Cartas ao Espaço

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Fotografia retirada do post “O próximo mito, à sua revelia”, postado por Isabel Lucas, em 05/02/2012, no blog puroacaso.wordpress.com. http://puroacaso.wordpress.com/2012/02/05/o-proximo-mito-a-sua-revelia/

Para ela que me acompanha (desde quando não a conheci)

A carta já está a caminho…depois de ter passado pelos lugares intransitáveis de Coimbra, pelo branco de Bruxelas, as águas de Louvain e Antuérpia, a nudez de todas as árvores de Bruges, a neblima silenciosa de Jodoigne, e retornado à casa, no azul aberto ao dia de ontem, acho que ela fez o percurso dela mesmo: o azul, as águas, de novo as águas, e o retorno ao azul: “caminhos intransitáveis de ti a ti”…retorno a esse lugar, recolho os seus restos.
De novo, quero agradecer-te a companhia…a presença, o silêncio esparramado pelos espaços do texto. Tudo isso me foi ofertado, desde que não a conheci, pelo dom do poema, disseminado nos lugares de passagem desse corpo que insiste no seu a’screver. Sim, pois nem tudo se escreveu no passado. Sim, pois a’screver é acontecimento que insiste em abrir as folhas que guardam as letras deixadas em branco. Sim, pois mesmo ali, onde não encontramos registros da sua passagem, da passagem desse cor’p’oema, é possível ler, no tom da legência que nos transmitiu, os seus deslocamentos, as suas inflexões d’escrita. Quero agradecer, a ela que me acompanha, por todas as letras deixadas ao lado do texto e pela carta, todas as cartas enviadas: cartas ao mundo. Elas abriram os meus dias, adormeceram na minha noite. Aguardo.
Ainda não tinha amanhecido quando li: “mas o texto vem sempre depois, é muito mais amplo do que o acontecido, muito mais veloz do que a vida que descreve. Só depois de escrito percebemos que tudo se passou no futuro…”
Ao meu lado, Ana ensinando a ler a Myriam…e os sinos do Carmelo: todos os sons do dia que anuncia-se.
Pensando nesse tudo que se passa no futuro, nesse texto que é mais amplo do que o acontecido, preciso dizer-te que não posso permanecer nesse Espaço Llansol. Entendo a posição dos que permanecem e acho, de verdade, que a resistência, escrita nos documentos enviados, as pontuações e questionamentos produziram efeitos ali, ainda que os seus atuais dirigentes neguem/deneguem. A casa agora aberta, antes dos trabalhos do espaço da letra E, me parece uma resposta direta aos textos, quando esses diziam que a casa tem se tornado um museu em função do controle e dos impedimentos ao acesso e do trânsito nela/dela. Essa “abertura”, principalmente em relação à eleição dos novos membros da diretoria, não deixa de ser uma resposta às pontuações sobre a discrepância entre uma ASSOCIAÇÃO e o domínio de BENS PRIVADOS. Ainda que no final tudo tenha permanecido como estava… Os efeitos dessa resistência podem ser lentos, assim como a cura e o fulgor…Aguardo, e leio: o dom, este não se determina enquanto tema, memória, arquivo, conteúdo de um escrito, contabilidade. Mas como inscrição de uma escrita que se escreve, sem cessar, na contingência de todos os encontros impossíveis. Aguardo.
Não posso permanecer, talvez porque nunca tenha estado nesse Espaço Llansol. Desde a primeira visita, a casa me parecia mais aberta do que as paredes que a recebem. O texto me parecia mais disseminado por “outros espaços”, um lugar sem lugar, “que vive por si mesmo”. Casa-barco lançada ao infinito do mar, à procura do “jardim que o pensamento permite” e dos sonhos que escapam à terra firme. Veja, há os que se lançam, mas há também os que permanecem na firmeza da terra. Nem bem, nem mal, apenas diferenças que marcam posições e leituras. Sei que o espólio de Llansol é um bem precioso demais…mais precioso ainda pelo gesto, que foi o dela, de guardar. Sim, ela guardou, guardou inclusive fora dali, fora dos cadernos, fora da casa que foi a sua. Guardou os caminhos da escrita no aberto da paisagem. Essa foi, talvez, a maior experiência que pude viver nesses deslocamentos entre o azul e as águas…e é ela que me faz persistir na decisão de sair.
Não posso ficar! E digo isso com uma ponta de tristeza, mas também esperança. Afinal, o texto me diz “que não há troca verdadeira entre os três sexos, nem no sagrado, nem no erótico, que há que procurar no fulgor, e no pensamento que esse permite vislumbrar”. E esse pensamento me foi dado em sonho, no último sonho que chegou por escrito. Sigo os seus traços, o que me resta dele.
Reli todos os e-mails enviados nos últimos dias pelo EL. Reli “o tratamento desinteressado”, reli o nome dos membros que promoveram discussões em vários setores públicos e privados. Reli a ausência dos nomes dos outros membros e legentes que continuam a seguir o percurso do texto. Mas, é claro, talvez “interessadamente”. Tudo isso me aflige demais: os desmentidos, as falsas aberturas, o excesso narcísico escrito em fórmulas desinteressadas… e a mentira de uma frontalidade que não existe. O desrespeito, a falta de delicadeza e o desejo de prestígio e poder: tudo isso me aflige de um jeito que não me permite vislumbrar a hipótese de ficar.
Então, se escrevo essa carta de saída – desse Espaço-Associação –, escrevo, nela também, o testemunho de uma permanência nesse outro espaço, menor, escrito em letras minúsculas, sem associação. Espaço do texto, casa-barco, lugar flutuante, aberto pelo fluxo de um poema solitário, em companhia dela, que não conheci, e suas rendas trançadas nos brancos de uma paisagem que me habita.

Janaina de Paula

Belo Horizonte, Maio de 2013.

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Uma resposta para Cartas ao Espaço

  1. ESPAÇO LLANSOL disse:

    A FOTO DE LLANSOL ESTÁ PROTEGIDA PELO DIREITO DE AUTOR E NÃO É DO DOMÍNIO PÚBLICO! FAVOR RETIRAR!!! OU AO MENOS INDICAR A FONTE DE ONDE FOI ROUBADA!!

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