palavra negada, espero a chancela da noite e a brutal confirmação do exílio. Que a tua mão imóvel termine de me cobrir com o lençol da crueldade e que a palavra nunca resplandeça no epitáfio do corpo inatingido.”

Esta é a não-história de Z que ele próprio não pôde contar. Faltou-lhe vida. Faltou-lhe corpo. Foi preciso um narrador, um corpo para que pudesse narrar o desastre deste homem-letra: Z. Um narrador em terceira pessoa que lhe desse um “chão de letras”[7]  para caminhar sem se abismar. Um narrador que fracassasse. Um narrador sem narrativa. Um narrador que lhe desse uma chance de vida. “Um sopro de vida”, por que não dizê-lo. Um narrador que soubesse do avesso da narrativa. Um narrador para extrair da não-experiência de Z a “sabedoria do nunca”: nunca entrar por completo “na parte legível do mundo”. Sabedoria do desastre, pois coloca, em desastre, o saber. Um narrador para hospedar este hóspede que chega e para o qual não há nem mesmo horizonte de espera, este hóspede que fura o horizonte da espera ao passo que não se está preparado nem mesmo para recebê-lo[8]: Z.

É, portanto, sob o signo da hospitalidade, mesmo sabendo que “devo receber ou que recebo lá onde não posso receber, lá onde a vinda do outro me excede, parece maior que minha casa”[9]. Mesmo sabendo que a hospitalidade “vai colocar a desordem em minha casa, em meu Estado, em minha nação”[10]. Mesmo sabendo que “o que chega então não fará acontecimento senão ali onde não sou capaz de o acolher, onde eu o acolho, precisamente, lá onde eu não sou capaz disso”[11]. Mesmo sabendo que “a chegada do que chega é o outro absolutamente que cai sobre mim”[12], recebo hoje, com alegria, este narrador: Juliano Pessanha.

João Rocha (À visita de Juliano Pessanha – Belo Horizonte, 25 de abril de 2013 – UFMG)


[1] PESSANHA. Sabedoria do nunca, p. 54.

[2] Referência a Carta 265, de Emily Dickinson.

[3] PESSANHA. Sabedoria do nunca, p. 24-25.

[4] PESSANHA. Sabedoria do nunca, p. 25.

[5] LLANSOL. Hölder, de Hölderlin, s/p.

[6] PESSANHA. Sabedoria do nunca, p. 42.

[7] Cf. BRANCO. Chão de letras: as literaturas e a experiência da escrita.

[8] DERRIDA. “Uma certa possibilidade impossível de dizer o acontecimento”, p. 241

[9] DERRIDA. “Uma certa possibilidade impossível de dizer o acontecimento”, p. 241

[10] DERRIDA. “Uma certa possibilidade impossível de dizer o acontecimento”, p. 241

[11] DERRIDA. “Uma certa possibilidade impossível de dizer o acontecimento”, p. 241

[12] DERRIDA. “Uma certa possibilidade impossível de dizer o acontecimento”, p. 241

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