Cartas ao Espaço

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Foto de João Rocha

Belo Horizonte, 14 de maio de 2013.

À Direção da Associação Espaço Llansol.

Começo esta carta parafraseando o título de um dos discursos de Maria Gabriela Llansol, publicado na segunda parte do livro Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso: “Porque não pude deixar de vir”. Escrevo então: porque não pude deixar de vos escrever.

Quando entrei para a Associação Espaço Llansol, já estava profundamente fascinado pelo texto de Maria Gabriela Llansol. Participar de um projeto que pretendia abrir um espaço para que o texto de Llansol e suas várias leituras corressem livres era, para mim, mais que uma honra, uma alegria. Naquele momento, acreditava entrar em um espaço aberto, no qual o pensamento estava sempre a alargar-se. Pois este era o horizonte da Associação Espaço Llansol que Gabriela me escrevera em duas cartas nas quais mencionou sua criação:

“Vai ser criada uma Fundação – O Espaço Llansol, pois a esse espaço eu quero entregar o que escrevi – como Ópera. As paisagens estabelecem clivagens, dançantes. Um verdadeiro chá das cinco de imagens. Vejo esse espaço – e os outros que lhe forem abertos – repletos delas”. (Carta do dia 04/05/2006)

“E o novo trouxe, à volta do que escrevo, a criação de um espaço com o meu nome, que vamos tentar que abra possibilidades e acções de cultura esclarecida e de bondade. As ‘aplicações’ do amor estão sempre evoluindo. O Espaço (associação de amigos) chama-se Espaço Llansol”. (Carta do dia 07/10/2006)

Foi a um espaço que seria um verdadeiro “chá das cinco de imagens”, onde as aplicações do amor estariam sempre presentes e que seria uma “associação de amigos” que me associei. Acreditava nele. Essa associação, pensava, teria como alicerce esta frase de Llansol que até hoje me arrepia: “trabalhar a dura matéria, move a língua; viver quase a sós atrai, pouco a pouco, os absolutamente sós” (Finita, p. 72).  E acreditava que uma das apostas desse espaço era a reunião de amigos, por que não dizer a reunião de uma comunidade, não na semelhança, mas no ponto da singularidade, da diferença, pois cada integrante dessa comunidade é um “absolutamente só”. Foi nessa experiência da diferença, nesse “encontro inesperado do diverso”, que me inscrevi. Porém, o texto llansoliano já havia nos advertido: “tudo é tão ligeiro que cairá sem se ver” (Hölder, de Hölderlin, s/p).

Quando fui visitar a sede da Associação Espaço Llansol, em 2009, percebi que algo havia mudado: embora ali fosse a casa onde viveram Gabriela e Augusto Joaquim, aquele lugar não era mais uma casa. Havia tornado-se um museu. Não havia ali, para mim, o espírito de uma casa. A não ser na cozinha, onde podia se ver crescendo pelas paredes uma linda planta que enchia meus olhos com sua força verde. Foi nessa temporada em Sintra que também tive contato com este fragmento dos cadernos de Gabriela:

“A casa grande, enorme, que conteria os perdidos – os objectos, cenas da minha vida –, os encontrados e as transformações, sendo uma casa real, seria estática – um Museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder «audaciar-se», exprimir-se em obra que fique em toda a parte _______” Maria Gabriela Llansol (Do Caderno 43, 1995).

E, tornada a casa um museu, o pensamento não podia mais “audaciar-se”, estar em toda parte. Ele fora encerrado entre as paredes daquela casa-museu. Escrever já não era mais um duplo de viver (Cf. LLANSOL, Um falcão no punho, p. 73). O texto de Gabriela virara um objeto para análise, como são os objetos expostos em um museu. Sentia tudo isso, mas não sabia muito bem o porquê.

Em um dos dias da visita à sede da Associação Espaço Llansol, apresentamos o documentário “Redemoinho-poema”, de Gabriel Sanna e Lucia Castello Branco, no qual trabalhei como assistente de produção e pesquisa, para a diretoria da Associação e outros poucos convidados. A recepção do filme foi muito estranha. Lembro de ter ouvido coisas do tipo: “esse filme não tem nenhum valor estético” e “ele não pode passar de maneira alguma em Portugal”. Houve outros casos estranhos desde a visita de 2009, que beiravam a intolerância, mas foi nesse momento, pela força e a violência desses dois comentários e pelo final abrupto da reunião, que percebi que ali começava a pousar, com suas garras de ave de rapina, a intransigência.

