Cartas ao Espaço

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Cas’a’screver

 

Carta à Associação Espaço Llansol

Escrevo esta carta para comunicar meu desligamento (in)voluntário da Associação nomeada “Espaço Llansol”. Dela parto porque, se tentais ler-me, partindo, poderei habitar melhor esse Espaço por dentro. E, habitá-lo por dentro significa, justamente, deixar emanar a potência do fora, que, a meu ver, deixou de soprar no trabalho que essa associação tem realizado. Independente de suas vontades. Apenas porque dela, para mim, o fulgor se afastou. A chama que habita o Outro absolutamente desconhecido – o “poço” com seus perigos; o “jogo” com seus prazeres – deixou de iluminar aí a pesquisa ao redor do texto. Um texto ardente, desconhecido, que nos acompanha como pura-dura-pedra-ao-luar (pedra dura ao luar).
Escrevo esta carta para reafirmar meu compromisso com o texto llansoliano; para reafirmar a leitura como um pacto de bondade, responsabilidade de livre consciência, que não pode se deixar intimidar por um suposto saber autoritário e territorializador de forças — estas só podem ser asas descontinentalizadas, sempre estrangeiras, a habitar nada mais que um Espaço Edênico, tal qual pensado pelas mãos llansolianas e seu rigor. Não cabe aí, como temos visto na gestão dessa Associação, atos de propriedade intelectual, ou de manipulação indevida, ou de pseudo-autoridade no assunto.
Retiro-me dessa Associação por não encontrar aí mais nenhum espaço de troca verdadeira, de des-hierarquização dos corpos, de acolhimento às diferenças. Retiro-me por ter, na raiz, os pés; nas folhas, o olhar e as mãos abertas ao imenso de uma enunciação sem fronteiras. De mãos vazias entrei, de mãos vazias me vou assim.
Assim: nesta manhã, pensando na afirmativa de Deleuze, segundo a qual “A literatura é uma saúde”, abro, ao acaso, O Senhor de Herbais, na busca de companhia para escrever esta carta. Leio:
“A harmónica estava gasta?
Certamente. Bastante gasta. Parecia saber que a lágrima iria rolar por entre as pétalas profusas e pousar no fundo da corola. Traria seguramente na sua melancolia um encontro-pólen necessário ao prazer melancólico de alguma flor, ou uma situação-gene, dessas que causam mutações suaves nas paredes que se desmoronam como se fossem naturais. Pediu-lhe despe-te, flor. Nesse instante,”
Despeço-me da Associação Espaço Llansol, acreditando, firmemente, que esta é uma situação-gene, dessas que causam mutações suaves nas paredes que se desmoronam. Despeço-me, reafirmando, com fulgor e com rigor, muito longe de qualquer ressentimento ou ato leviano, a cura da literatura, vislumbre-fulgor de uma lituraterra.

Vania Maria Baeta Andrade

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