Conversas com Llansol

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Robert Indermaur, “O céu acima do parque (azul)”, 2005, óleo / algodão, 180 x 250 cm.

A escrita do desastre[1]

(fragmentos caídos de um texto ardente)

Maurice Blanchot

Tradução: João Rocha[2]

  • O desastre ruína tudo deixando tudo em perfeito estado. Ele não atinge este ou aquele; “eu” não estou sob sua ameaça. É na medida em que, negligenciado, deixado de lado, o desastre ameaça-me que ele ameaça, em mim, o que está fora de mim, um outro  eu que devém passivamente outro. Não há alcance do desastre. A salvo está aquele a que ele ameaça, não saberíamos dizer se de perto ou de longe – o infinito da ameaça rompeu, de certa maneira, todo limite. Nós estamos na beira do desastre sem que possamos situá-lo no futuro: ele é desde sempre passado e, entretanto, estamos na beira ou sob ameaça; todas as formulações que implicariam o porvir se o desastre não fosse o que não chega, o que barrou toda chegada. Pensar o desastre (se fosse possível, mas isso não o é, na medida em que pressentimos que o desastre é o pensamento) é não ter mais porvir para pensá-lo.

O desastre é separado, é o que há de mais separado.

Quando o desastre sobrevém, ele não vem. O desastre é sua iminência, mas já que o futuro, conforme o concebemos na ordem do tempo vivido, pertence ao desastre, o desastre desde sempre o retirou ou o dissuadiu; não há porvir para o desastre, como não há tempo nem espaço onde ele se realize. (p. 7-8)

  • Não se crê no desastre, não se pode crer nisto: que se vive ou que se morre nele. Nenhuma fé que esteja à sua altura e, ao mesmo tempo, uma espécie de desinteresse desinteressado do desastre. Noite, noite branca – assim o desastre: essa noite à qual a escuridão falta, sem que a luz a clareie. (p. 8)

 

  • O círculo, desenrolado sobre uma direita rigorosamente prolongada, refaz um círculo eternamente privado de centro. (p. 8)

 

  • A “falsa” unidade, o simulacro da unidade a comprometem mais que a sua evidência direta que, de resto, não é possível. (p. 8)

 

  • Escrever em um livro seria tornar-se legível para cada um e, para si mesmo, indecifrável? (Jabès não nos quase disse isso?). (p. 8)

 

  • Se o desastre significa estar separado da estrela (o declínio que marca o desvio quando é interrompida a relação com o acaso daquilo que vem do firmamento), ele indica a queda sob a necessidade desastrosa. Seria a lei o desastre, a lei suprema ou extrema, o excessivo da lei não codificável: a isso somos destinados sem nos concernir?  O desastre não nos olha, ele é o ilimitado sem olhar, o que não pode se medir em termos de fracasso nem como a perda pura e simples.

Nada é suficiente para o desastre; o que quer dizer que, mesmo a destruição em sua pureza de ruína não lhe convém, mesmo a ideia de totalidade não saberia marcar seus limites: todas as coisas alcançadas e destruídas, os deuses e os homens reconduzidos à ausência, o nada no lugar de tudo é muito e muito pouco. O desastre não é maiúsculo, ele oferece, talvez, a morte banal; ele não se sobrepõe, estando aí como suplemento, ao espaçamento do morrer. Morrer nos da, às vezes (indiretamente, sem dúvida), o sentimento de que se morrêssemos, escaparíamos do desastre e não de nos abandonar ao desastre – de onde vem a ilusão de que o suicídio libera (mas a consciência da ilusão não a dissipa, não nos deixa nos desviar dela). O desastre do qual se deveria atenuar – reforçando-a – a cor preta, expõe-nos a uma certa ideia da passividade. Nós somos passivos em relação ao desastre, mas o desastre é talvez a passividade, por ela atravessado e sempre atravessado. (p. 9)

 

  • O desastre cuida de tudo. (p. 10)

 

  • O desastre: não o pensamento tornado louco, nem mesmo, talvez, o pensamento como aquele que carrega, sempre, sua loucura. (p.10)

 

  • O desastre nos retira esse refúgio que é o pensamento da morte, dissuadindo-nos do catastrófico ou do trágico, desinteressando-nos de todo querer como também de todo movimento interior, não nos permite mais jogar com esta questão: o que você fez para conhecer o desastre? (p. 10)

 

  • O desastre é do lado do esquecimento; esquecimento sem memória, retirada imóvel do que não foi traçado – o imemorial, talvez; lembrar-se pelo esquecimento, novamente o fora. (p. 10)

 