A partir daquele momento, não se tratava mais de uma comunidade de absolutamente sós, não se tratava mais de uma associação de amigos reunidos sob o signo da singularidade, da diferença. Tratava-se de uma associação em torno de iguais. A associação parece ter tomado a forma de uma fraternidade. Nas fraternidades todos são irmãos, confrades, e isso os coloca em um campo oposto ao da amizade, pois nesta há lugar para discordâncias, o que não se pode dizer do campo da fraternidade, dado que ali se está fadado a carregar o peso e o perigo devastador presente nesta frase: “Te aceito porque você é meu igual”.

Assim, sob o signo do “semelhante”, da “reunião de iguais”, no seio de uma “fraternidade”, comecei a perceber a sombra da intransigência e da intolerância tomar conta da casa-museu. Esse é o perigo das “fraternidades”: elas não suportam a amizade, porque não são capazes de dar abrigo ao descontínuo, não são capazes de receber o estranho, o que lhes escapa; nas fraternidades não se pode ser absolutamente só, pois não há espaço para a singularidade; nas fraternidades não há acolhimento possível para a frase que porta o cerne da amizade: “Sendo o que sou e sem reservas, minha solidão conhece a sua” (GENET, O ateliê de Giacometti, p. 95).

Não há solidão possível no campo na fraternidade. Também, a amizade não é somente diferença. Ela comporta, sim, algo da semelhança: “porque todos somos iguais perante a existência enigmática” (LLANSOL, Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso, p. 119).  A diferença é que, no campo da amizade, o que se faz com a perplexidade, ao se deparar com o desconhecido, é da ordem de uma experiência singular, isto é, procura-se hospedar, mesmo sabendo ser impossível, o desconhecido, ao contrário do que acontece em uma fraternidade que, face ao desconhecido, abole a singularidade para tentar apaziguar a força do que não se conhece, dando assim certo conforto para seus confrades. Mesmo que para isso seja preciso eliminar a qualquer custo o que lhe é estrangeiro, o que vai de encontro a essa zona de conforto estabelecida pela fraternidade.

Isso me parece claro na carta intitulada “O espaço Llansol, os equívocos do ‘mal de arquivo’ e outros males”, publicada no blog do Espaço Llansol em 13/11/2012 (http://espacollansol.blogspot.com.br/search?updated-max=2012-11-24T07:00:00Z&max-results=10&start=10&by-date=false), assinada pela diretoria do Espaço Llansol e tantos outros associados. O tom dessa carta é de uma violência tão explícita, beira o obsceno, que não pude deixar de ver o quanto já estava distante desse outro espaço que parece ter se tornado a Associação Espaço Llansol.  Espaço este mais próximo de uma fraternidade do que de uma associação de amigos. Lendo essa referida carta, lembro-me imediatamente da seguinte frase do livro Amar um cão, de Llansol: “Ler é ser chamado a um combate”. Esta frase parece-me importante aqui, pois nos faz pensar na diferença entre “combate”, como diz Llansol, e “violência”. O combate está próximo da frontalidade do afeto, do atrito causado na cultura por textos como o de Llansol. Já a violência está do lado do poder, do barulho ensurdecedor produzido pelo tirano para que não possamos ouvir seus passos. A violência não deixa o texto construir silêncio à volta. E a violência, nesse ponto, não me interessa nem um pouco. Escrevo no campo do combate e não da violência. E se escrevo hoje para os senhores não é por afronta, pois estaria, assim, sendo violento. Escrevo, pois, como Gabriela, “creio que é uma dádiva muito grande que se faz ao texto de um outro: construir-lhe silêncio à volta” (LLANSOL. Na casa de julho e agosto, p. 152). E este é o combate, este é o respeito: construir silêncio à volta, sem violência. Escrevo no combate, senhores. Escrevo por respeito.

Foi por respeito, senhores, que não pude deixar de vos escrever. Por respeito à memória de Maria Gabriela Llansol, por respeito à Textualidade Llansol, por respeito à maneira como esse texto atravessou minha vida, pois escrever, para mim, sempre foi o duplo de viver. É também por respeito ao que um dia foi, para mim, a Associação Espaço Llansol, isto é, uma casa que acolhia a experiência singular de cada um dos legentes que lhe batesse à porta, sustentando, na frontalidade do afeto, sob o signo da amizade, toda e qualquer diferença; uma casa onde Llansol deixou o que escreveu “como Ópera”; onde todos podíamos nos deparar com um “chá das cinco de imagens”; uma casa onde a paisagem provocava clivagens dançantes e onde as “aplicações do amor” estavam sempre evoluindo, expandindo-se. Por respeito a tudo isso que um dia vislumbrei ao entrar nessa casa, comunico aos senhores, nesta data, minha saída da Associação Espaço Llansol.

João Alves Rocha Neto

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