Conversas com Llansol

Lembrou que havia lembrado

Texto e fotos de Lia Krucken

Café-com-leite, terracota, ferrugem, vermelho-veneza… As cores eram incapazes de traição. O espírito daquele lugar chegava até sua pele, como o abraço de um velho conhecido.
Mornas, mas decididas, as cores ecoavam a intimidade que ela havia vivido com aquela terra distante e presente. Sentia saudade tipo bossa-nova, como se fosse de alguém, ou de um relacionamento que não iria se acabar. Era outono deste lado do oceano.
Lembrou-se dos mercados na rua, do cheiro de fruta madura, dos cafés lentos e charmosos, das cantadas dos italianos do sul, às vezes galantes, outras vezes ásperas. “Che bel manzo” – as italianas também cantavam os homens, chamando-os – entre risadas maliciosas – de “bons bifes” ou filés.
Sentada na varanda da casa d’escrever, cercada de jasmins, ela lia. Era a hora azul. As palavras ganhavam volume, incorporando o sotaque aberto das vogais, o ritmo marcado e irreverente daquela língua que parecia ser mais latina do que a sua própria.
Essa sensação lhe era muito agradável – ser tocada pelo corpo das palavras. Ao ler, falar ou ouvir ela se sentia mais perto do seu próprio país. Ao se distanciar – situando-se naquela outra língua – olhava a imagem, buscava o contorno que estava nela, mas não era visível a olho nu. (O que fazia as letras tão familiares adquirirem uma personalidade estrangeira?)
Como era possível um lugar imenso morar dentro dela? Onde cabia tanta paisagem? Ela, que se achava tão pequena, em alguns instantes se percebia cheia de segredos para si mesma.
Lembrou-se das idas e vindas de trem, da estética daquele modo de viajar – malas pequenas, casacos, chapéus e echarpes que seriam pendurados ao lado das poltronas, o bilhete à mão do “controllore” que iria passar nos corredores. Recordou estações, plataformas, despedidas, e o bem-estar que sempre lhe ocorrera no trem. E também da alegria de descer em uma nova cidade. De “um beijo dado mais tarde”, e de outros beijos que faziam parte das viagens – lembrou-se de tudo sem esforço, como se um aroma delicado e volátil houvesse chegado até ela.

 

 

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