  • “Você sofreu pelo conhecimento?”. Isso nos foi perguntado por Nietzsche, na condição de que nós não menosprezemos a palavra sofrimento: a submissão, o “passo-não”[3] do absolutamente passivo recuado em relação ao tudo visto, ao tudo conhecer. A menos que o conhecimento, não sendo o do desastre, mas conhecimento como desastre e por desastre, nos carregue, nos deporte, surpreendidos por ele, o conhecimento, mas sem que ele nos toque, ao cara a cara com a ignorância do desconhecido, assim esquecendo sem cessar. (p. 10-11)

 

  • O desastre, inquietação do ínfimo, supremacia do acidental. Isso nos faz reconhecer que o esquecimento não é negativo ou que o negativo não vem depois da afirmação (afirmação negada), mas relaciona-se com o que há de mais antigo, com o que viria do longínquo das eras sem jamais ter sido dado. (p. 11)

 

  • É verdade que, em relação ao desastre, morre-se muito tarde. Mas isso não nos dissuade de morrer, convida-nos, escapando do tempo onde é sempre muito tarde, a suportar a morte inoportuna, sem relação com nada, somente com o desastre como retorno. (p. 11)

 

  • Jamais decepcionado, não pela falta de decepção, mas a decepção sendo sempre insuficiente. (p. 11)

 

  • Não direi que o desastre é absoluto, ao contrário, ele desorienta o absoluto, ele vai e vem, desassossego nômade, porém com a instantaneidade insensível, mas intensa, do fora, como uma resolução irresistível ou imprevista que nos viria do além da decisão.  (p. 12)

 

  • Ler, escrever como se se vivesse sob a vigilância do desastre: expostos à passividade para além da paixão. A exaltação do esquecimento.

 

  • Não é você que falará; deixe o desastre falar em você, mesmo que seja pelo esquecimento ou pelo silêncio. (p. 12)
  • O desastre já ultrapassou o perigo, mesmo quando estamos sob a ameaça de –. O traço do desastre é que não se está nunca nesse lugar senão sob sua ameaça e, como tal, ultrapassagem do perigo. (p. 12)
  • Pensar, isso seria nomear (chamar) o desastre como a costa do pensamento[4].
  • Não sei como eu vim de lá, mas é possível que, a partir daí, eu chegue ao pensamento que conduz a se manter à distância do pensamento, pois ele dá isto: a distância. Mas ir aos confins do pensamento (sob essa espécie de pensamento da extremidade, da borda) não é possível somente mudando de pensamento? Daí esta injunção: não mude de pensamento, repita-o, se você puder. (p. 12-13)
  • O desastre é o dom, ele dá o desastre: é como se ele passasse além do ser e do não-ser.  Ele não é advento (a particularidade do que acontece) – isso não acontece, de maneira que não alcanço nem mesmo esse pensamento, exceto sem saber, sem a apropriação de um saber. Ou então ele é advento do que não acontece, daquilo que viria sem chegada, fora do ser, como por deriva? O desastre póstumo? (p. 13)
  • Não pensar: isso, sem retenção, como excesso, na fuga pânica do pensamento. (p. 13)
  • Dizia-se: você não se matará, seu suicídio o precede. Ou então: morre-se inapto a morrer. (p. 13)
  • O espaço sem limite de um sol que testemunharia não através do dia, mas pela noite livre de estrelas, noite múltipla. (p. 13)
  • O desastre não é sombra. Ele se libertaria de tudo se pudesse ter relação com alguém. Nós o conheceríamos em termos de linguagem e ao termo de uma linguagem por um gai savoir. Mas o desastre é desconhecido, o nome desconhecido pelo qual, mesmo dentro do pensamento, nos dissuade de ser pensado, distanciando-nos pela proximidade. Somente para se expor ao pensamento do desastre que desfaz a solidão e transborda todo tipo de pensamento como a afirmação intensa, silenciosa e desastrosa do fora. (p. 14)
  • Uma repetição não religiosa, sem arrependimento nem nostalgia, retorno não desejado; o desastre não seria então repetição, afirmação da singularidade do extremo? O desastre ou o inverificável, o impróprio. (p. 14-15)
  • O esquecimento imóvel (memória do imemoriável): nisto se descreve, grita[5], o desastre sem desolação, na passividade de um abandono que não renuncia, não anuncia senão o retorno impróprio. O desastre, nós o conhecemos talvez por outros nomes talvez jocosos, declinando todas as palavras, como se aí pudesse haver, para as palavras, um todo.
  • A calma, a queimadura do holocausto, o aniquilamento do meio do dia – a calma do desastre. (p.15)
  • Ele não está excluído, mas é como alguém que não entraria mais em parte alguma (p. 15).
  • O que é estranho é que a passividade nunca é bastante passiva: é aí que podemos falar de um infinito; somente, talvez, porque ela escapa a toda formulação, mas parece que há nela como uma exigência que a chamaria sempre a vir aquém dela mesma – não a passividade, mas exigência da passividade, movimento do passado em direção ao intransponível. (p.32-33)

Passividade, paixão, passado, passo-não[6] (às vezes negação e traço, às vezes movimento da caminhada), esse jogo semântico nos dá um deslizamento de sentido, mas nada em que possamos confiar como uma resposta que nos contentaria. (p. 32-33).

  • A recusa, diz-se, é o primeiro grau da passividade – mas se ela é deliberada e voluntária, se ela exprime uma decisão, seja ela negativa, isso não permite ainda se destacar sobre o poder de consciência, restando, na melhor das hipóteses, um eu que recusa. É verdade que a recusa tende ao absoluto, a uma espécie de incondicional: é o nó da recusa que torna sensível o inexorável “eu preferiria não (fazer)” de Bartebly, o escritor, uma abstenção que não pôde ser decidida, que precede toda decisão e que é mais que uma denegação, é antes de tudo uma abdicação, a renúncia (jamais pronunciada, jamais esclarecida) a nada dizer – a autoridade de um dizer – ou ainda a abnegação recebida como o abandono do eu, a deserção da identidade, a recusa de si que não se ouriça sobre a recusa , mas abre à falência, à perda de ser, ao pensamento. “Eu não o farei” teria significado ainda uma determinação enérgica, chamando por uma contradição enérgica. “Eu preferiria não…” pertence ao infinito da paciência, não deixando refém à intervenção dialética: “nós caímos para fora do ser, para fora da letra[7], no campo do fora onde, imóveis, caminhando com passos iguais e lentos, vão e vêm os homens destruídos”. (p. 33-34)

( A edição referência para esta tradução é: BLANCHOT, Maurice. L’écriture du desastre. Gallimard: Paris, 1980)


[1] A opção por “A escrita do desastre” ao invés de “A escritura do desastre” é pelo fato de que para Blanchot a “escrita do desastre” já está do lado do que Roland Barthes denomina de “escritura”, isto é, textos que põem em crise a relação do sujeito com a linguagem, textos que não se acomodam na massa apaziguadora da cultura. Dessa maneira, dizer “escritura do desastre” seria redundante em Blanchot. Por outro lado, a “escrita do desastre” parece ir além da noção de escritura, pois é uma escrita que provém do desastre. Talvez esteja mais próxima do que Barthes chamou de “texto ardente”: ““É legível o texto que eu não poderia reescrever (…); é escriptível o texto que leio com dificuldade, exceto se eu transferir completamente o meu regime de leitura. Imagino agora (certos textos que me são enviados o sugerem) que existe talvez uma terceira entidade textual: ao lado do legível e do escriptível, haveria qualquer coisa como o receptível. O receptível seria o ilegível que prende, o texto ardente, produzido continuamente fora de qualquer verossimilhança e cuja função – visivelmente assumida por seu escriptor – seria a de contestar o constrangimento mercantil do escrito; esse texto, guiado por um pensamento do impublicável, atrairia a seguinte resposta: não posso ler nem escrever o que você produz, mas eu o recebo, como um fogo, uma droga, uma desorganização enigmática.” (BARTHES, Roland. Roland Barhes por Roland Barthes. SP: Cultrix, 1975. P. 127: Legível, escriptível e mais além).

[2] Doutorando em Teoria da Literatura e Literatura Comparada na UFMG.

[3] A palavra “pas”, em francês, comporta estes dois significados: passo e não. A opção em manter os dois sentidos da palavra em português foi por conta da construção textual deste fragmento de Blanchot: “[…] le subissement, le ‘pas’ du tout à fait passif en retrait par rapport à toute vue, tout connaître.” A passagem “le ‘pas’ du tout à fait passif” poderia ser traduzida por “o passo do absolutamente passivo”, mas nela também se escuta, claramente, a expressão “pas du tout” que significa “absolutamente não”. Dessa forma, optou-se por traduzir a palavra “pas” por “passo-não”, apostando menos na ideia de um “aí não passo” e mais na noção de um “passo do não”.

[4] O termo utilizado por Blanchot é arrière-pensée. Optou-se por “costas do pensamento” por conta da polifonia da palavra “costa” na língua portuguesa: ela traz o sentido de algo que está atrás, mas ao mesmo tempo é “costa”, é “litoral”. O desastre estaria então às costas do pensamento, mas também no seu litoral. E aqui o tradutor refere-se à noção de litoral formulada por Jacques Lacan, em seu texto “Lituraterra”.

[5] A passagem em questão é a seguinte: “[…] en cela se dé-crit le desastre sans désolation […]”. A cisão no verbo “décrire”, conjugado na terceira pessoa do singular, faz ressaltar um “crit” que, por ter a mesma sonoridade, leva-nos ao “cri”, ao “grito”.

[6] No original, encontra-se: “Passivité, passion, passé, pas”.

[7] No francês, ao pronunciarmos “l’être” (o ser)  escutamos também “lettre” (letra, carta).

 

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